sábado, 31 de dezembro de 2011

RETROSPECTIVA 2011: CRISES ANUNCIADAS


MICHEL TELÓ - Cara nova para salvar fórmulas desgastadas.

Por Alexandre Figueiredo

2011 pode não ter sido um ano de mudanças consolidadas, mas em qualquer parte do mundo se anunciou o desgaste de alguma coisa. Pelo menos foi um ano em que crises foram anunciadas e várias delas já estão em andamento ou em consumação.

No exterior, foi um mundo em completa ebulição. O Wikileaks de Julian Assange fez estremecerem as autoridades que, até pouco tempo atrás, poderiam até confidenciar planos bélicos ou de espionagem. A crise do capitalismo na Europa e nos EUA fez muita gente ir às ruas, nas chamadas "ocupações" que, compondo as "primaveras estrangeiras", fizeram o ano se comparar a 1968, auge da Contracultura.

No Oriente Médio, as manifestações no Egito, na Tunísia e na Líbia mostraram que o povo queria mudanças e as reações contra a tirania de seus ditadores foram de protestos pacíficos e massivos. Mas a Otan meteu-se na Líbia e fuzilou o ditador Muammar Kadafi, em vez de prendê-lo para, ao menos, julgá-lo por crimes contra a humanidade.

Mesmo assim, há sinais de que o Oriente Médio quer mudanças e, no momento, o povo resiste mesmo pelo sacrifício da tragédia contra os arbítrios da Síria. E, para completar, já se sinaliza o projeto de criação de um estado palestino para breve.

CRISE DO PSDB AGRAVADA POR UM LIVRO-DENÚNCIA

No Brasil, a política se destaca pela crise, iniciada pela derrota eleitoral de José Serra em 2010, enfrentada pelos partidos PSDB, DEM e PPS. Os partidos perderam vários de seus membros, e, enquanto o PSDB vive o conflito interno entre seus líderes Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves, o DEM vive um declínio dramático, que pode fazer o partido caminhar para a extinção. Em contrapartida, o conservadorismo político foi recauchutado pela "ressurreição" do PSD, nas mãos do prefeito paulistano Gilberto Kassab, ex-DEM.

A crise ainda foi agravada pela divulgação de informações sobre um grande esquema de corrupção envolvendo políticos do PSDB, seus amigos e familiares e o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. O livro-denúncia de Amaury Ribeiro Jr. havia provocado a crise do PSDB apenas quando era uma promessa de lançamento, e, quando lançado, criou uma crise pior ainda, com reflexos na grande mídia que sempre apoiou os tucanos.

Pois a velha grande mídia reagiu ao lançamento do livro com um silêncio que causou barulho. Afinal, a omissão já denunciava a posição pró-PSDB da grande imprensa. Aos poucos, seus "urubólogos" davam o pio, entre eles o "imortal" da ABL, Merval Pereira, incomodado com o trabalho do seu ex-repórter Amaury.

Mas, pelo jeito, não é só a política que vive suas crises nas bases conservadoras. Tivemos também a lenta decadência do Big Brother Brasil (TV Globo), já que o BBB 11 teve o pior desempenho, em audiência, da história do programa. E houve também o comediante Rafinha Bastos, do CQC (TV Bandeirantes) fazendo comentários de mau gosto, um a favor de estupradores e outro em ofensa à gestante Wanessa Camargo. Acabou tendo má reputação.

A Rede TV! vive uma crise financeira e seu programa de maior sucesso, o Pânico na TV, também é atingido pela crise de audiência, pela inclusão no ranking da baixaria e na crise que atinge as musas "boazudas" que não poupou as "paniquetes". Estas, além disso, foram classificadas como "garotas de programa" (eufemismo para "prostitutas") pela ex-colega Dani Bolina e as demais se revoltaram.

A crise atingiu, aliás, o âmbito do brega-popularesco como um todo. Musas, periódicos, ídolos musicais, todo o âmbito da suposta "cultura popular" da velha mídia, ainda que continuem hegemônicos, já começam a sofrer sério desgaste.

E, para completar, a "bruxa" estava solta em vários ídolos popularescos: Alexandre Pires e Ivete Sangalo caíram doentes, Bruno & Marrone, Edson & Hudson e Zezé di Camargo & Luciano tiveram suas crises, Luan Santana e Mr. Catra escapam de acidentes e várias confusões e desastres aconteceram em 2011.

DESGASTE DO BREGA-POPULARESCO

Enquanto isso, a música brega-popularesca sofria um sério desgaste. A onda agora não era mais dos neo-bregas que "brincavam de MPB" e batiam ponto no Domingão do Faustão, mas de pós-bregas que apenas reciclavam, com pequenas alterações, o mesmo neo-brega de 1990-2002 que, com pequenas alterações, dava nos subprodutos que vieram a compor a geração pós-brega: tecnobrega, "sertanejo universitário", tchê music, arrocha e a fase atual do "funk carioca" e do "forró eletrônico" (ou forró-brega).

Aliás, para coroar a fase pós-brega, um ritmo foi escolhido para ser a síntese ou, talvez, o canto do cisne do brega-popularesco que não tem mais o que (re) inventar: o "sertanejo pegação", que, com roupagem breganeja, junta todos os elementos bregas, neo-bregas e pós-bregas possíveis, numa unificação desesperada de mercados em crise.

Seu maior ídolo, Michel Teló, foi escolhido diante do desgaste de Luan Santana (hoje um "dinossauro" diante da velocidade extrema dos modismos). No entanto, Michel Teló é tão somente uma cara nova a serviço das velhas fórmulas recicladas da Música de Cabresto Brasileira.

Através de Michel Teló, lançado como hype primeiro em Portugal - como estratégia de forjar uma "novidade" - , o "sertanejo pegação" permite que sambregas, breganejos, axézeiros e outros neo-bregas e pós-bregas possam entrar em mercados antes "difíceis", como o sambrega no Norte do país, o forró-brega em Porto Alegre, a axé-music em Florianópolis e o breganejo em Salvador.

Mas até esse "sertanejo pegação" já começa a ter gosto de velho. Afinal, como todo brega-popularesco, uma "cultura popular" com o gosto estragado da velha mídia, suas "novidades" envelhecem muito rápido, e em dois anos tudo já se torna muito velho. Não é à toa que seus ídolos, depois de uns três a cinco sucessos, praticamente só passam a gravar CDs/DVDs de "grandes sucessos", raramente lançando álbuns de estúdio com inéditas.

Por outro lado, o brega-popularesco sofre a blindagem dos intelectuais. Chamados de etnocêntricos, por verem o povo pobre de forma fantasiosa, eles até resistem na sua alta visibilidade que os faz ainda "divinizados", numa aparente unanimidade.

Mas, a partir de informações pesquisadas para este blogue, contradições diversas comprometem a reputação dessa intelectualidade, que certamente levaria bronca de gente como Umberto Eco, Noam Chomsky ou mesmo de veteranos brasileiros como Emir Sader e Venício A. de Lima. E mostram o quanto a intelectualidade pró-brega, embora se diga "sem preconceitos", tem preconceitos piores do que aqueles que diz combater.

Essas contradições põem em xeque o ativismo de nomes como Paulo César Araújo, MC Leonardo e sobretudo Pedro Alexandre Sanches, que parece ter achado uma boa ideia uma queixa que o colega Ricardo Alexandre fazia de músicos e internautas: "defender uma visão de direita com discurso de esquerda".

Mas Sanches não conseguiu provar que os "sucessos do povão" que tanto defendia estavam fora da mídia, já que a velha grande mídia os recebia de braços abertos. Da mesma forma, Sanches também se atrapalhou quando tentou explicar seu passado na Folha de São Paulo para os leitores de Caros Amigos, sem esclarecer direito se estava ou não a serviço do "higienismo" ideológico.

O "funk carioca" foi o que mais sofreu com as revelações deste blogue sobre a centro-direita cultural de que faz parte Sanches e companhia. Toda vez que se divulgava um texto associando o ritmo carioca à velha mídia, ninguém aparecia para desmentir, reinando um silêncio comparável ao da grande imprensa diante de A Privataria Tucana.

Nem mesmo a presença de José Padilha, o cineasta que "redescobriu" o "funk de raiz" (do qual fazia parte MC Leonardo, da APAFUNK), no mesmo Instituto Millenium de gente como Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, Otávio Frias Filho e da igreja medieval Opus Dei, fez os funqueiros reclamarem da revelação, que praticamente coloca em xeque-mate o pretenso "esquerdismo" associado ingenuamente ao "funk carioca", por parte da intelectualidade média.

Enfim, 2011 é um ano sem muitas mudanças, mas com crises que fazem com que os "longos anos 90", neoliberais, anti-éticos e cafonas, comecem a perder terreno num mundo em transformação, de uma Europa em crise econômica, de um Brasil em evolução e de um Oriente Médio em transformação.

2012 promete surpreender. Mas vamos esperar o ano chegar para vermos como ele será.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

RESPEITEM CARMEM MIRANDA, CAMBADA!!



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Só poderia ser mesmo a revista Forbes, que mede os valores humanos pelo dinheiro que produzem. Sem citar o cantor, mas sabendo ser o hype breganejo Michel Teló, a revista comparou o cantor a Carmem Miranda, pelo aparente sucesso de uma música do "cantor pegador".

Se nem Ivete Sangalo pode ser comparada a Carmem Miranda - que, em que pese a fase estereotipada de Hollywood, era um talento ímpar de excelente qualidade, lamentavelmente ceifado aos 46 anos - , imagine então um cantor que mais parece um desses ídolos descartáveis de boa aparência que aparecem aos montes e somem sem deixar rastros.

Além disso, comparar Michel Teló a Carmem Miranda soa exatamente o mesmo que comparar Eike Batista à Madre Teresa de Calcutá e José Serra a Juscelino Kubitschek.

Respeitem Carmem Miranda, cambada!

Por Rosilene Carvalho (*) - Blogue Cacarejadas & Alfinetadas

>> De folga neste fim de semana, aproveito para colocar a leitura em dia e folhear sites e jornais à procura de algo interessante. Quase não encontro nada animador, a não ser os contatos com amigos e pessoas mais chegadas ou páginas respeitáveis que fazem o diferencial na web.

Os diários eletrônicos midiáticos estão cada vez mais recheados de violência, cenas e fatos banais que em nada vão mudar ou contribuir positivamente na vida do brasileiro. Noticias eventualmente aproveitáveis são colocadas em segundo plano. Isso quando são divulgadas, já que as manchetes priorizam apenas e tão somente o previsível e descartável.

Até os suplementos culturais dos diários, antes levados a sério, se transformaram em palco para desfile de subcelebridades e cantores de qualidade questionável. Por conta disso, quase surtei na manhã desta sexta-feira nublada ao ver em destaque nesses espaços que determinado cantorzinho breganejo teve um de seus chatos hits “comparado” ao sucesso de Carmem Miranda pela revista americana Forbes.

Seria trágico se não fosse cômico. Sou mesmo obrigada a rir para não chorar. Mais uma mirabolante e suja jogada de marketing com o aval da mídia americana cujo objetivo é emburrecer ainda mais a chamada "nova classe média brasileira" e suas ramificações, maiores admiradores desses ritmos cretinos classificados de “sertanejo universitário”. A grande mídia usa o manjado discurso da "diversificação" para legitimar a falta de qualidade que se abateu sobre a cultura musical.

O brasileiro consciente, por sua vez, escomunga a publicação americana: “Pra sujar nossa imagem cultural, esse sujeitinho é comparado à Carmem Miranda pela Forbe”, ironiza no Twitter o internauta @mateustalles.

“Quem com porcos se mistura, farelo come”, disse o carioca Jorge Napoleão no formulário do Cacarejada Virtual.

“Nunca vi tamanha falta de consideração com a música brasileira. Esses cantorzinhos de merda são o excremento do cavalo do bandido”, despachou a publicitária curitibana Ana Paula Miranda.

E eu vos digo com toda sinceridade, enganadores travestidos de artistas: respeitem Carmem Miranda. Esta sim, foi uma estrela, uma diva acima de qualquer suspeita ao divulgar para o mundo seu talento irretocável.

