domingo, 22 de janeiro de 2012

OS "CÃES DE GUARDA" CULTURAIS DA VELHA MÍDIA


A VELHA MÍDIA APENAS DEIXA SEUS "CÃES DE GUARDA" CULTURAIS IDEOLOGICAMENTE "SOLTOS".

Por Alexandre Figueiredo

A ditadura midiática, acuada, tenta proteger sua última herança, o entretenimento, mandando seus "cães de guarda", a intelectualidade etnocêntrica, guardar consigo os valores, símbolos e ídolos em jogo.

São críticos musicais, antropólogos, historiadores, sociólogos e até estudiosos de informática "identificados" com os fenômenos "culturais", que a intelectualidade média de esquerda aprecia sem qualquer desconfiança, sem saber que eles também estão a serviço da velha mídia.

A mídia de esquerda é apenas um mero trampolim, um simples pistolão, para recolocar os "sucessos do povão" novamente na velha mídia. O pretexto é a suposta solidariedade às classes populares, um discurso que tenta, sutilmente, acobertar o seu verdadeiro sentido de defender a miséria e a subordinação sócio-cultural das classes pobres, dando a falsa impressão do contrário.

A velha mídia está minada no que se refere ao setor do noticiário político. Seus comentaristas, reacionários, são duramente criticados a cada dia. Até um espirro dado pelo âncora do Jornal da Globo, William Waack, passa a ter um "sabor" de política de Estado dos EUA.

A mídia, aparentemente, consente que tais críticas sejam feitas, embora resmungasse que qualquer campanha pela regulação da grande mídia seja "uma censura à liberdade de comunicação".

Mas, vendo que as discussões poderiam avançar, inevitavelmente, para o âmbito público, a velha mídia teme que manifestações do nível da Primavera Árabe aconteçam no Brasil, provavelmente derrubando as oligarquias empresariais e rurais que controlam o país.

Assustada também com as ocupações ocorridas em Wall Street, Londres e as manifestações que se fazem nas proximidades, na Argentina e no Chile, a velha mídia brasileira cria seus "cães de guarda" na intelectualidade cultural, num processo engenhoso e sutil feito nos bastidores.

É como se um magnata treinasse seus cães Rottweiler e os deixasse não somente livres no quintal de sua mansão, mas andando pelas ruas e entrando até nos botequins da esquina, em outros lugares.

A intelectualidade etnocêntrica age assim. Ela atua em função dos interesses das Organizações Globo, do Grupo Folha, do Grupo Abril, das multinacionais, que, agora conhecidas pelo eufemístico nome de "transnacionais", investem com gosto na "cultura transbrasileira" do brega-popularesco.

Da forma como o professor Carlos Nelson Coutinho esclareceu através de sua definição sobre o "intimismo à sombra do poder", expressão tirada do escritor Thomas Mann, a intelectualidade etnocêntrica brasileira serve ao poder midiático dominante, no setor do entretenimento, mas aparentemente possui um trabalho autônomo, e mesmo seu envolvimento ideológico não é claramente assumido pelo discurso.

Por isso fazem suas pregações tanto dentro dos "quintais" da Rede Globo e da Folha de São Paulo quanto fora dele, atingindo as páginas das revistas Fórum, Caros Amigos e Carta Capital. Acham que cultura nada tem a ver com o âmbito político, que é quase uma "criança pura" - uma criança de mais de 500 anos?! - e por isso segue "imaculada" do controle midiático e mercadológico dominantes.

Daí parece paranoia dizer que eles estão a serviço da velha grande mídia. E aí gente como Pedro Alexandre Sanches reage com o mesmo silêncio dos "calunistas" diante das denúncias de corrupção do PSDB. É um silêncio que diz tudo, que mostra um medo da revelação de dados obscurecidos pelo corporativismo de classe.

Daí o medo, por exemplo, de muitos quando se fala da associação do "funk carioca" com as Organizações Globo. Um medo traumático que se consola pelo aparente sentimento de desdém, afinal é essa a intelectualidade que está no poder, a intelectualidade etnocêntrica, que, a pretexto de defender as classes populares, na verdade defende a exploração delas pelo "deus mercado".

Afinal, o mascaramento de todo o processo de controle social, numa segunda etapa do antigo controle pela velha grande imprensa em geral - que, até pouco tempo atrás, se achava "senhora" da opinião pública geral - , que nos últimos anos havia se rompido com a ascensão da blogosfera progressista.

