sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

CULTURA ALTERNATIVA EM RISCO DE DETURPAÇÃO



Por Alexandre Figueiredo

Os "longos anos 90", para muitos interessados, não devem terminar. Tempos de "livre mercado", de "fim da história" e de utopias tecnológicas e globalizadas, eles agora são relançados sob o rótulo de "anos 2010", com o "novo" dissimulando o já "velho e cansado".

Afinal, não vivemos mais os tempos de valores duradouros, como na década de 1960, quando se estabeleciam princípios pensando no amanhã. São valores que, aparentemente, soam cronologicamente mais antigos que o dos anos 90, mas a diferença é que, antes, se pensava no amanhã, na posteridade, e hoje se pensa no imediato, no pragmático, daí os valores dos anos 90 serem mais perecíveis do que os de trinta anos antes.

Dos anos 70 para cá e, com maior intensidade, desde os anos 90, pensa-se em valores pragmáticos visando apenas o imediato, pensando no hoje, embora acreditando que o amanhã tenda a ser uma cópia xerox do hoje, de preferência uma cópia mais radical ou, talvez, mais aberrante ainda.

É essa a perspectiva oculta no tal "movimento" Fora do Eixo, formado por uma elite de acadêmicos, ativistas, jornalistas e intelectuais. O FdE, pelo que se vê no perfil de alguns de seus participantes, pode representar uma futura burocratização da cultura alternativa e a submissão da cultura independente ao mercado dominante.

Embora se anuncie como um grandioso movimento de cultura alternativa, o FdE, só pelo apoio direto ou indireto de alguns nomes, pode simplesmente reduzir a cultura alternativa numa simples "alimentadora" do mercado dominante, sem que rupturas reais com as regras de mercado sejam feitas.

Entre esses nomes, vemos um Carlos Eduardo Miranda, produtor musical e jornalista, além de músico, que transformou o cenário do Rock Brasil dos anos 90 numa cena asséptica, acrítica, numa imitação mais conformista e menos criativa do cenário "new wave" vivido nos EUA e na Europa entre 1978 e 1985.

Eram os tempos das "bandas engraçadinhas", a maioria mais preocupada em arrumar um bom empresário antes de formar as linhas básicas de seu repertório. Mais preocupada em contar piadas ou dar sorrisos cínicos nas fotos do que fazer boa música. Bandas que tinham uma estrutura profissional e técnica até bem feita, mas tinham deficiências criativas enormes.

É só perceber alguns desses grupos: Baba Cósmica, Virgulóides, Ostheobaldo, Poindexter, Peter Perfeito, entre outros. Para não dizer Raimundos e Mamonas Assassinas, os mais populares dessa cena.

Os Raimundos faziam aquele "rardicor" caricato, que pouco tinha da veia crítica do verdadeiro hardcore. Uma de suas músicas, por exemplo, só falavam em "querer ver o oco". E um dos discos veio a se chamar "Só Nos Forevis", enfatizando o humor como era de praxe nesses grupos.

Já os Mamonas Assassinas era a síntese antecipada de tudo que a mediocridade cultural produziu nos últimos 15 anos, de Exaltasamba a Michel Teló, do Pânico na TV ao Restart. Mas os Mamonas pelo menos se assumiam como piada, do contrário que seus "herdeiros" de hoje, que temos que levá-los a sério, até demais.

Havia exceções nesta cena, é claro, mas o que se via em sua maioria esmagadora era a diluição da cultura alternativa, dentro do universo roqueiro, que na prática só isolou o segmento rock para um público mais jovem, de classe média e que mesmo dentro do rock já cometia suas injustiças condenando o que é mais antigo.

Não é à toa que o saudoso Renato Russo quase teve sua boa reputação perdida durante um período em que o grupo Charlie Brown Jr. - apadrinhado por um discípulo de Carlos Eduardo Miranda, Rick Bonadio - vivia o momento de fanatismo intolerante de seus fãs. O grupo de Santos havia sido escolhido pelo mercado para ocupar o nicho dos Raimundos, que na sua crise interna perdeu o vocalista Rodolfo Abrantes, que brigou com o grupo e hoje é pastor evangélico.

