sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A "INDÚSTRIA" DOS "MOVIMENTOS CULTURAIS"



Por Alexandre Figueiredo

Não bastasse a degradação cultural brasileira ser apoiada, aberta e desesperadamente, por uma boa parcela da intelectualidade, agora vem a mania de registrar modismos ou tendências comerciais da música brasileira como "movimentos culturais".

Afinal, tudo começou quando o "funk carioca", com seu forte lobby com políticos, celebridades e intelectuais cariocas, fez toda uma encenação "militante" para arrancar dos parlamentares da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) o rótulo de "movimento cultural".

A medida teve direito até a fofocas, dando a crer que o "funk carioca" virou "patrimônio cultural da humanidade", título que depende de avaliações precisas de pesquisadores sérios sob a orientação do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Isso fez confundir um processo obtido por vias políticas como se fosse um processo técnico. A boataria confundiu as pessoas, mas a confusão foi um ótimo marketing. Afinal, o brega-popularesco não opera com coerência nem com objetividade, até a intelectualidade associada aponta falhas para os critérios científicos de suas abordagens.

Depois veio o tecnobrega, que no Pará fez a mesma coisa que os funqueiros. Armou toda uma encenação que sugerisse "grande militância", com faixas e cartazes exibidos, e um certo pedantismo jurídico de seus dirigentes e defensores.

Tudo foi feito para que desse certo nas plenárias parlamentares estaduais, que converteram o ritmo em "movimento cultural" e espalhou a mesma boataria, que a Folha de São Paulo (atenção Pedro Alexandre Sanches!) endossou com muito gosto.

Agora é a vez da chamada "música gospel", espécie de "música brega" religiosa e cantada aos berros. Desta vez, a iniciativa tem âmbito nacional, vide o lobby que tais grupos possuem. É um lobby que começa a inserir seus ídolos na Rede Globo de Televisão, quebrando a exclusividade da Rede Record, tradicional reduto dos mesmos, e de horários arrendados em outras redes comerciais.

Essa medida de rotular fenômenos da música comercial como "movimentos culturais" nem de longe os enobrece. É apenas um meio de obter rentabilidade através de verbas públicas, através de investimentos previstos pela Lei Rouanet, criada pelo discípulo dos tucanos Sérgio Paulo Rouanet, quando era ministro do governo Collor.

Segundo analistas, a Lei Rouanet estaria empurrando a cultura brasileira para a supremacia do mercado. A cada vez vemos a cultura brasileira ser diluída, distorcida e deturpada ao bel prazer do mercado, por mais que os intelectuais associados tirem seus corpos fora e digam que tudo está às mil maravilhas e que a "cultura de massa" é a "verdadeira cultura popular".

Balelas. O que se nota é o mercantilismo cada vez crescente, as regras de mercado dominando, a mediocrização cultural crescente e perigosa, enquanto o povo pobre cada vez mais perde espaço, porque o povo pobre não fala mais senão pelo intermédio de intelectuais paternalistas, de políticos fisiológicos e dos barões do entretenimento que ficam com a maior parte do bolo nessa pretensa "cultura da periferia".

Por isso mesmo, "movimento cultural" virou apenas uma embalagem para que tendências comerciais arranquem dinheiro do Estado, para enriquecer ainda mais seus empresários e os ídolos a eles subordinados.

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