domingo, 22 de janeiro de 2012

QUEM É QUE REALMENTE GOSTA DE BREGA-POPULARESCO?



Por Alexandre Figueiredo

A desculpa mais comum da intelectualidade etnocêntrica que defende os tais "sucessos do povão" é que se trata de uma "cultura do mau gosto" para a qual nos cabe respeitar, porque "o povo gosta".

Suplicando para que deixemos as discussões estéticas de lado, a intelectualidade cultural dominante, sem saber que está rompendo com um compromisso natural de sua classe, eles tentam justificar a hegemonia do brega-popularesco através de uma visão, por vezes ingênua, por outras cínica, da "cultura popular" midiática como sendo um suposto novo folclore brasileiro.

O "mau gosto", então, é visto por esses verdadeiros ideólogos da mídia do entretenimento como se fosse uma virtude inerente ao povo pobre. Como se o povo pobre fosse "melhor" no que tem de pior e nós é que temos que acreditar que isso é melhor.

É uma manobra discursiva perigosa, porque durante muito tempo foi, por seu poder de persuasão, defendida com entusiasmo por muita gente boa, mas dotada de suas últimas reservas de credulidade.

Afinal, legitimava-se apenas um processo de consumo, que embora associado, em tese, às classes populares, não parte da vontade delas, mas de uma série de condicionamentos da mídia e do mercado que são alheios à vontade do povo.

PERSUASÃO PUBLICITÁRIA

O "mau gosto" foi, durante muitos anos, uma visão que os barões da velha mídia sempre atribuiu, preconceituosamente, às classes populares. Até 1964, a cultura do povo pobre sempre era de excelente qualidade e tinha uma forte identidade nacional.

Mas, com a ditadura militar, abriu-se caminho para uma "cultura popular" que quase nada tinha de realmente popular, com a única exceção de que atrai grande público. Era todo um processo ideológico que situava o povo pobre no subemprego, no recreio mórbido da prostituição e do alcoolismo, e em toda uma deformação de valores e de símbolos que colocaram o povo numa posição subordinada, caricata e domesticada.

Isso é fato. Mas a intelectualidade que ainda goza de seus louros de "unanimidade", fazendo o que querem na imprensa esquerdista (como se pudessem imprimir em suas páginas os mesmos pontos de vista da Ilustrada da Folha de São Paulo, fielmente herdados pela digitação de seu ex-serviçal Pedro Alexandre Sanches), tentam desmentir que haja alguma domesticação e infantilização nas classes populares ou qualquer idealização intelectualóide da cultura do povo.

A ditadura transformou o povo numa caricatura de si mesmo, através dos mecanismos de poder político e midiático. E, com isso, o povo se transformou em marionete de um engenhoso esquema de mercado, que envolve de latifundiários a donos de casas noturnas, com o apoio de grandes grupos de atacado e varejo e até de multinacionais.

Aí, o povo pobre, que sempre tinha seu papel histórico transformador e relevante, passou a ser uma massa subordinada pelo mercado do entretenimento. Aí a intelectualidade é que finge acreditar que essa subordinação não existe e "defende", de mentirinha mesmo, que o povo continua tendo o mesmo papel transformador de antes.

Não há como. O "funk carioca" e o tecnobrega, exemplos dessa retórica oportunista dos "iluministas de engenho" de hoje, são apenas meros espetáculos de consumo passivo. Seus empresários, os DJs funqueiros e os DJs de aparelhagem, são riquíssimos, e o público nem de longe é "autor" e "protagonista" de suas "manifestações", mas apenas um figurante de interesses mercadológicos em jogo.

Apenas cria-se uma retórica de faz-de-conta, que perversamente transforma as favelas e, em aspectos gerais, as periferias, em "paraísos do entretenimento", isolados do contexto sócio-político e até mesmo do econômico-sociológico.

Desse modo, separa-se o entretenimento brega e seus derivados do contexto sócio-político em que vivemos. Na "periferia" de mentirinha de pregadores como Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna, não há miséria, sofrimento, exploração. Essa visão ideológica, tão cruel mas docemente transmitida, configura as periferias como "Disneylândias do mau gosto".

Empurrou-se o brega-popularesco e seus derivados, paulatinamente empurrados como verdadeiras "monoculturas", mas hoje vendidos como se fosse "a nova diversidade cultural", como os comerciais de televisão empurram os automóveis para seus espectadores.

Seria muito longo dizer como se dá tal persuasão, mas o respaldo intelectual é decisivo para transformar modismos de seis meses em "manifestações" permanentes. E sabe-se que gosto espontâneo é o que o povo pobre, sob o poderio da velha mídia de rádios e TVs, é desestimulado a ter.

PRECONCEITO - Na verdade, a defesa desse "mau gosto", que defino como "ditabranda do mau gosto", é um cruel nó de preconceitos dessa intelectualidade dita "sem preconceitos".

Essa intelectualidade defende a inferiorização sócio-cultural do povo pobre, sua subordinação à mídia do entretenimento e o privilégio da supremacia cultural da classe média esclarecida. Apenas camufla seus preconceitos com uma aparente "adoração" das classes populares, desde que elas estejam nas condições esperadas por essa intelectualidade.

E aí vemos persuasões publicitárias, dramalhões ideológicos e até desinformações, inverdades e mentiras diluídos em teses acadêmicas, documentários e artigos de imprensa. Tudo isso para tentar nos convencer que o povo pobre gosta mesmo do brega-popularesco que consome.

Mentira. O "gosto" é apenas o hábito condicionado por sucessivas campanhas de mídia. A indústria cultural manipula o povo no seu inconsciente, e o povo toma como "sua" a vontade que é a dos grandes executivos de mídia.

A "ditabranda do mau gosto" é uma forma que a intelectualidade etnocêntrica encontrou para manter o controle social da velha mídia sobre as classes populares, através da manipulação pelo entretenimento e seus ídolos e celebridades de proveta ou cativeiro. Eles "representam" a tal "cultura das periferias", mas não são mais do que fantoches do "deus mercado", e nem esses "artistas" têm consciência exata do que fazem.

Afinal, brega-popularesco não é a "verdadeira cultura popular". Porque cultura de verdade não é aquela que se serve do rápido processo de lotação de plateias. Cultura é transmissão social de valores e conhecimentos. E isso que a intelectualidade etnocêntrica finge concordar mas discorda radicalmente.

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