sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"FORA DO EIXO" É ESTAR DENTRO DO EIXO


A "FORA DO EIXO" GABY AMARANTOS (CENTRO) PARTICIPOU DO EVENTO DO FdE MESES DEPOIS DE TER GRAVADO PARA UM ESPECIAL DA REDE GLOBO.

Por Alexandre Figueiredo

Em duas vezes, o jornalista Ricardo Alexandre afirmou sobre o ato de defender ideias de direita com discurso de esquerda. Uma vez foi no livro Dias de Luta, noutro numa resenha de um disco do Charlie Brown Jr. para a revista Bizz, na sua breve "ressurreição" de 2004-2006.

O colega Pedro Alexandre Sanches gostou da brincadeira e ele tenta promover o que ele acredita ser "cultura independente e alternativa" através do mercadão popularesco dominante.

Em mais de uma investida retórica na mídia de esquerda, Sanches apela para os mesmos clichês, meio "urubológicos", meio "esquerdistas". "Belisca" a "USP tucana" como quem cospe no prato em que comeu, e se esquecendo que o Governo do Estado de São Paulo, que investiu na repressão aos estudantes da USP, patrocinou o recente seminário Fora do Eixo, que é o foco do texto de Sanches na revista Fórum deste mês (com uma foto de Pablo Neruda na capa).

O Fora do Eixo seria um movimento meio engajado, meio mercadológico, que havia realizado um seminário sobre cultura no qual, entre outras pessoas, participaram tanto Pedro Sanches quanto sua "ídala" Gaby Amarantos.

No texto sobre o seminário, Pedro tira o corpo fora. Fala que "não estamos sintonizados na Rede Globo, nem na TV aberta e muito menos na TV paga". Mais uma vez ele tenta "matar o mercado", "matar a velha mídia" e "falar mal" de tucanos e da Folha e Veja.

No entanto, Gaby Amarantos, pouco antes do "arrojado" seminário, havia aparecido, em rede nacional, num tributo a Zezé di Camargo & Luciano na Rede Globo (os "esquerdistas" que votaram no coronelista Ronaldo Caiado).

No evento, também apareceu a intelectual Ivana Bentes, que em que pese suas boas ideias criticou o mito da "periferia legal" mas elogiou o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, que também evoca a "periferia legal". É como se dissesse: "Eu odeio abóbora, mas adoro jerimum".

Com muito pretensiosismo, Pedro Alexandre Sanches confunde senso crítico com "preconceito social", repetindo os mesmos argumentos, e partindo para a "urubologia" gratuita. Querendo fazer propaganda do evento, ele arrogantemente diz que os que "não apareceram" no Congresso do FdE são ligados à grande mídia, às revistas de celebridades etc.

Como se quisesse transformar o FdE na "alternativa ideal" para se promover a "cultura alternativa", Sanches tenta definir o evento - tomando emprestado de um comentário de um dos que usavam o "microfone aberto" do evento - como um "occupy qualquer coisa", algo tão tolo quanto dizer que "todo mundo está aqui, menos a Luíza, que ficou no Canadá".

Sanches, a certas alturas, parece até mesmo preferir o FdE em detrimento ao mangue beat. "Reconhece" os méritos do movimento pernambucano, e admite que o FdE destoa do caráter revolucionário e artístico do movimento liderado por Chico Science (falecido há 15 anos). Mas logo dá sua preferência ao FdE, e ao longo do texto se vê que Sanches tenta "politizar" o "despolitizado", preferindo atacar do que esclarecer.

Afinal, diante da bronca do músico China, ex-integrante do Sheik Tosado e músico ora em carreira solo, ora com o grupo Del Rey, Sanches prefere fazer "urubologia" barata. China é desqualificado como "autor de trolagens" e tratado como se fosse fascista, além de ser acusado de "desestabilizar" o "debate cultural" do FdE por conta das críticas dadas à entidade.

China, tanto no seu blogue quanto em uma entrevista, acusa o Fora do Eixo de não remunerar os artistas que se apresentam nos eventos patrocinados pela entidade. Pedro Sanches se limitou a dizer que isso era uma "meia-verdade", sem dar mais detalhes.

China acrescenta, também, que o Fora do Eixo, sustentado por verbas públicas, não dá apoio real às bandas independentes, e que apenas quer criar uma rede de festivais para se autopromover política e financeiramente, além de vários membros se autopromoverem às custas do FdE. Em certo momento, China diz não duvidar que algum destes "se can­di­date a depu­tado nas pró­xi­mas elei­ções. E o slo­gan já está pronto: EM DEFESA DA CULTURA BRASILEIRA. Haja paciência".

De início, é positivo haver uma entidade que reúna produtores de eventos e sustente manifestações alternativas. Mas do jeito que o FdE se organiza, o risco das aparentes boas intenções sucumbirem a interesses corporativistas dos envolvidos é muito grande.

"FORA DO EIXO": O "INSTITUTO MILLENIUM" DO 'UNDERGROUND'?

O Fora do Eixo é uma organização que envolve alguns produtores de eventos, críticos musicais - vários deles oriundos das fases da Bizz e da Ilustrada da Folha nos anos 90 - e alguns intelectuais.

A entidade, na verdade, seria uma aglutinação de eventos musicais regionais ocorridos pelo país. E que, na prática, aparentemente busca um "meio termo" entre a cena alternativa e os nomes brega-popularescos ainda a caminho do mainstream de seu sucesso comercial.