Comparar a obra relevante da cantora e atriz luso-brasileira em qualquer circunstância ao intragável lixo sonoro que atormenta nossos ouvidos é um desatino, uma falta de propósito. A “Pequena Notável” deve ter caído das tamancas no além.

(*) Rosilene Carvalho, radialista apresentadora/redatora
Reg: 1192 - DRT. MG - e-mail: rosecarvalho@hotmail.com

SÉRGIO CABRAL FILHO INOCENTA PRIVATIZAÇÕES TUCANAS



Por Alexandre Figueiredo

O "progressista" Sérgio Cabral Filho, do grupo político fluminense que só governa para turistas espanhóis, esquecendo-se do povo do Estado do Rio de Janeiro, achou uma "bobagem" questionar o processo de privatizações do governo FHC.

O discurso de Cabral - ainda que o governador, aparentemente, defenda o PT - , na prática, foi favorável aos tucanos, na medida em que defendeu os mesmos princípios privatistas do PSDB. Como disse Luiz Carlos Azenha, Sérgio deu uma anistia antecipada aos tucanos e ainda fez defesa do mito do Estado mínimo.

Quer dizer, Estado mínimo em termos. Pois o Estado deixa de investir em setores estratégicos e essenciais, como Educação, Saúde e Habitação, para impor um modelo de administração antiquado, no que se refere a áreas como Transportes, por exemplo, "amarrando" as empresas de ônibus numa camisa-de-força que inclui visual padronizado (que confunde os passageiros e facilita a corrupção), sistema de consórcios (que cria oligarquias politicamente formadas) e poder concentrado dos secretários de transportes (que acumulam poder mas se sobrecarregam em responsabilidades pesadas e difíceis).

Seu afilhado político, Eduardo Paes, implantou esse modelo autoritário e tecnocrático de transportes, cujo fracasso se observa muito bem nas ruas cariocas, com transtornos que variam de ônibus enguiçados ou acidentados e com letreiros digitais pifando até pessoas pegando ônibus errados e engarrafamentos causados pelas filas de ônibus nos pontos dos corredores BRS.

Mas não só nos transportes, mas em boa parte da política da dupla Paes / Cabral Filho, ocorrem gafes infinitas. E muito trágicas. Houve explosão de gás na Praça Tiradentes, pacientes mortos na busca de algum hospital para internação, acidentes com bonde com vários mortos e até mesmo um funcionário da campanha Lei Seca pego dirigindo embriagado, causando um acidente com mais um morto. E houve ainda um ônibus da Translitorânea Turística, com o visual "devidamente" padronizado, que se incendiou na Linha Amarela.

É esse grupo que quer ficar no poder até mesmo depois de 2016. E as pesquisas de opinião, provavelmente fictícias, apontam o "favoritismo" de Eduardo Paes para a Prefeitura do Rio. Talvez os institutos de pesquisa sejam um tanto masoquistas, ou seus executivos andem sonhando com Madri e Miami...

QUANDO ALI KAMEL COME "PAÇOCA"



Por Alexandre Figueiredo

O que chama a atenção nos artigos de Pedro Alexandre Sanches sobre o brega-popularesco é, sabemos, a presença de muitos elementos do pensamento neoliberal brasileiro e estrangeiro, incluindo até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que Sanches diz repudiar mas do qual se inspirou claramente na sua visão de "cultura popular".

Pois até mesmo o jornalista Ali Kamel, conhecido como "o senhor das trevas" das Organizações Globo, está de alguma forma presente nas influências teóricas do famoso crítico musical. Alguma dúvida? Vejamos então as comparações para entendermos melhor a coisa.

Ali Kamel tornou-se conhecido pelo polêmico livro Não Somos Racistas. Criticando a política de cotas para negros nas universidades, ele afirma que o racismo "não existe" no Brasil e que as questões raciais teriam sido "invenção" de cientistas sociais como Florestan Fernandes e um Fernando Henrique Cardoso pré-neoliberal.

Através desse ponto de vista, Ali Kamel tenta esconder a sujeira debaixo do tapete, embora admita que a "pobreza" é o "problema maior do país". Mas tenta dar a impressão de que o país é uma "democracia racial" e, com isso, tenta nos fazer esquecer das inúmeras questões e problemas que os negros e pobres sofrem no cotidiano.

Pois, se "não somos racistas", também "não somos bregas", "não somos medíocres" e "não somos atrasados". Fazendo um paralelo à questão de Ali Kamel, Pedro Alexandre Sanches também quer ignorar os problemas acerca da cultura popular, ultimamente escravizada pelo mercado brega-popularesco.

No último domingo pude, dentro de um ônibus, na volta de uma visita a meus tios na Baixada Fluminense, que carros que tocavam "funk carioca" chegavam a mostrar,nas vinhetas dos CDs, o número do telefone de contato da equipe de som, o que mostra o caráter eminentemente empresarial do negócio.

Algo que ocorre também com o forró-brega. O que prova que essa "cultura verdadeiramente popular" não é mais do que um empreendimento de pessoas que já constituem em elites oligárquicas que trabalham com o entretenimento em todo o país.

Em todos os estilos brega-popularescos, a mediocridade é reinante. Ouvindo os discos, nota-se isso, no canto, nos arranjos, nas letras, e tudo o mais. Mas não podemos discutir questões estéticas, afinal "não somos medíocres".

Tudo isso é "genial", como o "paraíso racial" imaginado por Ali Kamel, artífice de um Brasil ficcional servido para as multidões através da Rede Globo de Televisão, inclusive Jornal Nacional e Fantástico.

Kamel liberou espaços para o "funk carioca", para o forró-brega, para os "sertanejos" e "pagodeiros" de proveta - mas que "brincam de fazer MPB" nos palcos do Domingão do Faustão - e até para o tecnobrega tão querido por Pedro Sanches que entrou no Jornal da Globo abençoado por Kamel, William Waack e de um Nelson Motta convertido em cavaleiro do Instituto Millenium.

Se "não somos racistas", "não somos domesticados pela mídia". O povo pobre "não é infantilizado", o brega "não é caricatura", e assim colocamos o debate público por debaixo do tapete.

O cidadão comum não pode discutir questões estéticas e as grandes questões políticas do país só podem ser discutidas privativamente por "alguns" blogueiros ou por políticos e sindicalistas, enquanto a população é "aconselhada" pela intelectualidade "divinizada" a apenas dançar infantilmente o "pagodão", o "pancadão", o tecnobrega, o brega etc, sendo induzida a acreditar que esse lero-lero lúdico-consumista é "ativismo social" ou "revolução sócio-cultural" do país.

Lamentável o "positivo" preconceito sócio-cultural das elites intelectuais, sejam elas claramente conservadoras, sejam outras pretensamente "progressistas".

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

BREGA NÃO ESTÁ FORA DO "SISTEMA", MAS BEM DENTRO DELE


A VELHA MÍDIA PARAENSE SEMPRE DEU O MAIOR APOIO AO TECNOBREGA OU TECNOMELODY.

Por Alexandre Figueiredo

O brega e seus derivados nunca estiveram tão hegemônicos hoje em dia. E como é possível negar essa hegemonia, achando que todos esses "movimentos" estão fora da mídia ou representam a morte da indústria fonográfica?

Só quem é ingênuo acredita que esses "sucessos populares" estão excluídos do grande eixo da velha grande mídia. Quando muito, eles não "acontecem" em âmbito nacional, mas sempre ganham espaço na mídia oligárquica, seja ela nacional ou regional.

Só mesmo a dor-de-cotovelo de "pensadores" como Pedro Alexandre Sanches para dizer, até com suspeita convicção, que os bregas são a "nova música alternativa" do Brasil. Aonde? Na casa da Carochinha? Está na cara que esse "universo" musical sempre foi hegemônico no mercadão brasileiro, apenas os preconceitos "sem preconceitos" da intelectualidade "divinizada" insistem em ignorar, até com certa arrogância.

Se o tecnobrega, o "funk carioca" e o "brega de raiz" soam novidade para uma geração de intelectuais de classe média alta tidos como "formadores de opinião", o problema é deles. Eles durante muito tempo ficaram isolados em seus apartamentos, ouvindo Chico Buarque até cansarem, e hoje estão muito cansados - seja no sentido da exaustão, seja no sentido do "movimento" Cansei - de ouvi-lo.

O aspecto hegemônico é claro. Seus sucessos rolam nas rádios de maior audiência em suas regiões. A maioria esmagadora delas controlada por grupos oligárquicos claramente conservadores. É só comparar alguns exemplos:

1) A Beat 98, que toca "funk carioca" e "pagode romântico", é controlada pelos mesmos irmãos Marinho da Rede Globo de Televisão, o que mostra o tom ideológico dessa rádio que só um tolo definiria como "alternativa".

2) A Nativa FM, que toca "sertanejo" e "pagode romântico", é controlada pela famiglia Camargo, a mesma que empastelou a cultura rock através da 89 FM paulista e cujo patriarca, José Camargo, já foi filiado à ARENA e ao antigo PDS. Sua franquia carioca é bancada pelos Diários Associados, do "condomínio" herdeiro de Assis Chateaubriand.

3) A Bahia FM, que toca "pagodão baiano", axé-music, "pagode romântico" e "forró eletrônico", é controlada por herdeiros do ex-governador e antigo senador Antônio Carlos Magalhães, o ACM.

4) A Rádio Arco-Íris FM, do interior de Minas Gerais, de propriedade do tucano Aécio Neves, toca "sertanejo" e "forró eletrônico".

5) A Rádio O Liberal FM, que sempre divulgou o tecnobrega ou tecnomelody, além de tocar outros estilos como "sertanejo" e "forró eletrônico", é de propriedade da famiglia Maiorana, poderosa oligarquia midiática do Pará.

6) O Grupo RBS, da famiglia Sirotsky, é um dos maiores divulgadores da "tchê music", "movimento" que mistura "sertanejo" e axé-music.

7) A Band FM, que toca "sertanejo" e "pagode romântico", é de propriedade da famiglia Saad, descendente do ex-governador paulista Adhemar de Barros.

São apenas alguns exemplos. Mas se garimpar, existirão outros, ligados a oligarquias regionais, incluindo até mesmo rádios comunitárias apropriadas por deputados estaduais. O que mostra o quanto o brega-popularesco, a suposta "verdadeira música popular", não está fora do establishment e nem de longe ameaça os interesses dos barões da velha mídia.

Muitos de seus ídolos até reclamam de barriga cheia da "falta de apoio" da velha mídia, mas ela sempre lhes arruma algum espaço. O mercadão popularesco é tão somente mercadão, movido por interesses financeiros, educado pela indigência radiofônica. É o "folclore brasileiro" segundo a visão dominante da velha mídia, voltado para o consumismo e para o marketing. Mas que em nada acrescenta à natural evolução cultural do povo brasileiro.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O MUNDO CONTRA BELO MONTE: USINA GIGANTE É UM ERRO GIGANTE



Músicos, ativistas sociais, estudantes e manifestantes do mundo inteiro participam dos protestos contra a hidrelétrica de Belo Monte.

O blogueiro Raphael Tsavkko Garcia colaborou na elaboração desse pequeno documentário, dirigido por Nadine Mazloum, e mostra a indignação popular contra a construção da usina que poderá afetar seriamente o ecossistema e as populações indígenas do coração da Amazônia, prejudicando boa parte de nosso patrimônio natural, social e histórico-cultural.

A hidrelétrica de Belo Monte é remanescente dos projetos mirabolantes lançados pelo regime militar, e não representará real desenvolvimento sócio-econômico de nosso país, já que a produção de energia elétrica não será constante e só beneficiará alguns fazendeiros da região, em detrimento do povo, do meio ambiente e das populações indígenas.

A petição - disponível em http://www.raoni.fr, na página dedicada ao cacique indígena Raoni, um dos militantes contra a hidrelétrica de Belo Monte - já possui mais de 130 mil assinaturas.

Só uma recomendação. Quando fizer a petição, favor entrar no seu próprio e-mail para confirmar a assinatura, pois assim representará um apoio a mais na mobilização pela preservação do Alto Xingu.

Vamos pedir em uma só voz: PAREM BELO MONTE!!

