sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A FRUTA NÃO CAI LONGE DA ÁRVORE



Por Alexandre Figueiredo

Já se falou que a intelectualidade etnocêntrica cria teses estranhas para justificar, como "verdadeira cultura popular", esse brega-popularesco que não rola nos seus salões privados, essa pseudo-cultura atribuída oficialmente às periferias mas é em boa parte bolada nos escritórios das agências de celebridades.

Uma das teses mais estranhas é que essa música está na grande mídia por motivos de "invasão rebelde". Já questionamos isso, mas vale a pena repetir, já que essa repetição é nada diante de tantas acusações de "preconceito" que, feito uma vitrola riscada, a intelectualidade "divinizada" lança contra quem não reconhece valor artístico-cultural no brega-popularesco.

Alguém já parou para pensar no grande absurdo dessa tese? Ninguém pensou? Certamente, ninguém que lê Caros Amigos e Fórum às pressas conseguiu pensar. Se Pedro Alexandre Sanches, ou então Paulo César Araújo e outros, disserem que nomes como Alexandre Pires, Banda Calypso, Gaby Amarantos, Chitãozinho & Xororó e Mr. Catra aparecem na Rede Globo por conta de algum plano de derrubada da grande mídia, esses leitores aceitam logo de cara, sem verificar e, ainda por cima, batem palmas feito focas de circo.

Grande absurdo. É só prestar muita atenção na aparição de cada um deles. A intelectualidade média mostra o seu grande caráter de desinformação, e seu tão aclamado senso crítico não é mais do que um processo precário de raciocinar criticamente alguma coisa.

Afinal, quando Mr. Catra foi considerado "sem mídia", já era figurinha fácil na Rede Globo. Mas a intelectualidade média, do contrário da intelectualidade mais experiente, que assiste aos noticiários da Globo para ver o que nomes como William Waack, Merval Pereira e Miriam Leitão andam dizendo, nem sequer observa as coisas.

Pois isso mostra o quanto a intelectualidade "sem preconceitos" é preconceituosa. O que ela quer saber é se o ídolo brega-popularesco sofreu muito na sua origem pobre. Quer ouvir o seu dramalhão, mas verificar se seus CDs prestam ou não, nem se encorajam. Só quando vários deles tomam cerveja no botequim, já que a bebida permite aguentar barbaridades sonoras como se fossem doces melodias.

E aí, se desinformam mais do que informam. Seu conhecimento livresco é superficial e burocrático, feito mais para cumprir normas acadêmicas do que para obter algum real conhecimento. Sua vivência social se resume ao contato superficial com alguns profissionais de origem humilde que aparecem em seus condomínios, como porteiros de prédio, empregados domésticos e faxineiros, ou na sua vida corriqueira, como alguns comerciantes e feirantes.

Fora isso, essa intelectualidade tão "conhecedora das periferias" - ou talvez das "periferias" descritas pelo "sábio" sociólogo Fernando Henrique Cardoso, no momento "comprometido" com as denúncias investigadas pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr. - só conhece as classes populares da maneira mais superficial e idealizada possível.

E, por isso, seus preconceitos "positivos" - que aparentemente não apelam pela rejeição, mas pela "aceitação" fantasiosa da idealização - apelam para teses absurdas, desprovidas da verdadeira informação da realidade, mas tornadas "dogmas" e "axiomas" por conta de uma "panelinha" de cientistas sociais e críticos musicais com muita, muita visibilidade.

Por isso a tese de que os "sucessos do povão" estão na mídia porque querem destrui-la. Como, se os ídolos em questão aparecem felizes, sem demonstrar qualquer sinal de ironia? E eles não são despolitizados, como os próprios intelectuais etnocêntricos tanto dizem?

Isso é o mesmo que dizer que a fruta não cai longe da árvore ou que a trilha sonora de um filme não tem a ver com o mesmo. Imagine se uma manga dissesse que nunca faria parte da mangueira, mas de um cajueiro? Ou se a trilha sonora do filme O Poderoso Chefão fosse vista como se nunca tivesse associação com o filme?

Os ídolos "populares" do brega-popularesco foram lançados pela mídia conservadora dentro de contextos sócio-políticos conservadores. E isso vale até mesmo para "injustiçados" como Odair José, Gaby Amarantos e Leandro Lehart. Ninguém iria fazer uma rebelião contra a velha mídia, se de uma forma ou de outra são crias dela, sejam eles moldados ou remoldados por ela.

Daí a incoerência da intelectualidade que quer defendê-los como se fossem a antítese da velha mídia que os criou e fez crescer.

Alguém imaginou, na Matemática, o número seis se rebelando contra a meia-dúzia?

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