domingo, 5 de fevereiro de 2012

GREVE DAS PMS E 'TROPICARLISMO'



Por Alexandre Figueiredo

Repete-se o caos que ocorreu em julho de 2001, quando a Polícia Militar fez greve em Salvador, pedindo melhores salários. Tanto naquela época quanto agora, vários homicídios ocorreram por conta da insegurança, que permite que a criminalidade aconteça sem o policiamento local.

Em cinco dias, já foram mais de 83 assassinados em Salvador, e o número parece que tende a crescer, apesar das forças federais do Exército terem sido enviadas para a capital baiana. É o mesmo caos ocorrido em 2001, com uma grande diferença: eu e minha família não moramos mais em Salvador, como era naquela época, mas na famosa cidade vizinha da terra natal da cantora Cláudia Leitte.

Hoje Caetano Veloso, colunista de O Globo, escreveu um texto expressando saudades da liderança de Antônio Carlos Magalhães. É certo que o cantor reclama das figuras políticas do prefeito soteropolitano, João Henrique, e do governador da Bahia, Jacques Wagner, que de fato não são grandes líderes e parecem viver do fisiologismo político. Mas Caetano, embora admita que ACM seja um líder político de velha linhagem, afirma da "lacuna" que ele deixou no Estado.

ACM não foi um líder democrático. Suas virtudes estão apenas dentro dos limites urbanísticos e tecnológicos de transformação de Salvador. Mas o "painho", em contrapartida, promoveu um modelo de populismo conservador, patrocinando, junto a seus aliados radiofônicos, a mediocrização cultural da música baiana, deturpando o Carnaval local.

É até risível ou constrangedor, dependendo do caso, ver que os antigos "filhotes" político-midiáticos de ACM, como Mário Kertèsz e o ruralista Marcos Medrado, hoje reneguem a herança do "painho", que tanto os criou politicamente e os presenteou com rádios FM, transformadas pelos dois beneficíarios em verdadeiros engodos midiáticos (a Rádio Metrópole, então, parece uma emissora AM esclerosada, algo como a "CBN de porre").

Oportunistas, os dois empresários, Mário e Marcos, que andam a brincar de radiojornalismo às custas de clichês caricatos do setor, tentam enganar a população baiana com um pseudo-esquerdismo grosseiro, cheio de contradições e equívocos. Neste sentido, Pedro Alexandre Sanches pode ser um pseudo-esquerdista patético, mas é um pouco mais esperto que os dois "radialistas".

Mas o "tropicarlismo" de ACM, mesmo assim, deixou marcas até neles e em outros que embarcaram com gosto no liberal-populismo do "painho" e hoje cospem nos pratos de vatapá e caruru que comeram no bacanal carlista.

Até na intragável axé-music - o mercadão imperialista do Carnaval baiano com seus ídolos se achando "donos" da cultura baiana - vemos pseudo-esquerdismo até na ex-dançarina do Gang do Samba, Rosiane Pinheiro, que se filiou ao PT dentro do consentimento da ala fisiológica do partido, a mesma que transformou o antigo Partido dos Trabalhadores numa torre de babel.

Imagine então se Bell Marques passar a adotar uma postura pseudo-esquerdista? O líder do Chiclete Com Banana, grupo musicalmente medíocre e cuja única coisa que sabe fazer é criar pseudo-marchinhas que falam dos próprios umbigos, é uma espécie de "Eike Batista" da música baiana, sonegador fiscal e péssimo para assistir novos talentos ou integrantes de banda adoecidos (como no caso do guitarrista Jonny).

Isso seria o mesmo que o FMI fazer protesto contra o imperialismo norte-americano. Nem George Soros, o "Naji Nahas" globalitário, seria capaz de tal pseudo-esquerdismo. Mas no país do Febeapá, todo absurdo é possível. Sérgio Porto poderia ressuscitar só para processar o Brasil por tamanhos absurdos. E seria indenizado em dobro: parte para ele, parte para seu alter ego, Stanislaw Ponte Preta.

Voltando a Caetano Veloso, ele havia manifesto seu fascínio por ACM. E foi muito beneficiado quando o político baiano, há cinco anos falecido, passou a ser o senador durante a Era FHC, sendo o chefe oculto de Fernando Henrique Cardoso, algo como um dublê de "primeiro-ministro" num regime presidencialista, enquanto mandava seus aliados botar dinheiro na axé-music e empurrar os grupos do gênero até no Sul e Sudeste.

O brega-popularesco cresceu sob o patrocínio de Toninho Malvadeza. A axé-music, então, viveu momentos de glória: durante toda a Era FHC, além de Ivete Sangalo e Chiclete Com Banana terem crescido no poder midiático, grupos de "pagodão" como É O Tchan, Terrasamba, Companhia do Pagode, Gang do Samba e Harmonia do Samba viraram "sucessos nacionais".

E como rola muito, muito dinheiro na axé-music, falta dinheiro em outras coisas. Falta dinheiro para a Saúde, para a Educação, até jornais para a Biblioteca dos Barris, mas nunca falta para a axé-music. Que já recebe verbas da iniciativa privada, das multinacionais, talvez do próprio George Soros. Mas também recebe dinheiro do Estado.

E essa enxurrada de dinheiro aumenta o poder dos empresários de blocos, enquanto a cultura baiana se degrada, obrigando os artistas de qualidade migrarem para São Paulo ou Belo Horizonte à procura de um espaço (já difícil nesses lugares) de expressão. Ou então o pessoal terá que aceitar ser cooptado pelo mercadão axézeiro, que só aceita outras expressões musicais desde que associadas de alguma forma à pretensa "diversidade" da axé-music.

E, infelizmente, as lições tropicalistas de Caetano Veloso sucumbiram a esse deslumbramento à indústria cultural. Pelo menos ele se apropriava (e se apropria) das tendências musicais, boas ou ruins, com algum conhecimento de causa ou consciência da polêmica. Pior é Ivete Sangalo e sua "genérica", Cláudia Leitte, que pegam carona em qualquer coisa pelo mais puro e bruto senso de oportunismo.

Enquanto isso, o povo baiano sofre com a violência e já se fala no "Desocupa Salvador". Não é à toa que ficou muito mais fácil ver automóveis com chapa de Salvador em outras cidades do país.

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