A PERIFERIA DE CONTOS-DE-FADAS


O PROGRAMA ESQUENTA, QUE RECEBEU ATÉ FHC, APOSTA NA IMAGEM ESTEREOTIPADA DO POVO POBRE.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "sem preconceitos" é bastante preconceituosa. Nunca viu pessoalmente, de fato e com atenção, um subúrbio na vida. Vivem nos seus apartamentos confortáveis, embora se achem os juízes maiores das classes populares, só porque usam muito a Internet ou pesquisam para trabalhos acadêmicos ou artigos de imprensa.

No entanto, é essa intelectualidade que aposta numa periferia de contos-de-fadas. Tentam tirar o corpo fora, juram que "abominam" a domesticação sócio-cultural e a infantilização do povo pobre, acham que "não idealizam" a cultura popular e apostam na cultura das classes populares em "seu estado puro".

Mas tudo isso são apenas balelas. O que eles fazem é exatamente aquilo que tentam não assumir no discurso. Defendem o "deus mercado" que eles matam no lide e ressuscitam no sublide de seus textos. Defendem ídolos e referenciais que, na verdade, simbolizam, sim, a domesticação sócio-cultural, a infantilização, a mediocridade.

A argumentação engenhosa, persuasiva e apelativa, não obstante chorosa, desses intelectuais pode até seduzir setores médios da opinião pública e transformar seus pontos de vista em aparente unanimidade. Mas ela não consegue esconder suas inúmeras falhas, suas gritantes contradições.

Essas contradições vão desde a postura ideológica - visões ditas "de esquerda" mas dotadas de ideias claramente afins ao pensamento neoliberal mais conservador - até mesmo à forma como as populações pobres são mostradas.

Certamente a intelligentzia brasileira sente um forte desdém pela crítica dos intelectuais europeus à "indústria do espetáculo", e aqui essa mesma "indústria" é servida de uma forma romântica, apologista, condescendente e sentimentalóide por aqueles que deveriam usar seu poder formador de opinião para trazer algum questionamento.

Pois o que vemos é o contraste entre a periferia que existe na realidade, e que inexiste nas abordagens intelectuais dominantes sobre "cultura popular", e justamente a "periferia" usada nessas abordagens, uma periferia de contos-de-fadas, uma Disneylândia do grotesco.

É uma periferia "boboalegre", "sorridente demais", que serve para o deleite esnobe e politicamente correto da intelectualidade de classe média alta. Esta, que se diz "sem preconceitos" e diz combater os "preconceitos" dos outros, na verdade estabelece seus próprios e gravíssimos preconceitos, porque para essa intelectualidade, o povo tem que se manter domesticado, sim, e deve se comportar de maneira infantilizada.

Claro que tentam desconversar, dizendo "não é bem assim". Tentam dizer que "odeiam" a domesticação e infantilização do povo pobre, mas na verdade é isso que querem. O povo pobre, para esses intelectuais, só pode desempenhar seu papel de bobos-da-corte da classe média alta que assiste à televisão, com sua imagem "exótica" e "festiva".

O maior preconceito oculto nessa intelectualidade "sem preconceitos" é que, para ela, o povo pobre só tem sentido quando faz seu entretenimento alegremente, indo obedientemente ao galpão de mega-eventos mais próximo para consumir os ídolos das FMs e da TV aberta.

Se o povo deixa de cumprir esse papel "simpático" e "admirável" e passa a fazer protestos pedindo coisas que vão desde uma passarela numa rodovia até a reforma agrária, causando engarrafamentos para chamar a atenção (porque, de outra forma, isso seria impossível, ante o descaso das autoridades), a intelectualidade não gosta.

E aí, vemos cientistas sociais e críticos musicais adeptos do brega-popularesco despejando a pior urubologia. "Ah, não, passeata de sem-terra? A polícia devia prender esses desocupados!", diz a cientista social "de esquerda" que outrora havia expresso seus amores à "periferia do funk". "Cara, povo pobre pedindo reforma agrária é muito chato", diz outro intelectual de "ideias esquerdistas" que pouco antes havia comparado o forró-brega a um misto de Revolta de Canudos com Revolução Cubana.

Até quando essa intelectualidade vai exercer sua hegemonia na opinião pública, endeusada ao máximo por seus pares e tida como pretensamente "progressista", não se sabe. Mas certamente a população pobre que eles só conhecem "a fundo" através de documentários estrangeiros (provavelmente mais esclarecidos sobre a pobreza popular que muito "pensador" metido a bacana neste Brasil) vai muito aquém dessa imagem "generosa" que tem muito de idealizada, sim.

Isso porque, na periferia fantasiosa, a Disneylândia do grotesco, a mcdonaldização da cultura brasileira, não aparecem problemas habitacionais, desemprego, violência, deslizamentos de terra, nem mesmo os incêndios que devoram favelas inteiras.

Na periferia de mentirinha da intelectualidade "divinizada", o que aparece é uma "favela" promovida a "arquitetura pós-moderna", numa verdadeira zombaria àqueles que, na falta de uma habitação, improvisam casas em qualquer lugar (mesmo os arriscados) por falta de dinheiro para alugar uma residência.

Na periferia de mentirinha o povo é despolitizado, mesmo quando é "politizado" pelas manobras midiáticas. O "Rap da Felicidade" mais parece hino do ufanismo brasileiro, até porque faz apologia da pobreza.

Mas só o pobre da periferia de mentirinha quer ser reconhecido pelo "direito de ser pobre". O pobre da vida real quer superar sua pobreza, quer ter Educação de qualidade e não somente tomar água de coco em Copacabana e entrar no Barra Shopping de bermudão sujo e chinelos.

Por isso devemos contestar essa intelectualidade "sem preconceitos" e sua pretensa unanimidade, porque esses "pensadores" não estão a serviço da verdadeira cultura popular, e sim a serviço de um mercado que representa o braço "cultural" da mesma ditadura midiática que tal intelectualidade finge combater.

ANTI-POPULARES, JOSÉ SERRA E EDUARDO PAES SÃO "FAVORITOS" PARA ELEIÇÕES PARA PREFEITOS



Por Alexandre Figueiredo

Algum pesquisador do Ibope, Gallup ou, sobretudo, a Datafolha, já visitou sua casa? Duas mil pessoas interrogadas num lugar dão realmente noção do que pensa a maioria da população? Ou será que as pesquisas de intenção de voto não passam de uma grande marmelada estatística, feita para boi dormir e turista ver?

Pelo jeito, a última opção é a mais provável. Pois foi divulgada, pelo Ibope em parceria com a conservadora TV Bandeirantes, uma pesquisa prévia para possíveis candidatos a prefeitos nas capitais e o resultado mostrou favoritismo para dois políticos considerados por suas posições e medidas anti-populares.

Aparentemente, o atual prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, é o favorito para vencer as eleições de 2012, variando entre 40 e 43% dependendo da confrontação com outros candidatos. Já José Serra aparece como "favorito" para a prefeitura de São Paulo com 20%.

Paes é "confrontado" por virtuais candidatos como o pastor e engenheiro da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivela, o professor e deputado Marcelo Freixo, recentemente ameaçado de morte por grupos milicianos, e um dos fundadores cariocas do DEM, Rodrigo Maia, filho de César Maia.

Já Serra é "confrontado" por candidatos como o ex-cantor de sambrega Netinho de Paula, o sindicalista Paulinho da Força, a ex-VJ Sônia Francine, o empresário Afif Domingos e o ministro da Educação do governo Dilma Rousseff, Fernando Haddad.

Eduardo Paes e José Serra são conhecidos por suas medidas contrárias ao interesse público, embora seus governos sejam apoiados por empresários e tecnocratas e tenham simpatia da velha grande mídia.

Eduardo Paes é famoso pelo "higienismo" social, desapropriando barracos sem que adotasse uma política realmente justa de moradias populares (apesar de dar a impressão contrária). Também combateu o comércio ambulante sem dar qualquer opção de trabalho para os vendedores. E ainda por cima impôs a padronização visual dos ônibus cariocas, medida que já demonstrou um grande fracasso, apesar de continuar prevalecendo, para desespero da população.

José Serra, então, nem precisa falar. Ele é, praticamente, o principal foco do livro A Privataria Tucana, o sucesso de vendas escrito e pesquisado por Amaury Ribeiro Jr., que até Veja teve que engolir (embora tentasse adulterar a posição do livro no ranking. Eu mesmo pude ver o livro de Amaury na filial da livraria Saraiva, em Niterói.

Serra, como a "nata" do PSDB, é um privatista doentio, e durante o governo FHC está direta ou indiretamente relacionado com os privilégios obtidos pelos tucanos e seus familiares, juntamente com o banqueiro Daniel Dantas e o tesoureiro Ricardo Sérgio de Oliveira.

Moral da história. Os institutos de pesquisa representam os interesses da sociedade conservadora, que ainda apoia esses dois políticos. Seus critérios de pesquisa, embora aparentemente corretos, são duvidosos. Não se sabe se realmente esses institutos pesquisam as cerca de 2 mil pessoas que dizem consultar. Muitas vezes pesquisam apenas uns quinze engravatados e eles "representam" as "2 mil" pessoas que "representam" toda a sociedade.

Portanto, não é uma pesquisa para ser lançada a sério. Até porque é o mesmo filme que favoreceu Fernando Collor, FHC e outros espertalhões.

ESQUERDA NÃO É BLINDAGEM PARA A "CULTURA DE MASSA"



Por Alexandre Figueiredo

A transformação dos valores sócio-culturais no mundo inteiro não permite que a pasmaceira "cultural" da velha mídia tenha solução de continuidade através da blindagem feita pela mídia esquerdista média nos últimos dez anos.

A cada dia se mostram argumentos que contrariam e põem em contradição toda a campanha da pretensa "cultura popular" veiculada pela velha mídia mas apoiada abertamente por intelectuais festejados tidos como "de esquerda", sejam eles esquerdistas frágeis ou centro-direitistas enrustidos.

Essa solução de continuidade está clara nos seus argumentos, pois, apesar de tentarem desmentir que os "sucessos populares" da música, as popozudas, o noticiário policialesco e outros valores do grotesco brega-popularesco nada têm a ver com a grande mídia, é nela que eles encontram seu sentido de ser.

Nada dessa suposta "cultura das periferias" está fora dos interesses da velha grande mídia. Em algum cantinho da mídia dominante, há alguma dessas tendências aparecendo feliz nos seus mais diversos cenários.

O "funk carioca", símbolo máximo dessa campanha ideológica, a cada vez comprova a opção que escolheu depois de tanto tempo fazendo o jogo duplo da mídia esquerdista e direitista. Sem esconder seu namoro de longa data com as Organizações Globo, apesar de vender a falsa imagem de "ritmo dos sem-mídia", o "funk carioca" decidiu oficializar sua união com a "Vênus Platinada", sob as bênçãos de "bardos" como Luciano Huck, William Waack e Ali Kamel.

A cada dia se mostra o quanto textos de ideólogos como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches nem de longe assustam ou causam nojo aos barões da grande mídia, que até se acham no direito de gracejar quando a intelectualidade média "de esquerda" endeusa tais "pensadores".

Nessa atitude que, sim, é boboalegremente exercida por essa intelectualidade, os "pensadores" da direitona brasileira, felizes com o poder persuasivo de Sanches, Araújo e seus consortes, arrumam condições para se fortalecerem moralmente para defender seus princípios medievais de cultura.

Pois, diante do falso maniqueísmo entre o brega-popularesco e da "cultura ilustrada", enquanto Pedro Sanches & Cia. convencem a intelectualidade a aceitar passivamente o "bundalelê" dominante como se fosse "cultura das periferias", nomes como Olavo de Carvalho e Carlos Alberto di Franco "ressuscitam" triunfantes no seu moralismo cultural, depois do teatrinho dialético feito entre as duas faces da mesma moeda midiática.

As esquerdas, por isso, depois se envergonham, chorando, quando descobrem que Waldick Soriano, Mr. Catra e Gaby Amarantos estão a serviço da centro-direita cultural e entram pelas portas das Organizações Globo e do Grupo Folha pela porta da frente. E levam bronca de ativistas sociais sérios, depois que descobrem que o "pagodão baiano", o "pagode romântico" e o "funk carioca" transformam o povo negro em estereótipos que equivalem a uma nova escravidão, feita pela velha mídia.

