segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O NEOLIBERALISMO "REBELDE" DE RONALDO LEMOS



Por Alexandre Figueiredo

Figura estranha é a do tecnocrata Ronaldo Lemos, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas. Especializado em Tecnologia da Informação, é representante do Creative Commons no Brasil e uma das figuras-chave do Coletivo Fora do Eixo, grupo de intelectuais "alternativos" que aglomera intelectuais, acadêmicos, ativistas e artistas e promove eventos como o Recbeat, o Abril Pro Rock e o Campus Party.

Ronaldo Lemos é conhecido popularmente (ou próximo disso) pelo livro que escreveu, com Oona Castro, sobre o tecnobrega. E que, dentro de seu escritório, estabeleceu uma tese de que o tecnobrega era discriminado pela grande mídia. Uma grande mentira, como se viu no apoio mais do que explícito e muito mais do que entusiasmado da velha grande mídia ao tecnobrega. A ponto de Veja, que condena a tudo e a todos, ter sido muito gentil com Gaby Amarantos, a principal estrela do estilo.

Mas mesmo no Pará o tecnobrega sempre recebeu o apoio do Grupo Liberal, da famiglia Maiorana, que é sócio das Organizações Globo no Estado. E, pelo jeito, o Pará, que quase foi dividido geograficamente em dois Estados, continua dividido ideologicamente em outros dois: o Pará explosivo dos conflitos de terras, do latifúndio, da midia oligárquica, e o "Pará-iso", a "periferia" de contos de fadas da "Disneylândia do mau gosto" do tecnobrega.

Mas o "anti-mídia" Ronaldo Lemos, pelo seu currículo, mostra-se bastante entrosado com a velha grande mídia que diz combater. Ele havia sido colunista do caderno Folhateen, da Folha de São Paulo, e hoje é colunista do Radar Econômico, de O Estado de São Paulo.

Aparentemente, Ronaldo segue "invisível", talvez por questões estratégicas, no sítio do Instituto Millenium, onde estão muitos de seus colegas do Estadão, como Alcides Leite Trevisan, Carlos Alberto di Franco (ligado à mesma Opus Dei da qual estão filiados o governador paulista Geraldo Alckmin e o presidente chileno Sebastian Piñera, tal como o irmão deste, José Piñera, outrora ligado ao general Pinochet e hoje também "sócio" do Instituto Millenium) e João Mellão Neto.

Mesmo assim, Ronaldo é citado positivamente em muitas reportagens da velha mídia, sobretudo quando exibe seus conceitos sobre "novas tecnologias", dentro de uma lógica da teoria neoliberal da informática muito em voga nos anos 90.

Ronaldo é citado também numa reportagem do sítio do Instituto Liberal, que tem como um dos colaboradores o escritor Rodrigo Constantino, ligado ao Instituto Millenium (que contém um linque no IL). E também é citado em vários linques do sítio da Veja, espécie de irmão "impresso" do IMil.

Pois é aqui que a aparente estranheza faz uma pegadinha à opinião pública média. Pois Ronaldo, aparentemente, se expressa como um "subversivo" da informática, sendo visto como um "profeta" das mídias "independentes", ou um guru do que os leigos veem como "cultura alternativa".

Levando em conta reportagens publicadas no jornal Hora do Povo - que, passada a fase quercista, anda publicando reportagens interessantes sobre a crise na cultura brasileira - , Ronaldo é patrocinado por grandes empresas de informática, pela Fundação Ford e pelo Open Society Institute, do magnata e especulador George Soros (autor da frase "ou Serra ou caos" na campanha presidencial brasileira de 2010).

É da Open Society Institute que Ronaldo Lemos pegou os subsídios para sua tese de "novas mídias", através dos princípios de "negócio aberto" de George Soros. E que serve de pano de fundo para a aparente subversão ideológica do professor da FGV.

Afinal, por que a ênfase nas "mídias alternativas", como downloads gratuitos, CDs demos, fim dos copyrights, transferência gratuita de dados, sampleagens, muito além da conta? Não que isso fosse ruim, é até uma necessidade, mas a visão superestimada desses processos por conta de um tecnocrata que escreve para o Estadão mais parece aquela esmola exagerada do famoso ditado popular.

DEFENDER A MÍDIA LIVRE É "SOPA"

A equipe do jornal Hora do Povo dá pistas sobre o que está por trás dessa aparente defesa das "mídias livres", enquanto a turma de Ronaldo Lemos também aparece na velha grande mídia. Pedro Alexandre Sanches é cria do Projeto Folha da Folha de São Paulo. Carlos Eduardo Miranda, como contratado da Abril, ajudou a revista Bizz a entrar na era das trevas, oferecendo condições para o assassinato da revista, anos depois. E Gaby Amarantos, tida como "sem mídia", aparece na mesma velha mídia que a cantora jura que a discrimina completamente.

Por trás dessa defesa da "mídia livre", há intenções que mostram que a mídia que eles defendem não é tão livre assim. Afinal, eles não defendem a liberdade midiática, mas simplesmente a desregulamentação dela. E, por trás dessa "anarquia", há corporações que poderão lucrar em cima disso. Ou seja, através de Ronaldo Lemos & cia., defender as mídias livres é SOPA.

É um discurso que cheira muito a tecnocrático. Afinal, sua ideia latente não significa defender as facilidades das novas tecnologias midiáticas como recursos complementares para a expressão de ideias e manifestos sociais, mas submeter as novas culturas a um processo tecnocrático. É como se a cultura popular tivesse que depender de um aparato cibernético para ter algum sentido, o que é muito diferente de, por exemplo, uma cultura popular ser auxiliada pelas novas tecnologias para a expressão de suas mensagens.

