quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O POVO NÃO AGUENTA BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

O povo do Pará não aguenta mais o forró-brega e o tecnobrega. O povo de Goiás não suporta mais o breganejo. O povo baiano não aguenta mais a axé-music, o "pagodão" e o arrocha. O povo carioca não aguenta mais o "funk carioca" e o sambrega. Os gaúchos não podem mais ouvir falar de tchê-music que saem reclamando.

Preconceito? Horror moralista? Nada disso. É o que se vê nas ruas, o povo perdeu o medo de reclamar da mediocridade musical brasileira. A reboque disso, também os jornais policialescos, as revistas de fofocas, as popozudas, os astros do futebol, também são duramente criticados como símbolos dessa mediocridade que não dá para relativizar.

E isso é uma manifestação elitista, de gente abastada que defende a "civilização"? Não, e, por incrível que possa parecer aos olhos dos leigos, até as periferias não aguentam mais "funk carioca" e o tecnobrega. E isso os fatos mostram que o povo pobre também está rejeitando o brega-popularesco.

É o que se vê quando os "bailes funk" acontecem na vizinhança. É ilusório pensar que só as elites rejeitam a poluição sonora desses eventos. As reclamações também vêm das próprias favelas, às quais o ritmo é simbolicamente associado. E as reclamações ainda possuem um sabor mais enérgico, porque são pessoas trabalhadoras que querem dormir para acordarem cedo, e acordam muito cedo mesmo.

O caso mais crônico que se vê é o forró-brega, chamado também de "forró eletrônico" (seu nome mais "imparcial"), oxente-music ou "forró-calcinha". Monopolizando o Norte, parte do Centro-Oeste e o Nordeste acima de Salvador (onde o ritmo até possui mercado, mas com presença secundária), o forró-brega derruba de vez a tese de que ritmos assim são expressões de "pequenas mídias".

Seu maior veículo, a Som Zoom Produções, que reúne empresa de agenciamento, gravadora e rede de rádios, já se constitui num paradigma de "grande mídia" regional. Só não possui escritório em Miami, Nova York ou Los Angeles, estigma um tanto equivocado de "grande gravadora" que permite a malandragem de definir qualquer selo fonográfico regional como "independente", mesmo sem ter a verdadeira filosofia indie de trabalho.

A reação a esse mercado mostra o caráter de grande mídia da Som Zoom, e o monopólio que o forró-brega exerce, sobretudo no Ceará, onde há a reação ainda mais enérgica. O ritmo, por isso mesmo, para evitar falência, tenta investir em outros mercados, como Niterói e Florianópolis, diante da reação de seus locais de origem.

Além disso, fatores como a esperteza do casal central da Banda Calypso, Joelma e Chimbinha, de grupos com nome horroroso como Calcinha Preta - que, ao falecer seu mentor musical, se enfraqueceu - e as letras do estilo, que falam de bebedeira e sexo vulgar, fazem com que as reações de protesto estejam muito longe de representar qualquer preconceito, elitismo ou horror moralista.

Primeiro, porque quem rejeita sabe muito bem do que isso se trata e é justamente o que mais ouve as músicas no momento sóbrio. O resto se comove com o dramalhão pessoal dos ídolos - se promovendo como "coitadinhos", apesar do "estrondoso" sucesso - e só passa a ouvir suas péssimas músicas depois de muita bebedeira, para não dizer daqueles que "cheiram pó".

Segundo, porque quem reclama desse ritmo não são somente as pessoas abastadas. A classe média emergente se sente ultrajada com essas músicas, e o povo da periferia também se sente desrespeitado, tratado como se fosse uma multidão de idiotas por essa pseudo-cultura.

Terceiro, porque rejeitar a vulgarização sexual, o alcoolismo e outras práticas abusivas nem de longe pode ser considerado moralismo. A intelectualidade acaba dando tiro no pé quando acaba provando que sua defesa da moralidade só serve da classe média alta para cima, porque as baixarias do popularesco, para eles, não é imoral quando vem do lado dos pobres.

Evidentemente, quem se deslumbra com esses fenômenos regionais são gente como Ronaldo Lemos e Pedro Alexandre Sanches, trancados em seus apartamentos, fazendo seu "socialismo" de bolsas de valores sob as bênçãos do FMI. Eles é que acham que o tecnobrega e o forró-brega estão bem em sua popularidade, que não há problema algum na sua hegemonia, embora ela, na realidade, tenha ultrapassado níveis toleráveis.

Como a axé-music, o forró-brega sufoca outras tendências culturais. Quem faz MPB autêntica na Bahia ou no Ceará precisa migrar para Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro para arrumar algum espaço, porque seus Estados de origem estão com os espaços todos tomados pelo popularesco dominante, e só entra quem quiser compactuar com o ritmo hegemônico.

Imagine o cantor Belchior compactuando com o forró-brega e cantando música sobre bebedeira cercado de dançarinas apalermadas. Grande artista, o autor de "Como Nossos Pais" (título ridicularizado por um artigo "bem Francis Fukuyama" de Pedro Alexandre Sanches) não iria se vender para qualquer tolice.

Pelo contrário, Belchior, num desabafo contra a discriminação que a MPB autêntica sofre - o brega-popularesco não sofre sequer metade da discriminação que diz sofrer, mas a MPB sofre, e muito - , criou até um factóide sobre seu "desaparecimento", enquanto viajava solitário para compor e tocar violão com mais tranquilidade.

Belchior quis chamar a atenção para a realidade. Afinal, a verdadeira MPB não é aquela que chama mais público, não é aquela que lota plateias no menor tempo possível. E o povo tem saudade daqueles tempos em que música popular era de qualidade, seus temas, ainda que com alguma flexibilidade moral, não sucumbiam à baixaria, e seus artistas tinham um pouco mais de honestidade e respeito consigo próprios.

Por isso é que a nova MPB não será aquela dos ídolos brega-popularescos que só reconhecem a importância de fazer MPB depois de tantos discos medonhos, de tantas gafes cometidas no auge da carreira.

A nova MPB precisa de novos personagens, de artistas que, sofisticados ou não, tenham alguma dignidade artística e não sejam fantoches do mercado jabazeiro. E, sem dúvida alguma, serão artistas a romper com o brega-popularesco radicalmente, porque compactuar com a mediocridade artística só dá lucro por pouco tempo. Depois, é fracasso na certa.

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