segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

QUANDO A INTELECTUALIDADE QUER QUE MPB E ESQUERDA SEJAM "OBEDIENTES"


CAETANO VELOSO E CHICO BUARQUE - A MPB do primeiro é "obediente" aos mecanismos da indústria cultural. Já a do segundo...

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica "adora" a esquerda e a MPB, desde que elas sejam obedientes ao status quo político-midiático. De repente, ser "politicamente incorreto", que era a senha dos pseudo-esquerdistas de 15 anos atrás, hoje virou a bandeira dos neo-conservadores assumidos.

Em compensação, ser "politicamente correto" é que virou "coisa de esquerda". Como o país passa por relativos progressos sócio-econômicos, mais uma vez temos que ficar calados. Há uma incômoda "elite" de internautas "influentes", metidos a "donos da verdade", dizendo que o senso crítico só causa desordem, não leva o país ao desenvolvimento, e que devemos apenas aceitar as decisões dos tecnocratas e dos barões da mídia e do entretenimento e esperar o país "ir para a frente", sem saber de que forma se dará.

Temos uma intelectualidade que, embora autocelebrada "de esquerda", pensa culturalmente como a centro-direita pensante dos tucanos da USP. Se autoproclamando juíza maior da cultura do povo pobre, mistura alhos com bugalhos só para defender a mesmice brega-popularesca, a título de "ruptura com o preconceito", que, no entanto, traz preconceitos muito maiores e muito piores àqueles supostamente atribuídos a quem não aprecia esses ídolos "populares".

O pior disso tudo é que essa intelectualidade "divinizada" só gosta da esquerda e da MPB quando elas são obedientes e, de preferência, subservientes ao mercadão brega-popularesco, ou mesmo ao status quo político, econômico e tecnocrático.

Se alguém der um pio, vira logo "preconceituoso", "elitista", "higienista", "moralista", "saudosista" e outras acusações indevidas. Não podemos exercer nosso senso crítico. Só podemos aplaudir feito focas de circo para "pensadores" como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches.

Essa intelectualidade associada direta ou indiretamente a eles, encharcada de teorias e teoremas neoliberais - Auguste Comte, Henry Ford, Fernando Henrique Cardoso, Roberto Campos, Francis Fukuyama, Otávio Frias Filho, Ali Kamel etc - só gostam da MPB da parte daquela que não representa ofensa nem ruptura com o mercadão musical dominante.

Quando muito, é a boa MPB sofisticada, realmente de qualidade, mas se resigna em fazer o papel de coadjuvante midiático nas trilhas sonoras de novelas ou escondidos em documentários produzidos ou divulgados pela Globo Filmes.

Mesmo a MPB da Lira Paulistana - Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premê, Vânia Bastos, Grupo Rumo - é aceita pela intelectualidade etnocêntrica na esperança de algum desses artistas (evidentemente, excetuando Itamar Assumpção, que não está entre nós para reclamar) fazer o papel subordinado diante de um grande figurão brega, neo-brega ou pós-brega.

Daí que Chico Buarque - apesar daquele serviço burocrático de gravar com os neo-bregas Zezé di Camargo & luciano - ser hostilizado pela intelectualidade etnocêntrica. Até porque Chico, em suas longas entrevistas, não deu um comentário sequer a favor da dupla goiana, e mostrou que o dueto em questão não passou de uma obrigação de trabalho.

Além disso, Chico Buarque é inimitável nas suas opiniões, nos seus pontos de vista, na sua posição esquerdista firme, sincera e espontânea. Musicalmente, então, nem se fala. Por isso é que os intelectuais etnocêntricos e "divinizados" deram um jeitinho de caluniar Chico, inventando a tese urubológica de que seu esquerdismo e sua rebeldia eram invenção da RCA Italiana.

Bom é Caetano Veloso, que é até um artista de grande talento - embora com seus altos e baixos - e de notável informação cultural, mas além de ter aderido ao direitismo ideológico, é sempre obediente ao mercadão brega-popularesco. Se ele faz um dueto com breganejos, ele depois vai elogiando a dupla para a imprensa, feliz da vida.

Mas essa intelectualidade, dita "de esquerda", prefere elogiar ídolos conservadores como Waldick Soriano e Benito di Paula, afinal eles são integrantes da indústria cultural que fez parte da infância dourada desses "pensadores", no auge do regime militar.

Choram eles feito crianças quando falam que Waldick era ultraconservador, é como dizer que Papai Noel não existe. Mas hoje até muita criança pequena acredita que Papai Noel é ficção, assim como muitos punks admitem que o falecido Johnny Ramone era reacionário assumido. Mas a intelectualidade brazuca, coitada, ainda chora de medo quando alguém se lembra de Waldick elogiando a ditadura militar...

Por outro lado, nós, críticos do brega-popularesco, somos "stalinistas" a promover o "Muro de Berlim" da "cultura brasileira". Quem cria esse muro da vergonha é Pedro Sanches, PC Araújo e companhia, porque a música brasileira de qualidade cada vez mais é apropriada por elites cada vez mais restritivas, enquanto o brega e sua mediocridade gritante avança nas suas reservas de mercado das classes mais abastadas.

Somos "stalinistas", "maoístas", somos os "tanques da URSS em Praga", quando vaiamos ídolos bregas, quando reprovamos o mau gosto gratuito do "funk carioca", somos "reacionários" porque expressamos nosso senso crítico. E ainda temos que considerar Pedro Alexandre Sanches tão esquerdista quanto Venício Artur de Lima!

Ora, ora, Pedro Alex Sanches na Fórum, Caros Amigos e (agora eventualmente) em Carta Capital é como Fernando Henrique Cardoso em Paris e Bruxelas. É esquerdismo de letra-morta, só para defender o "deus mercado" sem que o defenda no discurso. Pedro Alex Sanches é o Ali Kamel pós-tropicalista: se "não somos racistas", "não somos mercadológicos", enquanto nos porões da sociedade brasileira as elites exprimem seu racismo e seu mercantilismo.

"Não temos problemas". Mas eles aparecem. Aparecem nos conflitos de terra do Pará real, diferente do Pará de contos-de-fadas do tecnobrega. Aparecem nos incêndios de favelas como a Moinho, em São Paulo, tragédias inexistentes da favela de fantasia da "periferia legal".

Na periferia, ocorrem problemas como acúmulo de lixo, violência, moradores de ruas, corrupção policial, descaso das autoridades. Nada disso aparece no "maravilhoso" espetáculo do brega-popularesco. Lá o povo é domesticado, mas que ninguém espalhe isso não.

Temos que baixar a cabeça e aceitar os sacerdotes intelectuais que fazem apologia da pobreza, em argumentos confusos, contraditórios mas sentimentalmente sedutores. A MPB e a esquerda têm que ser "obedientes" ao mercadão brega-popularesco que até os barões da mídia apoiam.

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