segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O QUE QUER A INTELECTUALIDADE CULTURAL BRASILEIRA?


O PROFESSOR BAIANO MILTON MOURA FOI UM DOS PIONEIROS DA APOLOGIA À MEDIOCRIDADE CULTURAL MIDIÁTICA.

O que quer a intelectualidade cultural brasileira? Por que muitos desses "pensadores", em vez de questionar os mecanismos da chamada cultura de massa, fazem apologias, umas sutis, outras escancaradas, à mediocridade cultural reinante na nossa mídia?

Há pouco, o escritor e estudioso em Comunicação, o italiano Umberto Eco, fez 80 anos. Sem dúvida alguma ele daria muitos puxões de orelha nesses intelectuais. Afinal, Eco é muito famoso por suas críticas, ponderadas mas enérgicas, à indústria cultural e suas armadilhas. E, no Brasil, são essas armadilhas que são defendidas até a exaustão por uma geração de intelectuais dotados de muita visibilidade e prestígio entre seus pares.

Sabemos que a intelectualidade dominante faz apologias à mediocridade cultural hegemônica na mídia sob o pretexto de "respeitar" a "cultura" atribuída aparentemente às classes pobres. Embora sua retórica de defesa seja sofisticada no uso de argumentos e variada no método de discurso, ela é dotada de confusões, ironias, inverdades e até mentiras e desinformações.

Mas, infelizmente, isso pouco importa. Eles continuam dominando no establishment intelectual brasileiro. Eles podem ser altamente contestados, mas enquanto não houver algum contestador com a mesma visibilidade que eles, eles se encontram na sua "superioridade", impondo sua visão elitista travestida de "solidária com o povo", empurrando valores conservadores sob o verniz retórico de "progressistas".

JABACULÊ ACADÊMICO

E como se deu essa posição pretensamente populista desses intelectuais? Por que eles passaram a adotar tais posições em favor da "cultura do mau gosto", a ponto de se transformarem numa "panelinha" a comandar todo o lobby existente na intelectualidade?

Sabe-se que, no lugar do jabaculê radiofônico, outras formas de suborno para favorecer a indústria do brega-popularesco são feitas. Sobretudo o jabaculê acadêmico. Como essa intelectualidade praticamente foi "comprada" pela indústria cultural é algo que só algum jornalista sério, furando o bloqueio do corporativismo, poderá saber como.

Mas sabe-se que, na medida em que a opinião pública cresce, intelectuais assim começam a ser tão questionados quanto os políticos do PSDB e os jornalistas políticos da velha imprensa. Afinal, a sociedade muda, novas necessidades surgem, e o "mau gosto" é comprovadamente o pior caminho para a emancipação social das classes populares.

E isso vem desde 1996, quando o professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, Milton Moura, lançou, na revista Textos, um artigo intitulado "Esses Pagodes Impertinentes...". Um texto cientificamente muito duvidoso, cheio de inverdades - entre elas a ideia de creditar a pressa de gravar discos com "criatividade" dos grupos de "pagodão" baianos - e ainda com tiradas irônicas contra quem critica os grupos surgidos a partir do "fenômeno" É O Tchan, já chamados então de "elitistas".

Até mesmo o termo "sofisticação", para a MPB autêntica, é usado por Milton Moura de forma sutilmente pejorativa. Da mesma forma que, cinco anos depois, Paulo César Araújo, nas suas entrevistas para divulgar o seu livro sobre os ídolos cafonas, tentou, com o mesmo tom jocoso, definir a MPB como "MPBzona".

Aliás, foi a partir de Eu Não Sou Cachorro Não, o livro de Araújo - publicado pela mesma Editora Record que tem Reinaldo Azevedo e Merval Pereira como contratados - que a intelectualidade foi mergulhar de cabeça no rentável mercado da apologia ao brega-popularesco.

