quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A MORTE DE WANDO: SENSACIONALISMO, EXAGEROS, DESINFORMAÇÃO


O WANDO DA VIDA REAL TORNOU-SE VÍTIMA DO WANDO DOS PALCOS.

Por Alexandre Figueiredo

Quando certos ídolos nem tão geniais falecem, é natural que ocorra a histeria dos fãs a respeito da perda do dito cujo. Hoje Wando faleceu de parada cardíaca, aos 66 anos, depois de vários dias gravemente enfermo.

E o resultado? Haja comparações exageradas a Renato Russo e Tom Jobim, haja classificações, não menos hiperbólicas, de "mestre" e "gênio da MPB" ou coisa parecida. Foi a mesma histeria, não raro delirante, do que quando faleceu Michael Jackson, há cerca de dois anos e meio.

Houve quem dissesse, equivocadamente, que "todo o rock devia tributos a Michael Jackson", quando Michael, sabemos, nunca foi, de fato, um roqueiro. E agora a coisa se repete com o conhecido intérprete de "Fogo e Paixão".

E a comparação de Wando com Tom Jobim e Renato Russo, além do tom de grande exagero, tem um quê de pura desinformação, porque, obviamente, Wando nunca teve a competência melódica de Tom e nem a contundência poética de Renato. Artisticamente, Wando sempre foi um artista menor.

Imaginemos outros casos e suposições. Em 2002, o Estadão exagerou, quando citou o falecimento de Ray Conniff, tratando-o como um "grande maestro" de big bands jazzísticas, quando, na verdade, ele começou como um jazzista menor e, depois, como maestro daquele som conhecido como "musak", feito para tocar em consultórios médicos e sem muita relevância artística.

Qualquer morto vira um "santo", um "gênio", um "mestre", muitos sem ter metade dos requisitos para tal. Imagine se Doca Street falecer, a qualquer momento, e a machistada espalhar no Facebook que ele era "o cara" e "defendia (sic) o direito das mulheres"? Ao morrer, o anticomunista Roberto Marinho foi descrito pela Rede Globo como "guardião do comunismo".

Morto, Wando foi comparado a Tom Jobim e Renato Russo. E se, nos EUA, Pat Boone morrer e alguns internautas tolos o considerassem um "ícone da Contracultura" e compará-lo não a Elvis Presley, mas a Tim Buckley (só para citar um falecido cantor folk) e Jim Morrison?

Exageros ocorrem, junto a desinformações e sensacionalismo. Quando ainda estava doente, Wando foi explorado até de forma leviana pela imprensa jagunça, sobretudo quando fãs enviavam calcinhas com frases pedindo melhoras na saúde do cantor. Falou-se até em mandinga para salvar a vida dele, feita com maçãs, considerado fruto mitológico associado ao sexo.

Ou seja, tudo de muito mau gosto para explorar o "sensualismo" brega ligado a ele. E isso no pior momento. Pelo menos tinha-se que ter um pouco de respeito com a agonia do enfermo, e livrasse dele, momentaneamente, de sua vulgaridade. A própria exploração de sua tragédia, mesmo pelas fãs, acabou gerando um grande baixo astral.

E baixo astral agrava muitas doenças, apressa e torna inevitável a tragédia. Brittany Murphy que o diga, diante daquele baixo astral de tantos problemas pessoais que contribuiu para a tragédia da doce atriz norte-americana no final de 2009. E que, tempos depois, ainda continuou a ser explorada pelo sensacionalismo jornalístico de lá. E tudo isso apesar da bela atriz ter sido marcada pelo seu jeito radiante, jovial e alegre.

Nesse sentido, o ídolo Wando acabou assassinando o ser humano Wando. O homem enfermo, que precisava pelo menos de um pouco de sossego e de vibrações mais serenas, acabou sendo morto pela histeria associada a um ídolo, a um papel que ele desempenhava no palco, jogando calcinhas para as fãs. Wando chegou a apresentar melhoras de saúde, mas depois acabou sofrendo uma parada cardíaca e faleceu.

É certo que Wando cometeu descuidos com a saúde. Mas isso não vem ao caso. Só que sua morte acaba mostrando o caráter mórbido do brega-popularesco, que não investe em valores éticos, em respeito humano, em valores sócio-culturais edificantes.

Daí Wando ter sido vítima do sensacionalismo em torno dele. As calcinhas e maçãs e a suposta volúpia-de-periferia não deram o sossego suficiente a ele. E a tragédia causada ainda complicou as coisas, porque Wando, assim como Michael Jackson, acabou "ganhando" virtudes que ele naturalmente nunca teve.

Wando nunca foi, nem é e nem será um gênio da MPB. E nem perto disso. Ele sempre será reconhecido como um cantor brega, claramente comercial, que dentro de seus limites artísticos cumpriu o seu papel junto a seus fãs. Só isso. A morte não o fará mais santo, mais genial, mais mestre e nem mais revolucionário.

Morrendo, Wando será apenas o mesmo Wando. O impacto da tragédia, momentaneamente, causará reações histéricas que geram muitos exageros. Mas, passado o susto do ocorrido, tudo voltará a ser como antes, mais um ídolo brega relembrado por seus fãs. Só isso.

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