sábado, 18 de fevereiro de 2012

QUANDO A INTELECTUALIDADE NÃO QUER CULTURA, QUER "CULTURA DE MASSA"



Por Alexandre Figueiredo

É muito vergonhosa a atitude de intelectuais considerados "influentes" que, a pretexto de defender a cultura das classes populares, na verdade defende a prevalência da mediocrização cultural que alimenta todo um poderoso e milionário mercadão do entretenimento popularesco.

Ver gente "tarimbada" como Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Ronaldo Lemos, junto a outros pares, defendendo a mediocrização cultural dentro de um discurso sutilmente perverso é algo que devemos nos preocupar. Qualquer um deles será o Ferreira Gullar de amanhã, quando não virarem traduções bregas e "pagodizadas" do Arnaldo Jabor.

Eles não querem e nem se esforçam um dedo sequer de suas mãos para zelar pela verdadeira cultura popular. Em seus discursos acadêmicos traiçoeiros, eles até evocam os tempos da cultura brasileira de qualidade. Mas dão a impressão exata de que esses tempos foram superados, "derrubamos antigos paradigmas", e agora a "nova cultura" é outra.

Só que essa "nova cultura" nada tem de cultura autêntica. É apenas uma "cultura de massa" nas suas piores expressões da mediocrização, da vulgarização, da bregalização sob a qual o povo pobre está atolado.

Eles até investem na atitude suspeita de desestimular e desencorajar qualquer discussão. "Não discutamos valores estéticos", "não vale a pena discutir sobre o que é velha MPB, nova MPB, anti-MPB ou coisa e tal". Gente que deveria se comprometer a estimular o pensamento crítico e faz o contrário já é, por si só, bastante suspeita e desmerecida de sua reputação quase divina.

Afinal, discutir estética é algo que vale nos meios intelectuais desde a Antiguidade Clássica. Ver que, em pleno século XXI, não podemos discutir algo que pensadores gregos já faziam há muitíssimo tempo, só tira qualquer validade da seriedade dos intelectuais brasileiros.

"ARROTO-MUSIC"

O que está em jogo disso tudo é que, para esses intelectuais etnocêntricos, a "cultura popular" não passa de um reles "prato feito". Fica como está, se é ruim, transmite valores sociais duvidosos, pouco lhes importa. É como se, na culinária, haver mosca na sopa, fezes no ensopado de carne e sujeira de pano de chão em recheio de pastel fizesse parte do cardápio.

Isso coloca a cultura brasileira como um processo estanque, medíocre. E que já criou uma "terra de cegos" na qual um Wando nem tão genial assim virou "rei", talvez mais que o Roberto ou o Edson. A mediocrização cultural chegou a tal ponto que, se deixarmos, daqui a 20 anos até o MC Créu será "mestre".

Até lá teríamos criado a "arroto-music", a "nova sensação das periferias". E aí a memória curta, que havia relegado Tom Jobim ao esquecimento, elegeria Michael Sullivan como "nosso mestre maior". Não teríamos Chico Buarque e nem Caetano Veloso em nossas lembranças, como hoje quase ninguém se lembra de Agostinho dos Santos, porque "pós-tropicalistas" seriam o Latino e o Belo, e até Michel Teló será um "mestre" para a plateia incauta.

Essa intelectualidade festiva, reunida no Coletivo Fora do Eixo, ainda investe na utopia da informática como salvação para a breguice sonora. Como se botar um modem e um chip na música brega fosse torná-la mais moderna. Grande ilusão.

Isso só mostra a visão rasa e superficial desses intelectuais, encastelados em seus apês. Acham que é só informatizando o brega-popularesco para ele virar "cultura de vanguarda", apenas com a ajuda de artistas performáticos e alguns MPBistas menos contestadores no fornecimento de "informações". O que não traz sangue novo à Música Popular Brasileira.

"IRRIT-PAREIDE"

Pelo contrário. Cai o pano de fundo e vemos apenas a preocupação da intelectualidade etnocêntrica em substituir a cultura popular autêntica - por um lado isolada na apreciação privada das elites, por outro trancada em museus - pela "cultura de massa" à brasileira.

Ou seja, esses "inimigos do mercado" acabam defendendo, na verdade, a mercantilização da cultura brasileira, e a cooptação do que eles definem como "cultura independente" nesse esquemão do hit-parade brasileiro (ou não seria "irrit-pareide"?). Matam o mercado na primeira oração, depois da vírgula o ressuscitam triunfantemente.

Se depender deles, não valerá a cultura socialmente transmitida pelas comunidades, com grande força artística, competência, senso crítico, amor, alta autoestima e outras virtudes. Tudo será brega e apenas fingiremos crer que as grandes virtudes, extintas, continuam valendo.

Teremos apenas um mercadão igualzinho ao hit-parade dos EUA, mas travestido de um discurso falsamente folclorista, falsamente modernista, falsamente alternativo. Afinal, brincará-se de Beyoncé, de Lady Gaga, de Michael Jackson, ícones que nada têm a ver com cultura alternativa, são o extremo oposto dela.

Precisamos questionar ainda mais essa intelectualidade, que nem de longe deveria ser tida como "dona" da cultura popular. E o povo, fica passivo a essa lorota toda?

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