E aí vieram alegações como "combate ao preconceito", "valorização da cultura das periferias" e outros clichês que, por mais que tentem parecer "progressistas", mostram em seu DNA ideológico, até com certa evidência, a herança intelectual de Fernando Henrique Cardoso aplicada ao tema cultura popular.

Enquanto essa intelectualidade fazia lindos discursos defendendo a degradação cultural do brega-popularesco, a pretexto de "relativizar o mau gosto" e como quem quisesse transformar fezes em filé-mignon, valores retrógrados associados ora ao grotesco, ora ao piegas, eram associados às classes populares deixadas à margem do debate público nacional.

PARA O POVO, SEMPRE O PIOR

O discurso parece dócil, tão dócil que muitos até estranham que qualquer contestação fosse possível de ser feita. Afinal, quem trabalhasse esse discurso de defender o brega-popularesco passava a ser endeusado, virava unanimidade, como atestam os vários sítios pesquisados com a palavra-chave do respectivo intelectual no Google.

Depois de Milton Moura, vieram outros nomes a cortejar o grotesco popularesco como se fosse uma "preciosidade pós-moderna": os também baianos Roberto Albergaria e Malu Fontes, sem falar do próprio Paulo César Araújo, e mais Rodrigo Faour, Ronaldo Lemos, Oona Castro, Mônica Neves Leme, Hermano Vianna, Bia Abramo, José Flávio Jr., entre tantos outros.

Ao lado deles, celebridades como Regina Casé, Patrícia Pillar, Nando Reis, Fernanda Abreu, Zeca Baleiro, Marcelo Madureira e outros também tornaram-se propagandistas da hegemonia brega-popularesca no Brasil.

O último deles, Fernando Vives, já pressionado pelas críticas sofridas pela "panela" intelectual dominante, tentou defender o cantor breganejo Michel Teló "admitindo" que ele faz "música ruim", mas defendendo o "seu espaço", além de cometer a desinformação, muito comum na nossa mídia provinciana, de exagerar a repercussão de Teló no exterior, já que seu "sucesso" é muito menos significativo do que pensam as vãs mentes bairristas brasileiras.

A CRISE QUE "NÃO" OS INCOMODA

O país avança e, certamente, se Michel Teló faz muito menos sucesso numa Europa em crise econômica (mas não de mobilização social), não passando de um hype fajuto por aquelas plagas, no Brasil ele pode representar o ocaso da "festa" popularesca da mídia.

Por mais que a mídia não queira, a classe média brasileira progride, e os avanços econômicos e sociais, inclusive educacionais, podem ainda ser pequenos, mas mostram que as classes populares querem superar a mesmice popularesca, aos poucos.

Ou seja, se o "povão" ainda não está para Chico Buarque, no entanto já começa a se afastar, gradualmente, de Michel Teló e outras armações. O senso crítico adormecido nos anos 90 começa a vir com toda força, e a cada dia as críticas ao brega-popularesco crescem e se tornam mais abrangentes, assustando a intelectualidade dominante que, por enquanto, goza da mais ampla visibilidade.

Pois as visões críticas podem não aparecer na mídia impressa, nem mesmo em Caros Amigos ou Fórum, mas elas já crescem nos bares, nos auditórios das universidades, nos fóruns da Internet. E, o que é pior, a própria intelectualidade começa a ser criticada, sobretudo o "queridinho" da temporada, Pedro Alexandre Sanches

IDEIAS DE VELHA MÍDIA

Afinal, toda essa "panela" de intelectuais, por mais que se alinhe, aparentemente, ao universo progressista, pela suposta solidariedade às classes populares, o discurso trabalhado por eles segue literalmente o mesmo caminho ideológico dos "urubólogos" da grande imprensa.

Afinal, essa "solidariedade" é na verdade uma forma de dizer que o povo pobre só é "autêntico" através de "seus" valores sócio-culturais mais baixos, que na verdade são difundidos pela mesma velha mídia que condena os movimentos sociais.