E pesquisando bem, dá para obter subsídios mil que contestem o que Sanches e Araújo dizem para "salvar" a tal "cultura de massa" das eras Médici, Geisel, Collor e FHC, agora sob uma blindagem pseudo-esquerdista.

Com fontes bibliográficas e consultar na Internet, questionamentos a essa pretensa "cultura popular" partem de argumentos colhidos de gente diversa como Milton Santos, Noam Chomsky, Umberto Eco, Carlos Estevam Martins, Glauber Rocha, Emir Sader, Venício A. de Lima, Eduardo Guimarães, Guy Debord, etc, etc, etc.

Se pesquisarmos, veremos o quanto é que o sentido de preconceito não está no lado de quem rejeita o brega-popularesco, mas antes em quem o apoia sob o pretexto de "romper com ele".

No próximo ano, certamente teremos novos questionamentos, novas situações, que mostrarão o quanto a choradeira "anti-preconceito" é, na verdade, cheia de preconceitos. E que, sob a falsa alegação de defender as classes populares, na verdade as combate, porque defende tão somente o mercadão estereotipador dominado por rádios FM, TV aberta e jornais "populares". Um mercadão que só coloca o povo pobre no circuito do consumismo, sem promover a verdadeira cidadania.

Por isso teremos que tomar cuidado. Existem "pensadores" como Sanches e Araújo que valem hoje como as Soninhas e Gabeiras de outrora. E que já começam a se preocupar com os "radicalismos" das esquerdas. Por enquanto, a intelectualidade média de esquerda dá ouvidos a eles, como se fossem "as vozes da sabedoria". Mas depois o direitismo oculto deles aflora e aí será tarde demais.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

IMPRENSA DE ESQUERDA AINDA PAUTA PELA CULTURA DE CENTRO-DIREITA



Por Alexandre Figueiredo

A imprensa escrita de esquerda ainda vive sob a "síndrome do Jornal Nacional". Nos temas políticos, geralmente estrangeiros, a abordagem é explosiva, crítica, contestatória, informativa. Mas, quando o assunto é cultural, sobretudo no Brasil, a abordagem é completamente oposta, sendo ela mais água-com-açúcar, persuasiva, anti-contestatória, marqueteira.

A comparação remete ao que o JN, nos tempos de Cid Moreira e Sérgio Chapelin, mostrava na sua breve meia hora de duração. Sobretudo no tempo da ditadura militar e sob a vigência do temível AI-5.

Nessa época, o JN contrastava notícias políticas internacionais, que mostravam um mundo em tensão, como se fosse uma panela de pressão permanente. Quando se falava em Brasil, no entanto, era quase sempre na santa paz.

Era o país "que vai (ia) para a frente", de um "otimismo incontrolável" ("Ninguém segura esse país", era um dos lemas da época) e tudo parecia um grande paraíso, um país de sorriso arregalado e ingênuo, dócil e meigo, com um quê de imperfeição e inocência misturados feito café e leite.

Cerca de 40 anos depois, é o que se vê, infelizmente, na própria imprensa de esquerda. A natureza não dá saltos, o Brasil, país capitalista, conservador e ainda sub-desenvolvido, sofreu fortes reflexos de políticas ditatoriais, neoliberais, cheias de demagógicos paliativos econômicos que nem de longe resolveram as profundas desigualdades sociais.

Isso reflete na mentalidade média dos cidadãos. Afinal, não foi em 2002 nem agora que o país e seu povo viraram socialistas. Paciência. Se temos uma mídia de esquerda razoavelmente consolidada, no entanto não é todo o seu público que é necessariamente um público leitor de esquerda, pois em boa parte é ainda um público conservador e direitista moderado.

É só percebermos a formação da intelectualidade média de nosso país. Com menos de 50 anos, os heróis dessa intelectualidade são justamente os que fizeram sucesso durante o regime militar: Waldick Soriano, Odair José, Gretchen, Rita Cadillac, Benito di Paula, Amado Batista.

Mesmo a intelectualidade dita "de esquerda" cai no delírio diante desses ídolos, pois na sua formação elitista de classe média, vivia sua infância ou adolescência felizes diante da TV aberta dos anos de chumbo.

E isso refletiu, também, na agenda temática adotada pela imprensa escrita de esquerda. Da natureza não se dá saltos, repetimos, e o que vemos são três periódicos de esquerda que abocanharam um público dissidente de veículos conservadores como o jornal Folha de São Paulo e a revista Isto É.

Trata-se de um público que, mesmo desiludido com os surtos reacionários dos periódicos conservadores que tanto apreciaram, continuou mantendo os mesmos preconceitos obtidos desde que viam televisão nos tempos da ditadura e quando liam a Folha de São Paulo entre 1984 e 2002.

GRANDE IMPRENSA CAI DO PEDESTAL

Por isso vemos o caminho que a imprensa de esquerda trilhou, e não foi da noite para o dia que vimos de cara periódicos socialistas em pleno vapor.

Em primeiro lugar, as revistas Caros Amigos e Carta Capital surgiram mais tímidas, uma como um Pasquim com menos humor (mas com a charge de Claudius, veterano desenhista conhecido nos anos 50 e 60 nas páginas da revista Manchete) e mais ensaios e entrevistas, e outra como uma Isto É bem menos reacionária e ainda menos tendenciosa.

Quem acompanhou as revistas no começo nota-se que elas ainda não tinham uma linha rigorosamente de esquerda. Era porque o mercado ainda não estava receptivo para uma imprensa esquerdista.

Isso porque, até pouco tempo atrás, uma questão de cinco, seis anos, a velha grande imprensa ainda gozava de sua reputação quase divina. Era a época em que o jornalismo, por si só, era considerado a doutrina salvadora da humanidade, e que muita gente acreditava que a imprensa não estava a serviço da cidadania, mas a imprensa estava acima dela.

Portanto, era complicado, na época, questionar o papel da imprensa como guardiã da cidadania. O povo comum perguntava para si se eram os deuses jornalistas. Criticar o jornalismo como via única para o exercício da cidadania era um pecado imperdoável, e quem fazia tais críticas era visto como "alienado", "defensor da censura", "inimigo da liberdade de informação" etc.

Era quase uma heresia, vista erroneamente como estupidez, acreditar que a imprensa não podia estar acima da cidadania, da mesma forma que era obrigatório acreditar que a cidadania só existia em função do jornalismo.

Mas vieram os oportunistas e os arrogantes que, tempos depois, passaram a ser conhecidos como "calunistas" e "urubólogos", e muito daquela segura e inabalável aura começou a ser quebrada pelos dois periódicos. A CBN, quase tão sagrada quanto Jesus Cristo, começou a cair do pedestal. E foi um marco quando Carta Capital começava a falar nos barões da grande mídia, nos chefões da grande imprensa.

PRESSÃO DOS DISTRIBUIDORES

Todavia, a evolução da mídia esquerdista só começava o seu caminho. Houve grandes progressos, e, à medida em que Caros Amigos e Carta Capital começavam a definir a sua cara editorial, o Fórum Social Mundial lançava uma publicação derivada, que se tornou a revista mensal Fórum.

Na editoria política ou nos assuntos sobre o status quo midiático - mas ainda preso ao âmbito do jornalismo político - , os três periódicos passaram a desenvolver seus brilhantes perfis, informando a respeito dos movimentos sociais e dos problemas de ordem política, econômica e midiática, dentro dessa perspectiva.

Mas, no que diz à editoria cultural, os três periódicos ainda sucumbem aos seus piores pecados, chegando mesmo a uma abordagem bastante oposta ao de sua linha editorial geral, num caminho inverso à relação entre a Folha de São Paulo e seu extinto caderno literário Mais!.

Para quem não sabe, o Mais! era o único espaço que a FSP reservava para a esquerda intelectual. No cardápio, havia geralmente pensadores estrangeiros de esquerda, cujos temas críticos iam desde a crise da globalização até a hegemonia e a imbecilização cultural do mundo do espetáculo.

Mas tais abordagens eram ideias de fora, e a FSP queria dar a impressão de que o esquerdismo intelectual era um luxo das sociedades européias, cujos pontos de vista eram tidos como "impróprios" para nossa realidade.

Só que a gente até pode pensar se mesmo o Mais! não teria influído na abordagem centro-direitista que vemos na imprensa esquerdista. Em todo o caso, a Folha de São Paulo influiu decisivamente na "direitização" da pauta cultural da imprensa de esquerda, ainda que de forma quase indireta.

Quase, porque o maior astro da centro-direita cultural no momento, Pedro Alexandre Sanches, "cobra-criada" do Projeto Folha, é colaborador da imprensa esquerdista. Quem é que colocou ele lá não se sabe realmente, mas dá para perceber um possível motivo que fez esse crítico musical saltar de pára-quedas na imprensa de esquerda, para pregar sutilmente seus preconceitos de centro-direita.

Talvez a medida tenha ocorrido em função da pressão dos distribuidores. Afinal, existe uma relação direta ou indireta com os distribuidores de jornais e revistas, Fernando Chinaglia Distribuidores e DINAP (Distribuidora Nacional de Publicações S/A) e o Instituto de Verificação de Circulação (IVC) com a velha mídia e com a Associação Nacional de Jornais.

Só um aspecto já aponta uma ligação direta. A DINAP, que distribui Caros Amigos, no entanto é propriedade do Grupo Abril. Pedro Alex Sanches havia colaborado, além da Folha, nas revistas Época (das Organizações Globo) e Bravo (do Grupo Abril). E já fazia suas defesas do establishment do entretenimento brasileiro, aquele supostamente associado à atual cultura popular.

O MITO DA "PUREZA CULTURAL"

Aí voltamos ao Jornal Nacional. A imprensa esquerdista, provavelmente sob a pressão dos distribuidores, passou a criar um contraste surreal entre o explosivo mundo político e o dócil e quase debilóide país cultural que se converteu o Brasil, nessa perspectiva.

Criou-se uma visão oficial e dominante sobre "cultura popular" que, embora se autoproclame "sem preconceitos" e se diga "solidária" ao povo pobre, esconde conceitos que, de forma bem explícita, também são os mesmos divulgados por veículos "flexíveis" da mídia direitista, que é o caso da própria Folha de São Paulo e da Rede Globo de Televisão.

É muito estranho que se trata de uma visão cultural que não represente qualquer ruptura com a visão difundida pela velha mídia. É como se a cultura popular fosse vista como um processo de "pureza", dissociada do âmbito social, político e econômico, e o povo pobre sendo visto como crianças dóceis e inofensivas.

Através de Pedro Alexandre Sanches, estabelece-se um discurso ideológico que, à maneira de Ali Kamel, joga-se por debaixo do tapete quaisquer questões sobre manipulação cultural das massas pela chamada indústria cultural.

Juntamente com Sanches, outro que colabora para a propaganda do establishment brega-popularesco é MC Leonardo, funqueiro "redescoberto" pelo cineasta José Padilha, que colabora no Instituto Millenium junto com jornalistas e militantes demotucanos. O funqueiro, por sua vez, também assina uma coluna no jornal popularesco Expresso, das Organizações Globo, famosa pelo seu apoio explícito ao "funk carioca", que muitos se recusam a admitir.

No entanto, esse discurso, pelo seu tom sentimentalóide e pela promessa, falsa, de "ruptura com os preconceitos", praticamente conquista o apoio de setores medianos da opinião pública, e acaba invertendo os conceitos de "preconceito", numa verdadeira discriminação do senso crítico.

Pois se ouvirmos dez, cem ou mil vezes a música brega-popularesca e continuarmos rejeitando, por mais que tenhamos ideia precisa do que isso se trata, somos tidos como "preconceituosos". Mas se nunca ouvirmos seus ídolos e nem ter ideia exata de quem eles são, mas os aprovamos incondicionalmente, então "não temos preconceitos".

