sábado, 31 de março de 2012

1964 E AS FERIDAS NÃO-CICATRIZADAS DA DITADURA MILITAR


HERANÇA DO COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS ESTÁ EM BOA PARTE DA TROLAGEM FEITA NA INTERNET.

Por Alexandre Figueiredo

Hoje não fazem 48 anos do golpe militar que devastou o Brasil. A data a ser lembrada, na verdade, é amanhã, mas as Forças Armadas, tentando evitar trocadilhos com o Dia da Mentira, sempre desviou a efeméride para o dia anterior.

Na verdade, 31 de março foi a data intermediária entre a partida das tropas de Olímpio Mourão Filho, instauradas em Juiz de Fora, naquele final de mês turbulento, e a chegada destas tropas no Rio de Janeiro., 01 de abril, quando foi concluído o processo do golpe militar.

A ideia de golpe já era trabalhada nos "debates" transmitidos pelas rádios da chamada "Rede da Democracia" - Rádio Globo, Super Rádio Tupi e Rádio Jornal do Brasil eram as principais delas, no então Estado da Guanabara - , como forma de "disciplinar" a política brasileira.

Vários motivos foram atribuídos para o golpe militar. O principal deles seria a associação, na verdade indireta e parcial, do então presidente João Goulart aos comunistas, mas houve vários outros motivos. Jango queria decretar estado de sítio na Guanabara, não como atitude golpista, mas para evitar o radicalismo da campanha golpista do governador Carlos Lacerda, histórico rival do trabalhismo, o mesmo jornalista abatido pelos pistoleiros do segurança de Vargas, Gregório Fortunato, em 1954.

Mas havia também as medidas de Jango para evitar a evasão de dinheiro do Brasil pelas empresas estrangeiras aqui instaladas, conhecida como "lei da remessa de lucros para o exterior", e para garantir a reforma agrária, que incomodava os grandes proprietários de terras.

O que pode ter sido o estopim, no entanto, para o golpe militar, foi uma atitude que, estrategicamente, foi equivocada por parte de Jango. Ele foi seduzido por uma aparente revolta de sargentos e pracinhas, da qual surgiu um pretenso líder que, mais tarde, se revelou um golpista nato: o sargento José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, hoje com 70 anos.

Jango mandou prender os revoltosos, mas cometeu o erro de anistiá-los em seguida. O que estimulou os generais a negociar uma ação de golpe, coisa que nomes como Odílio Denys, Amaury Kruel, Castello Branco, os irmãos Orlando e Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva e Arthur da Costa e Silva estavam planejando.

A ação de Olímpio Mourão Filho, no entanto, foi isolada. A atitude contou com o apoio de um dos defensores civis do golpe, o governador mineiro e dono do Banco Nacional, Magalhães Pinto. A operação deu certo e ganhou até a adesão de uma tropa rival a serviço do chefe militar Assis Brasil, que acreditava que seu "dispositivo militar" garantiria a defesa de Jango na permanência do cargo. Não garantiu.

Mas a ação de Olímpio não o garantiu um lugar nobre no poderio militar. O anedotário político, numa época ainda de relativa liberdade de imprensa durante o início da ditadura, o denominou de "vaca fardada", em alusão às vacas de presépio, meros objetos de enfeite nas maquetes natalinas.

A sociedade civil apoiou o golpe militar acreditando que seria apenas uma fase provisória, que os generais apenas "completassem" o mandato de Jango e entregassem o poder a civis, através de eleições livres. Mas não foi assim que aconteceu. A ditadura se prolongou por mais 20 anos, pois a linha dura não confiava numa redemocratização em 1965.

Juscelino Kubitschek, o ex-presidente, apoiou o golpe visando voltar ao poder nas eleições de 1965, cuja vitória ele acreditava ser imbatível. Mas ele foi logo incluído entre os primeiros políticos cassados pelo primeiro Ato Institucional e teve que ir para o exterior, tentando depois, com seu ex-rival Carlos Lacerda, criar uma campanha de redemocratização, a Frente Ampla, mas esta também foi declarada extinta por ordem das Forças Armadas.

A ditadura militar brasileira pode não ter sido tão cruel quanto a do general Augusto Pinochet, no Chile, entre 1973 e 1990. Mas também não dá para definir a ditadura brasileira como "ditabranda", porque ela foi extremamente cruel à sua maneira, devastando socialmente todo o país.

Os efeitos da ditadura militar brasileira foram devastadores em todos os aspectos. A degradação social, econômica, política e cultural fez todo aquele projeto de evolução ética, estética, educacional, administrativa e artística sonhado desde 1958 fosse destruído. E a ditadura militar fez muitos estragos, feridas que até hoje não foram devidamente cicatrizadas.

A ditadura prejudicou os militares, já que arruinou a reputação das Forças Armadas frente à sociedade. E nem todo militar colaborou ou compartilhou dos interesses golpistas dos superiores e subordinados ligados ao regime. Meu pai, por exemplo, foi apenas um simples e dedicado servidor público comum, que cumpriu seu trabalho com dignidade e brilhantismo, como se trabalhasse num regime democrático.

No entanto, as Forças Armadas, de forma generalizada, foram vítimas de sua própria prepotência. Em vez dessa instituição ser reconhecida pela sociedade, ela é desprezada e hostilizada por muitos, apenas porque uma parte da Marinha, Exército e Aeronáutica, por paranoias anti-comunistas, conduzissem a sociedade brasileira de forma arbitrária e prepotente.

