quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

OS "DONOS" DA OPINIÃO PÚBLICA E OS "DONOS" DA CULTURA POPULAR



Por Alexandre Figueiredo

Uma perigosa reprise está a ocorrer nos bastidores da mídia. Depois que foram desmascarados os "donos" da opinião pública que consistiam nos "grandes comentaristas" da velha imprensa, outro grupo perigoso pode botar a perder todo o processo de evolução sócio-cultural de nosso país.

São os intelectuais etnocêntricos há muito contestados neste blogue. Eles até começam a ser postos em xeque em outros blogues, com ecos no Tijolaço, no Sul 21 e em gente como o jornalista Sylvio Miceli, descontando questões latentes no pensamento de gente como Emir Sader, Rodrigo Vianna e Eduardo Guimarães.

Mas ainda é muito pouco. A tendência dominante é ainda o endeusamento de um grupo de intelectuais dotados de procedimentos suspeitos, como suspeitos eram os procedimentos dos hoje conhecidos como "urubólogos".

São eles: Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Carlos Eduardo Miranda, Bia Abramo, Ronaldo Lemos, Milton Moura, Eugênio Raggi, entre outros. Todos com uma visão etnocêntrica do que eles entendem como "cultura popular", dentro de um prisma paternalista que eles não assumem ter. Afinal, embora preconceituosos, se afirmam "sem preconceitos".

A visão desses "donos" da cultura popular não é menos restritiva do que a visão dos antigos "donos" da opinião pública (Miriam Leitão, William Waack, Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede, Carlos Alberto di Franco, entre outros) e até mesmo Hermano Vianna tem relações com o demotucanato, tendo sido orientado, na pós-graduação, por um discípulo de Fernando Henrique Cardoso, o antropólogo Gilberto Velho.

Afinal, a aparente defesa desses intelectuais à dita "cultura popular" é muito estranha, presa aos princípios da "cultura de massa". Outros procedimentos também tornam-se bastante suspeitos, para uma intelectualidade que, como os citados Miranda e Sanches, são tratados como semi-deuses.

CONDENAR O SENSO CRÍTICO

Um dos procedimentos dessa intelectualidade é a condenação do senso crítico. O pretexto mais comum, e praticamente uniforme no discurso de cada intelectual, é que a avaliação crítica da "cultura de massa" é, para eles, expressão de "preconceito estético".

Isso torna-se muito estranho, na medida em que é missão natural do intelectual estimular o senso crítico, e não censurá-lo ou, ao menos, desaconselhá-lo. Os questionamentos que esses intelectuais admitem têm que ser dentro dos limites ideológicos deles, sem representar reais rupturas com os valores de entretenimento da velha grande mídia.

Não é fácil, à primeira vista, ter essa constatação. Afinal, esses intelectuais manipulam o discurso de forma que tenhamos a impressão de que seu pensamento é perfeitamente progressista, com uma sutileza que chega a convencer os mais desavisados.

Isso não significa que eles possam entrar em contradição em seus discursos, ou que não cometam seus reacionarismos. Suas abordagens, em que pese toda a roupagem "científica" que vai de monografias a documentários, é confusa, e seu conteúdo tem muito mais de publicitário e persuasivo do que de científico e racional.

MICROFONE ABERTO, MAS NEM TANTO

Uma das vitrines desta intelectualidade é o "movimento" Coletivo Fora do Eixo, que reúne acadêmicos, jornalistas, intelectuais, líderes de organizações não-governamentais, que aparentemente canaliza vários eventos culturais e diversas iniciativas sociais por todo o país.

No entanto, o evento já começa a ser visto como uma espécie de "Instituto Millenium" da cena alternativa, através de acusações de corporativismo entre os envolvidos e da absorção de tendências brega-popularescas, como o "funk carioca" e o tecnobrega, que, do contrário que muitos imaginam, está dentro da velha mídia.

Isto é sintomático, já que o "funk carioca", mesmo o "de raiz" (tido como "engajado" e "difícil"), é historicamente parceiro das Organizações Globo, e o tecnobrega, desde o começo, foi claramente apoiado pela mídia da famiglia Maiorana, dona do jornal O Liberal. Estes são fatos, não são especulações.

