segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

CRISE DO BBB FAZ INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA SE MEXER



Por Alexandre Figueiredo

A recente e avançada crise do Big Brother Brasil e a revolta popular diante da repressão policial na favela de Pinheirinho, em São José dos Campos, podem parecer fatores diferentes, dentro de uma crise sócio-cultural manifesta também pelo "fenômeno" Michel Teló e pela tal "Luíza, que esteve no Canadá".

Mas a crise do que é o paradigma de "popular" entendida pela intelectualidade cultural dominante a faz mexer e evitar que reflexos das "primaveras" árabe, europeia e norte-americana, venham à tona em nosso país.

Pois parece mera coincidência que uma elite de intelectuais etnocêntricos venha a se reunir num "movimento indie" para tentar cooptar o que entendem como "cultura popular", articular o que entendem por "cultura alternativa" e se apropriar de todo o discurso associado às esquerdas e vanguardas culturais existentes.

Pois, de repente, veio o "movimento" Fora do Eixo, que na prática juntará a burocracia docente das universidades, o mercantilismo de produtores culturais e o poderio midiático de cientistas sociais e críticos musicais "influentes" para ao menos criar um esquemão de "diversidade cultural" que não interfira nos interesses midiáticos dominantes.

O discurso tenta dar a expressão extremamente contrária. Usam-se clichês do discurso modernista e tropicalista, cujo sentido é claramente deturpado, sobretudo através da datilografia de Pedro Alexandre Sanches. Da "antropofagia cultural" à fonografia independente, seus conceitos são alterados a bel prazer, enquanto conceitos relacionados ao "livre mercado" tentam ser sutilmente desmentidos.

No primeiro caso, até uma frase como "Só me interessa o que não é meu" é deturpada, permitindo que a cultura brasileira se subordine ao mercadão estrangeiro intermediado pelas rádios FM, com o pobre Oswald de Andrade, falecido há quase 60 anos, usado a bel prazer pela intelectualidade etnocêntrica associada.

Esta procura se mexer, de forma que os cientistas sociais e críticos musicais possam se assenhorear do processo de formação da cultura popular, evitando que o povo pobre lhes escape do controle seguro de suas visões não-assumidamente paternalistas.

Mas, conforme o segundo caso, o "deus mercado" acaba se tornando o "rei mercado" ovacionado pela corte intelectualóide. "O rei morreu, viva o rei!", é o que se vê nos argumentos, em que o "deus mercado" é morto a pauladas no primeiro parágrafo, mas logo no segundo ele é ressuscitado com muita cerimônia, mas sem que se admita isso numa só vírgula.

O discurso, por isso, é muito perigoso. É na cultura que estão as piores manobras políticas. Afinal, boa parte da intelectualidade engajada no FdE - inclusive o próprio Pedro Sanches - se educou na ideologia mercadológica de Fernando Henrique Cardoso, que explicitamente lançou conceitos também para a área cultural.

Foi durante a Era FHC que veio a "cultura rock de proveta", para amestrar a cena de rock alternativo, e o "popular" mercantilista do brega-popularesco. De um lado e de outro, clichês tanto da cultura independente quanto da cultura popular eram trabalhados de forma que tudo parecesse verossímil, embora asséptico e altamente domesticado, em ambos os lados.

Não é à toa que a 89 FM, a dita "rádio rock" de São Paulo, e a "popular" Nativa FM, foram projetos bancados pelos mesmos donos, o empresário José Camargo e seus dois filhos, uma oligarquia empresarial famosa pelo seu conservadorismo discreto, mas que havia apoiado a ditadura militar e os governos Collor e FHC.

A primeira, até pouco tempo atrás, e a segunda, até hoje, canalizam essa deturpação tanto das expressões folclóricas quanto pelas vanguardas culturais, deturpação que parece ser sinalizada pela "panelinha" intelectual por trás do Fora do Eixo.

Afinal, um Carlos Eduardo Miranda que brincava de "gravadora independente" nos corredores da Warner e Pedro Alexandre Sanches que difunde as visões da Folha de São Paulo nas páginas de Fórum e Caros Amigos estão nesta causa.

Tenta-se desmentir o máximo possível a associação aos princípios mercadológicos, enquanto conceitos oriundos das esquerdas e das vanguardas culturais são apropriados e deturpados. O "microfone aberto" é "livre', desde que não seja para criticar a indústria cultural, crítica que, apesar de sua lucidez, é ainda vista como "expressão de preconceitos estéticos". É proibido discutir estética no Brasil.

Essa intelectualidade tenta dizer que "está fora da mídia", é "anti-Folha", "anti-Globo", mas claramente mostra suas articulações com a Globo Filmes, com a Ilustrada da FSP, com a Rede Globo, com a Contigo e com a ala "mais moderna" do Instituto Millenium.

Daí as manobras, os malabarismos discursivos. "Movimentos populares" não são a revolta de Pinheirinho, mas o "baile funk" de M'Boi Mirim e sua poluição sonora. "Ocupações" não são os protestos feitos na entrada da Rede Globo contra o BBB, mas o Rio Parada Funk. "Primaveras" não são as passeatas pedindo reforma agrária ou os protestos das mulheres contra a violência da qual são vítimas, mas o entretenimento conformista do tecnobrega, "forró eletrônico" e similares.

Neste contexto todo, sob a voz de um Pedro Alexandre Sanches todo cheio da razão, Michel Teló seria visto como "nosso Julian Assange", o que é uma grande tolice. Mas tudo isso é feito para que uma elite intelectual, dotada de produtores de eventos, cientistas sociais e críticos musicais se aproprie da cultura logo nas suas bases, para realimentar o mesmo mercadão midiático que dizem combater.

Enquanto isso, o povo pobre sofre, com as tempestades, as ordens de despejo e outros infortúnios. Mas como eles não fazem parte da "Disneylândia do mau gosto" cortejada pelos "fora do eixo" mas não fora da grande mídia, esse povo não interessa a essa intelectualidade. Não faz parte do "espetáculo".

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