quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A NOÇÃO DE "SOCIALISMO" DA REVISTA VEJA



Por Alexandre Figueiredo

A revista Veja vive num mundo à parte, fora da órbita terrestre. Ela acredita num mundo em que os ricaços, por mais que arranquem dinheiro do povo, são altruístas a este. Para Veja, só quem tem muito dinheiro é dotado de perfeição e caráter para ser reconhecido como meritoso.

Veja condena tudo que for algum movimento social ("movimento social", para seus editores, são protestos "contra a corrupção", o "Cansei" e similares). Parece aquele gigante do conto Joãozinho e o Pé de Feijão, na medida em que diz: "Fe-fai-fom, sinto cheiro de movimento social, portanto isso não presta, é tudo desordem e crime!".

Pois Veja, que se alinha à extrema-direita ideológica - parte de seus sócios vem de grupos fascistas relacionados ao regime de segregação racial da África do Sul, felizmente extinto - , tem o seu "ideal" do que, para seus chefões, deveria ser o "socialismo".

Se os índios, os líderes estudantis, os sindicalistas não prestam para Veja e "ativismo social" mesmo só de gente como a neocon Yoani Sanchez (suficientemente "humanista" para os parâmetros vejistas, embora ela se aproxime mais ao perfil heterodoxo da também direitista Folha de São Paulo), por outro lado os ricaços são, para a revista, sinônimo de ideal de vida.

"Enriquecer é glorioso". É assim a frase estampada na capa de sua edição recente, com o milionário empresário Eike Batista na capa, comparado, não se sabe se por ironia ou pretensiosismo, a um líder chinês, o falecido chefe político Deng Xiaoping.

Embora Xiaoping tenha feito um governo autoritário e de matizes capitalistas, para Veja ele é o modelo de "socialismo desenvolvimentista", e a comparação de Eike com o líder chinês tem um quê da visão vejista da corrida econômica dos BRICs, o bloco de países emergentes que inclui China, Índia e Rússia, além de nosso Brasil, daí as iniciais da sigla.

Como sempre, Veja trata os ricos como pessoas generosas. Para Veja, os investidores estrangeiros só vem para aplicar dinheiro no Brasil. A privatização é ótima, segundo a revista, porque dá mais oportunidade para os estrangeiros investirem em setores estratégicos.

É uma visão tecnocrática, por louvar sempre a supremacia dos "de cima", cujo aparente paternalismo com o Terceiro Mundo e os "emergentes" é uma visão bem ao gosto do neoliberalismo e de sua mídia associada, e Veja encampa essa "causa" da forma mais ortodoxa possível.

Não esquecemos que a Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso se baseava na tese do desenvolvimento subordinado do Brasil, ou seja, um desenvolvimento sócio-econômico subordinado, que não fere as estruturas dominantes, seja dentro do próprio país, seja dos países mais ricos.

Enquanto muita gente se sacrifica para ter um salário-mínimo, ou talvez um ganho inferior, Eike Batista construiu seu patrimônio adquirindo empresas no setor estratégico da mineração. Ex-piloto de offshore, ele deve estar rindo ao ver Veja associando-o a um "socialista".

Mas a Abril é feita a distorcer tais valores. A revista Alfa, da mesma editora, já havia trabalhado a imagem "esquerdista" de Luciano Huck, por sinal amigo de Eike, que disse "admirar" Fidel Castro e Lula, embora sabemos que o marido da apresentadora Angélica é filiado ao PSDB e havia defendido o candidato José Serra na campanha de 2010.

A revista Info, pelo menos, foi mais "modesta", ao definir o ex-CQC e agora cantor (?!) Rafinha Bastos como "nerd", quando sabemos o quanto ele se encaixaria na irmandade Alfabeta do filme Vingança dos Nerds, que, para quem não sabe, é a irmandade dos mauricinhos e brutamontes.

Bom, Veja vive no seu mundo. Vive na sua ignorância à realidade em que vivemos. Daí criar um maniqueísmo esquisito em que os movimentos sociais são "o mal" e "o bem" está nas mãos do mercado. Veja não vê sequer seus leitores, por mais reacionários que sejam. Ranzinza, Veja só vê seu próprio umbigo, além do ego dos grandes capitalistas.

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