sábado, 21 de janeiro de 2012

O PRECONCEITO DO BREGA CONTRA A MPB


O ART POPULAR, NOS ANOS 90 - LEANDRO LEHART SÓ SE LEMBROU DA MPB QUANDO ERA TARDE DEMAIS.

Por Alexandre Figueiredo

Não é a MPB que possui preconceito contra o brega. É o brega, e todos os seus derivados, que sempre sentiu um preconceito em relação à MPB. Totalmente indiferente à MPB, seus ídolos, no começo de suas carreiras, sempre viam a MPB como algo distante, inalcançável ou desprezível.

"MPB não enche barriga", "MPB é coisa de doutor", "MPB não faz o meu tipo", é o que pensam os ídolos de brega-popularesco quando lançam seus primeiros discos. Pode ser aquele "brega de raiz" e seus boleros falsificados, ou os funqueiros que passam ao largo de qualquer compromisso com a cultura brasileira, mesmo para falar da verdadeira realidade de seu país.

Nos anos 80, a MPB era tocada com razoável regularidade nas rádios de todo o país. Sua divulgação estava muito longe do ideal, mas era razoavelmente acessível para o público médio.

E mesmo as rádios que tocavam música brega sempre inseriam um Milton Nascimento entre um Amado Batista e um Fábio Jr., entre uma Whitney Houston e um Tim Moore (quem?). Era pressão das trilhas de novelas da Globo, é verdade, mas era alguma coisa.

Por isso, não havia desculpa para muitos músicos aspirantes não optarem pela MPB. Em vez disso, preferiram optar por uma sonoridade mais brega, caricata, estereotipada, se envolvendo com péssimos arranjadores e empresários que desejavam lucro acima de tudo.

Esses ídolos, portanto, acabam fazendo sucesso e gostando muito disso. Só que o tempo passa e eles passam a serem criticados, reprovados por causa do valor artístico duvidoso, que contrastava com as vendas fáceis, com as plateias lotadas em poucos minutos.

Passam-se os anos e o que era um orgulhoso e esnobe desprezo pela MPB passa a ser uma obsessão doentia por aquilo que desprezou. Não foram poucos aqueles ídolos popularescos que, mesmo tendo feito sucesso na véspera, vão para a mídia posarem de "vítimas", falando do "preconceito" que tiveram a crítica.

Então eles mudam o discurso e tentam falar outra coisa. "Eu queria ter um lugar ao som na MPB", "a MPB foi ingrata comigo", dizem eles, isso quando não apelam para a mentira: "Sempre curti MPB, sempre quis fazer parte dela", "Faço MPB, só que de um jeito bem diferente".

É inútil, uma vez que essa nunca foi a posição inicial desses cantores e grupos, sobretudo dos "pagodeiros" e "sertanejos" que aparecem aos montes nas rádios FM dominantes. Mesmo quem era crooner de MPB pelos bares da vida, o desprezo à MPB era notório, porque cantores e conjuntos desse porte achavam que fazer MPB não matava fome nem pagava as contas.

Daí a grande hipocrisia que não faz grandes artistas dos brega-popularescos supostamente injustiçados pela crítica. Pelo contrário, esses ídolos passam um pouco de ingratidão, porque se preocupam mais com as duas críticas negativas dirigidas a eles nas revistas de música do que nos milhares de fãs que - ainda que por esquema jabazeiro - eles conseguiram atrair até pouco tempo antes.

Observa-se essa ingratidão através da reação ranzinza de nomes como Amado Batista e o ex-Art Popular, Leandro Lehart. Estão chorando o leite da pieguice derramado. Mas há outros que achavam que fazer MPB não enchia a barriga, como as cantoras Nara Costa e Gaby Amarantos, e os cantores Anderson (Grupo Molejo) e Márcio Victor (Psirico).

