sábado, 14 de janeiro de 2012

O BREGA-POPULARESCO E SEUS FALSOS MESTRES



Por Alexandre Figueiredo

A "ditabranda do mau gosto" da pretensa "cultura popular" da velha grande mídia - mas em trânsito fora desse perímetro midiático - têm a sua choradeira, que é reclamar contra o tal "preconceito" (rótulo dado à rejeição que seus ídolos recebem, não raro através de muita pesquisa e observação).

Essa ideologia também tem seus ídolos, que são aqueles que fazem sucesso nas emissoras "populares" de rádio e TV. E que são promovidos às custas de dramalhões e campanhas persuasivas "diluídas" em teses acadêmicas, documentários, reportagens e artigos diversos.

Mas essa ideologia também tem seus supostos mestres, nomes tidos como "geniais" dentro do horizonte míope da apologia ao brega-popularesco, que mantém o Brasil no seu complexo de vira-lata, desde que acredite que esse vira-lata "possui pedigree".

Alguns desses nomes são muito badalados e até são "unanimidade" entre intelectuais, celebridades e produtores culturais associados. Afinal, na "terra de cego" dos ídolos popularescos em geral, esses cantores e compositores fazem alguma coisa "palatável", que não os faz realmente geniais e nem próximo disso, mas dentro da percepção limitada da mediocridade cultural dominante, eles parecem, à primeira vista, "acima da média".

São eles: Odair José, Wando, Benito di Paula, Luiz Caldas, Luiz Ayrão, Amado Batista e Michael Sullivan, entre outros. Todos vistos como "geniais", apenas por conta de algumas canções "corretas" que fazem e pelo sucesso que tiveram como hitmakers da música comercial brasileira.

Eles também são envoltos no dramalhão apologético que os faz também "coitados" para os olhos da opinião pública média, com seu papel de compositores superestimado às custas das rejeições que, também, são superestimadas e tratadas até com certo horror.

Odair José é o nome mais comum, tido como "ícone cult" às custas de sua associação como ídolo retardatário da Jovem Guarda. Daí uma suposta associação ao universo roqueiro, sem que alguém leve em conta de que se trata de uma abordagem do rock feita pela música italiana, sem qualquer associação com o universo realmente alternativo do Brasil.

Mas aí vem o tendencioso Paulo César Araújo, exageradamente, dizer que Odair José é "o Bob Dylan da Central". Uma definição equivocada, mas dentro da perspectiva do escritor do livro Eu Não Sou Cachorro Não de creditar os ídolos cafonas como pretensos cantores de protesto.

A própria abordagem de Odair José pelo autor que, noutro livro, enfureceu os fãs de Roberto Carlos e até fez o próprio cantor capixaba abrir processo contra o escritor, foi tão exagerada que o próprio Odair reclamou da imagem de "rebelde" promovida por Araújo. Primeiro, porque Odair hoje é evangélico, e segundo porque ele mesmo afirmou que só escrevia canções sobre relações amorosas.

Benito di Paula é outro mais comumente "cultuado", mas dentro de um verniz diferente, o da "sofisticação". Também cortejado por Araújo, Benito também foi cortejado por Pedro Alexandre Sanches, que o definiu como "anarquista", num esforço de tentar nos fazer esquecer de sua colaboração ufanista, quando, no auge da repressão militar, cantava "Tudo Está em Seu Lugar" ("Tudo está em seu lugar / Graças a Deus, graças a Deus").

Michael Sullivan é o terceiro mais comumente "cultuado", mas dificilmente dissociável do establishment da música comercial das rádios e TVs. Não pode ter o verniz cult de Odair e Benito, até pela sua clara associação aos sucessos produzidos quando colaborava para a Rede Globo de Televisão.

Ele mesmo um executivo-chefe da mídia do entretenimento nos anos 80, Michael Sullivan tenta trabalhar, à sua maneira, uma "imagem de coitado" que só a memória curta da opinião pública média consente sem verificar. É como se, daqui a vinte anos, José Serra vendesse uma imagem de "político injustiçado" para a opinião pública média.

