quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

MITO DO "PAÍS MULHER" TENTA OFUSCAR GRAVIDADE DO MACHISMO


VÍCIOS DO CENSO DO IBGE ESTARIAM ESCONDENDO HOMENS VIVOS E MULHERES MORTAS (COMO ELOÁ PIMENTEL), FAVORECENDO MITOS E OMITINDO DRAMAS SOCIAIS.

Por Alexandre Figueiredo

A população do Brasil tem maior quantidade de homens do que de mulheres. Através de pesquisas comparando o censo de 1960, que indicava tal realidade, e era o último censo anterior ao regime militar, com os outros posteriores, que apontavam "maioria" feminina, mesmo com a maior vulnerabilidade das mulheres, nota-se que a realidade que está por trás do mito do "país mulher", por incrível que pareça, é mais desfavorável às mulheres do que se imagina.

Afinal, o mito da "maioria feminina", que já é contestado no cotidiano das cidades, em que se vê grandes multidões masculinas se sobreporem às de mulheres nas ruas, no mercado do trabalho e em quase todos os ambientes sociais (exceto aqueles onde a concentração de demanda feminina ocorre devido ao contexto), também acaba minimizando a gravidade do machismo ainda resistente em nosso país.

Pois, através desse mito, feito por interesses turísticos e hoteleiros - que se apoiam numa imagem de "Caribe sul-americana" atribuída ao Brasil - , omite-se centenas de milhares de homens no registro censitário, a maioria esmagadora de gente pobre, uma minoria de executivos "sempre em viagem de trabalho", em manobras adotadas durante a ditadura militar e até hoje não superadas.

Afinal, no censo, vale o que está declarado. Se, numa casa familiar, a mulher disser que "meu marido não está aqui, não", então ele "não existe". Critérios surreais são feitos, em prol do tal domicílio ocasional. Se fulano estiver num boteco tomando um cafezinho, ele "mora nele". Mas se o executivo tal, de São Paulo, não está em casa com a mulher, nem no trabalho e está dentro do avião, fora do "território aéreo" brasileiro, logo ele "não existe" para o censo.

Por outro lado, favelas deixam de ser consultadas, em parte, seja por conta dos acessos difíceis, seja por imposição da criminalidade ainda existente, o que significa que milhares de homens deixam de ser consultados pelos recenseadores. Logo, eles "não existem". E os moradores de ruas, em muitos casos eles "também não existem".

Por outro lado, um considerável número de mulheres consegue fornecer dados para os recenseadores antes de falecer por conta de diversos infortúnios, como acidentes de trânsito, doenças e crimes passionais. Essas mulheres "continuam vivas" nos dados censitários, mas na realidade já foram enterradas ou cremadas, depois do óbito repentino.

Mas, em vez de admitir esses dramas sociais, o que ocorre oficialmente é a comemoração do mito do "país mulher". Para os homens, é sexualmente mais atrativo, causa até orgasmo. Para as mulheres, garante um certo "corporativismo" de gênero, favorecendo o pretexto da mobilização política. Só que o mito revela, por debaixo dos panos, uma crueldade que existe por trás.

Primeiro, porque, no interior do país, cria estereótipos surreais que contradizem a realidade de miséria e analfabetismo em nosso país. Nos homens, cria-se uma caricatura do já caricato Jeca Tatu, um homem resignado com sua pobreza no campo, quando a realidade mostra que um dos maiores sonhos de um homem é ter uma casa de praia e estar bem de vida.

Em contrapartida, vemos, também no interior, meninas supostamente "aventureiras" que, ainda brincando de bonecas aos 14 anos, "vão sozinhas" para as capitais, como se fossem versões caipiras da "Mulher Maravilha". Algo bastante surreal, mas é defendido até pela grande mídia.

São estereótipos caricatos, típicos de histórias em quadrinhos, mas que não condizem à nossa realidade. Mas o mito pior do "Brasil mulher" é a exploração da ideia de que "mulher é que nem capim", o que tenta minimizar a gravidade do machismo, sobretudo na ocorrência de crimes passionais.

Entre 1977 e 1994, por exemplo, houve intensa ocorrência de crimes passionais no Brasil. Foi, mais ou menos, como se as mulheres brasileiras tivessem sido convocadas para operações de guerra. E foi uma guerra unilateral, na qual elas tornaram-se as vítimas maiores.