Muitos equívocos sérios dessa abordagem "sem preconceitos" são descritos neste blogue, e nesse discurso ideológico feito por Sanches e por outros intelectuais da "panelinha" - Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Bia Abramo, Ronaldo Lemos, Oona Castro, Rodrigo Faour, Milton Moura e outros - , nota-se vestígios das mais diversas abordagens do pensamento neoliberal mundial, de Auguste Comte a Francis Fukuyama, passando pelo próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Coincidência? Afinal, essa pretensa "esquerda" intelectual simplesmente se inspira no pensamento conservador da centro-direita, nos seus mais diversos aspectos. Ninguém assume nem desmente essa constatação, mas o silêncio da intelectualidade etnocêntrica - assim chamada por ver o povo pobre de forma paternalista, ainda que "positiva" - diz tudo.

Por isso a mídia esquerdista começa a sentir as cobranças da opinião pública diante da agenda temática cultural de centro-direita. Não dá para tapar o sol com a peneira, e dizer que aqueles "sucessos populares" que rolam até no Domingão do Faustão estão "fora da mídia" ou "não tem a ver" com o mercado.

O caso da associação do "funk carioca" com as Organizações Globo - realidade da qual muitos literalmente têm medo de aceitar - é sintomático. Como o é também quando "coitados" da temporada, seja o falecido Waldick Soriano, sejam nomes como Banda Calypso e Gaby Amarantos, facilmente têm acesso à velha grande mídia.

Da mesma forma, chama a atenção a própria inversão ideológica dessa intelectualidade, que, mesmo se dizendo "de esquerda", assume sua preferência para nomes claramente conservadores como Waldick e Benito di Paula, em detrimento de verdadeiros esquerdistas como Chico Buarque, a verdadeira vítima de preconceito, por ser um artista de classe média que não pode defender a cultura popular.

Com isso, a imprensa de esquerda encontra-se num sério dilema, que é de rever sua editoria cultural. Ou então terá que engolir as gozações da extrema-direita cultural, como Olavo de Carvalho, já que a postura frouxa dos intelectuais esquerdistas em relação ao brega-popularesco e aos arautos da centro-direita cultural pode fazer a direitona arrotar pretensa superioridade.

BRASIL ULTRAPASSA INGLATERRA NO RANKING DO PIB. MAS AINDA É POUCO


MENOS, MENOS - Ainda falta muita coisa para o Brasil chegar ao Primeiro Mundo, como na melhoria dos serviços de limpeza em cidades como Nilópolis (foto), na Baixada Fluminense.

Por Alexandre Figueiredo

A notícia mais recente é que o Brasil se tornou a sexta maior economia do mundo, ultrapassando a Inglaterra. Embora a "urubologia" reinante na imprensa brasileira se preocupe demais com a derrota do Reino Unido, por conta da crise econômica de 2008, o crescimento da economia brasileira, no entanto, não pode ser superestimado.

Neste sentido, até que o ministro Guido Mantega tem razão, quando disse que o reflexo do crescimento econômico brasileiro só terá efeitos definidos dentro de 20 anos. Em todo caso, a economia brasileira cresceu, houve fortalecimento de empresas nacionais, há o aumento da inclusão de alunos pobres em cursos de iniciação científica e a melhoria gradual no ensino público básico e fundamental.

Além disso, a classe média cresceu, com a inclusão de pessoas que antes haviam feito parte do segmento D da pirâmide econômica. E nacionais como Petrobras e Vale do Rio Doce, além de bancos como Bradesco e Itaú, tiveram seus fundos de investimentos nas bolsas de valores bastante valorizados.

Mas evitemos o oba-oba da mídia mais "popular". É muito cedo para dizer que o Brasil se encontra no Primeiro Mundo. E não vivemos nos novos Anos Dourados. Pelo contrário, ainda temos um padrão cultural digno da Era Geisel, onde o setor "cultura popular" ainda anda preso aos ditames do mercado e da velha mídia, realidade que seus ideólogos tentam desmentir mas não conseguem.

No Natal em que eu passei na casa de meus tios, na Baixada Fluminense, notei que ainda há muita pobreza, sujeira, esgoto a céu aberto. E isso em uma região suburbana, mas localizada nos lombos do Rio de Janeiro, se "alimentando" de seus encargos políticos, já que até hoje não se pensou na volta da Guanabara e do antigo Estado do Rio de Janeiro.

Pois um Brasil que rachou o Mato Grosso ao meio, criando o Mato Grosso do Sul, que rachou Goiás e jogou o Tocantins para a Região Norte, além de quase ter dividido o Pará, não teve coragem sequer de cogitar a volta da Guanabara.

Niterói, sem a condição de capital, perdeu a infraestrutura e a visibilidade, e está cada vez mais caro se deslocar por barcas e ônibus para o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro, o município, não pode cuidar de si mesmo, e ainda sofre com o cafajestismo político de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho. A Baixada Fluminense continua pobre, o resto do Estado é o resto do Estado, só os investidores é que gostam dessa "fusão" de 36 anos imposta pelo regime militar.

E fala-se de Niterói, tida como uma das cidades com "maior Índice de Desenvolvimento Humano", classificação dada por critérios duvidosos. Afinal, nem os supermercados conseguem repor os estoques com regularidade e o que se vê nos bairros do Norte e centro Norte e parte da Região Oceânica é pobreza, muita pobreza.

No interior, há os conflitos de terras, um mal que assombra o país há muitíssimo tempo, e mostra o grave problema da concentração de terras no país, que compromete nossa economia. E só agora a presidenta Dilma Rousseff começa a fazer desapropriações de terras, num processo lento de reforma agrária.

Culturalmente, o que se vê é que a dita "cultura verdadeiramente popular" não passa de empreendimento de verdadeiras oligarquias vinculadas ao entretenimento. Empresas de "agências de talentos", equipamentos de som, gravadoras regionais, gente muito rica, com fazendas, em certos casos até sonegando impostos, e enriquecendo às custas do jabaculê das rádios e das "parcerias" com estabelecimentos comerciais de grande porte e até com distribuidores de cervejas.

Mas a intelectualidade insiste em creditar essas elites como "gente pobre de marré de si". E isso é o grande problema. Eles defendem, no fundo, os barões do entretenimento, que são os mercadores e exploradores do lazer da pobreza. São apenas ex-pobres que se tornaram muito ricos, e hoje estão mais preocupados com o seu próprio mercado do que com a cidadania dos pobres, que apenas são seu "gado" consumidor.

Com uma "cultura popular" dessas, claramente defendida pelos barões da grande mídia, o povo não pode trabalhar seus valores sócio-culturais próprios. Embora seja tido hipoteticamente como "sujeito" desse entretenimento grotesco, ele não passa de mera massa de manobra dos barões do entretenimento.

Desse modo, a Inglaterra ainda continua na frente do Brasil. Lá chegaram com força os movimentos de ocupação do Brasil. Aqui, tivemos apenas manifestações pontuais que pouco acrescentaram à mesmice maniqueísta das vaquejadas, micaretas e "bailes funk" e das passeatas moralistas da direita.

Portanto, há muita coisa que mudar no nosso Brasil. É preciso evitar a euforia, porque o país pode deitar na cama com o entusiasmo da nova notícia. Nada disso. Até porque foi muito trabalho que fez o Brasil conquistar essa posição. E mesmo assim não foi fácil. Portanto, nada de festinhas, ainda é hora de trabalhar, e muito, para rompermos as desigualdades sociais.

O "MODERNISMO DE BUTIQUE"


A INTELECTUALIDADE "DIVINIZADA" AINDA NÃO ENTENDEU AS LIÇÕES DE MÁRIO DE ANDRADE.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica, "divinizada" e cheia de visibilidade, "sem preconceitos" mas dotada de muitíssimos preconceitos, apenas quer brincar de Modernismo. Corteja, dentro de perspectivas pós-tropicalistas diluídas, apenas clichês da ideologia modernista, aliados a conceitos mais recentes relacionados à indústria cultural, tomados de empréstimo do movimento concretista e do Tropicalismo.

No entanto, são conceitos que acabam distorcendo. Utopias que se criam e que não trazem efeito prático algum. É um pós-tropicalismo e um pós-pós-modernismo míope, de um verniz pseudo-esquerdista com a consistência de uma tinta guache, que se desmancha com o ar.

Vendo as pregações ideológicas desse pessoal, e o caráter dualista com que cortejam seja a cultura musical de qualidade - como os nomes "difíceis" da MPB, como Itamar Assumpção, Quinteto Violado e Sérgio Sampaio, para não dizer o "mais fácil" deles, Wilson Simonal - , seja a de gosto duvidoso - a "ditabranda do mau gosto" do brega-popularesco, de Waldick Soriano, Tati Quebra-Barraco, Leandro Lehart, Mr. Catra e Gaby Amarantos - , dá para perceber o quanto há de ingênuo em muitas dessas abordagens.

Pois é um "modernismo de butique", onde a salvação da cultura brasileira está atribuída ao mesmo cardápio musical das rádios FM, ou aos valores transmitidos por veículos "populares" da TV aberta e da imprensa. Uma utopia que faz com que a pasmaceira, a mesmice popularesca, na medida em que se "consolida" - às custas de muito jabaculê e muito marketing - , se "cristaliza", na visão desses intelectuais, na "verdadeira cultura popular".

Essa utopia se alia a uma outra, que é a de manter o povo pobre na sua "pureza selvagem". Diferentemente dos analistas do exterior, que fazem duras críticas aos processos de manipulação do povo pela indústria cultural, os brasileiros costumam louvar a indústria cultural, na ilusão de que ela "modernizaria" as periferias através de seus valores e celebridades.

Para essa intelectualidade que tenta se impor como "unanimidade", não é válido lutar pela qualidade de vida do povo pobre. Ele "já o tem", através de medidas políticas paliativas e de mecanismos de inclusão no mercado de consumo. A qualidade de vida, da forma como pregam os analistas mais críticos, iria macular aquela "pureza", aquela "inocência do grotesco" que faz o povo pobre simpático para o paternalismo não-assumido desses intelectuais.

Só que isso cria muitos problemas. Para começar, a preocupação em "não macular" a "inocência" do povo das periferias, deixando-o no "grotesco puro", e fingindo acreditar que aquilo é um "outro tipo de beleza no qual não conseguimos compreender", não isenta a intelectualidade de culpa pelo processo midiático de domesticação das classes populares.

Muito pelo contrário, essa "pureza" do grotesco acaba por permitir que se legitime todo o processo de domesticação, de estereotipação das classes pobres. Um processo claramente etnocêntrico, onde o "outro" (a população pobre) é "embelezado" pela velha mídia, na qual a intelectualidade é uma cúmplice não confessa.

A "positivação" do "outro" pelo "eu" não significa que justiças possam ser feitas desse modo. Em outros aspectos, essa "positivação" pode soar um consentimento com a inferioridade do "outro", apenas "zelado" pelo docilmente cruel paternalismo das elites intelectuais, que sempre no final das contas leva a melhor na contemplação do "outro" pobre, "salvo" pela "cultura de massa".

A deturpação dos conceitos modernistas faz essa intelectualidade, tal qual criancinhas puxando as calças dos pais quando pedem presentes, apelar até para os "titios" Oswald de Andrade e Mário de Andrade para a defesa dos "brinquedinhos culturais" do brega-popularesco.

Daí a "antropofagia" ou a "cultura de raiz" ou qualquer outra alegação para defender os brega-popularescos de críticas negativas. Só que o único elemento que une modernistas e a linhagem de bregas, neo-bregas e, agora, pós-bregas, é apenas o fato de que foram vaiados. Mas, fora isso, não existe qualquer semelhança que possa equiparar uns e outros. Muito pelo contrário, os fatos mostram que eles nada têm a ver.

Afinal, o brega-popularesco nunca representou o novo. Nova é sua "embalagem", mas seu conteúdo é sempre velho. Os bregas olhavam para trás, os modernistas para a frente. Da mesma forma, os neo-bregas olham para trás, os pós-bregas também. Os tropicalistas, em que pese a guinada neocon deles (exceto Tom Zé e o falecido Torquato Neto, porque sempre foram a "esquerda" do movimento), olhavam para a frente.

