sábado, 11 de fevereiro de 2012

WANDO E A PIEGUICE INTELECTUAL NA TRAGÉDIA


CERIMÔNIA DE ENTERRO DO CANTOR WANDO, EM BELO HORIZONTE.

Por Alexandre Figueiredo

Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Esse ditado popular vale quando morre um dos ídolos apenas "menos medíocres" da mediocridade cultural que assola nosso país.

Wando já foi enterrado, num natural clima de comoção em Belo Horizonte. Mas a choradeira maior, que chegou aos níveis da pieguice e do exagero, partiu de internautas e até de intelectuais.

Com um certo exagero, Wando foi definido como "mestre", "gênio" e "gigante da música brasileira". São declarações dotadas de muito pretensiosismo, com um quê de pedantes, preciosistas e pretensiosas.

Podia-se, pelo menos, dizer que "Eu gostava muito desse cara", "Era feliz ouvindo Wando", "Namorei muito ao som de Wando", e outras coisas mais sinceras. Mas isso não foi feito. Há a terrivel mania de glorificar qualquer falecido, colocando-o acima de suas virtudes naturais, atribuindo a ele façanhas e méritos que, na verdade, o de cujus nunca teve e nem quis ter em vida.

Wando nunca foi um gênio da MPB. Foi apenas um cantor romântico, com um lado entertainer, que, dentro de suas limitações artísticas, satisfazia seu público. Era algo como se tinha, nos EUA, através de nomes como Bobby Darin e Ricky Nelson.

Fico imaginando se uma conhecida marca de chiclete de bola fosse tirada do comércio e seus "órfãos" disserem coisas tipo: "era um alimento mais completo para a nutrição humana", "o maior produto da alimentação vegetariana de todos os tempos", "a comida mais nutritiva de toda a vida".

Faz sentido que internautas comuns exagerem nos comentários sobre Wando, chamando-o de "mestre" e atribuindo a ele uma "saudade dos bons tempos" que não correspondiam a ele nem ao seu tempo. Afinal, no auge de seu sucesso, Wando já integrava um cenário de mediocrização cultural que só não era dominante como o de hoje, mas era crescente.

O que estarrece é parte da intelectualidade, que poderia ver a coisa de forma mais objetiva, se derramar nessas lágrimas pretensiosas, preciosistas e pedantes. Desconhecendo o que são periferias, subúrbios, roças, qualquer ídolo da "cultura de massa" é "verdadeira cultura popular".

Afinal, os subúrbios, roças e sertões aparecem para essa intelectualidade através da tela da televisão. Mesmo o testemunho de alguns personagens populares, como os porteiros de prédios, os feirantes, os empregados domésticos, faxineiros, garis e garçons de botequins não são suficientes para essa intelectualidade superar tamanho etnocentrismo.

Por isso, e juntando a educação midiática dessa turma toda - amestrada pela televisão dos tempos da ditadura militar - , é natural a pieguice lacrimosa e viscosa que tais intelectuais sentem pela morte de Wando. Não é um ser humano com suas limitações pessoais que falece, mas um herói idealizado e glamourizado, visto como um ente sobrehumano e dotado de superpoderes e superméritos, coisa típica de um país em crise de valores.

Dessa forma, esses intelectuais idealizam Wando como um "revolucionário" ou "rebelde" que ele nunca foi. Criam um conto de fadas da vida real, um dramalhão para satisfazer suas vaidades etnocêntricas. É como se, exaltando Wando, eles expurgam de todo o preconceito, mesmo "positivo", que sentem em relação às classes pobres.

Sabiamente, quando Michael Jackson faleceu, o único país em que a histeria por conta da perda trágica do cantor ocorreu com menos intensidade foram os próprios EUA, acostumados com os descaminhos criativos do astro pop e com os deslizes causados pelas pressões do estrelato e do show business.

Ficamos aqui esperando como será a choradeira quando um grande ídolo do "funk carioca" morrer. A choradeira intelectual será maior, e os exageros preciosistas também?

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