terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O COLAPSO DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA REQUER CAUTELA


NÃO É QUALQUER PEQUENO EMPRESÁRIO FONOGRÁFICO QUE TEM O IDEALISMO DE LUIZ CARLOS CALANCA (FOTO), DA GRAVADORA E LOJA BARATOS AFINS.

Por Alexandre Figueiredo

Ultimamente, a indústria fonográfica sofre um violento colapso. O quadro das grandes multinacionais, nos últimos 15 anos, andou sofrendo com as fusões que fizeram reduzir de sete gravadoras às atuais três.

A Internet, sobretudo os mecanismos de baixa digital de músicas, influenciou a crise que teria resultado no encolhimento do poder e do grupo das grandes gravadoras.

No entanto, não é situação para comemorar. Muito pelo contrário. Quem é rico e poderoso, se é capaz de se livrar da prisão através de uma fiança polpuda ou uma equipe bem articulada de advogados, pode simplesmente reciclar as relações de poder tanto na mídia quanto na indústria fonográfica.

A intelectualidade média, aquela que defende a "cultura" duvidosa do brega-popularesco - numa clara afeição à "ditabranda do mau gosto" - , tão "sem preconceitos" mas cheias de preconceitos ainda piores, mais uma vez enrola a opinião pública quando "comemora" a "morte" da indústria fonográfica.

Feito bobos alegres, esses intelectuais agora "celebram" que os "sucessos do povão" agora "só" apoarecem no Twitter, Facebook e no YouTube. Falam em "revolução" nas chamadas redes sociais. Acham que agora aquilo que eles acreditam como "cultura verdadeiramente popular" (por sinal tão "verdadeira" quanto "honesto" é o banqueiro Daniel Dantas) acontece agora a partir de meros cliques de mouse.

Quanta ingenuidade... E você vê isso nos argumentos dos "maiores" intelectuais da atualidade: Paulo César Araújo, Mônica Neves Leme, Bia Abramo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Milton Moura... Todo mundo, achando que nós somos bobos, dizendo que agora o que impera são mídias alternativas, gravadoras independentes, circuitos underground.

Com esse raciocínio, certamente rádios como a Beat 98, das Organizações Globo, seriam tratadas sob a mesma medida que qualquer FM universitária de pequeno porte. A confusão entre mainstream e underground se torna um grande equívoco a confundir ainda mais quem é menos esclarecido das coisas.

E quem sabe muito bem das coisas, entende que nem toda gravadora pequena pode ser considerada "independente", da mesma forma que nem toda gravadora independente é necessariamente "pequena".

BREVE HISTÓRICO DAS INDIES

As gravadoras independentes, ou indies, teriam surgido nos anos 60 através do movimento da Contracultura. Mas foi nos anos 70 que elas cresceram, impulsionadas pelo punk rock do Reino Unido.

A partir de 1976, selos britânicos como Rough Trade e Factory surgiram, absorvendo grupos que faziam uma sonoridade bastante diferente. Nos anos 80, o mercado independente britânico se fortaleceu, com o surgimento de diversos outros selos e o desenvolvimento de um mercado com uma parada de sucessos própria. É nessa época que selos como 4AD, Creation, Mute e Beggar's Banquet surgiram ou se consolidaram.

E, para quem acha que selo independente é sinônimo de pequeno, víamos selos como Rough Trade, Factory e Creation se consolidarem como selos grandes independentes. É certo que depois veio logo a crise, mas a situação mostra o quanto ser indie tem pouco a ver com estrutura, e tem mais a ver com mentalidade e filosofia de trabalho, além do desvínculo com as grandes gravadoras.

No Brasil, selos como Baratos Afins (do empresário, produtor e lojista Luiz Carlos Calanca, que havia sido farmacêutico) e Wop Bop foram influentes para o cenário do rock alternativo paulistano ou mesmo da MPB underground de nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção.

Um dos paradigmas dessa fase foi o grupo Fellini, dos jornalistas paulistanos Cadão Volpato e Thomas Pappon, que teve até música tocada no programa do falecido locutor John Peel da BBC de Londres, e cujas influências iam de Joy Division e Durutti Column a Lúcio Alves e Zimbo Trio.

NOS ANOS 90, A DISTORÇÃO DOS FATOS

De repente, nos anos 90, quando a mídia passou a ver cabelo em ovo e fomos invadidos pela mediocridade cultural de rádios pseudo-roqueiras, de TV aberta popularesca, de uma invasão de jornalistas sem talento que hoje apoiam "calunistas" e "urubólogos", além de intelectuais burocráticos que hoje exaltam, até com exagero, todo o engodo brega-popularesco dominante.

