terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

"JORNALISMO NAS AMÉRICAS": O "NEW DEAL" DA IMPRENSA?


ROSENTAL CALMON ALVES TRAZ A RECEITA DE TIO SAM PARA AS "MÍDIAS PROGRESSISTAS".

Por Alexandre Figueiredo

Uma nova armadilha pode ter sido posta a caminho e até agora ninguém percebeu. Mais uma vez, os EUA lançam mais um projeto em que a "integração interamericana" é um pretexto para fazer prevalecer os interesses da supremacia norte-americana nas Américas, e o assunto necessita de maior discussão, ao invés do deslumbramento reinante.

Trata-se do projeto "Jornalismo nas Américas", do Centro Knight (Knight Center, no original), em parceria com várias universidades norte-americanas, atualmente a Universidade do Texas, em Austin. No Brasil, o projeto é representado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI).

Tudo indica que o projeto é uma espécie de "Aliança para o Progresso" ou "New Deal" para a imprensa internacional. Seu princípio, dentro do ponto de vista do capitalismo norte-americano, é "aprimorar a liberdade de imprensa e a democracia no hemisfério", o mesmo discurso visto nas iniciativas imperialistas de controle social na América Latina e no Caribe.

Sua unanimidade chega a ser suspeita e estarrecedora. Afinal, é bom demais para ser verdade que um projeto referente ao jornalismo seja lançado nos EUA para a "natural integração" das Américas. Sobretudo quando o foco é, mais uma vez, a América Latina e o Caribe, dentro desse "generoso" projeto cuja unanimidade no deslumbramento é preocupante.

No fundo a iniciativa soa como uma adaptação dos princípios da "Aliança para o Progresso" lançada há 50 anos por John Kennedy e do "Novo Acordo" de Franklin Roosevelt para o âmbito do jornalismo, guardadas as devidas diferenças no contexto e na época em que vivemos.

Sua figura central é o brasileiro Rosental Calmon Alves. É um senhor de boas relações no meio jornalístico brasileiro e também é ligado à ABRAJI. Tem passagens na Veja e no Jornal do Brasil (em sua fase pró-FHC), quando implantou, em 1995, o jornalismo digital que constituiria na atual e única versão do periódico (que, tempos depois, já superou essa fase pró-tucana).

Aparentemente, Rosental tem ideias pertinentes a respeito da relação entre jornalismo impresso e jornalismo digital, e defende um jornalismo mais profissionalizado. Mas o projeto do Centro Knight, embora promova a solidariedade em geral aos jornalistas do mundo inteiro e ao combate à violência e repressão sofridas pela imprensa, deve ser visto com muita cautela.

O primeiro aspecto sombrio que aparece é a contribuição financeira da Open Society Foundation, de George Soros, o magnata e especulador financeiro que agora aplica dinheiro para manter projetos e instituições sociais situadas em várias partes do mundo sob seu poder. A informação está clara no sítio da Universidade do Texas, através de uma nota publicada no portal do Centro Knight.

VELHA MÍDIA NÃO SE SENTE INTIMIDADA. ATÉ APOIA

Mais uma vez, a exemplo do que vimos no caso Ronaldo Lemos, a defesa das "novas mídias digitais", aqui especificadas para o jornalismo, do projeto "Jornalismo nas Américas", parecem causar um fascínio para as mentes progressistas de senso crítico pouco apurado, mas por outro lado parece causar um sossego insuspeito aos barões da grande mídia e seus porta-vozes.

Estes nem de longe parecem assustados com a pregação "progressista" de Rosental (que segue o mesmo raciocínio de Lemos, mas voltado ao jornalismo). Não se sentem ameaçados em um momento sequer. Pelo contrário, sentem-se muito satisfeitos com isso, o que mostra o quanto essas "novas mídias" nem de longe afetam as velhas estruturas da mídia e seus personagens.

Afinal, que mídia "transgressora" é essa que não traz insônia para os detentores do poder? Que "nova mídia" é essa que não assusta a velha mídia? Pesquisando a Internet, nota-se que Rosental Calmon Alves é defendido por gente envolvida no mais canhestro jornalismo conservador, Merval Pereira, Carlos Alberto di Franco, Miriam Leitão e William Waack.

Di Franco, o especialista em "novas mídias" ligado ao Instituto Millenium e à Opus Dei, havia feito muitos elogios a Rosental, no artigo "Jornalismo, Humildade e Qualidade". Não estaria ele, todavia, incomodado, se o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas fosse realmente um projeto "transgressor" das velhas normas jornalísticas?

Aparentemente, o projeto "Jornalismo nas Américas" se expressa como imparcial, mas até que ponto isso assim ocorre cabe averiguar com cuidado. Afinal, a aparente "ausência" de ideologias, defendida até mesmo por di Franco no citado artigo, em que define as dicotomias "esquerda e direita" e "conservador e progressista" como "patológicas", é algo dito até pelo Instituto Millenium e em pensadores como Francis Fukuyama.

PONTOS NEBULOSOS

O aparente "equilíbrio ideológico" do projeto do Centro Knight, embora se baseie no respeito institucional às nações das três Américas, algo visto com naturalidade pelas gerações mais recentes ou por quem viu a queda do Muro de Berlim derrubar qualquer questão ideológica, pode indicar, no entanto, um neo-neoliberalismo que está em vista através da nova realidade tecnocrática em jogo.

Alguns pontos nebulosos são vistos com a declaração de Rosental sobre o caso Wikileaks. Condenando os excessos da histeria do Partido Republicano contra Julian Assange, o jornalista brasileiro cita uma frase típica do conceito norte-americano de "democracia".

Tais palavras, aparentemente, não causam estranheza: "Tomara que os mais exaltados se acalmem e que a democracia americana saiba responder aos desafios criados por esta situação, sem abrir mão de seus princípios mais fundamentais".

No entanto, o que Rosental quis dizer foi que o caso deva ser resolvido dentro da chamada "legalidade democrática" das autoridades estadunidenses, o que significa, num raciocínio bem mais profundo e crítico, que o caso Wikileaks seja resolvido de forma a proteger os sigilos políticos dos documentos confidenciais. É das leis estadunidenses o caráter confidencial desses documentos, pelo interesse estratégico de autoridades e militares de manter tais segredos.

Isso quer dizer que, para Rosental, o problema deva ser resolvido sem que os EUA abram mão de "seus princípios mais fundamentais", que aliás incluem o sigilo absoluto de documentos confidenciais de toda ordem, mesmo os caluniosos e aqueles que planejem ataques bélicos ou golpes em outros países.

Pode-se inferir que, por trás desse discurso, Rosental sugere que o "ideal" é que Assange seja preso e julgado sem qualquer violência, mas dentro da "legalidade democrática", e que o Wikileaks seja extinto, embora "reconhecido" formalmente como um "admirável fenômeno" das "novas mídias".

Sobre o caso Yoani Sanchez, blogueira cubana famosa por suas associações ao neoliberalismo político, Rosental foi categórico na defesa dela: "Yoani Sánchez é um farol de liberdade que irradia uma luz de coragem e esperança a partir de uma ilha do Caribe afetada pela crônica treva de informações e uma atrofia das liberdades individuais".

Cabe aqui questionar o estranho deslumbramento para um projeto que, mais uma vez, pode estar escondendo os interesses de supremacia dos EUA sobre os demais países do continente. Um projeto que, com todas as suas sutilezas, esconde seu mecanismo de controle social dentro de uma retórica aparentemente "progressista" que seduz a muitos.

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