Com a onda do Charlie Brown Jr. e seus intolerantes fãs, Renato Russo quase foi jogado ao esquecimento, ridicularizado sob o pretexto de que o falecido cantor havia gravado música italiana. Só depois, com o revival dos anos 80, Chorão e companhia tiveram que pegar carona gravando justamente "Baader-Meinhof Blues", na tentativa de pedir desculpas pela atitude dos fãs.

O declínio desse rock "pragmático" e "limpinho" da cena lançada por Carlos Eduardo Miranda e pelo ex-vocalista do Não Religião (os "Los Saicos" do emo?), Tatola, abriu o caminho para os jovens de classe média alta abraçarem o brega-popularesco. Era um rock tão "limpinho" e bem mixado que, para tentar parecer "sujo", geralmente usava-se baterias ruins, cujos tambores tinham o mesmo som de latas de leite Ninho.

Até a trolagem passou a ter outro foco. Nomes como Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Mr. Catra, Banda Calypso e os breganejos João Bosco & Vinícius e Leonardo passaram a ter os mesmos fãs fanáticos e fascistas que Charlie Brown Jr. havia deixado de ter.

Além de Miranda, temos o já muito falado Pedro Alexandre Sanches, que faz falsos ataques ao PSDB e à velha mídia, tentando nos fazer esquecer de seu passado como cria do Projeto Folha. E tem a cantora Gaby Amarantos, que é tão "sem mídia" que apareceu até na Rede Globo e Veja, e tão "alternativa" que se inspirou na atual "rainha das paradas de sucesso" - o hit-parade é o extremo oposto da cultura alternativa - , Beyoncé Knowles, para fazer seu espetáculo tecnobrega.

O maior risco do FdE, portanto, não é a aglutinação de vários eventos e instituições independentes. Até porque este ato, por si só, pode ser saudável e positivo. O risco é de transformar a cena independente numa "panelinha" de intelectuais, produtores e acadêmicos "bacanas" que, em vez de romper com o velho mercado - apesar de insistirem nesta tese, no discurso - , apenas o "renovam" sem oferecer ameaça às regras dominantes.

Juntando uma MPB alternativa, inteligente mas sem compromissos de análise crítica da realidade e do mercado, com músicos performáticos mais preocupados em chocar do que em qualquer coisa, além de outros mais preocupados com o uso de tecnologia de ponta e a "massa excluída" do brega-popularesco (neste caso, Gaby Amarantos e Leandro Lehart são alguns exemplos), a "panelinha" dos "fora do eixo" poderá amarrar a cena alternativa através de suas regras de "livre mercado".

Para dar a impressão contrária, eles - que abusam do discurso "esquerdista" - deixam o microfone livre para qualquer um se expressar. "Qualquer um", em termos. Desde que não seja para exprimir sua consciência crítica em relação ao mundo em que vivemos.

Tudo dentro de uma perspectiva pós-tropicalista e neo-caetânica de analisar o mundo num astral pop inofensivo, embora pretensamente "provocador" e "arrojado". Perspectiva que reduz o senso crítico a um inofensivo processo de criar uma verborragia em que se critica o nada e se contesta a coisa nenhuma, "entes" evocados numa retórica pós-moderna, com um quê de concretista - Ferreira Gullar que o diga - , com outro quê de pós-tropicalista - Caetano Veloso que o diga.

E os coitados de Oswald de Andrade, Gregório de Matos e Itamar Assumpção terão que assinar embaixo até quando os Psiricos da vida forem cooptados pelo esquemão FdE em Salvador. Eles não estão mais aí para reclamar. Há vezes em que certos mortos morrem mais de uma vez, usados, usurpados e abusados para fora de seus contextos.

Vide Raul Seixas, que certamente não gostaria de ver seu nome associado à dupla Chitãozinho & Xororó (que o roqueiro baiano odiava, e disse isso numa entrevista). A propósito, Chitãozinho & Xororó também são artistas "fora do eixo"?

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