Agora, o último oásis de controle social, através do entretenimento popularesco - claramente financiado e patrocinado por emissoras de TV e rádio controladas por grupos oligárquicos - , começa a ser desmascarado, apavorando os "cães de guarda" que, a princípio, não podem ladrar nem morder.

Afinal, a memória curta, o complexo de vira-lata e o jeitinho brasileiro, práticas ainda tão constantes quanto tão desmentidas em retóricas "fáceis", voltam à tona na denúncia de uma intelectualidade "vendida" para os modismos da indústria cultural.

Aí, essa intelectualidade, que ainda detém o monopólio da visibilidade e da expressão, sobretudo em palestras, textos escritos, fica aterrorizada com as acusações de envolvimento com a velha grande mídia, mesmo quando uns, como o próprio Pedro Alexandre Sanches, tentam tirar o corpo fora, através de falsos ataques ao mercado e à velha mídia nos quais ele claramente, mas não de forma assumida, está associado.

No entanto, cantam o mesmo refrão do "preconceito", a palavra da moda, que equivale, à intelectualidade etnocêntrica de hoje, ao uso que a ditadura militar fez do termo "subversão à ordem".

A julgar pelas recentes críticas que Sanches fez sutilmente às esquerdas dos anos 60 - seja para vaiar tropicalistas, seja para lutar contra o regime militar - , o que indica um beliscão na mesma Dilma Rousseff que o colonista-paçoca "elogiou" numa de suas tentativas (fracassadas) de escrever textos políticos, dá para perceber o quanto essa intelectualidade é um ninho de futuros "urubólogos" hoje protegidos pelas circunstâncias.

Temerosos de ver o povo pobre perder sua "pureza" rompendo com a "cultura" brega e seus derivados, fazendo também com que um mercado rentável que existe por trás falisse, a intelectualidade tenta de todo modo defender o mercadão popularesco.

Falam até numa hipotética rebelião do "mau gosto popular" contra o "bom gosto elitista", um maniqueísmo de contos-de-fadas que nada tem de científico, apesar da roupagem discursiva sofisticada que esconde abordagens confusas e contraditórias.

Até tentaram investir na tese delirante da "invasão midiática", para tentar explicar o fácil aparecimento de ídolos brega-popularescos na Rede Globo, Folha de São Paulo e revista Caras. Tentam creditar uma fictícia invasão midiática pelos mesmos ídolos que, em outras ocasiões, são claramente definidos como "despolitizados" e "alienados".

Mas essa tese, além de pouco difundida, tambem não foi muito convincente. No grosso, preferem se omitir ou apelar pela mesma choradeira contra o tal "preconceito estético". É um argumento já surrado, mas convence o chamado público médio, pelo menos é uma conversa para boi dormir.

Só que, com as mudanças inevitáveis na sociedade, a intelecutalidade etnocêntrica irá mostrar sua indignação. Até quando eles continuarão falando em nome do que entendem como "cultura das periferias", não se sabe.

Sabe-se que Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar e Fernando Gabeira acreditavam na associação da burguesia nacional com a intelectualidade de esquerda para a promoção do desenvolvimento social, econômico e cultural do país. Foram desiludidos ao verem a burguesia nacional abraçada ao IPES-IBAD e defendendo a ditadura e, de desilusão em desilusão, esses antigos intelectuais passaram, com o tempo, para o direitismo ideológico, defendendo princípios conservadores e anti-populares.

É o que se teme com a intelectualidade etnocêntrica atual, que acredita, em outro contexto, na aliança entre o "deus mercado" e a intelectualidade de esquerda para o desenvolvimento sócio-cultural do país.

Se observarmos bem, nomes como Milton Moura, Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e Bia Abramo demonstraram, em diversas ocasiões e de forma explícita, a tendência de migrarem para o mesmo plano ideológico atual de Ferreira Gullar.

Na medida em que o povo pobre deixa sua condição domesticada e seus dramas sociais aparecem, contrariando o "mundo de cor e fantasia" da "Disneylândia do mau gosto" do brega-popularesco, a intelectualidade associada, tal qual os antigos intelectuais de ontem, poderá partir para o reacionarismo, vendo que não pode mais se assenhorear do tema cultura popular, assim como os comentaristas políticos da grande mídia não conseguem mais exercer o controle social da opinião pública.

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