domingo, 19 de fevereiro de 2012

A DECADÊNCIA DA AXÉ-MUSIC, O "BBB" DA MÚSICA BRASILEIRA


O GRUPO LEVA NÓIZ - O comercialismo musical baiano levado às últimas consequências.

Por Alexandre Figueiredo

A axé-music baiana está em decadência. Não levemos a sério as propagandas que mostram sempre os mesmos medalhões do deturpado e mercantilizado carnaval baiano "em alta", porque o marketing tem desses truques, mesmo em campanhas travestidas em reportagens, monografias, documentários etc.

Como um Big Brother Brasil da música brasileira, a axé-music leva como ênfase exagerada a curtição vazia, alcoolista, compulsiva e consumista. Valores sócio-culturais são deixados em segundo plano, isso quando são considerados. E, além do mais, tudo virou um espetáculo de muita arrogância e estrelismo.

Em entrevista recente, uma de suas estrelas, Ivete Sangalo, disse condenar o estrelismo. Certamente deve condenar o estrelismo dos outros, mas não o dela, que há muito tem na superexposição na mídia a qualquer custo (um dos fatores de estrelismo) a sua obsessão pessoal.

É constrangedor ver Ivete Sangalo, Bell Marques, Durval Lélis e outros mostrarem sua arrogância e megalomania nos trios elétricos. É constrangedor ver que eles integram um cenário musical considerado totalitário e imperialista, mas que pelo seu superficialismo artístico e pelo seu caráter exageradamente midiático (leia-se "velha mídia") começam a provocar sua decadência, até mesmo em Salvador.

Afinal, a axé-music, na sua cidade de origem, sufocava as outras manifestações culturais, apesar de todo seu papo de "diversidade" e "convívio harmonioso" (sic) de várias tendências culturais. Mas a verdade é que a axé-music só aceita as demais tendências quando puder cooptá-las, se apropriando delas para associá-las à sua imagem.

Não sendo assim, Salvador não pode ter um cenário de rock, de blues, de MPB autêntica, de reggae, de afoxé. Se não houver a apropriação por parte dos intérpretes de axé-music, nada feito. Os baianos de outros estilos que procurem um mercado em Recife, Belo Horizonte, Florianópolis e São Paulo.

Mas se a axé-music impede a livre expressão de outras tendências culturais em Salvador, com o mesmo cinismo quer impor sua reserva de mercado até em cidades cuja maioria da população não é naturalmente receptiva a esse estilo.

Mas, com uma ajudinha da famiglia Sirotsky, simpatizante do patrocinador maior da axé-music, o falecido senador Antônio Carlos Magalhães, a axé-music pode entrar em Florianópolis e Porto Alegre pela porta da frente, seja no Festival Atlântida (organizado pela Rede Brasil Sul), seja nas festinhas amplamente reportadas pela revista Caras, da Editora Abril.

"DONOS" DA MÚSICA BRASILEIRA

Foi preciso um incidente relacionado a uma epidemia de doença para os axezeiros, em Niterói, para o Niterói Folia ser cancelado por tempo indeterminado. Niterói, cidade tradicionalmente ligada à MPB experimental (Sérgio Mendes, Márvio Ciribelli e mesmo Dalto) e à cultura rock (vide a breve trajetória da Fluminense FM), até andou decadente culturalmente, como a imposição de sambrega, "funk" e até breganejo e forró-brega às populações pobres, mas mesmo assim tinha um ambiente pouco receptivo à arrogante axé-music baiana.

Mas em outras cidades, mesmo na região Sul, receberam os ídolos da axé-music de braços abertos, tudo às custas de muita campanha na mídia local. Mas esse esforço é mínimo, já que esses cantores, quase todos, aparecem na revista Caras, no Domingão do Faustão, no Caldeirão do Huck, na primeira página da Ilustrada da Folha de São Paulo e na revista Contigo.

Portanto, fica difícil a axé-music, pelo menos na parte de sua "elite" de cantores e grupos, dizer que "está fora da grande mídia", queixa tão comum e tão mentirosa de boa parte dos ídolos popularescos. A aparição deles na velha grande mídia chega a ser escancarada, e isso inclui até parte dos grupos de "pagodão" baiano, como Parangolé e Psirico.

Talvez essa desculpa pareça mais verossímil nas chamadas "segunda" e "terceira" divisões da axé-music. Nela se encontram os grupos de axé-music que ainda não conseguem repercussão seguramente ampla fora do país, como o Leva Nóiz, que correspondem à segunda divisão, ao lado de alguns grupos de "pagodão" mais famosos, porém restritos ao sucesso regional, como Guig Guetto e Oz Bambaz.

E há a terceira divisão, com outros grupos menos badalados, mesmo regionalmente, de "pagodão" (como Uisminoufay e Poder Dang) e todo o subproduto do mercadão baiano, o "arrocha" (de Silvano Sales, Nara Costa - espécie de Gaby Amarantos baiana - e Brazilian Boys), que podem ser cooptados regionalmente pelo Coletivo Fora do Eixo, diante de sua preocupação em criar um mercado supostamente independente em cada parte do país.

