domingo, 26 de fevereiro de 2012

ATÉ QUANDO APRENDERÁ-SE A RELAÇÃO ENTRE BREGA E MÍDIA?



Por Alexandre Figueiredo

A influência da intelectualidade etnocêntrica anda fazendo muito mal à opinião pública média de esquerda. Sem se preocupar em desenvolver um diferencial diante da visão dominante de "cultura popular" adotada pela velha mídia, esses analistas precários preferem corroborar a visão dominante, apenas fingindo que isso nada tem a ver.

Ora, ora, por que existem bregas, neo-bregas e pós-bregas? Existem porque eles foram veiculados, com gosto, pela velha mídia. E isso não é coincidência. É só observar como eles fizeram sucesso e quem os divulgou.

Está tudo claro: os bregas e seus derivados são produtos da velha grande mídia. Claro, muitos têm medo de questionar esses ídolos, pela origem humilde dos mesmos e pelo dramalhão pessoal que mostram nas suas entrevistas.

Isso mostra o quanto tem muito intelectual sem pulso firme, sem neurônios fortes mas com o coração muito mole. Sobretudo quando ídolos bregas são falecidos, como Waldick Soriano e Wando, que toda pieguice viscosa e inundante transforma a intelectualidade média num bando de bebês chorões.

Até Waldick e Wando surgiram dentro de um contexto conservador de mídia. Isso é fato. Mas a mística que envolvem ídolos bregas e derivados fazem com que a visão de cultura popular, mesmo dentro dos analistas médios de esquerda, se perca no caminho e se distancie das visões que se tem sobre a mídia em si.

De que adianta louvarmos o tecnobrega, se ele aparece até no Jornal da Globo, sob as bênçãos do mesmo William Waack que criticamos, do mesmo Ali Kamel que abominamos? Toda a mística que transforma o "funk carioca" em algo "maravilhoso" não passa de um discurso armado pela Folha de São Paulo e pela Rede Globo de Televisão. Isso é fato.

Através desse contraste entre uma análise político-midiática de esquerda e a mitologia direitista da "cultura popular" cria até mesmo distorções para essa intelectualidade que tem "orgulho de ser contraditória".

Um exemplo é a preferência que essa intelectualidade, que se diz de esquerda, defender uma figura conservadora como Waldick Soriano, a ponto de querer ocultar seu passado direitista, e combater uma figura humanista e realmente de esquerda que é o cantor Chico Buarque.

É essa intelectualidade, que fala tanto em querer a verdade histórica da ditadura militar, que se empenha em esconder o passado conservador de um cantor brega, só porque ele virou o queridinho da vez? Que verdade histórica quer esse pessoal que aplaude quando o portal Globo Vídeos, pressionado por Patrícia Pillar, tira do ar trechos de uma entrevista em que Waldick elogiou a ditadura e reprovou o movimento feminista?

Essa disparidade terrível faz a direita comemorar em festa. Por conta da choradeira em torno de Waldick e Wando, ou mesmo em relação a nomes popularescos mais recentes, como Gaby Amarantos, deixamos que reacionários como Reinaldo Azevedo fiquem com a moral em alta para atacar as expressões progressistas que encontram na web.

Em outras palavras, muitos desses intelectuais médios, que ovacionam a centro-direita intelectual (Ronaldo Lemos, Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo), acabam fazendo papéis de perfeitos idiotas, e depois não têm moral para defender a regulação da mídia, a verdade histórica ou coisa parecida.

Para que defender a regulação da mídia, se o pessoal quer que se mantenham os glúteos das popozudas exibidos na cara do telespectador em plena hora do almoço e na frente de crianças?

Para que defender a verdade histórica, se o pessoal quer que se oculte o passado reacionário de um cantor brega, porque isso "ofende" a reputação "nobre" de seu querido cantor?

Nem o movimento punk chegou-se a tanto, pois um dos fundadores dos Ramones, o falecido guitarrista Johnny Ramone, era um perfeito reacionário, fanático por George W. Bush pouco antes de morrer, e ninguém se empenhou em esconder esse lado negativo do músico.

Diante de tamanhas incoerências, convém a intelectualidade cultural de esquerda deixar de dar ouvidos às vozes astuciosas, que se dizem "de esquerda" mas se atrelam ao mais sombrio conservadorismo ideológico de direita, sobretudo ligado à velha mídia.

Afinal, não adianta elogiar o brega-popularesco e criticar a velha mídia. É como dizer que odeia abóbora, mas adora jerimum. Não dá para ser feliz sendo contraditório. O tempo fará cobranças que essa intelectualidade média terá dificuldades de assumir.

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