quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

BIG BROTHER BRASIL E A CRISE DO BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

A crise do Big Brother Brasil, através do incidente entre Daniel e Monique (fotos), mostra o agravamento de outra crise, a do Brasil cafona, brega, provincianamente pop, falsamente arrojado e grotescamente conservador. Como bola de neve, a decadência do BBB é a decadência do "Brasilzinho Brega e Burro".

É um modelo "cultural" de país que fez acostumar mal várias gerações. Um Brasil medíocre, mas pretensioso, grotesco mas megalomaníaco, de gêneros musicais que não passam de retalhos do pior do hit-parade radiofônico misturado com noções vagas e superficiais de folclore regional.

Junto a isso, tínhamos uma imprensa que se dividia entre a brutalidade policialesca e a futilidade fofoqueira. "Musas" dotadas do mais puro grotesco pornográfico, que dá pena definir como "sensual". Celebridades que ora investem na pieguice mais chorosa, outros na grosseria mais vulgar, mas todo mundo querendo levar vantagem fácil.

Ao lado deles, havia intelectuais que louvavam o popularesco, talvez na esperança de atingirem o olimpo da visibilidade fácil e se tornarem "unanimidade" às custas do compadrio que envolve os cientistas sociais e críticos culturais engajados no "esquema".

Daí ser muito fácil ressuscitar os mesmos "sucessos do povão", transformando o grande ídolo de ontem no "coitadinho" de hoje. E haja mediocridade, pois, em vez de comemorarem o sucesso obtido, faziam propaganda barata de seu sofrimento antigo e já superado: "passei fome no começo da carreira", "sustentei toda a MPB com meu trabalho", "meu primeiro salário foi um prato de sopa", "dormia em estações de trem no começo de carreira"...

Será que o Brasil vai para o Primeiro Mundo com ídolos chorando seu passado miserável, em melodramas derramados em artigos de jornais, documentários, monografias, dessa intelectualidade festejada, que vê as periferias com uma visão ao mesmo tempo paternalista e confusa.

Não eram valores verdadeiros que eram reconhecidos. Da intelectualidade, bastavam os diplomas e o currículo de entrevistados, que, se não faz de Miriam Leitão uma santa, também está muito longe de salvar a reputação de um Pedro Alexandre Sanches.

Vemos músicos cujo repertório não passa de rascunhos malfeitos de sambas fajutos, modas de viola caricatas, afoxés estereotipados, isso quando não são engodos como o forró-brega que mistura country, disco music e merengues, ou o irritante "funk carioca" cuja fase atual nunca sai da "mistura" de sons de sirene e de scratch imitando galopes de cavalo, baixarias de um MC e balbuciações de seu "assistente" (o tal do "tchuns-cundu-dá-cum-dá").

A própria mediocridade dos ídolos "sofisticados" - Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Exaltasamba, Belo, Leonardo, Daniel, Banda Calypso, Luan Santana e Ivete Sangalo, etc - era comprovada quando, na medida em que eles se tornaram "veteranos", se limitavam a ser crooners cada vez mais fajutos, com a sucessão de repetitivos e cansativos CDs-DVDs ao vivo que nada traziam culturalmente de novo nem de renovador.

Justificava-se essa mediocridade por qualquer coisa, sobretudo a lotação fácil de plateias, que era a popularização tramada pela mídia e pelo mercado publicitário. Daí a hipocrisia de intelectuais acomodados em seus apartamentos de luxo dizerem que isso é a "música popular brasileira com 'p' maiúsculo", desculpa para defender a mediocridade musical dominante.

Não há valores éticos a serem considerados. O É O Tchan foi empurrado para as crianças das melhores famílias. O "funk carioca" também é empurrado para o público infantil. Ídolos como Alexandre Pires e Leonardo, além do apresentador Ratinho e do jogador Edmundo, provocaram acidentes de carro com mortes, e saíram impunes nesta. Nem sequer campanhas educativas eles foram convidados a fazer. E os carros contrabandeados que Latino e Belo teriam comprado? E os "amigos" de Belo? É tudo "cidadania"?