O brega-popularesco, aliás, começou a ser falsamente ligado ao Tropicalismo quando um Caetano Veloso já desfeito de suas ousadias foi fazer um dueto com Odair José no festival Phono 73, há 38 anos. O dueto rendeu vaias ensurdecedoras. Mas a intelectualidade etnocêntrica, criança nessa época, achou o episódio "divertido" e "desafiador", e daí para fazer comparações com as vaias encaradas pelos modernistas é um pulo.

Aí tudo virou desculpa para ser "genial". A vaia tornou-se um "aplauso às avessas" e criou-se um maniqueísmo entre "sucesso de público" e "fracasso de crítica", sem saber mesmo que público e que crítica realmente são, ou se esse "fracasso" não seria superestimado.

Afinal, dependendo do caso, as vaias podem vir de uma "multidão de moralistas" ou de uma "minoria de preconceituosos". E as críticas vem de uma "classe" ou de um "seleto grupo" de intelectuais.

E o "sucesso"? De números colhidos das listas dos mais vendidos, dos mais vistos etc? E que plateia é essa? Muito provavelmente, é o "gado" popular da velha mídia. Mas a intelectualidade etnocêntrica mal sabe defini-la como o "povo das periferias" ou "as simpáticas elites" que contemplam os ídolos da "cultura de massa".

Isso sem falar que o ídolo brega-popularesco - como os medalhões do "sertanejo" e do "pagode romântico", por exemplo - se torna, aos olhos etnocêntricos da intelectualidade "divinizada", um "verdadeiro artista popular" numa estranha equação que junta uma capacidade de exprimir luxo e pompa e uma facilidade de lotar plateias.

Nos dois casos, a ideia de "artista popular" acaba sendo falsa. Primeiro, porque a técnica de luxo e pompa é apenas uma forma de fazê-lo "mais aceitável" para plateias mais elitistas. Segundo, porque lotar plateias é uma questão de quantidade de pessoas, que nem sempre têm consciência exata daquilo que estão apreciando. E fala-se em consciência crítica, e não o simples fato de gostar ou não gostar daquilo que aprecia.

Portanto, não há como definir a pseudo-cultura "popular" como verdadeira cultura popular. Também é inútil utilizar-se de argumentos modernistas, só por causa da rejeição. Afinal, a vaia é apenas uma parte menor de cada espetáculo, como outros aspectos como o uso de guitarra elétrica.

Nada disso transforma o ídolo da mediocridade cultural dominante num "gênio", embora usar vaias, guitarras elétricas, lotação de plateias e coisa e tal servisse como um bom marketing para recolocá-lo nas rádios e na TV aberta. Mas aí é só marketing, seu valor artístico-cultural continua sendo muito, muito duvidoso.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

EMIR SADER TAMBÉM ALFINETA O BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

A rota de colisão da intelectualidade etnocêntrica com a verdadeira intelectualidade de esquerda já é sinalizada pela nossa torre de comando. Aparentemente, vemos um céu de brigadeiro, sem qualquer tempestade a caminho, mas a intelectualidade que defende a "cultura de massa" está prestes a divergir violentamente da intelectualidade que critica a mercantilização da cultura popular.

Isso é batata. Pensadores mais lúcidos, como Eduardo Guimarães, Emir Sader, Rodrigo Vianna e Venício A. de Lima não têm ilusões quanto às manobras mercadológicas que distorcem e descaraterizam a cultura popular. E constatar isso nada tem a ver com preconceitos higienistas ou com protecionismos de qualquer aspecto. Mas, sim, uma constatação seriíssima de que algo não anda bem na cultura brasileira.

Pois Emir Sader, ao analisar os males da globalização nas culturas locais, falou da ameaça que esse processo descontrolado exerce nas mesmas, afetando violentamente em crenças, costumes, hábitos e relações sociais.

Se confrontarmos esse alerta com declarações "otimistas" de Pedro Alexandre Sanches, veríamos a chocante divergência entre um e outro, porque o parágrafo acima seria considerado pelo colonista-paçoca como "pura expressão de preconceito e moralismo elitista e provinciano".

A declaração também deveria causar um sério horror ao professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, um "vejista" enrustido metido a "militante esquerdista" - deve ser para agradar a esposa dele - e que se gaba em seguir o Emir Sader no Twitter. Essa adesão do "cabo Anselmo da Pampulha" será mero teatrinho de pseudo-esquerdista ou "espionagem" para dedurar a mídia esquerdista para os amiguinhos no portal do Globo Esporte?

Quanto à globalização, vale uma análise. Não que sejamos impedidos de assimilar a cultura de fora. Até certo ponto, assimilá-la é um processo bastante saudável de enriquecermos social e culturalmente, mesmo quando tendências de fora são inteiramente transplantadas aqui. Mas, de forma descontrolada e decidida sempre "de cima", ela é nociva para as nossas referências locais, ameaçadas de desaparecimento ou de descaraterização.

É o que se vê no brega-popularesco, que é uma colcha de retalhos que deturpa os ritmos populares brasileiros numa "linha de montagem" que esconde a supremacia de ritmos do hit-parade estrangeiro.

Não se trata do mesmo processo do Rock Brasil de décadas atrás, que era espontaneamente assimilado pelos seus músicos, que no entanto o traduziam com a mais genuína linguagem local. E, apesar da influência radiofônica, o Rock Brasil ainda vivia de valores sociais transmitidos de forma comunitária, através dos amigos.

O brega-popularesco não. Seus ritmos, como o "pagode romântico", o "sertanejo", o "funk carioca", mostram claramente a imposição radiofônica em detrimento da comunidade. O povo pobre é apenas associado como consumidor e servo desse mercado, que no entanto é muito mais elitista do que qualquer "MPB biscoito-fino" com os mesmos ranços bossa-novistas.

Isso porque, em ritmos como "pagode romântico" e "sertanejo", por exemplo, o que se ouve neles não são o samba e a música caipira revigorados ou modernizados, mas sim a sua estereotipação caricata diluída em influências estrangeiras assimiladas de forma subordinada, ou seja, por imposição do mercado. Dessa forma, o "pagode romântico" emula a soul music e o "sertanejo" a música country (em especial o Nashville Sound) de forma tão caricata quanto os falsos sambas e falsas modinhas tocados por seus músicos.

Essa constatação, "preconceituosa" para a intelectualidade etnocêntrica, é na verdade um problema que requer uma discussão séria em torno de nossa cultura. Entregar o futuro da cultura popular a meros cardápios musicais e comportamentais de emissoras de rádio FM e TV aberta e de jornais "populares" controlados por oligarquias não é valorizar a cultura popular.

Pelo contrário, isso é manter a escravidão cultural que transforma o povo pobre em meros bobos da corte da intelectualidade "divinizada", que, como "elite pensante", também mostra seus fortes preconceitos na medida em que precisam pagar o salário de suas empregadas domésticas e a tirar alguma satisfação com porteiros de prédios, faxineiros, garis e camelôs.

Bóris Casoy e Reinaldo Azevedo também comem certas paçocas.

EDUARDO GUIMARÃES CRITICA BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

O experiente e sensato blogueiro Eduardo Guimarães, autor do Blog Cidadania, ao descrever sobre a Lei da Mídia, a respeito da regulação da mídia, explicou vários detalhes do problema da mídia de hoje e entre os parágrafos escritos está um a seguir:

"As faixas de onda da mídia eletrônica (tevês e rádios, sobretudo), por serem concessões distribuídas pelo governo, ao longo do século XX foram entregues a grupos políticos que pretendiam se perpetuar no poder valendo-se do que a comunicação concede a quem a controla, o poder de decidir o que a sociedade deve ou não saber e de influir e pautar costumes e a própria cultura popular."

O que isso significa? Significa justamente a crítica ao modelo de "cultura popular" que os barões da grande mídia, nacionais ou regionais, lançavam, que é a mesma linhagem de bregas e neo-bregas que sempre comandaram o establishment do entretenimento nacional, embora finjam que "estão fora da mídia".

A frase mostra sobretudo que muitos veículos que claramente patrocinam essa "cultura popular" são controlados por oligarquias, políticos e latifundiários que usam o rádio e TV para controlar e domesticar o povo, impondo até mesmo o que deve ser a "cultura popular" a ser adotada pelas classes populares. Nada de "cultura da periferia". É meramente indústria cultural, da pior espécie.

Os intelectuais realmente de esquerda, dotados de muito senso crítico, não se iludem com essa pseudo-cultura "popular" que só é dotada de muito marketing. Essa "cultura" só é "popular" porque chama mais gente, lota plateias, faz a mídia emplacar, mas não acrescenta coisa alguma nas comunidades populares nem na cultura de seu povo. Apenas é uma "cultura" para consumo imediato e efêmero, mas é imposta pela mídia, sob o endosso da intelectualidade mais frágil, como se fosse "o novo folclore definitivo".

Pois é a Cidadania, com "C" maiúsculo, contra certas "paçocas" que, mesmo fingindo-se "crítica cultural de esquerda", só corroboram o que querem os Marinho, Frias, Civita e similares no que tange ao controle social e a domesticação das classes pobres, por meio da glamourização da miséria e espetacularização da pobreza e do grotesco.

domingo, 25 de dezembro de 2011

O DRAMA DA FAVELA MOINHO E DE OUTRAS FAVELAS



Por Alexandre Figueiredo

"Favela: arquitetura pós-moderna, paraíso de uma prosperidade improvisada, reduto de uma felicidade que não conseguimos compreender. Favela: perfeição da imperfeição, modernidade pós-moderna e além de suburbana, já trans-urbana, onde a pobreza renasce em poesia, e a miséria reluz em novas possibilidades".

Esse parágrafo, tão dócil e sentimental, soa música para os ouvidos de uma intelectualidade "sem preconceitos", situada confortavelmente nos seus grandes condomínios. Mas é ela que mantém sua hegemonia na opinião pública, com sua visão glamourizada da miséria, com sua apologia à pobreza, com sua compreensão do "outro" por demais paternalista, embora ela afirme o contrário.

Pois o drama oculto das favelas, a verdade sombria da pobreza e do sofrimento de não ter uma moradia decente, um emprego digno, não aparece na sorridente pregação dos ideólogos do brega-popularesco. Não aparece no "funk", nem no tecnobrega, nem no "pagodão". Não é essa favela que aparece na música do "injustiçado" Parangolé. Nem no programa Esquenta ela aparece. E nem é essa favela que é exaltada pelas pregações da intelectualidade "divinizada".

Recentemente, um violento incêndio atingiu uma comunidade que vivia na favela Moinho, no centro de São Paulo. Até o momento, dois mortos foram encontrados. A tragédia destruiu residências, estabelecimentos comerciais e outras casas, deixando aqueles que já tinham pouco sem sequer o básico para suas vidas.

É, portanto, um drama que, realmente, a intelectualidade "mais bacana" não consegue mesmo compreender. E que "poesia feliz" é essa? A intelectualidade etnocêntrica, se vier a se interessar em falar nesse assunto - isso quando não se recusam a fazê-lo, porque não faz parte do "espetáculo" - , vai chorar suas lágrimas de crocodilo, enquanto esconde nos seus corações a indiferença com o povo pobre que, neste episódio, não está rebolando até o chão, mas sentados nas sarjetas chorando os seus dramas, sem muito amparo.

O que causou o incêndio? Curtos-circuitos? Especulação imobiliária? Vingança pessoal de algum morador? Ação de grupos criminosos? Pouco importa. O drama está muito mais além disso.

Ele está no fato de pessoas pobres que não têm onde morar, devido aos aluguéis caríssimos de casas e apartamentos, e do descaso das autoridades, que só constroem casas populares por motivos eleitoreiros ou de "dar serviço" a empreiteiras sedentas em "lavar" dinheiro sujo. Por isso a construção improvisada, malfeita e arriscada de casas só pela urgência de alguma habitação para as famílias miseráveis.

A favela já vivia o drama de ficar próxima à Cracolândia. O que significava uma perturbação grande das famílias que veem seus jovens sem futuro sucumbirem ao consumo de drogas, e, sem ter como pagar, pagam eles e quem tiver em casa com as próprias vidas a todas as dívidas que têm com os traficantes.

