quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

COMO SE PÔDE IR AO MAIS BAIXO GRAU DE CREDULIDADE?



Por Alexandre Figueiredo

O exemplo da aceitação, deslumbrada e submissa, a um projeto como o Jornalismo nas Américas, mais um projeto do capitalismo norte-americano para "integração continental" da América Latina e do Caribe, mostra o quanto a opinião pública média brasileira chegou ao mais baixo grau de credulidade, de subserviência e de deslumbramento.

Sim, o pessoal que poderia ter uma visão um pouco mais racional e crítica da realidade acaba aderindo, com um sentimentalismo piegas, a qualquer proposta que pareça "inovadora" e "mais prática". Sucumbiram ao mais baixo grau da credulidade humana conhecido em nosso Brasil.

Imagine se um grupo de pessoas fora assaltado e o ladrão, em vez de dizer "Passem todo o dinheiro e seus objetos de valor!" diga "Eu sou funqueiro e preciso de tudo que vocês têm para pagar minhas contas". Os assaltados irão sorrir felizes e darão tudo que têm para o assaltante, até agradecidamente, pasmem, e ficando á própria sorte em nome de uma "causa nobre".

Sim, porque a essas alturas da mediocridade cultural dominante, ser funqueiro virou "causa nobre". Basta seus ideólogos, como todos os ideólogos da mediocridade cultural dominante, dizerem a mesma retórica que elogie o que eles entendem por "periferias" e que falem naquilo que eles concebem como "novas mídias" e, pronto, dá unanimidade na certa.

Qualquer um vira um "deus" quando fala em "novas mídias", de um lado, e "cultura das periferias", de outro. Suas ideias podem ser duvidosas, a retórica confusa, a visão elitista, e em vez de coerência, há toda uma abordagem sentimentalista, piegas, persuasiva até demais.

No entanto, o ideólogo que apostar nesses truques, tal qual um mágico de circo, um perfeito ilusionista da palavra, torna-se unanimidade da noite para o dia. Quase todo mundo vai falando bem do palestrante em questão e será preciso ter muita visibilidade para se falar mal dele e desmascarar suas ideias confusas e cheias de contradições.

O caso Jornalismo nas Américas, assim como o "funk carioca", são exemplos gritantes de como a credulidade humana pôde chegar em nossos dias. Se estivéssemos em 1961, 1964, ou mesmo no primeiro semestre de 1968, o projeto do Centro Knight da Universidade do Texas seria visto como uma campanha do imperialismo norte-americano para castrar a imprensa latino-americana.

Mas, a julgar de uma "esquerda" que condena as esquerdas em quase tudo, que fala mal das "patrulhas" ideológicas de 1968, que ataca Chico Buarque, que desqualifica o ISEB e deprecia o Centro Popular de Cultura da UNE, mas enche de louvores o direitista Waldick Soriano, ver o projeto do Centro Knight como uma campanha dos EUA para manter sua influência sobre as Américas é visto como "paranoico".

A essas alturas, nem a influência do especulador financeiro George Soros, nem as memórias de Henry Ford e Nelson Rockefeller servem para desqualificar a intelectualidade etnocêntrica que se apoia de seus projetos (nos dois últimos casos, Fundação Ford e Fundação Rockefeller). Até porque essa plateia crédula já deve estar acreditando, tolamente, que George Soros reinventou o socialismo marxista, o que é um absurdo.

E depois esse pessoal quer figurar ao lado de Emir Sader, Altamiro Borges e Luís Nassif, quer defender a "regulação da mídia" (desde que mantenha as popozudas e seus traseiros enormes em close), entre outras causas progressistas de verdade.

Até certo ponto não se sabe se é boa-fé ou má-fé, mas isso desqualifica, e muito, as esquerdas intelectuais brasileiras. Apesar da lucidez de Emir, Altamiro, Nassif, Venício A. de Lima, Fábio Konder Comparato, Laurindo Lalo Leal Filho e outros, gente com ideias coerentes e visão crítica da realidade, eles são ofuscados por uma outra intelectualidade, dotada de delírios e discursos tecnocráticos falados em tom messiânico, hipnotizando as plateias deslumbradas.

São esses intelectuais de crédito duvidoso, como Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna, Paulo César Araújo e companhia, que mancham a intelectualidade e corrompem o simples processo de análise crítica da realidade, através de meias-verdades ou até mentiras descritas numa confusão de citações, referências, argumentos e desculpas.

Se a opinião pública chegou ao ponto de eleger o grotesco de matizes pré-históricas do "funk carioca" ao posto de "arte superior", com toda a choradeira apologista a que tem direito, o Brasil, em sua cultura, anda num caminho bastante perdido.

O que poucos sabem é que nenhuma melhoria de ordem política e econômica será efetivada dentro de um contexto de cultura de baixa qualidade, com valores retrógrados e mediocridade artística dominando no mercado e na mídia.

Certa vez, um conhecido blogueiro disse, ao reportar as prévias do Partido Democrata no Texas, EUA, que desejaria viver lá, por ser o Estado da Universidade do Texas (de fato, uma universidade pública, que detém os documentos da investigação jornalística de Carl Bernstein e Bob Woodward no caso Watergate, mas hoje sucumbe a projetos a serviço do imperialismo), sem saber que lá existe um Geraldo Alckmin a cada metro quadrado.

Por isso mesmo, é preocupante a credulidade dessas pessoas. Pouco importa sua formação universitária, sua relativa consciência crítica, se no âmbito da cultura brasileira há uma ingenuidade gritante, uma credulidade infantil, uma falta de senso crítico em certos aspectos da realidade.

Por isso a situação é preocupante. Pelo jeito, teremos que dar uma resposta menos delicada ao já menos delicado comentário do jornalista Carlos Nascimento, do SBT: Nossos problemas ainda não foram todos resolvidos e muitas pessoas ainda se comportam como perfeitas idiotas.

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