Portanto, não existe uma diferença entre um Merval Pereira que esnoba os movimentos sociais e um Pedro Alexandre Sanches que define o mero consumismo brega-popularesco como "movimentos sociais". Sanches tenta tirar o corpo fora, falando em "morte do mercado" e "decadência da velha mídia", mas os valores, símbolos e ídolos que ele defende são em boa parte apadrinhados pelo mesmo mercado e pela mesma velha mídia que ele "mata" no seu discurso engenhoso.

Essas contradições vêm tanto à tona que qualquer texto nesse sentido já começa a repercutir mais do que as pregações sentimentais da intelectualidade "divinizada". Isso porque estes fazem apenas mera propaganda de modismos e fenômenos de mercado, apenas com toda a roupagem "científica" a que têm direito.

A retórica desses intelectuais, aliás, foi tão hegemônica quanto a dos comentaristas políticos da grande imprensa. Desse modo, faz sentido um mesmo contexto sócio-político permitir tanto que Merval Pereira, Eliane Cantanhede e Reinaldo Azevedo tenham visibilidade quanto Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e Hermano Vianna. Os primeiros e os segundos gozam de um mesmo contexto, em que tecnocratas detinham o monopólio do poder de decisão e influência pública.

MUDANÇAS PRESSIONARÃO INTELECTUALIDADE

Hoje, numa época em que políticos tucanos e jornalistas da velha mídia são questionados, o mesmo já começa a ocorrer com uma intelectualidade que tentou nos convencer, de todo jeito, que defendiam a "cultura popular". Mas eles provaram seu elitismo, muito mais perigoso do que o de muitas socialites, na medida em que eles mediam o valor da "cultura popular" pelo que as rádios FM, a TV aberta e a imprensa "popular" divulgavam.

Mostrando todo o seu desconhecimento de vivência nos ambientes populares - seu "conhecimento" sobre a periferia não vai muito além do burocrático - , os intelectuais dominantes são conhecidos como etnocêntricos não porque rejeitavam o "outro" (no caso, as classes populares), mas o viam de uma forma fantasiosa, idealizada, como a de "bons selvagens".

Seu elitismo torna-se claro na medida em que eles demonstram uma visão paternalista em relação ao povo pobre, e seus argumentos livrescos, diante de um público mais esclarecido, deixam de ter o caráter fascinante do sonho e mostram suas terríveis contradições. Sua visão de brega-popularesco é tão equivocada que só esses intelectuais não reconhecem a sua hegemonia, tão trancados em seus salões ouvindo Quinteto Violado, Itamar Assumpção e outros nomes da MPB autêntica que o "povão" desconhece por não ter oportunidade de ouvir.

Não fosse apenas isso, voltam à tona outros intelectuais, mais veteranos, cujos argumentos entram em choque com o da intelectualidade etnocêntrica. É como se a visão lúcida de Emir Sader, Venício de Lima, Eduardo Guimarães e outros se chocassem violentamente com a visão apresentada por Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e companhia.

Já começa a crise na intelectualidade etnocêntrica. Na medida em que o povo pobre deixa de ser visto como mera massa de manobra da mídia e do entretenimento popularesco e passa a ser visto como cidadão e não como mero consumidor, os intelectuais também deixam de ser vistos como semi-deuses, passando a ser vistos como meros mortais cuja responsabilidade pesa muito quando cometem erros sérios. Daí a queda paulatina de vários desses intelectuais dos seus pedestais de prestígio e visibilidade que os fez pretensas unanimidades até pouco tempo atrás.

Mas ela, encastelada nos seus salões em seus apartamentos luxuosos, ignora essa crise. Claro, ela ainda mantém o monopólio da palavra impressa, dos sítios virtuais de grande frequência, da formação acadêmica, das oratórias em palestras e das entrevistas na TV.

Mas vai que alguém, com uma visão mais realista, fura esse bloqueio e desmascara o mundo de cor e fantasia daqueles que acham que a "cultura" brega e seus derivados são o máximo. Aí é que o poderio "sagrado" da intelectualidade etnocêntrica, já em xeque, encontrará o seu momento de xeque-mate.

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