quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

APAVORADA, VELHA MÍDIA INVESTE PESADO NO BREGA



GABY AMARANTOS - ATÉ "SENSUALIDADE" É USADA COMO REFORÇO PARA A CAFONICE DOMINANTE.

Por Alexandre Figueiredo

A morte de Wando deu o alarme. De repente, a velha mídia , apavorada com os rumos vividos pela sociedade no mundo inteiro, está investindo pesado no ideal do "Brasil brega". Os barões da grande mídia bateram o pé e querem que o Brasil seja cafona até nas zonas urbanas, nas classes médias e tudo.

Infelizmente, o que se vê é a intelectualidade, dita "de esquerda", corroborando e assinando embaixo, sem suspeitar que seus pontos de vista são compartilhados por gente "insuspeita" como William Waack, Otávio Frias Filho e Gilberto Dimenstein. É esse o grande pecado das esquerdas, de compactuar com a direita sobretudo quando a coisa é no "social".

Mas a Globo, Folha, Veja e Estadão andam fazendo uma campanha pró-brega de forma escancarada que não é mais possível dissociar o brega-popularesco dos interesses grão-midiáticos dominantes. Não se trata de uma "invasão conspiratória" de cafonas na grande mídia, mas de um poderoso patrocínio dos barões da grande mídia ao entretenimento popularesco.

A onda agora é ser brega. Até a cantora de MPB, Céu, afirmou que andou ouvindo muito brega (talvez influência do pai, Edgard Poças, envolvido com "aventuras" desse tipo nos anos 80). E haja eventos de brega, geralmente pela onda de conjuntos "performáticos" que tentam dar um verniz de "vanguarda" ao brega, através do pretexto da "provocação".

Tudo é "provocação" e "autoesculhambação", o que deixa os barões da grande mídia dormirem tranquilos. Afinal, eles podem investir pesado até no patrocínio direto e na divulgação explícita da cafonice dominante, mas a intelectualidade sempre dá um jeitinho de livrar as caras deles no processo, mesmo quando provas irrefutáveis indicam esse envolvimento.

Mas até esses intelectuais são envolvidos de uma forma ou de outra com a velha mídia. Pedro Alexandre Sanches é cria da Folha de São Paulo, sua "escola" ideológica e metodológica. Hermano Vianna trabalha para as Organizações Globo. Ronaldo Lemos escreve para o Estadão. Que moral têm eles de se autoproclamarem "intelectualidade de esquerda" ou de intervir até mesmo na defesa de uma regulação da mídia (talvez para esvaziar ideologicamente seu projeto)?

De repente, a aparente luz no fim do túnel não passa de uma lanterninha vagabunda, e, é claro, brega, acesa no meio do escuro. O túnel ainda está no meio e a "cultura" brega, herança da ditadura militar e historicamente patrocinada pelo latifúndio e pelas oligarquias midiáticas, agora se vende sob a falsa imagem de "vanguarda".

E haja comparações com tudo. Semana de Arte Moderna, punk rock, Tropicalismo. Com direito à intelectualidade dominante usar gente como Antônio Conselheiro, Oswald de Andrade, Itamar Assumpção, Gregório de Matos e até Malcolm McLaren para "justificar" seus discursos. Esses vultos não estão aí para reclamar, mas a intelectualidade se acha no direito de distorcer as frases dos falecidos para defender seus interesses mundanos.

O que ninguém percebe é que essa breguice toda existe para combater a outra cultura popular, a mais autêntica, aquela que é transmitida pelo convívio natural das comunidades. Isso porque, por trás desse discurso de "verdadeira cultura popular", existem interesses de donos de rádios, de TVs, de políticos, fazendeiros, grandes empresários e até de investidores (e especuladores) estrangeiros para a manutenção dessa cafonice.

Usam todo tipo de discurso para justificar isso. E se preocupam para dissociar o brega-popularesco da velha mídia que o criou, o fez crescer e continuará sempre patrocinando. Não se mede escrúpulos para veicular mentiras, meias-verdades, desde que elas toquem fundo nos corações das pessoas, fazendo a emoção refém de campanhas persuasivas cruéis.

O tecnobrega está mais próximo do carnaval turístico-capitalista da hidrelétrica de Belo Monte do que das comunidades sofridas do Alto Xingu. A cafonice dominante não faz o povo crescer. E, enquanto as classes populares se afundam no subemprego, na prostituição e no alcoolismo, a classe média tira sarro disso tudo em performances onde o ridículo é transformado em espetáculo.

A intelectualidade etnocêntrica brasileira, cruel, barrou o acesso de Umberto Eco e Noam Chomsky, de Guy Debord e até do nosso Milton Santos. Ninguém mais pode discutir estética nem ética nem qualidade de vida.

Se o povo está se embriagando nos bares, deixa rolar. Se as prostitutas não só continuaram analfabetas como contraíram doenças graves, deixa rolar. Faz parte do espetáculo brega. O povo sofre, mas a intelectualidade quer que acreditemos que isso é felicidade.

O Brasil cafona se traveste de "independente", de "anti-mídia", de "anti-mercado", de "polêmico" e "alternativo" para enganar as pessoas. A miséria, glamourizada, transforma-se num espetáculo que causa deleite nos jovens atuais de classe média alta.

A cafonice não tem outro propósito senão esse. O de mascarar as tensões sociais. Agora o povo pobre "está mais feliz". De repente, não existe Pinheirinho, Dorothy Stang, Eldorado dos Carajás. Tudo é festa, é magia, é sonho. É "occupy qualquer coisa", desde que sem qualquer propósito crítico ou transformador. Até porque ter senso crítico e ativista não é qualquer coisa.

Portanto, a pretexto de serem tidos como "movimentos sociais", "ativismos" ou coisa parecida, as expressões da cafonice dominante, cujo circuito do Coletivo Fora do Eixo não passa de um cenário realimentador dos sucessos radiofônicos popularescos, na verdade, combatem os verdadeiros movimentos sociais e ativistas.

Isso porque, para a intelectualidade dominante - que, mal agradecida, anda espinafrando o mestre FHC que tanto lhes ensinou o modo neoliberal de pensar a cultura popular - , não se pode defender os movimentos sociais que ameacem os poderes econômicos dominantes.

Por isso o discurso da "substituição" de sentido. Afinal, "movimentos sociais" passam a ser aqueles restritos ao consumismo do entretenimento mais alienante. "Ativismo" significa apenas todo o processo de garantir a sobrevida desse processo.

Neste caso, "incomodar o poder" se limita tão somente às polêmicas vazias causadas quando o "mau gosto" se impõe ao "bom gosto", e o nosso simples sentimento de ver o nosso rico patrimônio cultural ameaçado de desaparecimento ou de empastelamento é visto como "preconceito" e outros adjetivos lamentáveis.

Não podemos protestar. A intelectualidade não deixa. Ela só quer "problemáticas" sem problemas, "inquietações" sem protestos, "movimentos" sem mobilizações, "ativismos" sem ações.

E o povo brasileiro que se "autoesculhambe", para o bem do mercado "anti-mercado".

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