quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

CRISE DO BRASIL E CRISE DAS ESQUERDAS



Por Alexandre Figueiredo

Posso parecer ingênuo no meu esquerdismo, mas isso não é verdade. Quando vejo acertos, elogio, mas quando vejo erros, critico seriamente. E, vendo esta foto, da privatização de um dos aeroportos brasileiros, na Bolsa de Valores de São Paulo, posso admitir que o governo Dilma Rousseff é decepcionante em muitos aspectos.

Nunca fui um sectário do PT, PSOL ou coisa parecida. Minha orientação é de esquerda porque acredito nos movimentos sociais e minha orientação é socialista. Mas isso não impede de dizer que as esquerdas brasileiras vivem uma crise, e apenas um ou outro esquerdista se destaca pela coerência constante de seus atos.

O Brasil, verdade seja dita, nunca teve uma tradição real de ser um país socialista. Sua orientação, pelo menos desde o século XIX, sempre foi capitalista e, em muitos momentos, a sociedade brasileira é predominantemente conservadora, mesmo quando tenta ser moderna. Daí o brasileiro ser provinciano até quando tenta curtir a onda techno, falar gírias, usar "tecnologia de ponta" (que sabemos não ser tão "de ponta" assim).

O Brasil, verdade seja dita, tem um grande medo de se progredir, seja em que orientação ideológica for. Mesmo dentro da perspectiva capitalista, o maior vício do Brasil é sempre o complexo de vira-lata, sempre apegado no seu provincianismo, no seu atraso, na sua breguice, e no jeitinho brasileiro, que é sempre disfarçar os problemas em torno de paliativos ou corrupções.

Esse medo de se progredir é mais grave do que aquele que se teve em 1964. País "favorito" do chamado grupo do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China, países considerados futuras potências mundiais), o Brasil tem uma séria tendência de ser passado para trás pelos outros três países que, com seus problemas graves, pelo menos têm um caminho certo para o progresso econômico e social, ainda que dentro de seus limites.

O Brasil, não. Imerso na obsessão de sua cafonice - um engodo de valores "sócio-culturais" tidos como "populares" que não levam o povo a lugar algum e não trazem melhorias concretas para os brasileiros - , nas suas corrupções, nos seus paliativos, na construção de "novos edifícios" com "andaimes velhos", o país não sai de seus vícios, e desde os anos 90 vivemos uma espécie de versão remix da República Velha, em adaptação high tech (nem tão high assim, vale lembrar).

Por isso o país vive um medo pior do que o de 1964. Naquela época, parte da sociedade brasileira tinha medo que o país avançasse no caminho gradual de desenvolvimento. 48 anos depois, é a mesma neura, o medo de que aquela morosidade meio cafona, meio demagoga, meio confusa, dos anos 90 venha a se encerrar.

Tudo parecia tranquilo quando o país estava mal, apenas com desenvolvimento econômico, tecnológico e urbanístico apenas como maquiagens modernizantes de um país atrasado. Coisa para investidor e turista estrangeiros verem. Era quando a harmonia reinava quando as pessoas só reclamavam pelas costas, nas conversas de botequins, cantinas e nas rodas de amigos em geral. E nos fóruns de discussão da Internet, também.

Mas, nos últimos tempos, quando posições assumidas marginalmente pela boca pequena, pela palavra miúda, nos grupos sociais fechados, surgem as divergências, as críticas violentas. É como se algum interlocutor tenha sido traído na sua discussão privativa e via que o outro questionador tinha alguma proposta para o país.

O maior medo é que os espectros de 1964 voltem. Não sabemos quem serão os neocons de amanhã, mas talvez eles estejam em pessoas rancorosas com as esquerdas e em outras a serem desiludidas quando não conseguirem cooptar as esquerdas para seus interesses escusos.

Sim, há corrupção na esquerda. Nunca disse que a esquerda é íntegra. O que vemos de gente do PT, PDT, PSB e PC do B votando em projetos de lei antipopulares é coisa de assustar. O que vemos de gente do PSOL e do PSTU defendendo causas estranhas também é preocupante. O que não faz do ato de ser esquerdista em si uma coisa inviável.

O maior problema é que as próprias esquerdas, salvo raras e honrosas exceções individuais, não sabem ser de esquerda. A "privataria" petista dos aeroportos, por exemplo, é um episódio que mancha o governo Dilma, na medida em que a presidenta também manifesta seu silêncio quanto à necessidade de regulação da mídia ou quanto ao processo de reforma agrária.

Mas mesmo na sociedade civil, a necessidade de regulação da mídia mostra o tom do atraso da sociedade. Uns não querem perder as popozudas, outros não querem perder os sermões de R. R. Soares e Silas Malafaia. Outros não querem perder o Chaves (não o presidente venezuelano, mas o comediante mexicano), outros não abrem mão de ficar com seu noticiário expreme-sangue dos fins de tarde. E há quem não queira perder o Big Brother Brasil, pasmem.

Há sempre alguém puxando o tapete quando o assunto é progresso social. E há gostos, preconceitos, valores, que se apegam à mediocridade reinante. De uma forma ou de outra. Seja até mesmo num moralismo conservador, seja na mediocridade cultural "populista", seja na tolerância à corrupção de uns, e no rancor ceticista demais de outros.

Não há propostas justas e coerentes que cheguem com firmeza ao âmbito da opinião pública. Há apenas alguns projetos "populistas", outros demagogos, outros moralistas. A maioria rejeitando os movimentos sociais, quando não os cooptam para interesses escusos.

Talvez o grande erro na crítica às esquerdas é esse rancor de gente em cima do muro, que parece não gostar de sindicalismos, movimentos estudantis, movimentos dos sem-terra, mas também não gosta de Executivo, Legislativo e Judiciário. Vivem num moralismo "nacional" que julga todo mundo corrupto. Mas não oferece alternativas no âmbito sócio-político. Só sabem reclamar.

O maior risco desse pessoal é que eles acabam sendo seduzidos por todo discurso "anti-petista" que vier pela frente, seja de um retrógrado como Reinaldo Azevedo, seja o canto-da-sereia de Yoani Sanchez. E isso é ótimo para os reaças de plantão, porque existe oportunista para tudo, até para a campanha contra a corrupção.

Portanto, o Brasil vive em crise, e as esquerdas são um reflexo dessa crise de valores, costumes, posturas, procedimentos. Há pretensão demais e propostas de menos. Há cobranças demais e responsabilidades de menos. Há muito reacionarismo travestido de progressista, há muito moralismo travestido de imparcial.

Devemos repensar o país, com humildade, respeito às instituições, com verdadeira preocupação com o progresso social. Não é fácil, mas é preciso que se revejam posturas e procedimentos, antes que mergulhemos em soluções golpistas camufladas no fácil maniqueísmo da corrupção permissiva e do moralismo niilista.

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