E há outros que, como os breganejos Leonardo e Daniel e os sambregas Alexandre Pires e Belo, só admitiram a boa reputação da MPB na última hora. E mesmo assim a atitude preconceituosa continua, porque a MPB que eles acreditam é a "MPB burguesa" das grandes gravadoras, cujas regras fizeram os melhores artistas partirem, num êxodo fonográfico, para a Trama e Biscoito Fino.

Fazem sucesso com suas breguices, e faturam com elas, felizes da vida. Obedecem assiduamente os ditames do mercado, as ordens de seus empresários, aceitando os arranjos que os arranjadores a seu serviço lhes mandam. Se são explorados pelo mercado, consentem com suas regras e as aceitam não sem entusiasmo.

Mas quando o tempo passa eles cospem no prato em que comeram. Reclamam que fizeram discos "ruins" porque "foram mal-orientados", porque "não souberam o que faziam", porque "eram outros tempos". Reclamam quando é tarde demais.

Afinal, toda essa carreira "mal-orientada" de discos "ruins" lhes garantiu a visibilidade que alcançaram. Quando convinha, eles não reclamavam. E ainda achavam a MPB "coisa de doutor", "música de aeroporto", "cultura para turista". Até quando "pagodeiros" e "sertanejos", nos seus cursos de violão, viam as cifras das músicas de Djavan, Flávio Venturini e outros, jocosamente diziam: "Ih, cara, isso é difícil pacas".

Eram "sambistas" sem alma, "violeiros" sem noção de vida no campo, que acabam sendo amestrados primeiro para fazer breguice, e, com o tempo, são usados pelo mesmo mercado que perdeu os mestres da MPB para a Trama e Biscoito Fino para fazer uma "MPB de mentirinha" nos especiais da Rede Globo de Televisão.

Em outros estilos brega-popularescos, é a mesma coisa. Até os funqueiros, que parecem viver num "mundo à parte", onde "cidadania" se define com os glúteos, também desprezavam a MPB como se fosse uma corporação de magnatas.

Geralmente, os ídolos brega-popularescos só admitem, pelo menos no discurso, o "mérito" da MPB, quando chegam às portas da Rede Globo. São informados de que suas músicas de trabalho vão aparecer na mesma trilha de novela daquele pessoal "mais diferenciado", e ficam com um certo ciúme.

Não é à toa que o inovador movimento mangue beat, por exemplo, despertou uma violenta inveja nos ídolos da axé-music. Porque os axezeiros sempre lotavam mais plateias e em menos tempo que os mangueboys, mas estavam longe de obter o mesmo reconhecimento artístico deles. Há quem diga que Chico Science faleceu por conta da urucubaca de algum axezeiro do mal.

E por essas e outras que os ídolos do brega-popularesco não demonstram capacidade nem mérito de fazer parte da Música Popular Brasileira. Tranquilamente, podemos afirmar que eles não são MPB, embora muitos se sintam traumaticamente assustados com esta constatação.

É porque MPB não se faz pelo espetáculo fácil de lotar plateias em menos tempo. E nem há garantia se o "P" da tal "música popular com P maiúsculo" é realmente espontâneo, porque há muito marketing por trás.

O "pagodeiro" da hora, o "sertanejo" de véspera, o axezeiro da vez e o funqueiro de amanhã, entre outros lambadeiros, forrozeiros-bregas, bregas antigos esquecidos há tempos etc, não são mais do que mercadorias do entretenimento popularesco. Que nunca pensaram em somar alguma coisa à nossa cultura, se limitando apenas a faturar em cima de seus repertórios medíocres.

E eles sempre trataram a MPB com desdém. Não é a MPB que rejeita eles, até porque vários artistas da MPB chegam a ser generosos demais com os bregas. Até além da conta. Os bregas é que nunca pensaram na MPB quando era para recorrer a ela.

Se eles foram ingênuos ou desatentos, pouco importa. Eles têm responsabilidade no trabalho que fizeram. E durante muito tempo foram felizes e obedientes com as regras do mercado. Quando decidiram reclamar, era tarde demais.

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