terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"FUNK CARIOCA" NÃO TEM FUTURO



Por Alexandre Figueiredo

O "funk carioca" foi mais um fenômeno de retórica do que de arte ou cultura. Musicalmente, o ritmo conta com falhas sérias, e seu sucesso se deveu muito mais a uma engenhosa e sutil campanha intelectual e midiática, que vendia bosta como se fosse carne de primeira.

A retórica pró-funqueira, defendida sobretudo por Hermano Vianna, Fernanda Abreu e Pedro Alexandre Sanches, mas corroborada com gosto por gente "insuspeita" como Ali Kamel, Gilberto Dimenstein e Nelson Motta (na sua fase "Instituto Millenium"), foi apenas um desperdício de argumentos, muitos deles risíveis, só para manter um ritmo no seu sucesso comercial, através de um lobby que envolve muita grana por trás.

Mas o "funk carioca", que tenta atribuir seu futuro às mesmas justiças recebidas pelo samba e pelo jazz no passado, mostra, nos seus CDs e nas suas "canções", que seu futuro é simplesmente o fim. Repetitivo e chato, o ritmo abusa no seu pretensiosismo, na sua demagogia, tudo para enriquecer seus maiores interessados, os empresários-DJs, cada vez mais ricos.

Não, a história da humanidade nem sempre se repete. Não temos os mesmos chiliques moralistas de 1910, quando até uma inocente exibição de um pezinho feminino causava horror nas famílias. Isso é muito diferente do que nos horrorizarmos com traseiros enormes siliconados que aparecem em close nas televisões, até na hora do almoço.

No tempo de nossos bisavós ou trisavós, o moralismo era realmente rígido demais. Mas não nos iludamos que o "funk carioca" seja beneficiado por uma flexibilidade moral maior. Não. Até porque, do contrário do samba e do jazz, o "funk" aposta em valores retóricos, que tratam o ser humano como se ainda fosse um hominídeo pré-histórico, tamanho o rol de grosserias e baixarias que nenhuma "melhoria" do gênero pode superar.

Musicalmente, então, o que poderíamos esperar no "funk" uma evolução simplesmente não houve, e nem haverá. Primeiro, pelas suas caraterísticas inerentes, um DJ que é o chefão de todo o negócio, e uns MCs falando letras grotescas ou pseudo-contestatórias. Segundo, porque o ritmo não vai muito além de suas cinco "variações", todas elas apenas pequenas variações conforme o segmento de mercado.

Dessa forma, nós temos apenas cinco "variações" de uma só mesmice:

1) O dito "funk de raiz", destinado a ludibriar ativistas sociais e intelectuais.

2) O tal "funk comercial", reforçado sobretudo pelas musas "popozudas".

3) O "proibidão", considerado tematicamente mais "picante".

4) O "funk melody", destinado "para toda a família".

5) O "funk exportação", feito através dos delírios mixados pelos empresários-DJs de nome, tudo para turista estrangeiro ver.

Mas, fora essas "mudanças de embalagem", não há muita variação musical. Se existe "riqueza" no "funk carioca", só a dos empresários-DJs, podres de ricos, que há até rumores de que alguns deles tornaram-se latifundiários, a exemplo do que ocorre na axé-music, no "sertanejo" e no tecnobrega, por exemplo.

Não há uma formação musical, nem informação musical, e os referenciais sócio-culturais são lamentáveis. Isso é preconceito? Não, até porque tal constatação provém de uma análise cuidadosa.

Até porque nós, que contestamos o "funk carioca", somos obrigados a ouvi-lo e conhecer o ritmo e seus ídolos, porque nas ruas alguém toca esse tipo de som e seus ídolos e musas aparecem nas páginas dos jornais popularescos. E nós sabemos também que o ritmo serve de pano de fundo para a transmissão dos mais baixos valores morais às classes populares.

O pior é que a intelectualidade, no seu "relativismo" ideológico, tenta dizer que os baixos valores morais só são "baixos" para nós, mas para o povo pobre "não". Esses intelectuais tiram sarro da burrice do povo pobre, legitimando a miséria que, sabemos, não é culpa dos pobres.

