domingo, 22 de janeiro de 2012

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA IRIA "TRABALHAR" PARA FHC


FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, O REI DA COCADA PRETA. OU SERIA REI DA PAÇOCA PRETA?

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que defende a indústria cultural brasileira tem razões para se preocupar, nos úlitmos anos. Com seus pontos de vista coincidindo com os interesses da velha grande mídia, eles até tentaram se dissociar dela ou mesmo fazer falsos ataques, mas tudo indica que eles não só estão associados, de uma forma ou de outra, à velha mídia, como eles seriam a expressão da intelectualidade cultural dominante na Era FHC.

As ideias transmitidas por esses intelectuais não são difíceis de serem analisadas. Seus nomes são bem conhecidos, indo dos professores baianos Milton Moura e Roberto Albergaria até a "santíssima trindade" de Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches. Há também outros intelectuais, celebridades e músicos associados.

Quanto às ideias, eles defendem o mercadão brega-popularesco, "construído" sob o apoio de oligarquias midiáticas e grandes empresários do entretenimento, sob o pretexto de "zelarem" pelo que entendem por cultura popular e diversidade cultural.

Suas ideias, sempre evocando uma visão relativista da identidade cultural brasileira, usam sempre os mesmos argumentos: "luta contra o preconceito", "expressão das periferias", "cultura popular com P maiúsculo". São discursos distribuídos tanto em trabalhos acadêmicos quanto em textos jornalísticos e produções cinematográficas, e que mostram duas heranças latentes no seu discurso sofisticado mas nem sempre coerente nos seus argumentos.

Essas duas heranças estão associadas a duas figuras influentes no pensamento conservador heterodoxo, difundido ainda na ditadura militar dentro dos meios intelectuais: Fernando Henrique Cardoso e Caetano Veloso.

Caetano Veloso louvava a indústria cultural e via na "cultura de massa" a salvação para o progresso da cultura brasileira. A princípio, a indústria cultural era abordada de forma crítica, nos tempos do Tropicalismo (1967-1968) ou através de pessoas de mente mais crítica do movimento, como Torquato Neto e, até hoje, Tom Zé. Mas, depois que Caetano e Gilberto Gil voltaram do exílio, em 1972, eles passaram a adotar uma atitude mais condescendente em relação ao mercantilismo cultural brasileiro.

Fernando Henrique Cardoso foi conhecido pela Teoria da Dependência, na sua concepção de que o Brasil deveria se desenvolver economicamente, relativizando, no entanto, sua soberania, através de um Estado "enxuto", minimizado, e de um quadro sócio-econômico que não interfira no status quo dos países ricos.

Isso significa um desenvolvimento subordinado que apenas limite a soberania brasileira a alguns aspectos rigorosos já expressos constitucionalmente como, por exemplo, a proibição de estrangeiros naturalizados a se candidatarem à Presidência da República, a cargos de comando nas Forças Armadas e no Poder Judiciário.

PSDB, PROJETO FOLHA E BREGA-POPULARESCO

Boa parte dos intelectuais considerados "influentes" em nosso país foram educados pela linha dominante da burocracia acadêmica nas universidades federais. O grupo ideológico formado por Fernando Henrique, José Serra, Fernando Gasparian, Francisco Weffort, Sérgio Paulo Rouanet, entre outros, aliava o pensamento neoliberal da Teoria da Dependência aos âmbitos sócio-políticos e econômicos.

No plano político, esse grupo se constituiu na base fundadora do PSDB. No plano jornalístico, esse grupo contribuiu para o desenvolvimento do Projeto Folha, em 1984, lançado com o aparente apoio à campanha Diretas Já, que mais tarde permitiu, no plano conservador, na formação de políticos que se passaram a compor o tucano-pefelismo (depois "demotucanato").

No plano cultural, a intelectualidade passou a compor uma elite empenhada em "julgar", de forma etnocêntrica, o âmbito da cultura popular, vendo o povo de maneira domesticada e promovendo as classes populares como multidões de "inofensivos bons selvagens".