Porque, na tese de Ronaldo Lemos, há o princípio, hoje considerado discutível, da "aldeia global" do teórico da Comunicação Marshall McLuhan que, dizem, desenvolveu tais ideias como contribuição para o mercado publicitário. Trabalhando o princípio de que o "meio é a mensagem", a tese de Lemos leva a crer de que a tecnologia não é só o "meio" da cultura popular, mas a "mensagem", ou seja, seu processo.

RACIOCÍNIO HUMANO É A ÚNICA TECNOLOGIA TRANSFORMADORA

Em outras palavras, significa submeter a cultura popular à supremacia da máquina. Como se sua transformação passasse necessariamente por plugues, modens e bits. O que não é bem assim. Afinal, antes de mais nada, uma cultura é feita por seres humanos e a única tecnologia decisiva para o poder transformador de uma cultura é tão somente o raciocínio humano.

A tecnologia eletrônica, informática e de outros tipos é apenas um instrumento dessa vontade humana de transformação. Mas a tese de Lemos leva a crer que a mente humana apenas é um "veículo" para o poder transformador atribuído, em sua teoria, às novas tecnologias de mídia. Não é mais o homem que usa a máquina para transformar o mundo, mas é a máquina que usa o homem para transformar este mesmo mundo.

É esse equívoco que fez atribuir ao Twitter e ao Facebook as primaveras árabes do Oriente Médio. Grande engano. As redes sociais foram apenas um instrumento para que cidadãos interessados em protestar contra as tiranias de países como Egito, Tunísia, Líbia e Síria (cuja ditadura ainda continua "em pé") se integrassem e se expressassem.

As redes sociais, neste caso, ajudaram bastante, e podem facilitar muito o poder transformador das expressões sociais. Mas elas são o instrumento, o canal, e não o emissor das mensagens transformadoras. Quem emite são as mentes humanas, as mídias são só o canal.

MEDIOCRIZAÇÃO CULTURAL

A situação se complica quando é a mediocrização cultural que está em jogo na "panelinha" intelectual na qual se insere Ronaldo Lemos. É aqui que o neoliberalismo "rebelde" do professor da Fundação Getúlio Vargas mostra seus aspectos preocupantes.

Além da informação, inverídica, de que o tecnobrega (e, por conseguinte, o "funk carioca") está "fora da grande mídia", Lemos, ao defender a chamada "informalidade cultural", apostando na mediocrização artística e na "flexibilização" do mercado popularesco, dentro dos "novos modelos de negócio" inspirados no open business de Soros, ele defende não a "subversão" das regras midiáticas, e sim a precarização do mercado de trabalho.

O caminho ideológico da defesa da mediocridade cultural foi pavimentado por Paulo César Araújo no livro Eu Não Sou Cachorro Não, estabelecendo o "cenário ideal" do Brasil brega: comércio clandestino, prostituição, alcoolismo em bares e botequins, todo um "padrão" de "cultura popular" baseado no subemprego permanente e na baixa qualidade de vida.

Tudo no ideário brega-popularesco que deveria ser provisório é defendido como definitivo para as classes populares: a prostituição das jovens pobres, o alcoolismo dos mais idosos, o comércio clandestino dos camelôs, a arquitetura irregular das favelas. O povo pobre é jogado a esse "cenário" da forma mais humilhante, mas a intelectualidade sempre tem um jeito de glamourizar a pobreza através de seus discursos.

Por trás da fachada "alternativa" da "cultura popular" sonhada por Lemos, existem gravadoras "independentes" com o mesmo apetite mercenário das multinacionais, FMs locais controladas por oligarquias regionais, grupos musicais e cantores liderados não por seus vocalistas ou músicos, mas por empresários, e camelôs que servem de atravessadores para o contrabando e para a sucata tecnológica das elites estrangeiras. E ainda há o comércio de bebidas alcoólicas que faturam em cima do lazer atribuído às "periferias"...

Isso é o que mancha o discurso de Ronaldo Lemos. Se, antes disso, esperava-se uma teoria abrangente da "cultura alternativa", a bregalização aparece para denunciar as sérias contradições. Afinal, há muita diferença, por exemplo, entre uma cultura punk, pós-punk ou psicodélica que se utiliza de uma mídia independente articulada, e um cenário brega, neo-brega ou pós-brega que se utiliza de um "mercadão" regional aparentemente "próprio".

Até porque quem patrocina o tecnobrega, o "funk carioca" e outras "expressões das periferias" são as multinacionais, o latifúndio, a velha grande mídia, que há muito abriu as portas escancaradamente para funqueiros e bregueiros que "reclamavam" (de barriga cheia) da suposta discriminação da grande mídia.

Não é por acaso que o discurso do professor Ronaldo tem livre trânsito em veículos ultraconservadores como Estadão, Folha e Veja. Mera coincidência? Não, afinal o "livre mercado" brega-popularesco agrada aos interesses da velha grande mídia e do grande mercado, os mesmos "inimigos" do discurso "libertário" de Lemos e companhia. Tudo isso em detrimento de uma multidão de populares usados pelo mercadão popularesco para expressar o circo da mediocridade para enriquecer seus empresários "tão pobrinhos"...

E aí o santo desconfia de tanta esmola cibernética propagada nas salas de aula da FGV e nos espaços midiáticos diversos.

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