quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O EUROPEU GOSTA DE CHICO BUARQUE; DE MICHEL TELÓ, NEM TANTO



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica, em crise, está tão desesperada que precisa salvar o mercado popularesco de uma forma ou de outra. E recorre à imprensa esquerdista para fazer essa pregação do pretenso "relativismo do gosto" que só serve para recolocar os mesmos ídolos na programação da Rede Globo.

Antes que algum jornalista investigue, à maneira de Amaury Ribeiro Jr., quem é que financia a intelectualidade brasileira ou quem é que paga para cientistas sociais ou críticos musicais viajarem de graça pelo país - este é o motivo em que eles, meio "caetânicamente", defendem a "ditabranda do mau gosto" do brega-popularesco - , continua prevalecendo a visão deles, condescendentes com modismos de gosto bastante duvidoso.

É o que se vê neste texto de Fernando Vives para a revista Carta Capital, que entre visões ingênuas e condescendentes, superestima o "sucesso" causado pelo "fenômeno" Michel Teló. Vives não chega a fazer como Danilo Gentili, do programa CQC (TV Bandeirantes), que fez uma apologia aberta ao hype breganejo. Mas peca por dizer que "há espaço tanto para a música boa e para a música ruim, e essa definição fica a critério de cada um".

Há uma inverdade a respeito desta frase. Primeiro, porque a "música ruim" em questão até tem seu espaço, mas este espaço é excessivo demais. Justificar o "direito a este espaço", na verdade, acabou sendo um discurso que na prática apenas amplia, e não só mantém, os espaços da mediocridade musical brasileira. E sabemos que quem não tem mais espaço e acaba perdendo aqueles que já tinha é a música de qualidade.

Segundo, porque resta saber que "critério de cada um" é este, porque, em tempos de "cultura midiatizada", a questão do gosto não é tão espontânea assim. Será que o "povão" gosta realmente daquilo que as rádios tocam?

Como todo ídolo popularesco, Michel Teló é empurrado pela mídia assim como se empurra um automóvel para o consumidor. Mas a intelectualidade se baseia numa visão, que tem um quê de ingênua, a respeito da "cultura de massa" no Brasil. Essa visão tem suas crenças bastante pueris:

1) A "cultura" é vista como algo que voa ao sabor do vento, não importando se vem da Avenida Paulista ou do agreste nordestino, e por isso tudo é válido, seja bom ou ruim, porque soa "espontâneo".

2) O povo pobre é duplamente idealizado seja como "bons selvagens" de um suposto paraíso de lixo e escombros ou como "dóceis rebeldes" que seriam "revolucionários" com sua "inocência".

Em outras palavras, a intelectualidade etnocêntrica vê o povo pobre de forma paternalista, legitimando sua condição subordinada, mas tentando dar a impressão, no discurso, de que o povo "tem vontade própria". Desse modo, a mídia que explora a "cultura popular" é inocentada, e tudo o que as classes dominantes empurram para o povo é atribuído unicamente à "culpa" deste.

Outra visão equivocada de Fernando Vives é sobre o sucesso de Michel Teló. O cantor paranaense nem fez tanto sucesso assim, e aqui a visão etnocêntrica do colunista tornou-se bastante explícita: ele vê certos factoides relativamente difundidos no estrangeiro como se fossem grandes façanhas mundiais.

Primeiro, porque, perto de um fenômeno como a cantora inglesa Adele, Michel Teló se compara a um idiota assoando um nariz num vídeo do YouTube. O "sucesso" europeu é superestimado pela mídia brasileira, e Fernando Vives acaba se deixando levar pela mesma mídia que Mino Carta tanto contesta em seus lúcidos artigos.

Afinal, é a mídia brasileira, velha e caquética, que diz que Michel Teló virou "cidadão do mundo". Como disse que Kaoma virou "febre mundial". Mas quem vai para o exterior e observa os fatos além de seus círculos "latinos" sabe que esse "sucesso todo" não passa de marolinha.

