domingo, 26 de fevereiro de 2012

A "RIQUE$A" MUSICAL DE 2012 E OS "AGRADOS" AOS TRADICIONALISTAS


INEZITA BARROSO VERSUS MICHEL TELÓ - Como é que um mesmo rótulo pode envolver nomes tão antagônicos...

Por Alexandre Figueiredo

O arauto da mediocrização cultural brasileira, Pedro Alexandre Sanches, ataca mais uma vez. Mas, em parte, com categoria. Se, na edição deste mês de Caros Amigos, ele despejou a lixeira nos corredores da Casa Amarela ao defender o ídolo "mundial" Michel Teló, na da revista Fórum ele tentou afagar os tradicionalistas, escrevendo sobre a tradicional cantora caipira Inezita Barroso.

Isso dá um bom indício de que o colonista-paçoca começa a ser duramente criticado pelos leitores da revista Fórum, sobretudo quando se divulgou que ele concordou com um elogio ao general Médici feito por um de seus entrevistados. Daí a tentativa do crítico, que havia exaltado tantos ídolos medíocres, agora falar sobre uma grande entendida da música caipira autêntica.

Mas chega a ser risível que Sanches escreva sobre Inezita na Fórum e defenda Michel Teló na Caros Amigos. Sua defesa chega a ser tão cínica que Sanches, preocupado com as críticas negativas ao cantor de "Ai Se Eu Te Pego", se consola com a sofística frase "falem mal, mas falem dele", corroborando o mito de "sucesso mundial" do cantor paranaense de família mato-grossense.

Pelo menos Sanches não foi longe demais chamando Michel Teló de "Julian Assange brasileiro" - para o colonista-paçoca, qualquer palhaçada feita aqui é "rebelião social" - nem classificou o cantor como "índio do Alto Xingu", já que Sanches andou usando alusões étnicas para defender a mediocrização do popularesco.

No entanto, o crítico tentou promover a imagem de "vítima" de Michel Teló - sempre os "coitadinhos" - e ainda por cima "justificou" o suposto sucesso internacional elogiando (?) a versão em inglês de "Ai Se Eu Te Pego", com uma tradução tão simplória e autômata que os créditos da letra em inglês deveriam ser necessariamente dados ao Google Translator.

Sanches insiste na ponte entre ídolos bregas e artistas "cultuados" ou "performáticos" - no texto em questão, ele "enfiou" Michel Teló ao lado do rapper Emicida - no texto publicado em Caros Amigos. Que é a mesma "filosofia" do Fora do Eixo, que tenta mercantilizar a cultura de vanguarda enquanto serve de guarita para a mediocrização cultural dita "emergente".

Tudo pelo mercado. Mas Sanches foi orientado profissionalmente a "matar" o mercadão neoliberal no primeiro parágrafo, no lide, para "ressuscitá-lo" de forma triunfante a partir do parágrafo seguinte. Mas como o leitor médio de Fórum e Caros Amigos ainda é um leitor apressado - vício obtido quando esses leitores eram adeptos felizes da Folha de São Paulo - eles só leem o lide e pescam algumas palavras-chave no resto do texto, sem prestar muita atenção.

Aí Pedro Alexandre Sanches, querendo promover a mediocridade cultural como se fosse "a riqueza transformadora de nossa cultura", dentro de uma retórica pomposa sobre a "cena cultural dos anos 00 e 10", intitulou o texto na Caros Amigos como "A riqueza musical de 2012".

Certo, vá dizer que Michel Teló é "riqueza musical". "Delícia, delícia, assim você me mata / Ai, se eu te pego / Ai, ai, se eu te pego / Enrosca, enrosca, assim você me mata / Ai, se eu te pego / Ai, ai, se eu te pego"... Então, tá.

Não seria "riqueza", ou "rique$a", no sentido financeiro do termo? Afinal, a única preocupação de Pedro Alexandre Sanches, que escondeu o "deus" mercado em sua casa para dizer para todo mundo que o matou, é justamente proteger o mercadão brega-popularesco.

E, como discípulo de Francis Fukuyama, Pedro tenta jogar em várias frentes, para não perder a reputação, já que ele começa a cair do pedestal na segunda página dos resultados do Google na palavra-chave do nome dele.

Afinal, se ele tenta defender a mediocrização cultural dentro de argumentos às vezes sutis, noutras desesperados, ele tem que recorrer também à defesa das tradições culturais para agradar os mais velhos.

Afinal, Pedro construiu sua reputação dando muitas entrevistas e pesquisando sobre MPB antiga. Mas práticas assim não fazem das pessoas santas. Se fosse assim, os "calunistas" e "urubólogos" da velha imprensa também seriam santificados. Afinal, uma Eliane Cantanhede, um William Waack, também fizeram muitas entrevistas e pesquisas.

Como Francis Fukuyama falando da Revolução Francesa ou de Karl Marx, "reconhecendo" seus méritos temporais, Sanches elogia a trajetória de Inezita Barroso como cantora e pesquisadora de música caipira. De fato, ela é uma mestra, mas infelizmente até os breganejos antigos, como Chitãozinho & Xororó e Daniel, andam puxando o saco da mestra violeira.

Afinal, Chitãozinho & Xororó e Daniel eram, em outros tempos, bobagens tão canhestras quando Fernando & Sorocaba e Michel Teló hoje. Mas foram adestrados pela mídia e pelo mercado para fazer algo "mais de qualidade", às custas de muitos covers e com uma ajuda de outros arranjadores e até de orquestras.

Claro, com um arranjador de plantão mais empenhado, qualquer breguinha vira "MPB" através de um "tempero" na sua medíocre música. Mas o mérito não fica nos "artistas" em si, mas no arranjador, o pobre coitado que faz praticamente tudo, mas, em certos casos, têm que repartir os créditos com os ídolos do "pagode romântico" ou do "sertanejo universitário", cuja única "participação" dos arranjos se refere ao pedido do artista de MPB a ser copiado pelo breguinha de plantão.

Sanches tentou agradar gregos e troianos. Ele pode até discordar de José Ramos Tinhorão (que ele entrevistou uma vez) tanto quanto Reinaldo Azevedo discorda de Altamiro Borges, mas evita comprar briga com seus discordantes, já que Sanches é um adversário que veste a camisa do time que quer golear.

Jornalista de centro-direita, ele sabe que, para apunhalar as esquerdas pelas costas, evita-se o "fogo amigo". Por isso, ele precisa apelar, de vez em quando, para a defesa aparente do tradicionalismo cultural, para sossegar seus críticos e tentar agradar os mais velhos.

E tudo isso até que um dia Sanches tente usar a Inezita Barroso para justificar as futuras bobagens a serem feitas por Michel Teló.

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