quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A IDADE COMO PRETEXTO PARA CERTAS TESES



Por Alexandre Figueiredo

Sabe-se que muita gente se sente incomodada quando este blogue critica severamente certos intelectuais ainda dotados de visibilidade e projeção.

Mas é preocupante que o futuro da cultura popular esteja nas mãos desses intelectuais cuja visão, em que pesem os mais diversos malabarismos retóricos, não representa ruptura alguma com o mercadão popularesco dominante, antes fosse apenas uma "reformulação" do mesmo processo, uma reciclagem em novos contextos.

Numa época em que existem transformações sociais profundas, é mister que questionemos, até com alguma energia, o que essa intelectualidade "dona" da cultura popular defende. Deixemos o mundo de cor e fantasia de lado, e percamos o medo de ver totens serem derrubados, na medida em que suas ideias, antes tidas como "verdadeiras", mostram suas sérias contradições.

Pois é o que se observa na abordagem de Pedro Alexandre Sanches. Em seus textos recentes, o jornalista cria da Folha de São Paulo, mas aparentemente ligado à intelectualidade de "centro-esquerda", mesmo assim anda fazendo certas "urubologias", que é o termo usado quando alguém tenta desqualificar o senso crítico alheio em torno de comentários reacionários.

Já dissemos que Sanches - que, no fundo, possui uma noção de "liberdade" não muito diferente da sua "xará de sobrenome", a blogueira cubana Yoani Sanchez - havia desqualificado as análises críticas ao brega-popularesco não apenas pela batida alegação de "preconceito" (tão batida que soa inconvincente e tendenciosa), mas como "higienismo" e outros adjetivos piores.

"VINTE E POUCOS ANOS"

Cego na certeza da sua concepção de "cultura popular", Sanches (o Pedro, não a Yoani, mas isso não influi muito) não suporta que a "cultura de massa" seja criticada tal qual se critica na Europa e nos EUA. E tenta desviar o debate numa falsa analogia do consumismo do entretenimento popularesco daqui com os movimentos sociais de fora. Analogia falsa, tendenciosa, que não tem o menor sentido prático.

Agora Sanches tenta enfatizar a questão da idade, de modo que as pessoas de "vinte e poucos anos", para ele, não dispõem dos "preconceitos estéticos" dos mais velhos. Ele tenta trabalhar isso num discurso claramente positivista, dentro de abordagens diversas que diluem conceitos de Auguste Comte, Francis Fukuyama em clichês da Contracultura, do Modernismo e do Tropicalismo.

Só que os rapazes e moças que trabalharam o projeto do "poder jovem" nos anos 60, no entanto, não prescindiam da lição dos mais velhos. Pelo contrário, eram capazes de ler um Herbert Marcuse, justamente um teórico de estética, tema no qual a intelectualidade etnocêntrica brasileira sente alergia.

Isso se vê tanto no artigo que Sanches escreveu sobre o Brega Pop Cult, na Caros Amigos de dezembro passado, e no texto que escreveu sobre o Coletivo Fora do Eixo, na revista Fórum deste mês. Neste último, Sanches enfatiza, animado, que um manifestante do congresso Fora do Eixo, realizado em São Paulo no final do ano passado, era "nascido em 1988".

Fica muito estranha essa ênfase na idade, porque ela não é critério algum para a melhor ou pior compreensão da coisa. Eu mesmo sou da mesma geração desses intelectuais festejados e tenho dois anos a menos que Pedro Sanches. Nasci em Florianópolis, mas fui criado em Niterói e tenho sangue baiano. E já andei muito pela periferia, vi muito subúrbio por perto.

Posso dar consideração a um Noam Chomsky, um Oscar Niemeyer, como a um jovem de 16 anos. O que está em jogo não é a questão biológica, mas a qualidade das ideias. Desviar o problema para questões etárias, raciais, regionais não resolve coisa alguma.

Pelo contrário, o uso da questão etária como pretexto para afirmação de certas teses traz um aspecto muito suspeito, que é de louvar aqueles que, mais jovens, não tiveram acesso às questões e dilemas enfrentados pelos mais velhos.

MEMÓRIA CURTA

O ponto mais perigoso disso tudo é que os mais jovens são cortejados por Sanches justamente porque eram muito novos para terem acompanhado a fase "Folha de São Paulo" do jornalista. Por isso eles, que não estiveram na faculdade nessa época, podem ser facilmente manobrados pelo tradicional hábito da "memória curta", um instrumento usado por muitos oportunistas, na história do país, para ocultar posições comprometedoras.

Infelizmente, num Brasil dominado pela velha mídia - na qual, queiram ou não queiram, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Carlos Eduardo Miranda foram criados - , os mais jovens foram desprovidos de referenciais culturais relevantes e de abordagens críticas que a burocracia educacional, seja pela desqualificação do ensino fundamental, médio e superior, público e privado, lhes privou de ao menos tomar conhecimento.

E isso é decisivo para que uma elite de intelectuais "culturais" se aproprie de um repertório discursivo de clichês modernistas e de todo um aparato discursivo e visual "arrojados", falsamente "militantes", para convencer os mais jovens, que não dispõem de conhecimentos para avaliar criticamente a situação.

O senso crítico é apenas uma palavra morta citada no enunciado. Esses intelectuais reprovam o senso crítico, só admitindo a "opinião crítica" dentro de clichês que diluam o processo opinativo e analítico ao que há de mais inócuo e inofensivo possível. Eles querem uma "problemática" sem problemas, uma "inquietação" que possa inquietar todo mundo, menos o "sistema".

Por isso, os mais jovens são sua potencial massa de manobra. Esses intelectuais, sobretudo Sanches, deveriam agradecer a velha mídia, em vez de dar seus beliscões tendenciosos. Afinal, foi a velha grande mídia que transformou os jovens que dão ouvidos e olhares a o que esses intelectuais dizem ou escrevem e os tratam como semi-deuses.

De outra forma, a pretensa superioridade desses intelectuais "donos" da cultura popular seria questionada, e suas contradições desmascaradas até nos recintos de suas palestras. Por isso essa intelectualidade, em vez de "atacar" a velha grande mídia, pelo menos deveria ser mais coerente e agradecê-la pelos subsídios ideológicos que resultaram no tecnobrega, "funk carioca" e de todo o brega-popularesco em geral.

Pedro Alexandre Sanches, assim como seus pares, tem uma dívida muito grande com a Rede Globo e a Folha de São Paulo, que difundiram o brega-popularesco tão defendido pelo jornalista. E que fizeram muitos jovens ficarem vulneráveis à manipulação ideológica, primeiro da velha mídia, segundo da intelectualidade etnocêntrica.

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