Wando talvez tivesse sorte de ter o verniz de "cultuado". Mas, ainda que se beneficie pelos mesmos argumentos em prol de Odair e Benito, Wando não pode se livrar da imagem de "compositor menor" ou de one-hit wonder, nome dado a um intérprete marcado por um único sucesso.

Afinal, embora tenha feito sucesso nas rádios com várias músicas - como "Moça", regravada por Caetano Veloso, e "Chora Coração" - , além de ser reconhecido como um ídolo tardio do sambão-jóia (pastiche brega do samba-rock), Wando ficou marcado pelo sucesso "Fogo e Paixão", figura fácil nos programas da TV aberta.

Já Amado Batista é o que mais dificilmente consegue se livrar da pecha de cafona. Discípulo musical de Odair José, Amado no entanto é mais estigmatizado no seu sucesso popularesco e é isso que o fez ficar irritado uma vez com sua gravadora. Sua penetração no público popularesco foi tão forte que é difícil relançar o ídolo tal como se fez com Odair José.

Já Luiz Caldas é um nome mais recente dessa leva de pretensos gênios. Ícone da axé-music, Caldas é tratado como se fosse um "novo Caymmi", o que é um exagero, por conta do repertório menor do ídolo da axé-music, dotado de clichês comerciais do folclore baiano. Além do mais, na sua obsessão em soar eclético, gravou até um disco de rock pesado caricato e niilista.

Mas Luiz Caldas é associado ao verniz de "cultuado" pelas suas associações ao pós-Tropicalismo - fase em que os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil abandonam a veia crítica da tese da "geléia geral" e passam a apoiar abertamente a "cultura de massa" brasileira - e pelo espírito cult trash à brasileira, que permite a "ditabranda do mau gosto" pela abordagem do kitsch já contestada por Umberto Eco.

Dessa maneira, Caldas é tratado como se fosse um "filho bastardo" do Tropicalismo, dos Novos Baianos, ou visto como se fosse "música baiana de raiz", visão que possui seu equívoco, mas é garantida pela sucessão de nomes cada vez mais inexpressivos da chamada axé-music baiana, que foi para o fundo do poço através de canções patéticas sobre Super-Homem e Mulher Maravilha.

Mal comparando, o endeusamento desses compositores e cantores se compara com um hipotético pretensiosismo de creditar como "rebeldes da Contracultura" ídolos comportados e hitmakers como Paul Anka, Pat Boone e Ricky Nelson. Lá ninguém disse que Pat Boone era melhor do que Bob Dylan. Mas aqui Waldick Soriano é "melhor" do que Tom Jobim e ninguém reclama.

O que há em comum nas tentativas de transformar tais cantores em "gênios da MPB" é algo que inexiste nos EUA, onde a música comercial assume suas diferenças com a música de reconhecido valor artístico. Aqui, temos tabus e preconceitos que não vem de quem critica a música brega, mas justamente de quem a defende e se julga "sem preconceitos".

Daí, a intelectualidade etnocêntrica não consegue ver o "outro" senão como um reflexo idealizado do "eu", ou o "outro que eu quero que ele seja", mesmo que encarado de forma positiva e aparentemente solidária.

Dessa forma, a "MPB burguesa" que tanto entedia a intelectualidade se reflete, pura e simplesmente, na idealização e superestima da música brega e seus derivados. Se na "MPB burguesa" a "cultura do povo" é um pretexto para um pop romântico de classe média, no brega-popularesco a "cultura do povo" é um pretexto para músicas pouco elaboradas e até rasteiras feitas por pessoas de origem pobre, mas patrocinadas pelas elites do entretenimento.

Portanto, o que se vê, até hoje, é a manifestação desse maniqueísmo. Que em nada contribuiu para a evolução da cultura popular, mas apenas para a reciclagem do mesmo mercadão comercial de música brasileira, seja por artistas "elitistas", seja por ídolos "populares". E eleger alguns compositores bregas como "gênios da MPB" torna-se inútil para reverter esse quadro.

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