Mas as manobras viciadas do IBGE, que, pelos critérios do Censo de 1960, estaria anunciando o aumento da diferença de homens sobre mulheres na população brasileira, não conseguiram ver essas realidade de mulheres morrendo vítimas da violência, dos acidentes de trânsito, do parto ou aborto clandestinos, das inúmeras doenças, das drogas.

Os homens continuaram tendo o mesmo ritmo de vulnerabilidade de antes, apenas adaptado ao contexto do crescimento populacional. Mas o preocupante aumento da vulnerabilidade feminina é camuflado pelo mito do "Brasil mulher", que pela tranquilização que este mito representa, minimiza a culpa dos machistas sanguinários que dizimam suas próprias "companheiras", alguns desses machistas com sobrenomes "benevolentes" como Pacífico, Pureza e dos Santos Bispo.

Soltos, eles voltam até a pegar outras melhores mulheres. Enquanto isso, o mito do "Brasil mulher" torna-se tão somente uma conversa para boi dormir, sobretudo em programas de variedades da TV aberta. É muito fácil forjar uma realidade na televisão e basta um repórter bobo alegre ir a uma boate ou um restaurante e procurar umas quatro ou cinco moças "encalhadas" para apresentar uma "prova irrefutável" de que o "Brasil mulher" é real.

Isso não trará de volta ao nosso convívio moças como Eloá Pimentel e Mércia Nakashima, provavelmente "ainda vivas" nas estatísticas censitárias que, sabemos, tomam uns dez anos de levantamentos. E isso não fará das mulheres mais fortes, até porque, já que "existem mais mulheres", tanto faz "umas centenas" serem dizimadas por maridos, namorados, estupradores, ladrões ou por amiguinhos bébados que as levam para passar de carro.

A diferença afeta até mesmo os homens. Há mais mulheres comprometidas do que se imagina - as consideradas "mais conceituadas" dificilmente ficam solteiras - , e mesmo as chamadas "encalhadas" não passam de "celibatárias por conveniência", que, por influência da esquizofrenia cultural das rádios FM e da TV aberta, sonham demais com os homens, mas os recusam.

Várias dessas moças que "reclamam da falta de homens" possuem pretendentes que levam o "fora" das mesmas. Elas alegam que "os homens têm medo delas", mas são elas que têm medo dos homens. Um medo cultivado nas sucessivas letras de forró-brega, "sertanejo", "funk carioca", axé-music, tecnobrega, "brega de raiz" e outras tendências popularescas despejadas em módulos musicais das FMs popularescas.

Até mesmo as "solteiras de nível superior" são uma fantasia trabalhada pela mídia e pelo mercado. Elas existem, sim, mas são em menor número, porque a maioria delas está bem casada, mas nem aparecem nas "pesquisas", tão "reais" quanto aquelas que dão preferência eleitoral a políticos impopulares feitas pelo Ibope.

Extra-oficialmente, já se falam, nos raros círculos de debates que se encorajam a desafiar o mito do "Brasil mulher", que para cada grupo de 100 mulheres existem cerca de 102 a 105 homens. Talvez nenhum deles tenha a aparência de um Fábio Assunção e Rodrigo Santoro, e aí até o mito dá seu reforço. Se os homens não possuem o padrão estético "ideal", eles "não existem".

E, enquanto as mulheres nas boates esperam pelos pretendentes que não chegam, eles dormem tranquilos em casa, à espera de um novo dia de trabalho e estudos. E o mito do "Brasil mulher" mostra sua inutilidade através de pessoas como a graciosa jovem Eloá Pimentel, morta pelo seu namorado e ocasional sequestrador em 2008 e cujo julgamento segue ainda hoje.

Eloá - como nem Mércia, nem Elisa Samúdio, nem Sandra Gomide, nem Daniella Perez, nem outras - não ressuscitará como um suposta moça fogosa dos mitos resumidos no mito maior, o mito do "Brasil mulher", das Gabrielas maliciosas, sedutoras e "encalhadas", "sereias" das conversas de pescador transformadas em estatísticas, em mitos, em pretensas verdades.

O mito do "Brasil mulher" pode até transformar o Brasil numa "terra caliente e sensual", mas não trará de volta à vida as pobres mulheres vítimas pela tragédia das circunstâncias.

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