E aí veio a tese absurda de "gravadoras independentes" quer "apenas" eram distribuídas por multinacionais. Selos como Banguela Records e Radical Records, entre outros, eram, na verdade, selos subsidiários de multinacionais. Mas bastava ter como diretor artístico um produtor ou jornalista com visual o mais casual possível para que o selo virasse "independente".

Até o jornal O Estado de São Paulo, com seu extinto suplemento juvenil Zap!, tentou criar uma parada "independente" nos moldes da britânica. Parecia bem intencionado, no que se diz à divulgação de novos talentos, mas mais da metade dos selos "independentes" era, na verdade, vinculado a uma grande gravadora.

NEM TODO SELO PEQUENO É "INDIE"

Com o fim daquela fase dos selos "dependentes", agora vem aquela visão "aleatória" de que todo selo pequeno é necessariamente "independente".

É a mesma visão intelectualóide que credita como "mídia nanica" ou "alternativa" aquela que simplesmente não tem escritório na Avenida Paulista, em São Paulo. Com o mesmo torto raciocínio, define-se como "gravadora independente" aquela que não possui escritório em Los Angeles, Miami ou Nova York.

Isso é um grande equívoco. Afinal, o conceito de independente está voltado para o idealismo artístico como opção ao mercantilismo dominante nos círculos de poder da indústria fonográfica.

É muito complicado definir quem é idealista ou quem quer apenas lucro. Há muita mentira por trás do show business. Como há muita lorota na nossa centro-direita cultural que serve seus conceitos e preconceitos para a intelectualidade média de esquerda.

Ora, se for por esse raciocínio de que todo selo pequeno é independente, então todo anão seria criança só porque tem estatura pequena. Ora, vemos que muitos desses selos "pequenos" com a mesma mentalidade tacanha das grandes gravadoras. Muitos executivos em trajes de cambistas pensando igualzinho a muito engravatado de Nova York, falando em manobrar artistas para torná-los vendáveis.

Isso se vê, por exemplo, no Norte e Nordeste brasileiros, sobretudo no Pará, pará-digma de todo o lero-lero brega-popularesco dominante.

Pois lá existe grande mídia local, como o grupo O Liberal, da famiglia Maiorana. E a própria "indústria" do tecnobrega inclui gravadoras que nada têm a ver com independentes, e rádios que nada têm a ver com alternativas. Se tratam de mídias controladas por grupos oligárquicos ou por negociantes associados. Têm o apoio de políticos conservadores da região e até de latifundiários, os mesmos que aterrorizam o interior paraense.

Se observar bem os bastidores de muitos desses selos "independentes", se verá toda uma exploração que os verdadeiros selos independentes não se encorajariam a adotar. E existem muitos selos pequenos bastante gananciosos, adeptos do lucro selvagem e ambiciosos em criar cantores e grupos manipuláveis para o tendenciosismo do "sucesso".

A GRANDE MÍDIA SE TRANSFORMA

Enquanto os intelectuais etnocêntricos boboalegremente afirmam que a indústria fonográfica está morrendo e uma "revolução cultural" entrou em seu lugar, vemos que a situação não é bem assim.

O colapso da indústria fonográfica requer uma percepção cautelosa. Afinal, as forças de poder se renovam e se rearticulam, e não se sabe quais serão as "grandes gravadoras" de amanhã. Ninguém aí está para seguir o ideal do do it yourself e qualquer meio de fazer dinheiro fácil e em grande quantidade será adotado por muitos selos fonográficos "pequenos" ou "médios".

Alguns desses selos podem crescer e se fundirem, e aí poderão formar outras grandes gravadoras. E se vier uma grande gravadora no Norte-Nordeste? Já temos a corporação Som Zoom, que envolve rádios e gravadora, e que já pode ser considerada grande mídia na região.

Portanto, as relações do poder se articulam e não há a menor garantia que sejamos livres do capitalismo selvagem fonográfico. Ele se rearticulará, porque seus executivos não querem deixar barato. Eles querem lucro, e o que se vê na verdade é sua intromissão, cada vez maior, nas redes sociais e no mercado de MP3.

Da mesma forma, vemos as gravadoras "pequenas" fazerem parcerias com a grande mídia regional, no Brasil e em outros países. Portanto, não há do que comemorar. A indústria fonográfica transformou-se, de fato. Mas será o mesmo jogo com outras regras e outros jogadores.

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