E vemos o quanto as classes populares sofrem. Outros incêndios aconteceram em São Paulo, em caraterísticas semelhantes, talvez por diversos motivos. Se são "gatos" de energias elétricas ou depósitos irregulares de gás de cozinha, ou se são sabotagens de grupos criminosos ou vinganças pessoais, tudo isso varia conforme o caso.

Mas o que se iguala em todos esses casos é o sofrimento dos moradores e o sentimento de pânico em que essas pessoas se encontravam quando viram explosões e chamas intensas destruírem suas casas, quando até pouco tempo atrás havia, pelo menos, algum sossego relativo.

E tudo isso não é espetáculo. E é irônico isso, cinquenta anos depois de outro incêndio, o do Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, em 17 de dezembro de 1961, quando um número nunca esclarecido até hoje e estimado de 323 a 500 pessoas (talvez até mais disso) foi o resultado de uma tragédia que, na época, comoveu o mundo.

Não se brinca com tragédias, sejam elas em circos ou em favelas, em que pese a gíria jocosa que se resultou da tragédia niteroiense no anedotário popular, quando se pergunta a pessoas revoltadas se elas querem ver "o circo pegar fogo". Com toda a certeza, porém, essa favela não é, mesmo de longe, a "poética" favela dos ideólogos da pseudo-cultura "popular" da grande mídia.

A Associação de Moradores da Comunidade do Moinho já fala em 29 desaparecidos. E 300 barracos foram destruídos pelo fogo. Em muitos casos, era difícil até correr para socorrer as vítimas, devido à estrutura de caminhos na antiga favela. Um prédio próximo foi interditado pela Defesa Civil, sob risco de desabamento, e uma linha de trem que passava no local deixou de atendê-lo.

Esse é o outro lado da periferia, que nada tem de espetacular.

POR UM NATAL SEM NEVE



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Laurindo Leal, um dos militantes da regulação da mídia, faz um relato do que é a manipulação dos telespectadores pela grande mídia durante o Natal, época marcada pelo consumismo intenso movido pela propaganda e pelo espetáculo midiático, ambos a serviço do capitalismo.

Por um Natal sem neve

Por Laurindo Lalo Leal Filho - Revista do Brasil

A televisão no Brasil não dita apenas hábitos, costumes e valores, mas também o ritmo de vida da maioria da população. Nos dias úteis com seus horários para “donas de casa”, crianças e adultos e nos fins de semana com uma programação diferenciada, supostamente mais adaptada ao lazer. A TV organiza também as comemorações das efemérides ao longo do ano, das quais o ponto alto é o Natal. Com muita antecedência saltam da tela canções da época e muita propaganda, criando clima para o “espírito natalino”.

As crianças são o alvo principal. Se já são bombardeadas com apelos de compra o ano todo, no Natal a pressão cresce. Apresentadoras joviais e alegres conquistam a confiança dos pequenos telespectadores com seus dotes artísticos para, em seguida, atraí-los para as compras, no mais das vezes, desnecessárias. Da classe média para cima é comum ver crianças com brinquedos pouco ou nada usados, comprados apenas como resposta aos apelos publicitários.

Mas a TV não está só na casa de quem pode comprar. Hoje ela é um bem universalizado no Brasil, advindo daí a sensação de exclusão sofrida por crianças cujas famílias estão impossibilitadas de satisfazer seus desejos. Esse desconforto resulta da crença de que o consumo é um valor em si, substituto da cidadania. Só é cidadão quem consome.

“O que singulariza a grande corporação da mídia é que ela realiza limpidamente a metamorfose da mercadoria em ideologia, do mercado em democracia, do consumismo em cidadania”, diz o professor Octávio Ianni em “Príncipe eletrônico”, artigo que se tornou referência para a discussão do papel político da comunicação nas sociedade modernas.

No Natal, a metamorfose atinge seu auge e segue até a virada do ano. As mercadorias ganham vida na TV e estão à disposição para satisfazer todos os desejos, o mercado oferece democraticamente a todos os mesmos produtos e, ao consumi-los, exerceríamos nossos direitos de cidadãos. São falácias muito bem embaladas em luz, cores e sons sedutores. As regras do jogo são essas. Quem mantém as TVs comerciais são os anunciantes. Apesar disso, as emissoras poderiam ter um pouco mais de criatividade. Não há Natal na TV brasileira sem a milésima reprise do filme Esqueceram de Mim, com neve em quase todas as cenas, ou sem o indefectível “especial”, sempre com o mesmo cantor.

Nem o jornalismo escapa, com colagens em forma de clipes usadas à exaustão mais para reviver sustos já sofridos pelo telespectador do que para informar. Em determinado ano, que pode ser qualquer um, o apresentador famoso abria a resenha na principal rede de TV exclamando: “Um ano de arrepiar em todo o planeta. Incêndios, terremotos, furacões”. E dá-lhe imagens espetaculares, que de notícia pouco têm.

Podia ser diferente? Claro que sim. Poderíamos ter na TV um Natal mais brasileiro e um final de ano criativo (com a publicidade mais controlada). Realizadores não faltam, o que falta são oportunidades para mostrar seus trabalhos. Mais de 200 deles apresentaram pilotos de programas no Festival Internacional de Televisão, realizado em novembro no Rio. Não haveria ali gente capaz de tirar a televisão da rotina desta época?

Criatividade também não falta na produção audiovisual brasileira. Precisamos é de ousadia para mostrá-la ao público oferecendo bens culturais capazes de enriquecê-lo espiritualmente. Ou como dizia um diretor da BBC, a melhor TV do mundo: “Temos a obrigação de despertar o público para ideias e gostos culturais menos familiares, ampliando mentes e horizontes, e talvez desafiando suposições existentes acerca da vida, da moralidade e da sociedade. A televisão pode, também, elevar a qualidade de vida do telespectador, em vez de meramente puxá-lo para o rotineiro”.

Belo desafio, não? Feliz Natal.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A BUSOLOGIA DE COLARINHO BRANCO



Por Alexandre Figueiredo

Enquanto o povo é obrigado a tolerar decisões vindas "de cima" em relação ao transporte coletivo, uma elite de busólogos tomada de estrelismo começa a se divergir de seus pares com suas posições anti-populares associadas aos interesses e decisões de autoridades e tecnocratas.

Pois se trata da "busologia de colarinho branco", baseada na prevalência de decisões e interesses de políticos, empresários e tecnocratas do setor de transporte. Embora todos, poderosos e seus "súditos" - aqueles que o apoiam, é claro - juram que "defendem" o interesse público, assim como a velha grande imprensa "defende" a democracia, não é difícil perceber o quanto eles estão distantes do verdadeiro interesse público.

Pois a "busologia de colarinho branco", "de gabinete" ou "de escritório" acaba diluindo um hobby relacionado ao transporte coletivo a interesses nada coletivos, ou, quando muito, de grupos minoritários.

E já é preocupante que a busologia fluminense esteja sofrendo um processo de "racha", causado pelo jogo político da Prefeitura do Rio de Janeiro ou por episódios envolvendo a empresa Turismo Trans1000, de Mesquita (RJ), que opera com frota sucateada e é a que mais descumpre as normas trabalhistas no Grande Rio.

Pois é através dessa situação que se vê que o "racha" entre os busólogos se tornou mais radical, e fez com que especialistas e verdadeiros pesquisadores de ônibus abandonassem o hobby, enquanto outros, mais arrogantes e reacionários, ganhassem mais destaque nos fóruns sobre busologia em sítios (como os do servidor Fotopages) e redes sociais (como Facebook e Orkut), sem esconder o desejo de, apoiando Eduardo Paes, Alexandre Sansão e companhia, possam em breve serem fotografados ao lado de gente como Pelé, Carlos Arthur Nuzman e Joseph Blatter, para não dizer Ricardo Teixeira.

PADRONIZAÇÃO VISUAL

Depois do conflito causado entre um grupo de busólogos que apareceu no programa Tribos (Canal Multishow) em detrimento de outro então mais destacado, que não apareceu no mesmo programa, e da boataria em torno das frotas intermunicipais 100% com ar condicionado, um conflito que envolveu o autor deste texto, a padronização visual virou o tema da discordância da vez.

A medida arbitrária, imposta por Eduardo Paes em votação secreta, sem consulta popular, de padronizar visualmente os ônibus - medida condenada pelos mais conceituados técnicos (não-tecnocráticos, é claro) de transporte - , a princípio causou uma revolta geral entre os busólogos, quando a medida foi anunciada em 2009.

No entanto, o vira-casaquismo se deu quando os primeiros ônibus foram pintados, num adesismo muito estranho feito da noite para o dia. De repente um grupo de busólogos influentes passou a apoiar a medida, se irritando com qualquer discordância a respeito.

Pouco importava falar que a população estava sofrendo limitações, que o sistema se baseava na concentração de poder dos secretários de transporte, que era um projeto herdado da ditadura militar (que implantou sistema parecido em Curitiba e São Paulo). Os busólogos pró-padronização não aguentam discordâncias nem explicações e ficam furiosos com qualquer argumentação contra eles.

A irritação chega ao nível da arrogância e das ofensas, desaforos e ironias que os busólogos pró-padronização passaram a dirigir contra os discordantes.

DISCURSO REPETIDO

Os busólogos pró-padronização chegam à atitude cínica de dizer que os argumentos dos discordantes são repetitivos. "Muda o disco, seu discurso está antiquado", é o que dizem. Semelhante reação havia sido feita pelos adeptos da privatização de estatais no governo de Fernando Henrique Cardoso.

"Estado raquítico, demissões em massa, desnacionalização da economia, privataria, concentração de multinacionais... Troca esse disco, esse discurso já era", diziam os internautas que defendiam a privatização de estatais, pouco mais de uma década antes de Amaury Ribeiro Jr. revelar os "podres" do "maravilhoso" processo, com o grande sucesso de vendas A Privataria Tucana.

O que está repetido é o discurso dos busólogos pró-padronização. Pode ser Fulano, Sicrano e o escambau, é sempre o mesmo apelo de "mudar o discurso", "trocar o disco". Eles é que precisam trocar o disco, que deve estar arranhado e pulando nos mesmos sulcos por causa da raiva deles e do "medinho" de enfrentar a discordância da maioria.

BUSÓLOGOS "PROFISSIONAIS"

O "racha" da busologia fluminense, que busólogos de outros Estados começam a tomar conhecimento, se dá com os busólogos-pelegos se convertendo em "profissionais", já se dirigindo contra outros busólogos que, embora fotografem regularmente os ônibus em geral, não usam sua visibilidade a título de estrelismo ou politicagem.

Vemos até busólogos de credibilidade, íntegros, que fotografam ônibus cariocas com visual padronizado apenas pelo puro dever de informar. "Olhe, é esse carro que eu fotografei na rua tal. Ele está circulando na linha tal com a carroceria qual, devidamente emplacada", é o que dizem vários destes. E eles também estão decepcionados com os outros busólogos que, abraçados a Eduardo Paes na espera de conhecerem pessoalmente os astros dos eventos esportivos de 2014 e 2016, bancam os "donos da verdade" e defendem medidas anti-populares.

Dá para reconhecer o fiasco e a impopularidade da padronização visual dos ônibus cariocas, uma medida que já começa a decair até em Curitiba e São Paulo, já foi superada em Florianópolis e já se cogita usar em Uberaba, no Triângulo Mineiro, devido à corrupção da Trans1000 de lá, que, felizmente, foi extinta como grande lição para a homônima da Baixada Fluminense.

Mas a Transmil de Mesquita ainda conta com um estranho fã-clube busólogo, num país marcado pela "cultura trash" à brasileira, onde o brega é "cultuado" e o lixo vira "luxo". Pouco importam carros sucateados, acidentados ou enguiçados, pouco importam os protestos dos passageiros, o "fã-clube" fica surdo a eles. E depois esse "fã-clube" diz defender os usuários.

Outras medidas impopulares também marcam a busologia pelega. Eis algumas delas:

1) Sistema de pool nos ônibus - Medida caraterizada em uma linha de ônibus operada por mais de uma empresa - , que serve de "trampolim" para certos grupos empresariais ou para a intromissão deles em áreas eleitoralmente estratégicas. A medida, em si, é válida apenas em caráter emergencial e provisório, mas sua aplicação permanente é tecnicamente inviável.

