sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PADRONIZAÇÃO VISUAL É COISA DE REGIMES AUTORITÁRIOS


O APARTHEID DA ÁFRICA DO SUL - O lado sombrio da política de padronização visual de tecnocratas e autoridades.

Por Alexandre Figueiredo

Um simples e "inocente" ato ligado a um mero projeto urbanista esconde intenções de pura discriminação social, e isso, mesmo na melhor das hipóteses, é comprovado pelo caráter arbitrário de muitas medidas.

É o caso da padronização visual dos ônibus, "carro-chefe" de um modelo autoritário de mobilidade urbana lançado pelo arquiteto e então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, filiado à ARENA, no auge da ditadura militar, em 1974.

Agora convertido em "consultor independente", Lerner ainda continua ditando suas normas e regras, como se ainda estivéssemos sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Infelizmente, há muitos paradigmas do "milagre brasileiro" ainda prevalescentes, e muitos deles sob o consentimento equivocado do governo Dilma, como o projeto da hidrelétrica de Belo Monte e a privatização dos aeroportos, definida sob o eufemístico nome de "concessões".

Há o reacionarismo da velha grande imprensa, de seus donos e seus grandes articulistas e editores. Há a breguice dominante, um establishment enrustido e apoiado por intelectuais e artistas pós-tropicalistas. Há o machismo ainda exercendo influência na mídia. E mesmo a trolagem de internautas mais parece uma versão digital dos milicos do DOI-CODI, em boa parte dos casos.

A padronização visual dos ônibus, uma verdadeira catástrofe que impedirá aos cidadãos simples o reconhecimento da empresa que serve uma linha de ônibus, expressa não só uma forma ao mesmo tempo autoritária e preguiçosa de concessão de linhas - é mais fácil "vestir" as frotas com as "fardas" de uma Prefeitura ou de um órgão estadual de transporte intermunicipal do que promover a transparência na identidade visual de cada empresa - , mas uma mentalidade que, fora do âmbito busólogo, comprovou ser de caráter anti-democrático e fascista.

Pois são os mesmos políticos que promovem essa pasmeceira "padronizada" que se engajam em medidas sócio-políticas impopulares. Eles têm o mesmo apetite privatista de Fernando Henrique Cardoso e José Serra que, se pudessem, privatizariam até o ar que respiramos (o governo Dilma, com seus erros, não chegou ainda a tanto). Jaime Lerner provou isso privatizando uma empresa de saneamento e um banco paranaense, e queria privatizar mais, mas os sindicatos de trabalhadores não deixaram.

Eles também têm o mesmo apetite imobiliário de um Geraldo Alckmin que mandou expulsar sob a ameaça da bala os moradores da favela de Pinheirinho, para salvar o patrimônio pessoal de um especulador financeiro. E deixam os desabrigados à própria sorte.

Também no caso do Morro do Bumba, de Niterói, o Jorge Roberto Silveira, o submisso "cliente" do tecnocrata Lerner na caótica urbanização da cidade, ignorou os conselhos de técnicos da UFF sobre os perigos da área do morro, prevendo um deslizamento de terra que se realizou tragicamente em 2010. Até hoje os sobreviventes da tragédia foram entregues à própria sorte e vários deles voltaram a viver no morro porque não têm onde morar.

E só agora a gestão de Jorge Roberto, visando a reeleição, decidiu realizar obras no Bumba. Isso no entanto fez interditar a Estrada Viçoso Jardim, causando transtornos no trânsito do Cubango, que agora vai para as ruas Desembargador Lima Castro, Soares de Miranda e São José, perdendo mais tempo e congestionando o trânsito.

Mas o Jorge Roberto que remedia em vez de prevenir quer colocar mão única na Av. Roberto Silveira (logo a que homenageia o nome do falecido pai) e que já avisou, através de seu secretário de transporte (seguindo a diretriz autoritária que, no Rio de Janeiro, é expressa pelo prepotente Alexandre Sansão), que vai repintar os ônibus municipais com o padrão visual determinado pelos tecnocratas da Prefeitura (ou será pelo clientelismo, já que no caso carioca Eduardo Paes preferiu favorecer o designer Carlos Ferro, cuja filha trabalha para o prefeito carioca?).

Isso será desastroso, porque a padronização visual comprovou ser muito danosa e desvantajosa para os passageiros, que não podem mais se informar da empresa de ônibus que serve tal linha, porque nem os pequenos paliativos como o destaque do número do carro ou da bandeira (sobretudo digital) clara e concisa podem ajudar.

Isso é até piada que as autoridades fazem contra o povo. Afinal, no Rio de Janeiro, o que se vê são bandeiras digitais apagadas ou com a luminosidade enfraquecida, em várias partes do país. Mesmo empresas conceituadas como Real e Redentor mostram bandeiras digitais apagadas pela metade, e não é raro que informações como "127 RODOV" e "343 BARRA DA T", isso quando não é a outra metade que continua acesa ("IÁRIA" e "IJUCA") sejam apresentadas aos passageiros transtornados.

APARTHEID TAMBÉM PADRONIZOU O VISUAL...DA SOCIEDADE

A mesma lógica da padronização visual dos ônibus têm seu caráter autoritário demonstrado, e não só nas restrições e dificuldades que trarão ao passageiro comum, que não bastasse suas limitações de reconhecimento ou, em outros casos, na concentração extrema de seus compromissos pessoais (estudos, trabalho, crianças etc), mas pela lógica discriminatória bem ao gosto dos regimes autoritários.

