quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

REGULAÇÃO DA MÍDIA E A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA


A INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA FOI EDUCADA PELO MODELO DE TELEVISÃO VIGENTE DURANTE A DITADURA MILITAR.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que defende a dita "cultura popular" do brega-popularesco não poderia mesmo romper com a velha mídia, apesar de alguns de seus discursos "sinalizarem" para isso.

Evidentemente, a "frente ampla" das aparentes esquerdas de pouco tempo atrás andam sendo desmascaradas, quando surgem as cobranças às posturas assumidas tendenciosamente. Surgem então pseudo-esquerdistas ou direitistas enrustidos que entram em várias contradições quando tentam explicar que suas posições "progressistas" são "meio diferentes".

Vamos falar sobre a campanha pela regulação da mídia, a "Ley de Medios" à brasileira, dentro de um contexto sul-americano em que a presidenta argentina Cristina Kirschner estabeleceu medidas contra os abusos cometidos pela velha grande mídia de lá, atos que causaram revoltas na velha grande mídia daqui.

Superficialmente, todos que se dizem "de esquerda" defendem a regulação da mídia no Brasil. Até mesmo funqueiros, tecnobregas e seus ideólogos. Quando tudo se limita ao enunciado, são mil maravilhas, porque o discurso vagamente se relaciona à defesa da cidadania e do processo democrático de comunicação.

No entanto, quando chegam os pormenores, divergências violentas começam a surgir e aqueles "esquerdistas de ocasião" e seu "ativismo de resultados" começam a reclamar. Afinal, eles acabam se desiludindo ao perceberem que a regulação da mídia vai muito mais além do ato de domar comentaristas políticos reacionários.

A intelectualidade etnocêntrica, que adora o espetáculo da cafonice reinante na mídia, é a primeira a não desejar a regulação da mídia. Sua postura pseudo-esquerdista faz com que essa intelectualidade adote uma postura aparentemente neutra. "Defendem" a regulação, mas pouco se fala além disso. Mas, na prática, gostariam que essa regulação se limitasse, o máximo possível, à letra morta.

Afinal, a geração de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo e congêneres nasceu depois de 1962. Portanto, não perceberam a cultura popular na sua forma autêntica e vibrante. Todos eles eram crianças felizes que assistiram, em seus apartamentos, à televisão nos tempos da ditadura militar. E foi a partir dela que criaram seus conceitos... e preconceitos, apesar de se dizerem "sem preconceitos".

O grosso dessa intelectualidade nasceu entre 1962 e 1974. Portanto, eram crianças por volta de 1970 a 1978, quando a mídia brasileira, como todo o país, "operava" sob o signo do AI-5, difundindo o "milagre brasileiro" e seus efeitos, promovendo o ufanismo e defendendo o mito de um Brasil de mentira, quase um país de contos-de-fadas.

Essa intelectualidade, tempos depois, juntou essa formação comodista e acomodada da mídia ditatorial, do casulo do entretenimento comercial e popularesco, com a formação universitária dos anos 80-90, que vivia a hegemonia de uma visão intelectual que, em diversos setores, era herdada claramente da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso.

Pois o sociólogo, até pouco antes de se tornar presidente da República e tomar para si o Plano Real do governo Itamar Franco, criou seu "estruturalismo" proto-tucano, pensando o Brasil como uma nação que poderia se desenvolver, mas dentro dos paradigmas de nação subordinada ao poderio dos países mais ricos.

Através dessa visão, a intelectualidade formada nessa teoria passou a defender um modelo de "cultura popular" subordinado ao poderio midiático - sobretudo rádios FM, programas de TV e veículos de imprensa ditos "populares" - claramente influenciado pelo colonialismo cultural trazido pelas multinacionais e pela ideologia dominante disseminada pelos EUA.

Hoje essa intelectualidade tenta se alinhar à esquerda, talvez como sobrevivência estratégica, já que o grupo político do então presidente FHC já tinha sua reputação arranhada. Esses intelectuais eram como corsários que, vendo seu navio sendo bombardeado, levam seu patrimônio e se transferem para o navio inimigo.

No entanto, eles mantiveram seus princípios intatos, mas se utilizam de mil desculpas que incluem inverdades e mentiras. Por exemplo, quando defendem o "funk carioca", dizem que suas baixarias são apenas "outros valores morais", os mesmos que esses intelectuais condenariam se fossem feitos por madames bilionárias de Los Angeles.

Daí a posição superficialmente "a favor" da regulação da mídia. Espera essa intelectualidade que, por exemplo, os noticiários da televisão sejam um cruzamento entre os noticiários cidadãos da TV Brasil com o "mundo cão" que outrora programas como Cidade Alerta e Aqui Agora transmitiram.

Ou seja, entre os glúteos as mulheres-frutas servidos para a criançada desprevenida, insere-se notícias sobre educação e campanhas sobre cidadania. Apenas não há as "urubologias" de comentaristas de poses dramáticas, como Arnaldo Jabor, ou com poses pedantes como Miriam Leitão e Merval Pereira.

Só que isso não resolve nas falhas da performance midiática. Tudo fica no mesmo. A regulação da mídia, na prática, apenas "controla" os impulsos temperamentais da "fauna urubóloga" da imprensa. E isso é muito insuficiente, além de novas demandas pedirem outras melhorias.

E é aí que a intelectualidade etnocêntrica "de esquerda" começa a semear suas "urubologias", tentando condenar a regulação da mídia, na medida em que esta avança e aperfeiçoa seu processo. Da posição timidamente "favorável", passam para a postura decididamente contrária, tentando definir a regulação da mídia como um "processo preconceituoso e higienista", na medida em que mexe também no entretenimento popularesco.

Por isso, não será a intelectualidade etnocêntrica que dará maior visibilidade e vigor nas campanhas pela regulação da grande mídia. Nem os dirigentes de "funk carioca", tecnobrega ou similares, por mais que falem em "cidadania". Porque os desvios morais necessários ao poderio do "deus mercado" são defendidos por estes, mas serão inevitavelmente combatidos pelas normas democráticas de controle da Comunicação.

Afinal, essas normas se voltarão também para o desenvolvimento educacional e pela melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, e sabemos muito bem que qualidade de vida não é consumismo e requer também a promoção de princípios éticos necessários ao desenvolvimento da democracia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...