Seu princípio era evitar a ascensão da cultura popular forte, crítica, vigorosa e de forte qualidade artística, defendendo "fenômenos populares" lançados pela TV aberta e pelas emissoras de rádio FM, por sinal entregues a grupos oligárquicos regionais.

Seguindo a lógica dos latifundiários do interior do Brasil, que com a mídia associada com base em São Paulo patrocinaram os primeiros ídolos cafonas para "anestesiar" culturalmente o povo pobre diante das mobilizações das Ligas Camponesas, a intelectualidade "adestrada" pela elite "tucana" da USP decidiu também exaltar o brega-popularesco, lá pelos fins dos anos 90.

COMBATER O SENSO CRÍTICO

A intelectualidade se dedicou a elogiar a mediocridade dominante sob o rótulo de "cultura popular" atualmente difundido por rádios, TVs, jornais, revistas e sítios digitais. Através disso, via o povo pobre como uma "feliz multidão" que expressava o "mau gosto" alegremente, "orgulhosa" de sua pobreza e que "improvisava" seus "referenciais culturais" através do que a mídia veiculava (no caso, a mídia era "dissociada", no discurso, do poder oligárquico, para a retórica fazer sentido e parecer verossímil).

A intelectualidade se empenhou em combater o senso crítico que estudiosos verdadeiros da MPB mais autêntica, como Ruy Castro e José Ramos Tinhorão, faziam junto a uma intelectualidade independente e claramente analítica. Nessa época, até o geógrafo Milton Santos, ainda vivo, fazia duras críticas ao "espetáculo" hoje conhecido por brega-popularesco.

Contrariando a natural vocação de analisar criticamente as coisas, a intelectualidade etnocêntrica passou a defender o mercadão popularesco com teses que não medem escrúpulos em disparar ironias e ataques. "Esses pagodes impertinentes...", texto famoso do professor da UFBA Milton Moura, é cheio de ironias e inverdades, pela defesa desesperada do cenário "pagodeiro" puxado pelo "fenômeno" da época, É O Tchan.

Os ataques eram feitos em quase todos os textos do gênero, sempre acusando quem criticasse o brega-popularesco de "preconceituoso", "elitista", "moralista" e outros adjetivos desagradáveis. Neste sentido, até Umberto Eco e Noam Chomsky, se fossem brasileiros, seriam também "preconceituosos". Mas talvez nem René Descartes, um dos precursores do senso crítico moderno, seria poupado de tal acusação.

Vieram então, junto a Moura, outros intelectuais que, na prática, "modernizaram" o pensamento conservador brasileiro fundindo, numa mesma ideologia, os delírios caetânicos sobre a "cultura de massa" e os conceitos neoliberais de FHC.

ELEIÇÃO DE 2002 TERIA MUDADO A TÁTICA

Desde 1998 o governo Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, da qual se saiu vitorioso, vivia suas sérias crises. A tragédia petrolífera da plataforma P-36, em Campos, a xingação de "vagabundos" contra os aposentados, a pane no fornecimento de energia elétrica, vulgo "apagão", de 2001, são vários transtornos enfrentados por Fernando Henrique, cujos escândalos maiores ainda seriam tardiamente divulgados.

Sabe-se hoje que, nessa época, o grupo político de FHC, através das privatizações, criou um esquema de corrupção financeira que beneficiou os próprios políticos, além de seus familiares e gente suspeita como o poderoso banqueiro baiano Daniel Dantas, dono do Opportunity.

No âmbito cultural, porém, o que surpreende é o envolvimento, na época, dos então gestores do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) com a Fundação Ford, que estaria representando a CIA (Central Intelligence Agency) no envio de recursos para diversas instituições no Brasil. Detalhes podem ser lidos neste texto de Argemiro Ferreira.