Nos regimes fascistas, a padronização visual envolvia não os transportes - ou talvez os envolvesse, se tais regimes fossem levados adiante - , mas a sociedade, e o higienismo social é um de seus efeitos mais cruéis.

Já na África do Sul, o apartheid tornou-se um regime de discriminação racial "organizado", dentro da racionalidade dos tecnocratas de lá, que dividiram áreas reservadas para brancos e outras para negros e mestiços. Uma restrição clara à diversidade sócio-cultural daquele país, de consequências trágicas e dramáticas, mas feita dentro de um pretexto de "racionalidade".

Mas a tecnocracia, que mostrou-se cruel na Europa e na África, com seus focos no reacionário sul dos EUA, aqui ainda é vista como se fosse um "Papai Noel" dando presentes para a garotada. Mas a "discriminação" nos ônibus, embora não se compare à discriminação racial, também tem seu tom de discriminação social na medida em que os ônibus para os subúrbios são "denunciados" pelo seu padrão visual.

SISTEMA ASSASSINO

A lógica desse "novo" sistema de transporte coletivo que, apesar de se apresentar como carro-chefe do "novo urbanismo" para as autoridades e turistas de 2014 e 2016 (anos de importantes torneios esportivos internacionais, a serem sediados em capitais brasileiras), é herança remanescente da lógica ditatorial de 1970-1974, mostra todo um sistema perverso não só com os passageiros mas também com os rodoviários.

Não por acaso, em Curitiba, paradigma (equivocado) de perfeição e tranparência (sic) do transporte coletivo, os rodoviários decidiram entrar em greve, por melhores salários e condições de vida. Sem falar que eles não podem denunciar seu sofrimento, porque os empresários e tecnocratas da capital paranaense, tudo para salvar o "belo modelo" implantado pelo "deus" Jaime Lerner, não deixam, sob pena de demitir os trabalhadores do transporte.

Esse modelo de transporte, baseado na padronização visual que camufla e dificulta a identificação das empresas pelo passageiro comum, na concentração de poder dos secretários de transporte, na adoção de medidas anti-populares com a redução drástica do número de ônibus em circulação, é também responsável por muitas mortes causadas pela sua própria lógica de trabalho.

Afinal, os motoristas, pressionados a cumprir horários, precisam rodar em alta velocidade e fazer manobras arriscadas. Estressados ao extremo, vários deles sofrem mal súbito e não raro correm risco de morrer de infarto ainda na conduta do volante, oferecendo sérios riscos aos passageiros. E, pelo jeito, tragédias já foram causadas, inúmeras delas, e uma delas há cerca de dois anos, com o "perfeitíssimo" sistema de transporte da capital paranaense.

E, num trocadilho irônico com o sistema carioca, foi numa Praça Tiradentes com uma empresa chamada Redentor que o trágico acidente ocorreu, matando duas pessoas, gerando cobertura ampla da imprensa, sobretudo a Rede Record.

Juntando os trágicos acontecimentos causados por esse "moderno sistema de transporte" - ainda não houve o caso de pessoas doentes pegarem o ônibus errado, por conta da padronização visual, e morrerem sem chegar ao hospital, mas este risco tem muitas chances de ocorrer - , dezenas de pessoas foram mortas em batidas, pneus soltos (como num caso da mulher morta por um pneu de ônibus solto, na Grande Curitiba), postes derrubados, ou pela violência. Um motorista de ônibus de São Paulo foi linchado por funqueiros porque, sofrendo mal súbito, causou um acidente de trânsito.

PENSAMENTO ÚNICO

Não bastasse a mentalidade retrógrada dos políticos e tecnocratas que estão por trás da "excelente" padronização visual dos ônibus, adeptos de medidas "sociais" como a privataria e a especulação imobiliária, preocupa o caso de parte dos busólogos do Rio de Janeiro que, com sua arrogância e agressividade - a ponto de investirem em baixarias e palavrões contra quem discorda deles - , transforma comunidades como "BUSÓLOGOS DO RJ" em verdadeiros feudos digitais, em espaços para a vaidade temperamental dessa elite de "busólogos-pelegos".

Já começa a correr até uma piada de bastidor que diz que tais busólogos que defendem Alexandre Sansão, Eduardo Paes e companhia, vendo o sucesso da implantação do Bilhete Único, agora lutam pela implantação do PENSAMENTO ÚNICO, uma medida que, para tais "busólogos", serviria para garantir acesso fácil da busologia não só a cargos estratégicos da política fluminense, como também nos melhores assentos ao lado de autoridades nos eventos internacionais realizados no Rio de Janeiro.

O grande erro é que esse "novo modelo" para o transporte coletivo brasileiro não foi implantado em 1969, à sombra do AI-5, visando o "milagre brasileiro". Talvez, nessa época, as pessoas perceberiam melhor o caráter autoritário do sistema e ele não precisaria ser cogitado nos dias de hoje.

Mas, em todo caso, esse modelo "arrojado" irá apresentar suas falhas irreversíveis, falhas que não serão resolvidas com ônibus BRTs tendenciosamente comprados para tentar calar as vozes opositoras. A greve dos rodoviários de Curitiba e a violência de torcedores contra os novos ônibus da capital paranaense mostram isso.

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