sábado, 7 de janeiro de 2012

A CULTURA NÃO VIVE ISOLADA DA POLÍTICA



Por Alexandre Figueiredo

O Brasil se transforma e as velhas abordagens ideológicas não podem mais se travestir de novas, desmentindo métodos, camuflando princípios, usando falsas alusões e pretensas analogias.

A evolução do país para o sexto maior produto interno bruto mundial pode não representar a entrada plena no seleto clube dos países desenvolvidos, mas o Brasil já possui maior destaque na geopolítica mundial, realizou melhorias sociais expressivas e já possui voz cativa suficiente para ser ouvido nas questões sobre a proposta do surgimento do Estado da Palestina e outras questões de segurança da ONU.

O Brasil pode não ser membro do Conselho de Segurança da ONU, como por razões óbvias nosso país não integra a OTAN (Organização Tratado do Atlântico Norte) e também não faz parte da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) senão como país consultor. Mas nos últimos dez anos sua atuação política foi mais destacada e respeitada pelas autoridades internacionais.

No entanto, ainda há muito o que fazer. Porém, sabemos que as mudanças sociais não são em vão, e que a cultura não está isolada no seu casulo, sendo ela fortemente influenciada pelos âmbitos político e econômico. E é isso que a intelectualidade considerada "influente" tentou, durante anos, desmentir num discurso emocionalmente apelativo.

Durante um bom tempo, qualquer crítica que fizermos à crise cultural vivida pelo país era vista como um "grande preconceito". E recebíamos as piores adjetivações de intelectuais e até de internautas que se julgavam "donos da verdade".

Eram as mesmas pessoas que tinham muito medo de ver um subúrbio em locais como o entorno da Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, mas se achavam com "segurança" para dizer o que é "cultura das periferias". Tudo por conta de livros sociológicos vistos às pressas, documentários estrangeiros sobre o Brasil vistos uma única vez e tratamentos paternalistas com porteiros de prédios, empregados domésticos, faxineiros, garis, feirantes e camelôs.

Durante anos essa intelectualidade era endeusada, era tida como unanimidade até entre blogueiros e internautas da chamada "esquerda média". E chegavam a escrever na mídia esquerdista dissolvendo seus conceitos e preconceitos neoliberais com uma argumentação pseudo-humanista, "favorável" ao povo pobre.

E aí mentem dizendo que os chamados "sucessos do povão" estão fora da mídia, que a indústria fonográfica "morreu" e que até Chitãozinho & Xororó só fizeram sucesso na vida por causa das "redes sociais", mesmo antes da Internet surgir. Criam inverdades e mentiras que valem como "verdades", "dogmas" ou "axiomas" aos quais qualquer contestação é tida como "preconceito".

Aí vem reações dignas da mais explícita "urubologia". Se criticamos um sucesso brega-popularesco, somos não apenas "preconceituosos", como "elitistas", "moralistas", "higienistas", isso para não falar dos palavrões e xingações que os internautas fazem gratuitamente contra nós.

A "urubologia" desses intelectuais tidos como "de esquerda" chega mesmo a botar culpa em intelectuais ou ativistas do passado pela mediocridade reinante nos dias de hoje. Se o É O Tchan é baixaria, a "culpa" é do poeta Gregório de Mattos. Se o "funk carioca" incomoda, a "culpa" é do líder de Canudos, Antônio Conselheiro. Se o tecnobrega é americanizado, a "culpa" é do poeta Oswald de Andrade. Se o brega dos anos 70 é ruim demais, a "culpa" é do empresário punk Malcolm McLaren.

COMO NAS DIRETAS JÁ

Mas esse convívio com a centro-direita cultural e a intelectualidade de esquerda é uma forma remanescente da "frente ampla" que havia há pouco mais de 25 anos atrás, com as articulações políticas pela redemocratização do país.

Nessa época, o PMDB já criava um partido dissidente, o PSDB, enquanto o antigo PDS, já surgido dos escombros da ARENA, se dividia com parte dele formando o então PFL (hoje DEM). Mas havia uma "frente ampla" que incluía de direitistas moderados a parte da esquerda, sobretudo o PT.