Ou seja, é como se a piadinha de Evaristo Costa sobre o "mamão", no Jornal Hoje (Rede Globo), tivesse o tratamento de uma grande descoberta científica. Michel Teló nem de longe é um fenômeno internacional, porque ele apareceu apenas em dois episódios, como o dos jogadores de futebol portugueses e o dos soldados dançarinos de Israel. Só isso.

Portanto, é um grande equívoco achar que qualquer hype brasileiro que dá as caras em alguma birosca ou grupinho social no exterior seja um "fenômeno mundial". É um grande erro.

SÍNDROME DO "BRAZILIAN DAY"

Vale lembrar que europeus e norte-americanos são muito espertos. Por isso eles não aceitaram nomes como Sandy & Júnior e Alexandre Pires, por soarem iguaizinhos ao que eles já ouvem nessas plagas. E certamente verão em Michel Teló uma caricatura dos mesmos cantores pop que surgem constantemente nos seus lugares.

Nem Kaoma aconteceu tanto assim, e Ivete Sangalo só se apresentou no Madison Square Garden porque alugou o lugar e seu bloco carnavalesco de Salvador realizou uma grande promoção para levar os associados a viajarem para os EUA ver a Ivete se apresentando no local "combinado".

É muito comum levar turistas estrangeiros para ver ídolos brega-popularescos no exterior. Acontece até no "funk carioca", onde muitos ídolos vindos do nada já fizeram "turnês europeias" às custas de turistas que ganharam promoções diversas para adquirir ingressos.

Um dos poucos estilos que realmente fizeram sucesso no exterior foi a Bossa Nova, por sua linguagem própria e pelo valor artístico conhecido. Afinal, apesar da influência do jazz e dos standards de Hollywood, a Bossa Nova os assimilou mediante as lições da antropofagia cultural, recriando-as junto com elementos do samba.

Foi aí que a MPB autêntica passou a ser respeitada no exterior. Em breve haverá o aniversário de 50 anos do Festival da Bossa Nova no Carnegie Hall, em Nova York, para mostrar essa façanha, cujos efeitos se refletiram com a projeção de nomes como Chico Buarque, Djavan e Milton Nascimento no exterior. Ou até mesmo os tropicalistas, incluindo Tom Zé, que retomou a carreira com uma "ajudinha" acidental de um colaborador de David Byrne (ex-Talking Heads).

Fora a BN, deve-se destacar a hoje esquecida dupla de irmãos Os Índios Tabajaras, que na virada dos anos 50 para os 60 se apresentaram no exterior, tocando canções caipiras autênticas e peças eruditas.

Mas isso é muito diferente do que os relativos sucessos ocasionais dos ídolos brega-popularescos no exterior. E que, muitas vezes, não passa de fogo de palha. Mas é muito típico do discurso pós-moderno superestimarmos os ídolos-produtos-fetiche da "cultura de massa" só pelo seu aparente potencial polêmico.

Daí uma certa condescendência a eles, de maneira do grão-mestre Caetano Veloso, pioneiro nessa abordagem mas hoje tão alinhado ao tucanato que recentemente agiu em defesa do termo "ditabranda" da Folha de São Paulo.

Portanto, a intelectualidade etnocêntrica brasileira pensa que a música de bom gosto tem muito espaço e que a de mau gosto é que não tem. Muito pelo contrário, vivemos a hegemonia da canção de mau gosto, da mediocridade que hoje invade a TV paga e que, pelas portas dos fundos do discurso pós-moderno, é travestida de "vanguarda" apenas porque causa alguma polêmica.

Mas isso não vai salvar Michel Teló. Em dois anos ele terá sua imagem envelhecida demais. Será mais um da gigantesca linhagem de brega-popularescos que, condenada ao esquecimento, não sabe mais o que inventar. E que, não podendo aperfeiçoar seu marketing, recorre ao socorro ainda seguro da intelectualidade mais influente. Mas um dia nem isso irá socorrê-los. A mediocridade cultural é perecível.

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