sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

TEM MIMIMI NO BOBOBÓ



Por Alexandre Figueiredo

No âmbito cultural, as piores "urubologias" são publicadas na imprensa escrita de esquerda. Afinal, na vida não se dá saltos, e Carta Capital, Caros Amigos e Fórum ainda se alimentam de leitores oriundos da Folha de São Paulo, que passaram a ler seus periódicos esquerdistas com seus antigos preconceitos.

A intelectualidade etnocêntrica, aquela que defende tudo que acha ser "realmente popular", que mal acabou de conhecer as periferias brasileiras, as nossas zonas rurais e o agreste nordestino através dos documentários ingleses do Discovery Channel, acusa de "higienistas", "preconceituosos" e "antissépticos" todos aqueles que, usando um senso crítico semelhante ao de gente respeitável como Umberto Eco e Noam Chomsky, critica os fenômenos da chamada "cultura de massa".

Depois que eu questionei o texto de Fernando Vives sobre o suposto sucesso de Michel Teló - que não passa de uma marmelada provinciana da velha mídia brasileira, e não a "nossa" tradução da chegada dos Beatles aos EUA - , que repercutiu para fora deste blogue, é a vez de encarar outro colunista, Matheus Pichonelli, que parece defender o sucesso do Big Brother Brasil.

Pichonelli parece uma versão politicamente correta de Leandro Narloch, o temível ex-editor de Superinteressante e ex-redator de Veja. De uma forma "elegante", ele pede para que não levemos o sucesso do Big Brother Brasil "a sério", mas numa apologia sutil que, na verdade, quer, sim, que levemos a sério, mas no lado "mais positivo".

É a mesma alegação que, dependendo do "caminho" retórico, nos pede para que "não ríssemos" do casal da Banda Calypso, Joelma e Chimbinha, e que "levássemos a sério" seu sucesso como se eles fossem Tom Jobim & Elis Regina. Ou seja, "não" devemos levar o brega a sério, levando-o a sério demais.

Pichonelli defendeu o sucesso do BBB neste texto, "O mimimi anti-BBB". Mas sua "urubologia" se deu noutro texto, "O clichê anti-BBB", que mais parece uma versão "de bolso" do Guia do Politicamente Incorreto de Narloch.

Nele, Pichonelli condena todos os procedimentos dos membros das redes sociais de odiar Michel Teló e o BBB e louvar Chico Buarque e Strokes. O colunista nem percebe que existem também, nas chamadas redes sociais, fanáticos por futebol, por axé-music, por "funk carioca". Não seria também tendencioso um intelectual só falar bem dos funqueiros?

Fico pasmo como existe algo em comum em "esquerdistas" como Gustavo Alonso e Matheus Pichonelli com o direitista Leandro Narloch além daquele ar de universitários de barba rala. A vontade deles de jogar Chico Buarque contra a parede é notória, entre outros chiliques politicamente corretos/incorretos (as duas definições não passam de dois lados de uma só moeda).



É como se condenasse a livre expressão do senso crítico. Como todo intelectual etnocêntrico - não nos esquecemos do badalado Pedro Alexandre Sanches - , Matheus Pichonelli fala como se fosse um deputado amigo de algum senhor de engenho, que condena a campanha abolicionista achando que ela iria estimular o terror no Brasil.

Esse medo do senso crítico contra o "popular" da velha mídia, temor realmente elitista, embora no discurso "solidário" às classes populares, está sendo desmascarado diariamente, não só por este blogue, mas por muita gente não só nas redes sociais da Internet, mas nas redes sociais do contato vivo das ruas.

Não por acaso, um internauta de nome Sávio, sabiamente, havia comparado o comentário de Pichonelli como "digno de colunista de Veja". Afinal, não só devemos criticar a mediocridade cultural dominante, como devemos criticar seu vínculo ao processo persuasivo da velha mídia, que empurra atrações "populares" como quem empurra um automóvel, um sabão em pó, uma geladeira para os consumidores.

Pichonelli critica nosso "horror" a Michel Teló e BBB e nossa "pureza" cultural. Mas ele não sabe que também virou protocolo entre os intelectuais elogiar tudo que é tido como "popular" como se fosse a "salvação da lavoura", sem medir escrúpulos de louvar a degradação moral e o grotesco como se fossem "uma moral superior diferenciada das classes populares".

É, numa comparação exata, como se tivessem os intelectuais de creditar as fezes e os vômitos como partes integrantes da culinária popular brasileira. Nada mais elitista do que alegações dessas tão atribuídas à nossa tão sofrida cultura popular.

Mas esses intelectuais até têm seus motivos de elogiar fenômenos popularescos, seja o É O Tchan, o "funk carioca", Michel Teló, BBB e as mulheres-frutas. Eles precisam pagar suas diaristas. É muito mais cômodo e fácil louvar tais fenômenos do que contestá-los, o que envolve referenciais teóricos que o "povão" não entende.

Além disso, além de agradar os únicos "exemplares" do povo pobre que essa intelectualidade pequeno-burguesa (é "errado" defini-los assim?), como diaristas, empregadas, porteiros de prédios, faxineiros, garis e feirantes - para não dizer o camelô que tem aquele lançamento de Hollywood tão cobiçado pelo "etnólogo" da moda - , eles precisam se livrar de processos judiciais.

Desse modo, elogiar o entretenimento da empregada doméstica tem muito menos a ver com a defesa heroica das classes populares. Essa intelectualidade pró-brega só conheceu o termo "periferia" nos textos de Fernando Henrique Cardoso, antes de saber do que se tratava nos documentários ingleses do Discovery Channel e do NatGeo.

Elogiá-lo tem mais a ver com agrados tendenciosos aos pobres do convívio direto desses "pensadores culturais", talvez para evitar alguma antipatia que empurre tais intelectuais, potenciais patrões de suas empregadas e diaristas, nos tribunais. Elogiar Waldick Soriano e Mr. Catra, portanto, é uma forma da empregada doméstica se esquecer de que seu patrão lhe deve alguns encargos sociais a mais.

Fora isso, elogiar vaquejadas, micaretas, "bailes funk" e seus "artistas" garante também bons descontos nos passaportes para viajar pelo país. Para um Pedro Alexandre Sanches viajar de graça para a Bahia e o Pará, vale elogiar Psirico e Gaby Amarantos. Garante para essa intelectualidade estadias maravilhosas em hotéis, na maior mordomia, com o mais variado café da manhã e almoços e jantares bastante diversificados e atraentes.

Portanto, quem é que anda fazendo "mimimi" mesmo? Nós ou a intelectualidade etnocêntrica?

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