domingo, 12 de fevereiro de 2012

IRMÃ DOROTHY E OS CONFLITOS DE TERRA NO PARÁ



Por Alexandre Figueiredo

O Pará quase foi dividido geograficamente em dois Estados. Um plebiscito recusou a proposta. Mas o Pará possui uma outra divisão, a divisão ideológico-cultural determinada pelos barões da mídia de lá.

De um lado, é o "Pará-Iso", da periferia idealizada pela intelectualidade - a partir do professor da FGV, Ronaldo Lemos - , do forró-brega, "sertanejo" e, principalmente, o tecnobrega, dentro de um projeto ideológico de apologia à pobreza, de glamourização da miséria e de anestesiamento ideológico das classes populares, na tentativa de imobilizá-las ante a outra realidade vivida no Estado, e que de uma forma ou de outra se reflete na "civilizada" Belém.

Aí vem o outro lado, nada paradisíaco, do Pará. E que faz do Estado uma espécie de Oriente Médio brasileiro, por causa dos conflitos violentos que ocorrem no interior do Estado. E hoje, 12 de fevereiro, uma das inúmeras vítimas foi abatida a tiros em Anapu, uma das localidades do interior do Pará, região do Alto Xingu.

Dorothy Mae Stang, a Irmã Dorothy, era uma missionária norte-americana que vivia no Brasil desde 1966. Desde a década de 1970 vivia no Pará, envolvida com projetos sociais envolvendo trabalhadores rurais, e que se apoiava no desenvolvimento ambiental sustentável, na justiça social e na defesa da reforma agrária.

Dorothy Stang estava engajada na denúncia dos abusos de poder dos grandes proprietários de terras, num Estado onde o comércio madeireiro garante o poderio dos grandes fazendeiros da região e que motiva ações criminosas de desmatamento, às custas da exploração escravista do trabalho da gente pobre.

E isso incomodou certos fazendeiros, sobretudo Vitalmiro Bastos, o Bida, que junto a dois pistoleiros, Clodoaldo Batista e Rayfran das Neves, e um "colaborador", Amair Feijoli da Cunha, tramaram o plano de matar a missionária, morta aos 73 anos. E assim o plano foi executado, em 2005, a sangue frio, como em muitos outros crimes parecidos que dizimaram muita gente boa. Outro que teria sido envolvido no crime foi Reginaldo Galvão, co-mandante do assassinato.

Os conflitos se resolvem, infelizmente, a bala. Isso porque o poderio dos "donos de terra" é algo que desafia a lei, a ética, ou mesmo a Justiça. Bida já chegou a ser absolvido, mesmo com claros indícios de ter sido o mandante do crime, mas depois foi condenado a 30 anos de prisão. Reginaldo também recebeu a mesma condenação. Clodoaldo Batista chegou a se aproveitar do regime aberto para fugir, e Rayfran foi condenado ao regime semi-aberto.

Dorothy Stang também militava contra o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, um projeto que a memória curta de muitos ignora ter sido originário da ditadura militar. Era um projeto dentro daquela megalomania da Era Médici, do "milagre brasileiro", que tentou construir a rodovia Transamazônica, que passava pela região.

Atos que lembram a vida da missionária, por isso mesmo, também representaram mais um protesto contra a usina de Belo Monte, que só favoreceria os grandes fazendeiros locais. Sabe-se que o projeto não traz benefício algum para o povo da região do Alto Xingu, afetará negativamente as tribos indígenas, que perderão uma de suas reservas remanescentes, e o impacto ambiental será devastador.

A luta de Irmã Dorothy, mais brasileira que muitos dos proprietários de terras que, nascidos no Brasil, preferem defender o capital estrangeiro, é relembrada e herdada por muitos ativistas. Infelizmente, vários deles também são abatidos pela pistolagem, no meio do caminho.

Em outra localidade paraense, a de Nova Ipixuna, o casal de agricultores José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, também envolvido na campanha pela reforma agrária e pela preservação ambiental, foi morto numa emboscada em 2011. Um outro agricultor que viu os assassinos do casal também foi morto, pouco depois.

Por isso a situação no Pará é muito séria. E se verificarmos bem, o outro Pará, o "Pará-Iso", a coisa também não é tão maravilhosa assim na dita "cultura das periferias". O tecnobrega, seguindo a cartilha do forró-brega, também esconde um mercado cruel, alimentado pelo mesmo latifúndio paraense do interior, que possui influência político-econômica na capital.

Junto aos barões da grande mídia paraense, o latifúndio patrocina essa cena musical para, através da "Disneylândia do mau gosto", imobilizar as classes populares a pretexto delas possuírem seu "movimento cultural", sendo desencorajadas a lutar por reforma agrária e pela justiça no campo.

Assim, o povo vai que nem gado para consumir os eventos brega-popularescos, se esquecendo das vítimas dos conflitos de terras, enquanto enriquecem os barões do entretenimento que estão por trás do mercado "alternativo" e "independente" do tecnobrega.

Segundo reportagens do jornal Hora do Povo, o tecnobrega (assim como o forró-brega, o "funk carioca" e outros estilos popularescos em todo o país), se baseia na exploração quase escravista dos cantores, músicos, dançarinos e equipes técnicas a serviço desse entretenimento todo.

Portanto, uma coisa costura a outra. Se há dois Parás, um "explosivo" e outro "calmo", é bom desconfiar desse discurso. Como um professor tecnocrata da Fundação Getúlio Vargas pode julgar a realidade do Pará de longe no seu luxuoso apartamento no Rio de Janeiro?

O tecnobrega sempre teve o apoio da grande mídia local, ganhou o apoio imediato da velha mídia nacional e é sustentado, mesmo que de forma indireta, pelos mesmos latifundiários que derrubam árvores e metralham ativistas sociais. E aproveitam de todo o ideário de subemprego, alienação, baixa qualidade de vida e conformismo da "cultura" brega, que trava a evolução social das classes populares através de um projeto ideológico conservador de "preservação do mau gosto".

As elites adoram o brega. Mas não são elas que sofrem com esse embuste todo. E não são elas que sabem que, por trás dessa "maravilhosa cultura popular", existe todo um controle ideológico dos barões da mídia e do latifúndio para distrair as massas enquanto gente como Dorothy Stang e outros são assassinados sob a sombra da impunidade.

Portanto, o Pará ainda não é um paraíso. Ele continua sendo um inferno até que os olhos do país pudessem vê-lo sem visões míopes e "alegremente" contraditórias.

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