segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

'TROLLERS' SÃO A "URUBOLOGIA" NO JARDIM DE INFÂNCIA



Por Alexandre Figueiredo

Sabemos do fenômeno dos troleiros, ou trollers, pessoas que costumam "bagunçar" o debate na Internet com mensagens ofensivas ou discordâncias intolerantes.

Aparentemente, os troleiros são "sem ideologia", mas o que se nota na maioria de suas mensagens é um reacionarismo latente que poderá situá-los como "urubólogos" em potencial. Afinal, a trolagem foi um dos recursos que o PSDB usou para atacar blogueiros que criticassem a campanha eleitoral de José Serra, que depois se mostrou desastrosa.

A maior parte dos comentários dos troleiros mostra suas posições. Geralmente eles defendem o establishment dos totens midiáticos, ou seja, de valores, ídolos e símbolos defendidos pela velha grande mídia.

Pode ser a caricata rádio de "rock farofa", com seus clones de Celso Portiolli arrotando pedantismo, achando que podem entender até de heavy metal.

Pode ser o cantor de sambrega que mais se preocupa com sua coleção de paletós do que com a música que faz.

Pode ser a dupla breganeja que lançou um filme biográfico.

Pode ser a popozuda que posou de freira erótica.

Pode ser o dirigente funqueiro que faz pose de vítima (de "preconceito") nas palestras para professores universitários.

Pode até mesmo ser José Serra e Diogo Mainardi.

Nenhum troleiro desse porte faz ataques grosseiros por que quer a paz mundial. Troleiros defendem o "sistemão" da mídia, da política e do entretenimento não porque acreditam na revolução social por essas vias, mas porque querem proteger o "estabelecido" de qualquer maneira.

Todo o "sistemão" acaba sendo reconhecido na "pauta" dos "imparciais" troleiros. Isso os coloca como "reaças" em potencial, e o apetite que eles têm hoje em "bagunçar" a Internet pode ser usado para disparar comentários ofensivos contra os movimentos sociais.

NINHOS DE SERPENTES - Filhotes de serpentes parecem minhocas. Aparentemente, como todo filhote, sua aparência é dócil e não desperta suspeita. Mesmo o mais furioso reacionarismo do troleiro é visto como se parecesse apenas uma molecagem pura, tipo jogar bola contra o vidro de uma casa.

Por mais que o troleiro fale palavrão, xingue, diga desaforos, ele parece "inocente" e "insuspeito". Até suas posições pseudo-esquerdistas, que acobertam o reacionarismo explícito, parecem verossímeis, devido à associação generalizada que se tem da ideia de rebeldia ao pavio curto.

No entanto, sabemos que pavio curto até os fascistas mais repressores têm. A tortura das ditaduras não era feita com mentes calminhas nem pelo cordialismo mais elegante. E observa-se o reacionarismo latente em muitos troleiros, cujo orgulho de se considerarem irritados - "sua posição expressa no texto me irrita profundamente", escrevem - mostra o quanto perigosos serão depois que deixarem os arroubos de juventude.

Ninguém desconfiava dos jovens bacharéis das classes dominantes, na década de 1930, que viram o sonho elitista de seus pais, vívidos na República Velha, serem derrubados por Getúlio Vargas. Mas foram eles que, de uma forma ou de outra, passaram as décadas de 1950 e 1960 pregando o mais absoluto golpismo, sobretudo para combater o herdeiro de Getúlio, João Goulart.

Esses bacharéis se associaram aos então pracinhas e oficiais de baixa patente que lutaram com os Aliados na Segunda Guerra Mundial e, conhecendo a National War College dos EUA, decidiram fundar a Escola Superior de Guerra.

Convertidos em líderes civis e militares de direita em 1964, partiram para defender o golpe e o prolongamento da ditadura militar, primeiro em 1965 com a negação do caráter interino do governo militar, e em 1968, com o tenebroso quinto Ato Institucional (AI-5).

Renato Russo, o cantor da Legião Urbana, havia escrito, na letra de "A Dança", os seguintes versos: "Você é tão moderno / Se acha tão moderno / Mas é igual a seus pais / É só questão de idade / Passando dessa fase / Tanto fez e tanto faz". Na fita demo do famoso grupo, o refrão conta com uma alteração no último verso, na primeira vez que é cantado: "você vai ver o que é capaz" no lugar de "tanto fez e tanto faz".

O saudoso cantor e poeta, nessa música, fazia as críticas ao reacionarismo juvenil dos playboys da Colina, bairro de conjuntos habitacionais para filhos de diplomatas e servidores públicos de Brasília. A canção acabou, no entanto, soando profética, sobretudo ao reacionarismo juvenil dos anos 90, totalmente intolerante com o senso crítico que, eclodindo nos anos 80, passou a década seguinte sob discriminação de setores convencionais da opinião pública.

Os troleiros, por isso, se beneficiam, em sua tenra juventude ou mesmo no começo da fase adulta, pelo verniz de modernidade que exibem. Mas, na medida em que o tempo passa, eles deixam de esconder seu conservadorismo latente, quando não poderão mais falar palavrões, fazer ironias nem gritar ou dizer sarcasmos.

"Mais maduros", eles se convertem no reacionarismo explícito que vemos, por exemplo, na velha mídia e no demotucanato. Já não se sentem na obrigação de parecerem arrojados o tempo todo, e, por isso, tornam-se mais explícitos do que outrora.

Na juventude mais tenra, eles pareciam modernos e imparciais nas suas grosserias. Seu reacionarismo, no entanto, era apenas mais sutil e nascedouro. Mais adultos, tornam-se simplesmente reacionários.

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