quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O VERDADEIRO HIGIENISMO CULTURAL



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que exalta a pseudo-cultura "popular" do mercadão midiático acusa aqueles que criticam fenômenos popularescos de "higienistas". Acham que, só por desejarem ver o povo pobre mais culto, estão fazendo "eugenismo" cultural, "antissepsia" social.

Nada disso. Higienistas, na verdade, são esses intelectuais, que louvam o "funk carioca", o tecnobrega, o Big Brother Brasil e outros fenômenos "populares", e muito mais higienistas do que eles próprios poderiam admitir de si mesmos.

Isso porque eles defendem uma imagem domesticada do povo pobre. Para esses intelectuais, o povo precisa "gostar" de sua pobreza, apenas "melhorando de vida" através de alguns paliativos. Esses "pensadores" pretensamente especializados em cultura popular tentam glamourizar a pobreza e reduzem seu ideal de "qualidade de vida do povo pobre" a meras questões de consumismo e aparência.

Essa intelectualidade, tão "divinizada", tão cheia de visibilidade, é que tenta, com sua visão aparentemente generosa das classes populares, "higienizar" o povo pobre. Acha que a mediocridade cultural imposta pela mídia é a "verdadeira cultura das periferias", e eis que a intelectualidade dominante dá sua visão do que é a "criatividade do povo pobre".

Para essa intelectualidade, o povo é "criativo" quando recria referenciais previamente lançados pela mídia e pelo mercado. Se o povo pobre for realmente criativo - como nos grandes artistas do passado, como Cartola, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga - , ele é "aristocrático".

Aí vem o preconceito da intelectualidade dita "anti-preconceitos", que vê num pobre tocando piano e compondo grandes melodias um "humilde de alma burguesa". Um preconceito cruel que tira qualquer vocação desses intelectuais para combater o verdadeiro preconceito, porque o mais grave preconceito está neles mesmos.

O povo, para a intelectualidade etnocêntrica, não pode ter identidade nacional. Apenas pode desenvolver uma nacionalidade precária, defendida sob o eufemismo da "cultura transbrasileira", do "pop suburbano". A grande desculpa é que essa "nacionalidade" é "conectada com o mundo", para justificar a subordinação aos referenciais "enlatados" transmitidos pelo rádio e TV.

O povo não pode ter senso crítico, segundo esses intelectuais. Deve ser ingênuo, para manter sua "pureza" da "periferia" de contos-de-fadas difundida por esses cientistas sociais e críticos musicais. Por isso, deve ser despolitizado e aceitar sempre as "melhorias" prometidas por decisões vindas sempre de cima.

Para esses intelectuais, o povo não pode ter escolas, porque isso "macularia" sua "inocente pureza" do grotesco. Educar o povo, conscientizá-lo, ainda que pelas vias revolucionárias do Método Paulo Freire (cuja metodologia sempre respeita aspectos regionais e comunitários de um grupo social), é considerado "higienismo", um processo "perverso" de "civilização" que tiraria a "doce virgindade" da vulgaridade grotesca e cafona, da "deliciosa" tolice dos pobres alienados.

O que a intelectualidade quer é apenas a "inclusão social" dos pobres no consumismo da indústria cultural, ou a "inclusão" dos ídolos brega-popularescos no banquete burguês da "MPB caricata". Como se vestisse "pagodeiros românticos" e "sertanejos" com roupas de gala e botá-los para cantar com orquestras fosse acrescentar alguma coisa relevante com a cultura das classes populares.

Por isso, a intelectualidade etnocêntrica quer que a periferia seja idealizada pelo espetáculo do entretenimento mercantil. Nada de movimentos sociais sérios, afinal os "movimentos sociais" são sempre os eventos de entretenimento "populares", quando o povo vai, que nem gado, para os galpões que mostram os mesmos ídolos "populares" da velha mídia.

É um discurso engenhoso, que infelizmente prevaleceu por muitos anos, que transformava o povo pobre numa multidão ao mesmo tempo ingênua, submissa, abobalhada. Ela prevaleceu porque era um discurso confuso, cheio de contradições, mas era um discurso "positivo", além de ter um forte apelo sentimental.

Em outras palavras, era uma campanha publicitária, travestida de artigos jornalísticos, documentários, teses acadêmicas, textos científicos, tudo para tão somente reafirmar a mediocridade cultural dominante.

É um discurso claramente apoiado pelos barões da grande mídia, mas que a intelectualidade associada, até com certa insistência, tentava e ainda tenta empurrar para a mídia esquerdista. Mas o DNA ideológico de muitos deles não deixa mentir que eles mesmos são ligados, direta ou indiretamente, aos mesmos interesses dos Marinho, dos Frias, dos Civita.

Talvez sua "independência" quanto ao serviço da velha mídia os tenha feito mais verossímeis no seu discurso cheio de teses neoliberais. Seu "positivismo" tipicamente comtiano, com algo de darwinista, queria que a mediocridade cultural se "evoluísse" sem mexer no sistemão do entretenimento midiático.

Afinal, em vez de lutarmos para melhorarmos a cultura, com novos personagens e novos agentes, a intelectualidade etnocêntrica quer que a cultura se "evolua" através do continuísmo da mesmice brega-popularesca, com os mesmos ídolos que cometeram gafes, equívocos e omissões jogados para (tentar fazer) um progresso sócio-cultural que, na verdade, tem mais de tendencioso do que eficaz.

Em outras palavras, é como se a intelectualidade desejasse que a MPB se "progredisse" com os mesmos ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas que ignoraram a MPB no passado. Ou que as mulheres-frutas "comandassem" os novos valores da mulher moderna e classuda. Ou que qualquer um que cometesse gafes profundas virasse um "modelo" para a nova sabedoria cultural popular. Mas toda essa utopia se revela inútil e sem qualquer garantia de eficácia.

Afinal, já vimos esse filme todo, essas tentativas todas, e elas não deram certo. Os ídolos "populares" apenas "evoluíram" dentro dos conceitos elitistas da classe média alta, que "socorria" os ídolos popularescos com seus "ensinamentos" e seu "apoio".

Mas tudo isso em nada contribuía para a evolução social do povo pobre, era no fundo uma tentativa das elites intelectuais em se passarem por "generosas" para o povo e um meio dos mesmos ídolos da mediocridade cultural justificarem sua longa presença no showbiz.

Por isso, o verdadeiro higienismo cultural é a domesticação do povo pobre pelo entretenimento dito "popular". Um povo ao mesmo tempo grosseiro e tolo, catártico e submisso, brutalizado e infantilizado, com valores retrógrados fantasiados de "modernos" mas desprovidos de verdadeira ética e cidadania.

É através dessa domesticação que o povo pobre, em vez de ter qualidade de vida e melhorias, mantém-se no comportamento grotesco e brutal, mas imbecilizados pelos referenciais "culturais" a eles atribuídos pela velha mídia.

Desse modo, a intelectualidade etnocêntrica quer que o povo pobre seja tão somente uma multidão de "bons selvagens", de bobos-da-corte para satisfazer a vaidade elitista dos intelectuais que defendem o brega-popularesco.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...