O grande problema é esse, é quando a intelectualidade que se apropria do tema "cultura popular" se serve de todo um discurso que, embora sugira "ruptura com antigos paradigmas", na verdade reduz toda a militância à mera reciclagem da "cultura de massa".

Não se tratam de valores realmente críticos. E mesmo o "microfone aberto" não se abre a qualquer senso crítico. É fácil criticar a Folha de São Paulo quando "chutar cachorro morto" (ou seja, atacar instituições já com reputação abalada) é o esporte da moda. Mas o próprio Pedro Alexandre Sanches não só foi cria do Projeto Folha, como continua tendo a mesma filosofia defendida pelo jornal "modernamente" conservador.

PENSAMENTO NEOLIBERAL APLICADO À CULTURA

Pois esse discurso de "novos paradigmas", dentro de retóricas de cunho tecnocrático, evocando conceitos de informática e globalização, soa um tanto anacrônico, pois remete à submissão do homem pela máquina, numa lógica positivista dos anos 90.

Não que a informática não prestasse para a cultura. Ela presta, e muito. Mas sua importância é superestimada pelos ideólogos da "nova cultura popular", como se bastasse colocar plugues, chips e modems para tornar a cultura brasileira mais atualizada.

A cooptação de bregas e neo-bregas "excluídos" pela grande mídia (em tese, porque eles continuam tendo muito espaço na mesma) também é um ponto negativo, o que mostra o quanto valores da velha mídia continuam prevalecendo, para o bem de um mercado dado como morto mas redivivo na praxe dessa intelectualidade.

Outro aspecto negativo é a visão das "periferias" difundida por esses intelectuais. Embora estes se posicionem numa aparente - e, não obstante, falsa - oposição ideológica a Fernando Henrique Cardoso, é a partir da visão do sociólogo e ex-presidente que eles se inspiraram, até de forma bastante explícita, para a dicotomia "centro X periferia" de suas pregações ideológicas.

Pois a visão de "periferia" se refere, na verdade, a uma visão idealizada e romantizada das classes populares, reduzidas a uma massa consumidora de entretenimento, tida como "feliz", "próspera" e "inocente". É a mesma visão da pretensa "autossuficiência" das populações pobres questionada pelo economista John Kenneth Galbraith no livro A Cultura do Contentamento.

Os malabarismos discursivos desses intelectuais "influentes" dá a falsa impressão de que o entretenimento popularesco é o equivalente brasileiro dos movimentos sociais lá fora. Uma ideia hipócrita, que na verdade visa evitar que tais movimentos sociais do exterior cheguem até aqui com a força que tinham na Europa, EUA e Oriente Médio.

Aqui a mediocridade cultural é defendida, como se fosse a "rebelião popular". E os intelectuais envolvidos não medem escrúpulos para partir para o reacionarismo, quando falamos na mediocridade cultural de tecnobregas, forró-bregas, funqueiros, breganejos, sambregas etc. Somos chamados, a esmo, de "preconceituosos", "moralistas", "elitistas".

Isto quando um Pedro Alexandre Sanches, irritado e tomado da mais abjeta fúria folhista (a fruta não cai longe da árvore, e nunca se viu uma manga romper com a mangueira, uma laranja com a laranjeira, um limão com o limoeiro), chama os críticos da mediocridade cultural de "racistas" e "higienistas".

Ainda se vai falar dessa intelectualidade, desses "donos" da cultura popular e suas visões suspeitas, que tratam o senso crítico como se fosse um crime, como se fosse um erro questionarmos a mediocridade cultural dominante.

Enquanto muitos acreditam nos ideais de cor e fantasia desses intelectuais, que travestem a imagem das periferias em "Disneylândias do mau gosto", conformistas, piegas e ingênuas, eles são os reis da visibilidade e os microfones, sem dúvida alguma, continuam abertos sobretudo à voz dominante deles.

Mas, na medida em que o senso crítico avança, como uma avalanche de questões e dilemas vão pondo tais intelectuais na berlinda, assim como os antigos cronistas políticos que gozavam, até pouco tempo atrás, de similar supremacia.

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