Era como que uma "reedição" da Frente Ampla de 1966-1968, que a velha imprensa fez esquecer da memória, quando os históricos rivais Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek fizeram as pazes e bolaram juntos uma campanha de redemocratização do país, conseguindo o apoio de João Goulart, já exilado. Prepotente, a ditadura militar declarou extinta a Frente Ampla logo quando o movimento era discutido e a redemocratização era uma causa em ascensão, naquele 1968 que tristemente se encerrou com o AI-5.

Hoje temos um "resíduo" dessa época. Sabemos que alguns dos ideólogos mais badalados do brega-popularesco - Paulo César Araújo, MC Leonardo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches - estão alinhados à centro-direita.

Se a campanha pelas Diretas Já se identificava com um desejo relativo de superação de um contexto político autoritário, a "frente ampla" intelectual teve o desejo relativo de superar uma abordagem cultural elitista.

DESILUSÕES COM "ALIADOS" DE OCASIÃO

Como disse o intelectual Luiz Carlos Maciel, "feito o PMDB, trocou os ideais de liberdade pelas vantagens concretas do poder". Dessa forma, o Brasil sempre teve em sua história momentos em que grupos progressistas recebem o apoio de outros nem tanto para conseguir alguma mudança que, embora chegue a ser significativa, não rompe com as velhas estruturas do poder, antes apenas expurgando quem é o mais retrógrado dos retrógrados.

Hoje vemos que aquela intelectualidade "ecumênica", cujo perfil ideológico aparentemente tinha franco acesso na Ilustrada da Folha de São Paulo e na Caros Amigos, na Rede Globo e na revista Fórum, estar à beira de uma dissolução, quando os "aliados" de ocasião passam a assumir suas posturas ocultas ou latentes.

Afinal, nos últimos anos, as esquerdas se dissolvem na medida em que os adeptos mais conservadores se desiludem com as mudanças sociais que eles não acreditavam ocorrer pra valer. No meio do caminho, alguns aliados passam a romper com a esquerda ao assumirem, de uma forma ou de outra, visões mais elitistas.

Foi assim que antigos comunistas como Arnaldo Jabor, Marcelo Madureira e Fernando Gabeira se tornaram os neocons da última temporada. Houve a Soninha Francine, ex-VJ que ninguém iria acreditar que apoiaria José Serra, tal o seu discurso com um quê de filantrópico e socialista.

E, mais recentemente, o ultrareacionário mineiro Eugênio Arantes Raggi não conseguiu convencer sequer os seus amigos de que não passava de um direitista enrustido, isolado pelos falsos ataques a figuras de direita e pelas inconvincentes bajulações a figuras de esquerda.

Mas isso não foi suficiente para estarmos em alerta. Ainda há socialistas ou trotskistas com bico de tucano bem afiados. Só que poucos aprendem. Para todo o efeito, um Pedro Alexandre Sanches da vida é "intelectual de esquerda" e ponto final. Por quê? "Porque sim". E quem questionar isso é visto com medo, afinal ainda temos que aprender com os troianos. Os Cavalos de Tróia popularescos é que importam, os alertas das "cassandras" são "preconceituosos".

Esse discurso dominante da intelectualidade etnocêntrica, apesar de ainda prevalecer e ser influente, já começa todavia a se divergir da visão cultural dos analistas mais sérios. E pode criar conflitos dramáticos, porque se no enunciado todos nós nos convergimos, é a partir dos pormenores que criam divergências violentas, sérias.

Foi assim na política. PT, PSDB, PMDB, PFL, PSB e PDS se convergiam na defesa das eleições diretas e na volta dos civis ao comando político nacional. Certo, foi "feito o PMDB", com Tancredo Neves vencedor, mas que, doente e depois falecido, cedeu o lugar para José Sarney. E daí? Com o tempo, os grupos políticos foram se rearticulando e o PT e PSDB hoje se polarizam como forças políticas antagônicas, na medida em que o então inédito item "reformas sociais" passou a fazer ponto nas agendas intelectuais.

Na mídia, a chamada "mídia boazinha", parte da mídia conservadora que aparentemente divergia do esquema extremista da época, pró-ditatorial, aos poucos foi se aliando aos seus "algozes", esquecendo as desavenças concorrenciais.

Se o extremismo conservador da mídia era apenas representado pelos grupos Globo, Estadão e Abril (mais a revista Visão e outras mídias ultraconservadoras), naquela época a "boa mídia" era representada por veículos que, diferentemente dos concorrentes, pareciam defender a redemocratização do país.

