terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CRISE DO BIG BROTHER BRASIL NÃO DEVERIA SER ABAFADA


JAKELINE, ex-integrante do problemático Big Brother Brasil 12.

Por Alexandre Figueiredo

Talvez o maior cacoete da mídia progressista é se concentrar demais nas questões políticas e deixar abafar os problemas quando eles estão no âmbito do entretenimento.

É certo que casos como a desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, a greve da PM em Salvador e a farsa da "ativista" Yoani Sanchez chama muito a atenção, mas é no entretenimento e na cultura que as questões mais delicadas da sociedade deixam-se passar, e se temos uma péssima cultura, isso terá um preço muito caro para o povo no futuro.

Daí o risco de todos esses problemas e questionamentos abafarem a crise do Big Brother Brasil e fizerem desaparecer todos os questionamentos acerca do lamentável programa, uma das expressões do poderio manipulador da velha grande mídia.

A velha mídia, aproveitando a ocupação temática da agenda progressista a episódios como Pinheirinho, tenta ganhar tempo e trabalhar uma imagem "positiva" dos "brothers e sisters", num esforço para salvar a reputação do BBB. De Caras a Conta Mais, da cobertura do BBB 12 às próprias aparições dos ex-BBBs em sucessivas e repetitivas noitadas.

Isso porque personalidades políticas passam, cronistas políticos passam, mas os estragos culturais cometidos pela velha mídia, sob o rótulo de "popular", causam efeitos danosos no futuro, acostumando mal à população mais pobre, ou mesmo de classe média, na formação de referenciais e valores a serem defendidos amanhã.

Claro, isso não atinge o apartamento do sociólogo, do antropólogo, do sindicalista pelego, do jornalista progressista pouco crítico. Gente mais abastada e melhor informada, assinante dos pacotes mais avançados da TV paga, capaz de compreender muito bem um documentário da TV inglesa e de comprar livros estrangeiros pela Internet, eles pouco se preocupam com o "popular".

Os mais mal-intencionados, então, se preocupam menos ainda. Aliás, se preocupam sim, mas de outra forma. Se preocupam com as inquietações que as classes populares possuem no Oriente Medio, na Europa, nos EUA e até mesmo na Argentina e Chile. Por isso se empenham em manobrar o discurso, cortejando o "popular" da velha mídia como se fosse folclore de verdade.

Vieram as vozes em defesa do Big Brother Brasil. E não se fala da lamentável revista do ex-jurado de Sílvio Santos, Décio Piccinini, a Conta Mais. Fala-se mesmo dos narloquinhos, dos discípulos de Leandro Narloch que se escondem nas redações de uma Carta Capital, por exemplo. Ou de discípulos de Otávio Frias Filho que se refugiam nas páginas de Caros Amigos.

Esses, sim, pedem para que todos nós abafemos a crise do Big Brother Brasil e aceitemos que mais uma edição seja garantida para o ano que vem. Que voltemos a nos preocupar tão somente com o Oriente Médio, com o PSDB, com os jornalistas políticos.

Para eles, o "popular" é tipo prato feito de restaurante ruim. É ruim, mas já está feito. É estragado, mas serve-se assim mesmo. Sendo "popular", pode não ser bom "para nós", mas para o "outro" é uma maravilha.

Só que com esse raciocínio, cria-se o "etnocentrismo do bem". O povo "está feliz", diz a intelectualidade, pouco importa se ele é manipulado, se ele é enganado. Se é, em tese, associado às classes populares, está bom. Se o pessoal não tem dentes, está embriagado caído no chão, a intelectualidade desdenha os problemas e ri.

Sim, a mesma intelectualidade que é "divinizada" pela busca do Google. A mesma que é conhecida por sua "sabedoria", que muitos ainda têm medo de criticá-la. Mas é ela que, a pretexto de louvar o "popular", prefere ver o povo na degradação cultural, na imbecilização, na alienação.

E ainda diz que "somente nós" é que achamos isso alienação. Não dá para atribuir sabedoria na burrice alheia. Pelo contrário, atribuindo dessa forma, impede-se o povo pobre de melhorar de vida. E isso faz a intelectualidade etnocêntrica mais poderosa, enquanto ela arranca aplausos de plateias incautas.

E é por isso que devemos manter os olhos abertos. Não os olhos aparentes para vislumbrar com deslumbre mais um Big Brother Brasil, mas o olhar crítico que põe em xeque qualquer sentido de validade desse programa de péssima qualidade e valores sócio-culturais duvidosos.

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