APOLOGIA INTELECTUAL DA POBREZA

Mas eles têm que manter os valores e os símbolos desse estilo de vida, através da apologia da pobreza do discurso intelectual pró-funqueiro. Sob o pretexto de defender o "outro", na verdade o isola num contexto de inferioridade social que só é "inferior" para nós.

Um discurso muito perverso, apesar das palavras "bondosas". Afinal, o povo é entregue à ignorância, à miséria e à baixa qualidade de vida e seus valores mais baixos, e, em vez da intelectualidade defender sua melhoria de vida, transforma essa pobreza em algo "glamourizado", num "espetáculo" para o deleite esnobe desses mesmos intelectuais, ao lado de socialites, promotores de eventos e - sim, isso mesmo - barões da velha grande mídia.

Os mais baixos valores sociais são expressos "numa boa" pelo "funk", sob os aplausos até de educadores desprevenidos. O machismo, o banditismo, o vandalismo, o estímulo ao ódio conjugal, a pedofilia, o ódio cego à qualquer polícia, o sexo selvagem, tudo isso é visto como "valores modernos" quando eles se relacionam às favelas. Associado ao "funk", até os piores umbrais são vistos como "paraísos" pela intelectualidade caolha e paternalista.

Em outras palavras, esses valores só são reconhecidamente ruins quando é do lado da sociedade "civilizada", que cobra compostura para uma Gisele Bündchen. Mas quando é do lado da favela, esses valores são "positivos", e muitas mulheres-frutas, muitas popozudas fizeram coisas piores do que fez a senhora Tom Brady e até cientistas sociais acham isso, pasmem, expressão "natural" de um "moderno feminismo popular".

Por isso, o "funk carioca" não tem futuro. A adoção do "funk" pelas elites, um caminho tido como seu "possível" futuro, apenas é uma ampliação de mercado, mas não trará qualquer evolução artística. Tanto faz um grupo de MPB performática adotar o "funk", uma cantora de MPB eclética cantar o "Rap da Felicidade" em arranjo bossa-novista que dará no mesmo. Os funqueiros, de sua parte, continuarão fazendo o que sempre fizeram.

E o que se vê nos mais recentes sucessos funqueiros é sempre o mesmo som: um amontoado de sons sampleados de buzinas mesclados a um scratch (movimento de um disco de vinil com as mãos sobre uma vitrola) que imita som de galope, um MC e uma MC falando baixarias e um outro MC balbuciando (tipo "tchuscudá, tchuscudu-tchuscudá").

Pode variar o MC ou a MC, é sempre o mesmo som. A inserção do "tamborzão" como meio emergencial para fazer o "funk carioca" digerível para turistas, já que de resto o hoje chamado "funk de raiz" não era mais do que uma reles imitação do miami bass, já é uma coisa datada, e o ritmo tem sérias limitações artísticas, que já o fazem se desgastar rapidamente.

Talvez o caminho seja o resgate do hoje conhecido "funk autêntico", de Tim Maia, Cassiano, Hyldon, Gerson Kombo e Banda Black Rio, ou as fusões de samba e soul do sambalanço de 1959-1961 e do samba eletrificado de Jorge Ben Jor a partir de 1963. Isso, sim, tem futuro, porque são expressões musicais ricas, com seus bons cantores, instrumentistas e sua dignidade, mesmo com alguma malícia.

Mas não se engane em ver o futuro dessas expressões autênticas nas mãos de outros oportunistas, como o "sambão-jóia" dos cafonas "abrasileirados" de 1968-1972 ou de seu filho direto, o "pagode romântico" ou sambrega dos anos 90 até agora. Esses são tão oportunistas e medíocres como os funqueiros, e também não terão futuro, até porque seus ídolos veteranos já perdem fôlego em criar coisas novas, se perdendo em músicas de trabalho burocráticas ou na preguiça dos sucessivos CDs e DVDs ao vivo, lançados um atrás do outro.

Simplesmente a mediocridade cultural não tem futuro. Não adianta a intelectualidade reclamar de "preconceito". Até porque os verdadeiros preconceituosos são aqueles que defendem a mediocrização cultural a pretexto da "legítima expressão das periferias".

O povo pobre precisa de respeito.

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