sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

QUEM PERMITE MANTER A TRANSMIL EM CIRCULAÇÃO?



Por Alexandre Figueiredo

Não dá para entender por que as autoridades permitem que se mantenha circulando a empresa Turismo Trans1000, de Mesquita, Baixada Fluminense, depois de tantas denúncias de ônibus velhos e sucateados, numa situação humilhante para seus passageiros.

O inferno astral da empresa não é recente, ocorrendo desde meados de 2008, quando irregularidades administrativas fizeram a empresa, surgida em 1981, decair completamente. Chegou-se ao ponto da empresa só ter condições para comprar ônibus menores e de terceira mão, ou de segunda mão quando a empresa vendedora não aguenta mais ficar com seus carros antigos.

A última renovação de frota - se é que podemos chamar isso de renovação - ocorreu no segundo semestre de 2011, e foi uma grande tapeação. A promessa de 40 carros novos, que chegou a ser anunciada até em O Globo, se reduziu a 20 carros com cinco anos de fabricação e de curto comprimento. Os passageiros foram enganados de graça.

As irregularidades da empresa são tantas, que envolvem teto furado - que causa goteiras em dias de chuva - uso de espelhinhos de barbear sobre retrovisores quebrados, pneus carecas (o que é mais comum) e freios defeituosos. E há que se convir que boa parte desses ônibus circulam numa Avenida Brasil de trânsito em alta velocidade.

O pior é que nenhum deles sequer conta com acesso adaptado para deficientes físicos, que é uma norma federal para ônibus que renovam suas frotas nos últimos anos, mesmo com semi-novos. A empresa de Maricá, Viação Nossa Senhora do Amparo, também comprou carros semi-novos, mas uma boa parte deles já conta com acesso especial para deficientes.

E isso com um drama, já divulgado na Internet, de um homem morador de Nilópolis que é obrigado a carregar sua filha cadeirante quando embarca num dos ônibus da Transmil. Nem esse drama foi suficiente para a "perseverante" empresa comprar carros adaptados.

É muito estranha essa situação. Em outros tempos, bastava uma empresa estar falida e com desempenho operacional ruim, para as autoridades acionarem a Justiça e cassarem as concessões de linhas dessa empresa.

Mas não é o que acontece com a Transmil. Pelo contrário, a empresa insiste em continuar circulando, e as reclamações, cada vez mais crescentes, são em vão, e o máximo que acontece é a apreensão teatral de carros irregulares da empresa pelo DETRO (entidade responsável pelo transporte intermunicipal no Estado do Rio de Janeiro). Depois, volta tudo como antes.

QUASE TRAGÉDIA

Os passageiros é que levam a pior, cada vez mais esperando horas e horas por um ônibus da empresa. No Natal passado, um ônibus da Transmil, modelo CAIO Apache VIP I, ano 2004, circulava em altíssima velocidade na Av. Brasil, na linha 478 Mesquita / Central, sentido Baixada X Rio.

Sacudindo feito um caminhão de entulho, o ônibus estava com os assentos lotados. A lotação não era grande, mas a corrida do ônibus na famosa avenida carioca assustava os passageiros. Por sorte, o ônibus tinha freios, mas da forma com que mudava de um lado para outro na pista poderia causar um acidente trágico, com várias vítimas fatais.

Sim, foi por sorte. Afinal, houve outro ônibus da Transmil que circulou sem freios. E já houve ônibus que circulou sem retrovisor, além de vários ônibus que, para terem o motor funcionando, têm que desligar o ar condicionado.

Noutros casos, se o ar condicionado funciona, ele está podre, enferrujado e cheio de fungos. Por sorte não houve registro de alguém que tenha morrido inalando um fungo desses.

QUADRO SOMBRIO REQUER INVESTIGAÇÃO

A empresa conta com uma situação sombria até nos bastidores. Mesmo o quadro de proprietários é de arrepiar. Desde que o empresário cearense Jacob Barata deixou o controle acionário da Transmil, a empresa foi entregue a quatro sócios.

Um deles, conhecido como "Sr. Carlinhos", ou "Carlinhos da Tinguá", foi misteriosamente assassinado. Seu nome era Luiz Carlos Duarte Batista e era ligado a parlamentares de Nova Iguaçu e ao Tribunal de Contas do Estado. O crime teria sido por motivos políticos, provavelmente envolvendo algum "peixe grande" que estaria por trás dos "modestos" negócios da Turismo Trans1000.

A "modesta" situação da Transmil, portanto, teria ligações com grupos políticos poderosos na Baixada Fluminense. Mas a corrupção política e a "boa vontade" do DETRO, num contexto em que o governo do Estado do Rio de Janeiro é controlado pelo grupo político do PMDB carioca, pouco sensível ao interesse público, impedem que alguma coisa severa seja feita contra a empresa.

Daí fazer sentido a "persistência" da Transmil, com seus sócios ligados à burocracia política e judiciária do Estado do Rio de Janeiro, a empresa continua circulando normalmente, sem que qualquer ação contrária pudesse ser viabilizada. Há indícios que a morte de Carlinhos da Tinguá teria sido tramada por queima de arquivo.

Cinicamente, a empresa mandou colar nos seus ônibus um "panfleto" dizendo, em outras palavras, que "os obstáculos enfrentados pela empresa são uma prova de sua força". Uma forma de tentar tranqulizar seus revoltados funcionários, há muito tempo com salários e encargos sociais atrasados.

Sua irritação é evidente até no tranquilo terminal numa praça em Mesquita, onde param ônibus destinados à Praça Mauá, Pavuna, Central e Melhoral, além de ser ponto intermediário de um ramal "alternativo" (possivelmente ilegal) da linha 131 Nilópolis / Praça Mauá, nos domingos e feriados. Muitos desses funcionários são obrigados a recorrer a empréstimos bancários ou até a vizinhos para pagar as contas e garantir a alimentação de sua família.

Um dado estranho é que a imprensa fluminense - com exceção de veículos representativos da própria Baixada - permanece num silêncio suspeito, e era a mesma imprensa que pegou em cima da Transportes Oriental, empresa carioca com irregularidades semelhantes. Só noticiam algum fato ruim com a Transmil quando ocorre algum acidente com a empresa, fato que não dá para esconder.

Os passageiros não têm a quem recorrer. E, se suas reclamações são publicadas, elas não surtem efeito. Tudo fica na mesma e o DETRO apenas faz seu teatrinho fiscal apreendendo os ônibus da Transmil e depois recebendo propina para liberá-los. E a Transmil fica canibalizando seus carros, tirando de uns as peças que substituem as que em outros estão com defeito.

O drama continua, é como se os donos da Transmil quisessem vencer os cidadãos e funcionários indignados pelo cansaço, forçando todo mundo a aceitar eternamente o calamitoso serviço da empresa do jeito que está, a pretexto de falsas esperanças e de promessas de melhorias que depois ficam muito aquém do prometido.

O povo da Baixada Fluminense é tratado feito gado, na hora de pegar ônibus para o Centro do Rio de Janeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...