Assim, veículos como Folha de São Paulo, Grupo Bandeirantes, a Isto É e alguns outros foram considerados "heróis" pela opinião pública, e até foram superestimados no seu papel de formadores de opinião. Ao lado deles, veículos como a Rádio Metrópole, de Salvador, a Rede Brasil Sul, da família Sirotsky (antes vinculada à antiga revista Senhor) e Rede Transamérica, além de, pasmem, a Rede CBN (cuja reputação, a princípio, era dissociada da imagem pejorativa das Organizações Globo), correspondiam ao âmbito da "boa mídia" que poucos reconheciam ser também conservadora.

Recentemente, vemos desilusões que fizeram mudar a posição ingênua a essa facção da mídia. O mais violento ataque às esquerdas baianas não foi feito pela Rede Bahia dos herdeiros do senador ACM, mas por um Mário Kertèsz que, na Rádio Metrópole, era visto como "amigo das esquerdas" ou até como "esquerdista" (apesar de seu passado arenista), com direito a citar os nomes de Emiliano José e Oldack Miranda, ligados ao PT baiano que o "Berlusconi com dendê" fingiu apoiar.

No plano nacional, o ataque mais virulento às classes trabalhadoras não foi feito nas páginas da Veja, mas em rede nacional, durante uma falha técnica que vasou o som de bastidores da TV Bandeirantes. Bóris Casoy, ex-militante anticomunista, havia feito o que Diogo Mainardi não teve coragem de fazer, falando mal dos garis dentro de um veículo midiático que havia feito, pouco antes, parcerias publicitárias com Carta Capital e Caros Amigos.

Hoje, com a revelação das contradições da intelectualidade dominante - e até hoje confiante em ter as esquerdas sob seu domínio ou, quando muito, consentimento - , uma nova desavença pode acontecer.

Afinal, a visão de que a cultura vive isolada da política, contrastando as abordagens do noticiário político, explosivas, tensas e questionadoras, com a abordagem da "cultura popular" resignada com o que "está aí" nas rádios FM e TV aberta, a cada dia mostra suas contradições quando confrontada com o que pensam os analistas mais competentes.

Não dá para pensar a cultura popular como um paraíso de contos-de-fadas indiferente ao jogo político. Não dá para falar, por um lado, de um Pará em conflitos de terras e ação da pistolagem, tenso e infernal, e outro Pará fantasioso do "espetáculo" tecnobrega que faria um Guy Debord ficar envergonhado. Até porque o próprio latifúndio que metralha trabalhadores, sindicalistas, padres e missionárias sempre patrocinou, associado à velha mídia local, o "forró eletrônico" e todos os seus derivados, inclusive o tecnobrega.

Há mecanismos de dominação por trás dessa "cultura do mau gosto" que em nada contribui para a evolução das classes populares. E a evolução social cobra uma cultura de verdade, sendo inadmissíveis as desculpas da intelectualidade dominante de que seus críticos só pensam em "paranóias".

Afinal, os conservadores não assumem um discurso explícito. Isso está tanto em José Serra quanto em Pedro Alexandre Sanches, tanto em Ali Kamel quanto em Paulo César Araújo. Dizer que "nos escombros nascerão flores" é muito fácil, e até mesmo a ditadura militar foi instaurada sob o pretexto de defender "a liberdade e a democracia".

A sociedade se evolui, a economia cresce, e os valores se transformam. Mas o que irá doer na intelectualidade etnocêntrica é que aqueles valores que eles acreditavam desde a Era Geisel, mesmo travestidos sob o mais denso verniz esquerdista, começam a perder o valor. Apostar na evolução da cultura popular através dos mesmos atores que contribuíram para a sua degradação, mesmo com a ajudinha da intelectualidade mais solidária, será inútil diante de novas demandas e novas necessidades.

E é isso que irá revelar os futuros Arnaldo Jabor e Sônia Francine de amanhã. Gente que ainda hoje diz adorar até Che Guevara. A julgar pela fácil adesão de funqueiros e tecnobregas - tidos como os mais "arrojados" do brega-poularesco - aos mecanismos da velha mídia, já dá para perceber os novos "urubólogos" que virão quando contestarmos, mais e mais, a mesmice de bregas, neo-bregas e pós-bregas no establoshment brasileiro.

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