Tudo ficou arruinado, como se fosse um furacão atingindo uma região de cidades. Politicamente, a ditadura militar favoreceu a corrupção política, estimulada pela desvalorização do político civil. A mídia deixou de cumprir sua missão em formar cidadãos e passou a se mover gradualmente para os interesses meramente comerciais.

A grande imprensa, pelo apoio que ela dava à ditadura, também se desmoralizou e, aos poucos, foi substituindo os jornalistas de talento por gente cada vez mais submissa e incompetente, capaz de cometer erros ortográficos graves com alguma frequência, além de adotarem uma linha editorial cada vez mais asséptica, mais próxima do release publicitário.

Na economia, a ditadura militar quis ser grandiloquente, com um projeto desenvolvimentista cheio de obras faraônicas, embora a Ponte Rio-Niterói, inaugurada em 1974, tenha sido mais modesta do que o complexo urbanístico que chegou a ser planejado por arquitetos em 1937.

O projeto desenvolvimentista da ditadura, junto a uma economia privatista e entreguista, além de arrochos salariais sucessivos, fizeram com que a pobreza aumentasse, e a arrogância dos generais não conseguiu evitar que o país sofresse um colapso causado pelas pressões da alta do preço do petróleo pelos sheiks do Oriente Médio, em 1973, que derrubou toda a ilusão do "milagre brasileiro", projeto que só beneficiou, parcialmente, a classe média brasileira da época.

Culturalmente, a ditadura fez desmantelar identidades regionais, fez degradar todo um projeto de cultura popular com a ajuda da grande mídia. Os interesses políticos e comerciais em torno das emissoras de rádio e TV foram decisivos, enquanto valores éticos, estéticos e nacionais eram arrasados por um discurso pretensamente relativista, que justificava qualquer degradação como se fosse modernidade ou pós-modernismo.

O latifúndio aumentava seu terror no campo, exterminando lideranças rurais, missionários, sindicalistas, enquanto financiava, junto às rádios regionais, o anestesiante entretenimento da "cultura" brega, para tranquilizar o povo pobre na resignação de sua inferioridade social.

O povo pobre, desprovido de seus reais desejos, anseios e emoções, era entregue à manipulação midiática mais canhestra, que impusera um "paraíso das periferias" às custas da prostituição, do alcoolismo, do subemprego e da obsessão pelo pitoresco, pelo piegas e pelo grotesco.

A intelectualidade que passou a defender esse "modelo" de "cultura popular" também é filha da ditadura militar, que impôs uma reforma tecnocrática, tecnicista e burocrática nas universidades. Abriu-se caminho para teses meramente mercadológicas, de um desenvolvimento sócio-econômico subordinado aos interesses dos países ricos, nos quais Fernando Henrique Cardoso tornou-se um dos seus maiores exemplos.

A reboque de FHC, veio também uma geração de intelectuais da "cultura popular" que, mesmo tentando se dissociar de seu mestre tucano, seguem rigorosamente lições e procedimentos que revelam claramente a influência escancarada da Teoria da Dependência de FHC no pensamento de gente como Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches.

A liquidação de valores sócio-culturais que a duras penas se buscava desenvolver entre 1958 e 1964 criou uma banalização do sexo, violência e corrupção, desqualificou instituições como a Família e a Igreja, e fez com que jovens gerações que não haviam conhecido o AI-5 agissem como se fossem seus séquitos.

Daí vieram os troleiros, com a Internet desde os anos 90, que em boa parte soam como se fossem as versões atualizadas de Cabo Anselmo ou do Comando de Caça aos Comunistas. Quando são classificados como reacionários, os troleiros até gracejam, escrevem coisas como "Oia!" e "Huahuahuahuah", mas dificilmente desmentem. Sabem que são reacionários mesmo, mas até os integrantes do CCC, em 1968, também gracejariam se fossem chamados de reacionários.

O machismo atropelou o feminismo, com a onda de feminicídios cometidos pelos próprios "companheiros". A mediocrização cultural tornou a cultura das classes populares viciada, estéril, escrava do consumismo e do sensacionalismo mais grotesco.

A intelectualidade formada apenas se limita a fazer apologia do "estabelecido", e com sua psicologia do terror chama de "preconceituosos" aqueles que exercem a crítica cultural com autêntico e combativo senso crítico. A imprensa política também mostra seus dotes intimidadores, condenando os movimentos sociais e defendendo o "livre mercado".

Enfim, pouca coisa melhorou no Brasil pós-1964. Nos perdemos no mato da degradação política, social, econômica e cultural. Nos esquecemos de que o Brasil pré-1964 batalhava por um país mais moderno, mais justo e mais cidadão, bem melhor do que os paliativos que, realizados, causam uma euforia maior do que a festa.

É bom repensarmos este país, admitindo as crises que ainda existem. A sangria de 1964 não se encerrou, ainda temos muito que resolver. Caso contrário, vamos perder o trem dos BRICs e fazer com que países como Benin, Barem e Botsuana nos roubem o "B" que nos posiciona no grupo dos emergentes.

Já fomos ultrapassados pela China, a Rússia já foi potência do mundo comunista e está no G-8 por sua tecnologia de ponta, sobretudo espacial. E até a África do Sul quer nos passar a perna. Uma coisa é certa: não será Michel Teló nem Neymar que colocarão o Brasil no Primeiro Mundo.

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