Junto a isso, é a adesão aberta da Rede Globo de Televisão ao "produtivo" mercado da "cultura popular" nos anos 90. Ela comandava a "festa" ao lado de emissoras FM regionais apadrinhadas por José Sarney e por Antônio Carlos Magalhães, senador ligado ao governo FHC.

A intelectualidade associada não só mostrava um Milton Moura sedento pela visibilidade nas telas da TV Bahia e no entrosamento com as FMs "carlistas", mas também mostrava Bia Abramo e Hermano Vianna defendendo a mediocridade do "funk carioca" e Paulo César Araújo jurando que os ídolos cafonas que fizeram a trilha sonora da ditadura militar eram "cantores de protesto".

Só que o repentino fracasso eleitoral de Fernando Henrique Cardoso - fato inesperado até depois da suspeita vitória da Seleção Brasileira de Futebol na Copa de 2002 manipulada por Ricardo Teixeira e pela Rede Globo - fez com que as posições dessa intelectualidade que iria "trabalhar" o setor cultural com José Serra (candidato à eleição em 2002), de repente, mudassem. Seria a centro-direita cultural articulada para este fim, que no entanto tiveram que rever suas táticas.

PSEUDO-ESQUERDISTAS

A intelectualidade, então, se dividiu. Alguns se mantinham defendendo o brega-popularesco na Folha de São Paulo, Caras, Rede Globo, O Globo e Estadão, se posicionando num contexto claramente conservador. Hermano Vianna é um dos exemplos, trabalhando nas Organizações Globo. E que, por sinal, como produtor do programa Esquenta! (TV Globo), o antropólogo convidou com gosto o ex-presidente FHC para ser um dos entrevistados.

Outros, porém, tiveram que se posicionar de forma "independente", em que pese o background conservador que tiveram. Paulo César Araújo teve seu livro Eu Não Sou Cachorro Não publicado pela mesma Editora Record que tem Reinaldo Azevedo e Merval Pereira como contratados.

No entanto, Araújo foi convertido em "queridinho das esquerdas intelectuais" - pelo menos a "esquerda" intelectual mais frágil, mais complacente com a indústria cultural - , puxando o caminho para outros que, ao longo do tempo, tentaram cooptar as esquerdas com sua pregação "contra o preconceito estético" ao que definem como "cultura popular".

Ao longo desses dez anos, a centro-direita cultural tentava apagar as antigas impressões de associação com a Era FHC (e, antes disso, com a Era Collor, apoiada pelas elites conservadoras). Diziam que a presença do brega-popularesco na velha grande mídia era "mera coincidência", e que a cultura "nada tinha a ver" com os conflitos político-midiáticos existentes.

Vieram então figuras como o mineiro Eugênio Arantes Raggi, o jornalista da FSP Pedro Alexandre Sanches, e outros nomes como Rodrigo Faour, Ronaldo Lemos (tecnocrata da Fundação Getúlio Vargas), ou mesmo dirigentes funqueiros como MC Leonardo, de claro background conservador, redescoberto pelo cineasta e colaborador do Instituto Millenium, José Padilha (dos truculentos Tropa de Elite 1 e 2).

Diante dos êxitos econômicos do governo Lula, a centro-direita cultural se travestiu de "esquerdista", dissimulando sua visão paternalista sobre as classes populares de toda forma possível. Mas seu conteúdo ideológico sempre deixava vazar alguma associação tanto com o "tropicalismo tucano" de Caetano Veloso de hoje e a Teoria da Dependência de FHC.

Essa intelectualidade pode falar mal de FHC mil vezes. Mas, historicamente, eles aprenderam, e muito com as ideias dele. É como aprendemos na escola: pode-se odiar o professor, mas se compreende direitinho suas lições, a aprovação é garantida.

E o quanto o ex-presidente adoraria de aprovar essa turma toda, como o "rei da cocada preta" - ou o "rei da paçoca preta"? - do etnocentrismo por trás da defesa do brega-popularesco.

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