O discurso de "liberdade" é aparentemente enfatizado. Como se vê no conceito de "liberdade" difundido pela velha imprensa. Mitos como a livre iniciativa e o livre mercado são diluídos de forma sutil, dentro de um discurso que pareça exaltar culturas alternativas. O que pode alinhar o Fora do Eixo na mesma perspectiva "independente" do Instituto Millenium.

O próprio fato de Gaby Amarantos ter participado do último congresso, realizado em dezembro passado, mostra o quanto é discutível essa noção de "cultura alternativa". Afinal, Gaby se projetou como a "Beyoncé do Pará", se utilizando de um referencial nada alternativo e de modo nenhum underground, já que se trata da maior celebridade do hit-parade mundial do momento, Beyoncé Knowles.

Na prática, porém, subentende que o FdE - que sinaliza apoio ao tecnobrega e ao "funk carioca" - concilie tanto eventos outrora alternativos como o Recbeat como certos eventos brega-popularescos que ocorrerem sob o verniz de "mídias alternativas".

A princípio, o movimento FdE aposta numa gororoba cultural, misturando alguns artistas autênticos com outros da "cultura de massa", a pretexto da "diversidade cultural" tida como "excluída" da grande mídia.

DISCURSO DE DUAS DÉCADAS ATRÁS

O moderno discurso do FdE, que em parte é o discurso de Pedro Alexandre Sanches, é defasado em duas décadas. Isso porque evoca perspectivas de caráter tecnológico e sócio-político que ainda põem em pauta uma visão por demais utópica em relação à globalização e à informática. E além disso o FdE não parece romper com os velhos padrões de indústria do entretenimento, antes o "renovasse" apenas com alguns aparatos mais "progressistas", que com o tempo serão facilmente digeridos pelo mercadão.

Juntando isso tudo com o estilo Fukuyama de Pedro Sanches analisar a cultura brasileira, classificando de "higienistas" e "preconceituosos" quem tem o senso crítico mais apurado, o entusiasmo diante de uma inciativa destas dá lugar a uma apreensão crítica e analítica.

Para Sanches, e provavelmente seus pares na entidade, a "cultura popular" é um prato feito no qual não cabem avaliações críticas. Não cabem avaliações estéticas, vistas como "preconceituosas" por intelectuais "sem preconceitos" que, eles sim, mostram-se radicalmente preconceituosos: qualquer crítica ao establishment "popular" é visto como "racista", "higienista", "moralista", "elitista", "saudosista" e outros adjetivos lamentáveis.

Se tem mosca na sopa, criticá-la seria um ato "discriminatório" contra a mosca nela presente. Se tem fezes no churrasco, temos que aceitá-lo como material orgânico a este integrado. Se alguém vomitou numa muqueca, devemos ver nisso um tempero adicional "benéfico" ao prato servido.

Sim, Sanches defende o "prato feito" do nosso entretenimento dominante. Pouco importa se o grupo de "pagodão baiano" é controlado por um poderoso empresário. Se o grupo conseguir entrar no clima de compadrio de Sanches, Carlos Eduardo Miranda e quejandos, vira "fora do eixo" imediatamente, promovido oficialmente a "ícone da cultura alternativa brasileira" (ou transbrasileira, num jargão neoliberal enrustido).

Basta um programa de trainée e, pronto, aquele "pagodeiro baiano" altamente rebolativo e aquele "pagodeiro romântico" que sorri demais viram "alternativos". Ou talvez dentro de cinco anos Michel Teló reapareça no FdE abraçado a algum artista ciberperformático que tendenciosamente misture Itamar Assumpção e Paulo Sérgio, Sérgio Sampaio com Carlos Alexandre. Ou quem sabe o É O Tchan é promovido a "combo multimídia ciber-performático".

É um discurso velho porque acredita na utopia de que a tecnologia em si contribui para a renovação do folclore brasileiro. Ou como se a globalização, por si só, fosse a salvação da lavoura. Basta amarrar o povo da periferia com plugues hiperconectados ao mundo que nosso folclore, segundo esse discurso, está salvo.

Dá pena Pedro Sanches e sua turma usarem o saudoso Oswald de Andrade em causa própria. O poeta modernista só serve para que os músicos brasileiros possam brincar de Beyoncé, de Michael Jackson, de Lady Gaga ou usar chapéus de caubói. Mas para assimilarmos as lições críticas das análises estéticas e sócio-políticas de Umberto Eco e Noam Chomsky, não.

Para a intelectualidade etnocêntrica que encontra no FdE sua potencial vitrine, Eco e Chomsky só trabalham com visões de fora. Aqui, os dois seriam tidos como "preconceituosos", e o que 'tem que valer" para nós é a "Disneylândia do mau gosto", temperada com um discurso complacente de utopias ciber-globalizantes.

Por isso, o Brasil está ainda preso nos anos 90, das utopias cibernéticas em detrimento dos potenciais humanos. A utopia de que a mundialização salvará o país, que a tecnocracia é a salvação do folclore e que os bregas representam a redenção do povo pobre brasileiro.

Utopias neoliberais. Depois esses intelectuais vão falar mal de seu mestre FHC. O FdE está bem dentro do eixo do mercadão brasileiro em geral. Nós, que temos nosso senso crítico e acreditamos numa cultura de verdade, feita por valores e não pela quantidade de público atraído, é que estamos "fora do eixo" dessa intelectualidade dominante.

Isso porque somos nós, com nosso "preconceituoso" (sic) senso crítico, que desejamos manter a cultura popular dentro dos eixos. Sem paternalismos intelectuais, sem o controle direto ou indireto dos barões da mídia e dos chefões da indústria do entretenimento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...