terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A FORMAÇÃO CONSERVADORA DE PEDRO ALEXANDRE SANCHES


SERÁ QUE MOSCA NA SOPA TAMBÉM NÃO PASSA DE UMA "DESPREZÍVEL QUESTÃO DE GOSTO"?

Por Alexandre Figueiredo

O jornalista Pedro Alexandre Sanches, sabemos, tem uma formação bastante conservadora. E não é só pela influência da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso e pela visão de "fim da história" de Francis Fukuyama que Sanches adapta com precisão nos seus textos culturais, mas também pela preocupação dele em evitar a discussão de questões estéticas e de gosto.

Mais uma vez ele apela para essa paranoia no texto de Caros Amigos sobre a "riqueza musical de 2012", na edição deste mês. Juntando Michel Teló e Emicida, Sanches, ao falar do cantor de "Ai Se Eu Te Pego", tentou fazer dele um "coitadinho", coisa que ele faz muito, juntando as influências de Paulo César Araújo com Hermano Vianna.

Aí o colonista-paçoca, "comovido" com a alta rejeição recebida por Teló, reforçou sua solidariedade ao ídolo breganejo citando até a versão em inglês do seu maior sucesso, como "prova" do suposto potencial mundializado do cantor.

Então, Sanches investe na tese de que temos que abandonar as questões de gosto e darmos valor a qualquer ícone da mediocridade cultural que tenha a palavra "popular" gravada na testa. E, ao desaconselhar que avaliemos as questões de gosto, o jornalista acaba mostrando seu equívoco evidente.

AFINAL, QUEM É QUE GOSTA DE BREGAS E DERIVADOS?

Recentemente, o cantor inglês Morrissey, que eu admirava desde os anos 80, como fã dos Smiths, disse a respeito da imposição da mídia ao público de consumir "bens culturais" duvidosos: "Você não tem a permissão de escolher a canção que quer escutar. Você é bombardeado na cabeça com música que outros escolhem para você ouvir. E assim ela se torna insignificante'.

Até parece que Morrissey fala sobre o Brasil. Mas a frase do sensato cantor inglês, longe da esfera de sonho dos intelectualóides mais influentes em nosso país, fala muito sobre as questões que estão por trás do "gosto popular".

Afinal, quem é que gosta hoje de alguma coisa? O brega-popularesco parece espontâneo, à primeira vita, mas na verdade essa pseudo-cultura "popular" é fruto de uma propaganda não muito diferente do que as de automóvel, por exemplo.

Afinal, ninguém realmente gosta de Alexandre Pires, Michel Teló, Tati Quebra-barraco, Valesca Popozuda, Chitãozinho & Xororó, Mr. Catra. Todos eles representam o mais rasteiro "pop comercial" brasileiro. São empurrados por rádios controladas por políticos, latifundiários, sob o patrocínio de multinacionais e coisa e tal.

Não há como botar culpa no povo pobre por isso. Afinal, "gosto" é uma questão que encontra muitos problemas no Brasil. Mas a defesa da intelectualidade etnocêntrica - na qual Pedro Alexandre Sanches faz parte, como um de seus astros maiores - investe na "ditabranda do mau gosto", como se o "mau gosto" fosse uma proposta desafiadora e corajosa do que esses intelectuais entendem como "cultura popular".

Não é. Até porque esse império do "mau gosto", tido como "revolucionário", nada fez de concreto em favor das classes populares e nem em benefício do patrimônio cultural brasileiro. Em nenhum momento qualquer melhoria foi feita neste sentido.

GOSTO ENVOLVE PRAZER, VONTADE, CONSCIÊNCIA CRÍTICA

Sanches é que vê riqueza musical em qualquer bosta. Se ele pensar em culinária tal qual pensa em música, achará que não há problema em haver mosca na sopa ou fezes em churrasco. Tudo "tem valor", "não precisamos gostar", "esqueçam as questões de saúde".

Daí que, nesse caso todo, a questão do gosto importa, sim. Porque gosto se discute, lembrou bem o professor baiano Ruy Espinheira, até porque ninguém gosta naturalmente de coisa alguma na vida.

A questão de gosto envolve questões de prazer, vontade, consciência crítica. Se ocultarmos as questões de gosto e de estética, simplesmente eliminamos boa parte do sentido comunicativo do entretenimento, para nos conformarmos com o aparente êxito de referenciais de valor duvidoso jogados aos montes para o grande público.

E essa análise é tão certa que Pedro Alexandre Sanches, o arauto da velha grande mídia que finge combatê-la, no fundo só quer salvar o mercado, as rádios FM, a TV aberta, tudo isso que ele finge falar mal e reprovar, mas aprova com gosto.

Isso porque ele deve ter aprendido com as velhas gerações conservadoras sobre o chá de losna, de um gosto muito amargo, mas que a criançada era obrigada a tomar. "Não é para gostar, é para tomar", diziam os pais dessa época. Sanches nasceu no AI-5, mas como era um contexto conservador, talvez se lembre de tais lições ainda prevalecentes no Brasil rural de 1969-1972.

Portanto, não dá para entender por que o conservadorismo ideológico de Pedro Alexandre Sanches, tingido em vernizes pseudo-modernos, são servidos ainda para plateias esquerdistas deslumbradas. Ou talvez dê para entender, sim.

Afinal, o Brasil não tem tradição esquerdista, e ao lado de uma esquerda emergente (Altamiro Borges, Emir Sader, Rodrigo Vianna), temos pseudo-esquerdistas como Pedro Sanches e Ronaldo Lemos para enganar a plateia vendendo o status quo brega-popularesco como se fosse "o novo folclore brasileiro".

Tudo sob as bênçãos do capitalismo estrangeiro, da velha mídia brasileira e seus asseclas. Não precisamos gostar dessas porcarias. Até porque ninguém gosta, mesmo. A submissão midiática das multidões pouco esclarecidas é que as faz se submeterem ao que a velha mídia impõe como se fosse a "verdadeira cultura popular".

E todo mundo consome como se estivesse "gostando", mas nisso o povo se anula como pessoas pensantes e atuantes, enquanto deixa de ter personalidade e vontade próprias.

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