segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A "BOA" E "OBEDIENTE" PERIFERIA QUE A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA ADORA



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade culturalmente "influente" em nosso país não quer saber de senso crítico. O livre e natural processo de questionar o sentido do "estabelecido", que se vê em pensadores como Noam Chomsky e Umberto Eco, aqui é visto pelos intelectuais "sem preconceitos", mas bastante precoceituosos, como "expressão do mais horroroso preconceito".

Pensar as coisas deve se limitar tão somente àquilo que não incomoda o mercado, dado como morto por essa intelectualidade, mas ressuscitado na prática sob o rótulo de "novas mídias". Que nada têm a ver com as verdadeiras novas mídias, por serem aquelas que reafirmam o "estabelecido" no mercado do entretenimento, apenas em "novas formas".

E isso envolve a questão das periferias. A intelectualidade etnocêntrica diz defender a "cultura das periferias", mas o que eles entendem por "periferias" não é mais do que uma massa "próspera", "feliz" e "resignada", gente cujo maior desejo é o tal "direito de ser pobre", uma ideia que rende aplausos mas tem um sentido muito estranho de ser.

Pois não existe Pinheirinho nos discursos dessa intelectualidade. A "periferia" dos textos de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Ronaldo Lemos e similares é uma periferia obediente, infantilizada - embora seus ideólogos se apressem em desmentir tal ideia - , domesticada e cortejada de forma paternalista.

Sim, esses intelectuais tentam desmentir o máximo que o povo pobre, em suas mãos, é domesticado e infantilizado, e que eles vejam as classes populares de forma paternalista. Mas de que adianta desmentir o que fazem? Também Fernando Henrique Cardoso, o mestre maior (mas aparentemente "hostilizado") por essa classe, também era de desmentir muita coisa. O método discursivo de FHC foi herdado, com perfeição, por essa intelectualidade.

POVO CONTESTADOR É VISTO COMO "ARRUACEIRO"

Prestemos muita atenção às condenações que essa intelectualidade faz contra aqueles que expressam seu senso crítico, duvidando do sentido do "sucesso popular" de tecnobregas, de funqueiros, de BBBs, de Michel Teló e o que vierem.

Na Europa e nos EUA, por mais que alguém discorde de algum pensador em dado ponto de seu raciocínio, ninguém comete o cinismo de chamá-lo de "preconceituoso", "moralista", "elitista" etc. Mas aqui, a "urubologia" desses intelectuais "tarimbados" chega ao ponto de chamar até de "racistas" aqueles que não aprovam esses fenômenos, numa forma realmente trapaceira de liquidar o discordante.

Aqui, tudo que representar uma crítica ao "estabelecido", na visão dessa intelectualidade tão endeusada pela opinião pública média, é desqualificado da forma que quiserem eles. Mas não são só os outros intelectuais, a "desprezível crítica cultural higienista", que também são desqualificados pela fúria de Sanches, Vianna, isso quando não é a ironia cafajeste do professor baiano Milton Moura, ou o reacionarismo enrustido e grosso do mineiro Eugênio Raggi.

As próprias periferias também são desqualificadas por essa intelectualidade "sem preconceitos", que certamente fecharia as janelas de seus carros para não darem esmolas para meninos de rua. Afinal, eles não estão em suas palestras animadas, quando podem dizer, pela letra morta, que "adoram" as classes populares e "admiram" suas lutas.

Isso porque, para eles, o povo pobre só é "autêntico" quando rebola, feito mico de realejo, ao som de "funk carioca", tecnobrega ou "brega de raiz", só para dizer os estilos mais pretensiosos do brega-popularesco.

Faz parte do "espetáculo" que o pobre fique no seu consumo alcoólico, no recreio da prostituição, no subemprego do comércio clandestino, no consumo de "bens culturais" impostos pela televisão e pelo rádio FM mais comerciais, mas agora "corroborados" pelas ditas "novas mídias" - tidas como "independentes" só porque não possuem escritórios em Los Angeles e São Paulo - e ainda sentir "orgulho de ser pobre".

Ou seja, a intelectualidade etnocêntrica, aquela que muita gente, por boa-fé, gosta, quer que as populações pobres sejam obedientes e cumpram o seu "bom papel" dentro do animado entretenimento popularesco, fazendo com que o discurso paternalista de Pedro Alexandre Sanches & companhia não seja maculado pelas questões sociais.

Se elas ocorrem, a intelectualidade etnocêntrica engole seco. Não pode condenar os movimentos sociais, até porque seu discurso fala, em tese, da defesa dos mesmos (embora da forma que esses intelectuais entendem por "movimentos sociais"). Mas sentem um incômodo na qual não podem descrever nem assumir, afinal cumprem um protocolo com as esquerdas engajadas.

Afinal, como membros de classes abastadas e como expressão dos interesses desta classe, essa intelectualidade, integrada a um contexto de burocratização acadêmica, corporativismo docente e de interesses mercantis no âmbito da produção cultural, se inquieta quando a população pobre deixa de cumprir o papel de "bom selvagem" e passa a lutar por melhorias de vida.

Claro, seus intelectuais vão dizer "não é bem assim, não defendemos a domesticação do povo pobre, apoiamos todas as lutas sociais em prol da qualidade de vida", de uma forma nervosa, como quem teme alguma consequência desfavorável.

Isso porque, primeiro, eles idealizam a periferia "limpinha", "colorida" e "alegre", não a periferia com qualidade de vida e melhorias reais (com beleza arquitetônica e tudo), mas a periferia obediente ao "espetáculo" popularesco, que "melhora de vida" sem ameaçar as estruturas de poder e mesmo as regras do "novo" mercado midiático imposto pelas velhas mídias (já realimentadas pelas mídias regionais, supostamente "independentes").

Por isso, caros leitores, há algo de muito estranho nessa "superioridade" na abordagem da "cultura popular" pela intelectualidade "divinizada" dos pretensos "donos" da cultura popular.

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