terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

COMPROMISSO DA NOVA CULTURA POPULAR É ROMPER COM A CAFONICE



Por Alexandre Figueiredo

É uma grande ilusão que a nova cultura popular se desenvolva com os andaimes já apodrecidos do brega-popularesco. A cultura nova não compete a antigos cafonas que, "arrependidos", queiram se autoproclamar renovadores da cultura brasileira.

Muitos ídolos brega-popularescos desprezaram a MPB, achando que era "música de doutor", e fizeram da mediocridade cultural o caminho fácil para o sucesso. Só tardiamente recorrem à mesma MPB que desprezaram, tentam se associar desesperadamente a ela, fazem choradeira, dizem que "são vítimas de preconceito", reclamam demais nas entrevistas.

Choram o leite derramado e querem receber outro leite de graça. E aí querem renovar aquilo que, na verdade, quiseram destruir. Fizeram uma pseudo-cultura "qualquer nota", porque era a norma de sucesso nas rádios, era um atalho para a popularidade imediata e fácil. E aí, o tempo passa, as cobranças vêm, e eles, arrogantes e convencidos, ainda tentam se manter no mercado "mudando" de postura.

Vieram os ídolos brega-popularescos dos anos 1989-1992, os cantores de "sertanejo", "pagode romântico" e axé-music que, no final da década de 90, já eram reembalados e maquiados como uma pseudo-MPB das grandes gravadoras. Tudo o que fizeram foi apenas preencher, simbolicamente, um nicho que os artistas da MPB autêntica se recusaram a desempenhar, o de uma MPB pasteurizada, mercadológica, tendenciosa.

Foi fácil para os breguinhas de 1990-1992 - erroneamente tidos como "grandes artistas" graças a muita cosmética, muito marketing - seguirem as normas e preceitos que um grande nome da MPB autêntica não aceitaria seguir: gravar baladas açucaradas, canções dançantes com letras cafajestes, covers indicados por produtores, e até mesmo obedecer às regras sobre o que dizer ou não nas entrevistas.

Eram ídolos submissos, com falso ar de caixeiros viajantes, querendo entrar no grande time da MPB não por méritos próprios, mas por algum tendenciosismo oportunista. E, certamente, eles não se tornavam MPB, embora essa falsa informação seja amplamente difundida e apreciada como "verdade absoluta".

Isso se justifica porque esses ídolos considerados neo-bregas - ou seja, bregas que unem a influência dos ídolos cafonas dos anos 70/80 (de Waldick Soriano a Michael Sullivan) às regras pasteurizadas da dita "MPB burguesa" dos anos 80, que provocou o êxodo dos grandes artistas das multinacionais - apenas fizeram uma cosmética para parecerem "artisticamente superiores".

Eles passaram a se vestir melhor, ganharam um banho de técnica, possuem arranjadores a seu serviço - que fazem o trabalho todo, embora eventualmente ídolos do "pagode romântico", por exemplo, sejam creditados como "co-arranjadores", quando sua única contribuição é o pedido, tal qual um freguês de restaurante - , bons equipamentos, tecnologia de ponta e até equipes de assessores (e de troleiros).

Mas isso não os faz "verdadeiramente MPB", porque é só tocar o CD e se verá que são as mesmas breguices dos tempos da Era Collor, da Era FHC, apenas reciclados em "arranjos melhores". E ainda há o pecado de gravar sucessivos CDs e DVDs ao vivo, cheios de covers e dos mesmos sucessos, que na prática servem de tapa-buracos para a natural impotência criativa desses ídolos da mediocridade.

E fala-se de ídolos tidos como "sofisticados" pela revista Caras e pelo Domingão do Faustão. Mas há o outro lado, dos ídolos de segundo escalão desses mesmos estilos, que foram deixados de lado diante da competição acirrada. Como um Leandro Lehart, no caso do "pagode romântico". E há também estilos "polêmicos" como o "pagodão" baiano, o forró-brega, o tecnobrega, o "funk carioca".

Nenhum deles representa a renovação da MPB. Nenhum, com toda a certeza. Isso porque, se "pagodeiros românticos" e "sertanejos" tidos como "sofisticados" não conseguem mostrar qualquer competência artística, se nivelando a calouros de reality shows musicais (do porte de Ídolos e Astros), os "polêmicos" então nem possuem a cosmética para terem um verniz de "grandes artistas".

A mediocridade, neste caso, é ainda mais gritante. Eles só são cortejados por intelectuais que, com uma piedade paternalista, os adotam como "coitadinhos" em busca de algum lugar ao sol na cultura brasileira, e são falsamente vendidos como falsas promessas para o futuro da cultura brasileira.

Se os bregas "sofisticados" que aparecem no Domingão do Faustão, alugam o Madison Square Garden para gravar DVD ao vivo, ganham filme biográfico e cantam para presidentes norte-americanos, não convencem como "nova Música Popular Brasileira" (até porque eles perecem com muita facilidade, mesmo lançando novas músicas, meras sombras de antigos sucessos), os "polêmicos", por sua mediocridade ainda mais crua, também não conseguem convencer.

E qual é a solução para a nova cultura brasileira? Fazer um breguinha mais cibernético, mais performático, mais teatral e arrumadinho? Não, porque muitas dessas tentativas os "sofisticados" já fizeram e nenhum deles foi, a sério, considerado como MPB autêntica.

O futuro da Música Popular Brasileira terá que romper com toda essa cafonice dominante. É emocionalmente penoso, afinal aquele rádio portátil, aquela FM oligárquica, aquela TV aberta ligada o dia todo em casa, tudo isso acostumou mal os ouvidos das famílias.

Mas o futuro da cultura musical popular do nosso país é eliminar a cafonice, a choradeira "colonizada", a mediocridade, a inferioridade resignada, e voltar a ser como os antigos cantores populares, que faziam música de peito erguido, uma música popular que reinava soberana até 1964, quando a ditadura militar neutralizou a revitalização da música popular de raiz e despejou música brega nas rádios controladas pelo latifúndio e pelas oligarquias urbanas e suburbanas.

Romper com a cafonice, sem choradeiras, sem mediocridade, se comprometendo com a produção de melodias fortes, de qualidade, com letras que evitem baixarias e morbidez, evitando a vulgarização, a pieguice, o grotesco, aliando uma forte tradição nacional com uma eventual e independente assimilação de influências estrangeiras, tudo isso é o futuro da cultura brasileira.

Não é fácil dar exemplos, mas ao longo dos tempos se saberá que a cafonice dominante, seja ela maquiada pela cosmética televisiva, seja pelo pós-modernismo "fora do eixo", nunca será o futuro real da música brasileira, mas apenas uma continuidade do "mais do mesmo" brega-popularesco, que hoje não cria coisa alguma, apenas costurando tendências e criando falsas novidades, sempre feitas de retalhos de tendências cafonas já velhas, perecidas.

Romper com a ditadura das FMs popularescas, da TV aberta, da intelectualidade etnocêntrica, do tendenciosismo dos modismos, é um bom caminho para a renovação cultural realmente independente, realmente revigorante.

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