No "funk carioca", então, os deslizes éticos são infinitos, mas a "urubologia" cultural se empenhou o máximo possível para vender esses baixos valores como se fossem "modernos". Quer dizer, se a violação ética é cometida pelas elites mais ricas, ela é condenável. Se a mesma violação é cometida por um funqueiro, é apenas uma "ética diferente, que nós não (sic) conseguimos compreender no nosso vão preconceito burguês (?!)".

Qualquer crítica a essa mediocridade era rebatida, tanto pela campanha persuasiva de intelectuais armados de todo discurso, confuso mas sentimentalóide e difundido na roupagem "científica" de artigos, reportagens, documentários e teses acadêmicas, entre outros recursos. A acusação mais comum era que nós agíamos por "preconceito" aos fenômenos ditos "populares".

Assim, a intelectualidade fazia algo tão nocivo quanto as condenações de Veja aos movimentos sociais. No fundo, Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo, Milton Moura e ACM Neto, Paulo César Araújo e Diogo Mainardi, MC Leonardo e Gilberto Dimenstein, são todos a mesma coisa, a mesma "urubologia" que condena o verdadeiro progresso social, e com todos os seus dribles retóricos só querem mesmo é a defesa do "deus mercado".

E tudo isso está incluído tanto no factóide do "sucesso mundial" de Michel Teló - que não passa de lorota armada pela velha mídia - quanto no recreio diante das câmeras do Big Brother Brasil, cuja edição deste ano foi longe demais nos abusos.

Os "brothers" e "sisters" do programa geralmente dançam o "funk carioca", curtem o forró-brega e, depois que saem do programa, vão para micaretas, vaquejadas, "bailes funk", e por aí vai. O próprio Michel Teló, antes de enganar os brasileiros com seu pseudo-sucesso europeu, já havia participado do já decadente BBB 11, no ano passado.

Os progressos sociais do Brasil, com o surgimento de uma classe média dotada de senso crítico que cresce gradualmente, mostra que o Brasil cafona perde cada vez mais o sentido de ser. Porque não é aquela classe média fabricada pelas loterias durante a Era FHC que despejava seu entulho cafona nos grandes condomínios, e que ainda hoje alimenta a indústria das festas de aniversário que sempre põem algum módulo com "funk carioca", axé-music, sambrega e forró-brega, alem do breganejo e seus "universitários" e, agora, "pegadores".

O país avança e pensa em recuperar aquela cultura popular esquecida pela ditadura militar, abandonada pelo diálogo interrompido entre o CPC da UNE e o povo pobre, que, depois que os generais entraram no poder, passaram a consumir o engodo musical de uma sucesso de bregas, neo-bregas e pós-bregas, sustentados por rádios que historicamente apoiaram toda a ditadura militar além de políticos como Sarney, Collor e FHC.

Não adianta o Brasil cafona fingir-se de progressista. As transformações sociais provocam o desgaste e o perecimento da cafonice dominante, em todos os sentidos. Nem a salvação do brega por performáticos apadrinhados por Pedro Alexandre Sanches (a essas alturas pensando quando será o "filho pródigo" da Folha de São Paulo, onde deixou seus verdadeiros caros amigos) irá resolver a situação.

Afinal, o Brasil quer mudar, quer se transformar, e transformação não é encher de dinheiro e banho de loja e tecnologia a fauna brega-popularesca acumulada nos últimos 40 anos. O povo pobre quer cidadania, quer romper com a ditadura dos cardápios radiofônicos, do popularesco televisivo, que nunca mostrou um Brasil de verdade e nem apostou numa cultura genuinamente popular.

O desgaste do Big Brother Brasil é um indício de que o Brasil está cansado de ser cafona. O Brasil quer sair do atoleiro brega, daí a necessidade de regulação da mídia, que exigirá valores verdadeiramente cidadãos, que não confundem consumismo com qualidade de vida.

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