QUEDA DE VENDAS DE ABADÁS

Não é à toa que a velha grande mídia e as agências de publicidade andam veiculando a todo momento campanhas para atrair gente para o carnaval baiano. Nos últimos anos, a elite da axé-music iniciou sua séria crise ao descuidar de seu mercado interno na busca obsessiva de outras reservas de mercado.

Em Salvador, ocorre até um fato curioso. Enquanto a axé-music é vista, no resto do país, como mais uma tendência neo-brega existente no Brasil, em Salvador ela recebe o tratamento de um "ritmo de elite", tamanha é a fortuna e a fama de seus medalhões e tamanho o poderio econômico dos blocos carnavalescos.

Por isso um nome como Chiclete Com Banana, que se apresenta nos melhores locais na capital baiana, no Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, tem que se contentar com casas de espetáculos modestas, localizadas na Baixada Fluminense, no subúrbio carioca ou em São Gonçalo. Quando muito, uma emissora de rádio patrocina o grupo de Bell Marques e o coloca no Citibank Hall (antigo Metropolitan, antigo ATL Hall), na Barra da Tijuca, no Rio.

Mas essa crise só está começando. São sempre os mesmos barões da música comercial baiana: Bell Marques, Durval Lélis, Ivete Sangalo e Cláudia Leitte, torrando nossa paciência de tanto aparecerem na mídia. Aparece tanto que muita gente já começa a se cansar deles, e não são poucos, sobretudo em Salvador.

Eles se acham "donos" da música brasileira. Bell Marques já avisou que não aprecia o rock baiano, algo que está subentendido numa sátira ao Pai Nosso atribuída à divindade chicleteira, que se encerrava no verso "mas livrai-me do rock". No entanto, o "Chicletão" se apropria justamente do ritmo roqueiro, chegando mesmo a soar uma paródia do Santana do seu percussivo-guitarrístico primeiro LP, de 1969.

Ivete Sangalo, então, parece uma versão piorada de Caetano Veloso quando se refere à apropriação dos mais diversos estilos e tendências musicais. Caetano, com todo o seu pretensiosismo, pelo menos tem algum conhecimento de causa, sua inteligência é inegável neste sentido. Mas Ivete, sem a inteligência criativa do cantor-autor de "Alegria, Alegria", tão somente se apropria dos outros estilos pelo puro gosto de oportunismo.

Essa apropriação, longe de conseguir provar um aparente ecletismo, mostra seu claro oportunismo em querer aparecer. Ivete se apropria do Rock Brasil, do samba carioca, do Clube da Esquina, do reggae, da MPB em geral, que seu rosto, que poderia ser o de uma atraente morena de traços sensuais, já causa tanto cansaço pela superexposição que sua condição de "unanimidade nacional" já se desfez há muito tempo.

As passeatas do Cansei, que contaram com a "pequena" ajuda da "ídala", ajudaram muito na perda de sua aura "unânimemente brilhante". E a superexposição se deu de tal forma que ela teve que evitar participar de um disco de duetos com Fábio Jr. para não "se queimar" por aparecer demais. E, se ela sacrificou sua gravidez e pôs sua vida em risco até o oitavo mês pela obsessão de estar nos palcos, recentemente, quando contraiu séria enfermidade, ela teve que "sumir um pouco" por recomendações médicas.

Mesmo assim, a axé-music começa a cansar. Chegou-se ao fundo do poço quando Leva Nóiz lançou uma música com letra erótica envolvendo personagens em quadrinhos, música já adaptada pelos grupos de "pagodão". E a culpa vai para um mercado liderado pelos "grandes" da axé-music, porque estes criaram todo um "sistema de valores" que acabou resultando nessa baixaria toda.

Por isso, os abadás, fontes de renda dos grandes blocos carnavalescos, tiveram recentemente uma queda de 30% nas vendas. Uma rede de lojas de varejo teve que fazer uma promoção para levar premiados a curtir o Carnaval com adadás do bloco Eva. Sem falar da propaganda do evento já mencionada e em alta rotação até na TV paga.

No meio do caminho, o "pai da axé-music", Luiz Caldas, se aproveita de seu ostracismo para se juntar à legião de "coitadinhos" que se julga "discriminada" pela velha grande mídia mesmo quando nela aparece. E, dentro da mediocridade cultural reinante e avassaladora, o cantor de "Fricote" se autopromove como um pretenso "grande gênio" da nossa música, um truque demagógico que fez Michael Sullivan voltar às rádios e fez a rapaziada chorar demais com a morte de Wando.

Mas a mediocrização cultural, num mundo em transformações, começa a se desgastar. Que venham enchentes de lágrimas em prol dos "coitados" de hoje e amanhã. Talvez os medalhões da axé-music, quando virem a sombra do ostracismo chegando aos seus pés, venham também a posar de "coitadinhos" e "sem mídia". Mas até esse truque vai cansar.

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