terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

QUANDO É NO "POPULAR", VALE QUALQUER GAFE


A ATRIZ DÉBORA FALABELLA CAUSOU POLÊMICA AO FAZER PROPAGANDA DE GOVERNO TUCANO EM MINAS GERAIS.

Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, existe um cacoete na opinião pública média de esquerda que é o de cobrar compostura apenas dentro dos limites da sociedade abastada. Quando gafes são cometidas por gente mais classuda, o lado sempre fica mais pesado.

Recentemente, Débora Falabella tornou-se garota propaganda do Governo de Minas Gerais, Estado natal da atriz. E haja propaganda enganosa a respeito das "realizações" do governo mineiro.

A coisa repercutiu mal, com razão. Os professores até fizeram um manifesto de protesto, cobrando da atriz maior conhecimento antes de desempenhar certos papéis. Débora é talentosa, inteligente e sua beleza é deslumbrante, mas faltou a ela autocrítica diante da "oportunidade" de falar pelo governo tucano mineiro.

Mas e se Débora fosse a um "baile funk" e dançasse até cair no chão? As cobranças, lamentavelmente, desapareceriam. Afinal, neste caso o "popular" está em jogo, e a intelectualidade dominante vê no grotesco associado ao "popular" sinônimo de "felicidade".

Para a intelectualidade, são as elites que precisam ter compostura, ou, quando muito, apoiar a baixaria quando ela é "positiva". Essa crença segue sem que se perceba que, por trás desse entretenimento associado ao "popular", existem as mesmas elites que participam das políticas tucanas.

Felizmente, Débora Falabella não chegou ao ponto de ir a um "baile funk". Ou, se fosse, só seria por razões contratuais, por pura imposição da Rede Globo, sócia majoritária do mercadão funqueiro.

No entanto, de repente ela virou "urubóloga" apenas pela boa-fé. As elites exigem compostura quando as gafes envolvem gente mais abastada e culta. Já quando são mulheres-frutas, funqueiros, tecnobregas e coisa e tal, quando tudo é no "popular", vale qualquer gafe. As elites formadoras de opinião acham "bonito" e "divertido".

Vale tudo. Mr. Catra pode fazer declarações machistas, Solange Gomes pode posar de "freira erótica", Valesca Popozuda pode torrar o dinheiro em Los Angeles, Tati Quebra-Barraco pode torrar a grana com plásticas, Neymar com seus carrões, Michel Teló pode viajar pelo mundo sustentado pelo latifúndio. Sendo "populares", tudo isso é "digno". O que não pode é mulheres classudas cometerem gafes menores do que esses ídolos, porque "pega muito mal".

Daí que as cobranças só se limitam a atrizes, modelos, ativistas sociais, quando não existe o tal pretexto do "popular". Dentro da "casa grande", deve-se haver o máximo de compostura possível, enquanto que nas "senzalas" permite-se o vale tudo da miséria e da ignorância glamourizadas pelo discurso intelectual.

Dessa forma, existem dois pesos e duas medidas. Somente as classes médias e altas devem ter éticas e valores culturais elevados. Ao povo, se reserva o grotesco e os valores mais retrógrados ou baixos. É a visão pequeno-burguesa do "outro-mundismo", uma forma de "povo" desejada pelas elites intelectuais dominantes. E a intelectualidade ainda tem o cinismo de dizer que, dessa forma, o povo "exerce sabedoria sem saber" e que nós é que, "sabendo, somos ignorantes".

Pura demagogia. Mas talvez essa intelectualidade etnocêntrica merecesse estar no lugar de Débora Falabella fazendo comercial do Governo de Minas. Imagine Ronaldo Lemos ou Pedro Alexandre Sanches no lugar dela. Aí eles vão ver o que é bom para tosse.

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