quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

QUANDO "VERDADE" RIMA COM VISIBILIDADE



Por Alexandre Figueiredo

Exercício de raciocínio lógico: existe um intelectual que sempre mente, existe um intelectual que às vezes mente, às vezes diz a verdade e existe um intelectual que sempre diz a verdade. Se o intelectual que mente sempre tem diploma de doutorado e grande visibilidade, logo ele fala a verdade. Se o intelectual que às vezes mente, às vezes diz a verdade serve uma aristocracia claramente reacionária, ele é tendencioso. Se o intelectual que sempre fala a verdade não é muito badalado, logo sua verdade não interessa.

Não precisa analisar isso. No primeiro caso, o intelectual das meias-verdades - às vezes mente, às vezes fala a verdade - , se possui diploma de pós-graduação, tem grande visibilidade e faz palestras bastante festejadas no seu meio, então ele "fala sempre a verdade".

No país do jeitinho brasileiro e da memória curta, a intelectualidade etnocêntrica tenta armar um discurso bastante sutil, cheio de sonho e fantasia, mas travestido de roupagem científica. Tudo fica "objetivo", parece "racional" demais para o cidadão comum duvidar. Afinal, René Descartes, o célebre cientista francês, está na galeria dos "preconceituosos" listada com gosto pela intelectualidade "divinizada" em nosso país.

"Não tem como duvidar", cantava Alexandre Pires para a mesma plateia que hoje aplaude a intelectualidade etnocêntrica prestes a acolhê-lo, quando o cantor sambrega que deixou os EUA antes que seja tido como "neocon" (apadrinhado por cubanos anti-Fidel e cantando para George W. Bush) deixar de bater ponto na Rede Globo.

É até curioso. É uma intelectualidade que não quer ser analisada, quer ser endeusada, e por isso meias-verdades e mentiras andam sendo impunemente veiculadas, para o bem de todo o espetáculo neoliberal e popularesco dominante.

Eles tentam se posicionar, no discurso, contra a velha grande mídia, mas agem a favor dela. Falam mal da Rede Globo, da Folha de São Paulo, de Caras, mas no fundo estão a serviço desses veículos.

Falam mal de Fernando Henrique Cardoso, mas como é que podem bons alunos se voltarem contra o seu mestre maior, quando sua influência é claramente, explicitamente notada nas ideias de Hermano Vianna, Ronaldo Lemos, Paulo César Araújo e, sobretudo, Pedro Alexandre Sanches?

Criam todo um discurso que dá a impressão de que o que eles entendem por "cultura da periferia" está "hiperconectada com o mundo". Só que essa ideologia "revolucionária" que essa intelectualidade tanto alardeia é um discurso velho, de paspalhos neoliberais que superestimaram a revolução humanitária com o fim do Muro de Berlim.

É só ver os conceitos de Ronaldo Lemos e Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, que estão encharcados dos mesmos conceitos info-liberais de Steve Jobs e global-históricos de Francis Fukuyama. Mais neoliberal que isso, impossível.

Mas eles não querem ser considerados neoliberais, coitados. Como se eles acreditassem que se faz revolução socialista com "funk carioca" e Michel Teló. Confundindo as coisas, eles condenam os movimentos sociais na medida em que "movimentos sociais", para esses intelectuais, só são o espetáculo do consumismo do povo pobre resignado.

Para esses intelectuais "fora do eixo", não existe Pinheirinho, não existe Eldorado dos Carajás, para eles o que vale é a "periferia legal", domesticada, infantilizada, estereotipada no Esquenta! da Rede Globo.

Essa visão tecnocrática de uma pseudo-cultura ciber-brega-popcreta - o pós-new-old que há foi contestado por Raul Seixas e Marcelo Nova - só faz arrancar aplausos de uma plateia acrítica, que Pedro Sanches agradece por ser mais jovem.

Diz o colonista-paçoca que essa geração mais jovem "não possui os preconceitos estéticos dos mais velhos". Pode ser. Mas, infelizmente, essa garotada amestrada pela mídia (sim, Rede Globo, entendeu, Sanches?), possui outros preconceitos que, apesar de "sem preconceitos", são muito e cruelmente mais preconceituosos.

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