2) Diminuição das frotas em circulação - Medida claramente anti-popular, mas "privativamente" defendida e apoiada por uma minoria suspeita de busólogos. Sob as promessas tecnocráticas de trajetos "mais rápidos", defende-se a retirada aleatória de até 50% dos ônibus, obrigando os passageiros a ficarem mais tempo à espera de um ônibus.

Interesses escusos por trás dessa "imparcial" medida incluem desde o lobby da indústria automobilística até mesmo à garantia de superfaturamento dos empresários de ônibus com a redução de investimentos na circulação de parte de sua frota.

3) A padronização visual serve para camuflar ou dificultar o reconhecimento das empresas de ônibus pelos passageiros comuns. O que pode fazer com que a opinião pública não possa estar a par dos abusos que podem ser cometidos pelas empresas de ônibus.

Embora os tecnocratas "garantam" que a medida "elimina a corrupção" (sic), o que se vê é o contrário, sobretudo em cidades como São Paulo, Brasília e até mesmo Curitiba, quando a corrupção das empresas de ônibus é feita debaixo da farda padronizada da prefeitura ou da região metropolitana.

Em São Paulo, o consórcio da Zona Leste é um dos casos escandalosos de corrupção. Em Brasília, até ônibus piratas são inseridos na frota padronizada. Em Curitiba, rodoviários são proibidos de falar sobre as irregularidades do sistema, sob pena de demissão. E no Rio de Janeiro já tem a primeira amostra, com a linha 292 Engenho da Rainha / Praça 15 sendo transferida da Transportes Estrela Azul para a Viação Pavunense sem que a população tenha real conhecimento disso.

TRANSTORNOS MIL

O modelo "curitibanizado" (padronização visual, sistema de consórcios, poder central dos secretários de transportes) está decaindo a cada dia, e isso é comprovado definitivamente nos noticiários que mostram os inúmeros acidentes, incêndios e até outros incidentes, vários deles trágicos, envolvendo os ônibus que circulam nas grandes cidades.

O desgaste desafia até mesmo os secretários de transporte que, arrogantes e surdos ao clamor público, insistem em manter esse modelo, lançado nos tempos da ditadura por Jaime Lerner em Curitiba e por Olavo Setúbal em São Paulo.

Lerner, o pupilo querido do reitor Suplicy de Lacerda (que, como ministro da Educação do general Castelo Branco, enfureceu o movimento estudantil nos anos 60), era ligado à ARENA e é também conhecido por ter o mesmo apetite privatista de José Serra e Fernando Henrique Cardoso.

Setúbal, o banqueiro-prefeito, era afilhado político do ex-prefeito paulistano Paulo Egydio Martins, "bionicamente" indicado pela ditadura. Egydio, como líder estudantil, havia transformado a UNE numa agremiação udenista, com o claro apoio do Departamento de Estado dos EUA, representado "inocentemente" pela estudante Gloria May. Ainda vivo, Egydio está hoje filiado ao PSDB, tendo ensinado "boas lições" de neoliberalismo para o ex-socialista José Serra.

Se observarmos bem, a padronização visual dos ônibus está sempre associada a políticas fascistas. Os próprios regimes fascistas padronizam corações e mentes, a "padronização" é um controle autoritário de vários processos sociais. A ficção científica já mostrou muito disso como denúncia da realidade pela arte, e a velha grande mídia também é famosa por padronizar a opinião pública, por defender o pensamento único.

Pouco adiantam paliativos para tornar o sistema mais atraente. Até porque é possível fazer mobilidade urbana, colocar ônibus melhores e tornar o sistema mais funcional sem precisar padronizar visualmente os ônibus. E sem atribuir plenos poderes às secretarias de transportes nem amarrar as empresas de ônibus em consórcios que, na prática, representam oligarquias empresariais politicamente formadas.

Esse sistema "curitibanizado" se desgasta com suas dezenas e centenas de ônibus enguiçados nas cidades, com corrupção nos bastidores enquanto o povo desperdiça mais uma passagem por pegar o ônibus errado e pelo bilhete único perder a validade no engarrafamento, porque, afinal, tornou-se "coincidência" que os engarrafamentos tenham aumentado muito depois desse "moderno" sistema de ônibus ser implantado.

Enquanto isso, os busólogos-pelegos falam grosso quando estão nos ambientes seletos do debate busólogo nas redes sociais e fóruns de Internet. São protegidos pelo semi-anonimato que, se não os transforma em astros, lhes garante uma semi-imunidade.

Mas, se fossem reconhecidos pelos passageiros comuns, seriam logo vaiados pelo povo, que os chamaria de "lambedores de gravatas" e "puxa-sacos de políticos", e não adiantaria esses busólogos-pelegos dizerem que "não é bem assim" ou descontar sua indignação nas redes sociais, à procura de bodes expiatórios para suas raivas e decepções.

Esses busólogos-pelegos, com o tempo, passariam logo a ter vergonha de si mesmos, na medida em que serão incapazes de justificar para o povo seus pareceres anti-populares sob a alegação de um "modo diferente de trabalhar para o interesse público". E eles fatalmente serão apagados por uma geração mais nova, como já ocorreu na busologia da Bahia, onde os busólogos-pelegos de dez anos atrás praticamente desapareceram.

Chega de busologia golpista!!

INVERDADES E MENTIRAS DA CULTURA DE DIREITA



Por Alexandre Figueiredo

Sabemos que a intelectualidade de esquerda é refém da centro-direita cultural que domina o mercado. Mas, infelizmente, poucos blogues dão conta desse quadro que cria uma situação tipicamente kafkiana em parte da intelectualidade de esquerda.

Não falo de intelectuais mais veteranos, que sabem muito bem as armadilhas da chamada mass media, mas de gerações mais recentes que foram apresentadas à televisão nos tempos da ditadura militar e por isso acham que a mass culture brasileira é o "legítimo neo-folclore das periferias".

O tom kafkiano está portanto na série de inverdades e mentiras transmitidas para defender o brega-popularesco, e que mostram o quanto a direita cultural se infiltra nas esquerdas aproveitando as brechas que a intelectualidade média deixa para ela.

Em primeiro lugar, a intelectualidade cultural esquerdista média acaba assimilando valores de direita e hostilizando valores de esquerda. Graças a pregadores como Paulo César Araújo, MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches, a intelectualidade média de esquerda acaba por inverter as coisas e valorizar nomes mais conservadores, em detrimento de nomes progressistas.

Desse modo, a intelectualidade média, através dos "mestres" da centro-direita cultural, acaba "aprendendo" que nomes como Chico Buarque, Luiz Gonzaga Jr. e Elis Regina são "deploráveis" porque adotam posturas "radicais". E que José Ramos Tinhorão, ícone da esquerda intelectual dos anos 60, seria um "velho chato e antiquado".

Em contrapartida, nomes bastante conservadores como Waldick Soriano (machista e pró-ditadura), Odair José, Dom e Ravel e Benito di Paula - que, em pleno período da repressão, cantava "Tudo está em seu lugar / Graças a Deus, graças a Deus" - são tidos como "rebeldes", até superestimando a rejeição que receberam, não por serem "polêmicos", mas por serem justamente associados à mediocridade cultural que interessava à velha mídia que apoiava o regime militar.

Essa intelectualidade média, dotada de ranços pós-tropicalistas mesclados com o ideal do "livre mercado", acaba se rendendo à centro-direita cultural com um estranho entusiasmo, e acaba indo em séria contradição com suas abordagens quanto a temas políticos e jornalísticos. E, pasmem, ainda ficam felizes em se acharem "contraditórios"!

VERDADE HISTÓRICA, SIM, EXCETO PARA O WALDICK

Só um episódio bastante ilustrativo dessa postura da intelectualidade média de esquerda sob influência da cultura de direita é quanto à defesa da chamada verdade histórica, que é a revelação da memória oculta brasileira durante os anos de chumbo da ditadura, sobretudo entre 1969 e 1974.

Pois quando o âmbito é político, todos querem que se revelem documentos, reportagens censuradas e outras denúncias sobre a repressão do regime militar e onde estariam os mortos cujos corpos até hoje não foram encontrados, como os do antigo deputado petebista Rubens Paiva, pai do jornalista Marcelo Rubens Paiva.

Neste caso, todos querem a verdade histórica, a revelação dos "podres" da ditadura militar. Mas, quando o assunto é cultural, a posição da intelectualidade média muda completamente.

Aí, ninguém gosta que se revelem verdades sobre o "querido" Waldick Soriano. Quando se fala que ele foi uma figura muito conservadora e até machista e que defendia a ditadura militar, a intelectualidade média chega a chorar. "Não falem assim do meu Waldick, que tanto sofreu e que amo tanto!", dizem, aos prantos.

E ainda tomam como "verídica" a acusação de subversão atribuída à música "Tortura de Amor", que, para quem não sabe, é de 1962, quando Jango ainda estava no poder e sob um governo parlamentarista. Mas oficialmente a música é tida como "uma crítica" ao regime militar, uma mentira lançada pelo "mestre" Paulo César Araújo, o primeiro menestrel dos coitadinhos "culturais" da velha mídia.

MENTIRAS PAÇOQUIANAS

A situação ganha mais contornos sutis quando o ideólogo passa a ser o jornalista Pedro Alexandre Sanches, que a mídia de direita escalou para jogar na mídia esquerdista, fazer gols contra e pontuar para os direitistas.

Pois Pedro Alexandre Sanches difundiu mentiras e inverdades na mídia de esquerda, deixando a intelectualidade média, desprevenida, embasbacada. Tudo isso para defender o mesmo brega-popularesco que segue tranquilo abraçado aos barões da grande mídia.

Ele empurrou para a esquerda a dupla "global" Zezé di Camargo & Luciano só pelo pretexto deles terem votado em Lula e serem o foco do dramalhão biográfico Os Dois Filhos de Francisco. Inverdade. De fato, os dois votaram em Lula, mas o "líder" dos dois, Zezé, foi para o lado oposto no movimento Cansei, e além disso os dois votaram no coronelista Ronaldo Caiado, que ideologicamente está no lado oposto ao Movimento dos Sem-Terra.

Por influência de Pedro Sanches - e também de MC Leonardo - o funqueiro Mr. Catra foi tido, numa reportagem de Caros Amigos, como "invisível às corporações da grande mídia". Mentira da grossa. A essas alturas ele já era figurinha fácil do Caldeirão do Huck, do portal Ego e da Quem Acontece, e, depois, do Multishow, todos veículos ou programas ligados à maior das corporações da grande mídia, as Organizações Globo.

Outra mentira, desta vez com Pedro Sanches apenas corroborando "informações" dadas por Ronaldo Lemos e Oona Castro no livro sobre o tecnobrega. A de que o tecnobrega sofria boicote da grande mídia.

Nem em sonhos, caros amigos! Na primeira hora, o tecnobrega sempre contou, no seu Estado de origem, o Pará (que teve sua proposta de divisão rejeitada semana passada em plebiscito), com o apoio da maior corporação midiática de lá, o grupo O Liberal, da famiglia Maiorana, sobretudo na rádio O Liberal FM.

E, nesse caminho todo, o blogueiro progressista e hostilizado pelos Maiorana, Lúcio Flávio Pinto, definiu o tecnobrega como lixo - contradizendo a euforia dos esquerdistas médios para com o tecnobrega - , os ídolos tecnobregas apareceram fácil, fácil no Domingão do Faustão, toda a velha mídia divulgou favoravelmente o estilo e Gaby Amarantos foi entrevistada por Veja e apareceu no especial de Zezé di Camargo & Luciano na... Rede Globo de Televisão, para milhões de telespectadores.

Por isso, o mito de que essa "cultura popular" não aparece na velha mídia é fruto só da "imaginação" de Pedro Alexandre Sanches & cia.. E a desculpa de que o brega-popularesco aparece na velha grande mídia na forma de uma "invasão rebelde" é tão ridícula que não rende maiores comentários, a não ser que os ídolos "populares" estão lá felizes ao lado dos porta-vozes da grande mídia.

Foi o caso, por exemplo, da Banda Calypso aparecer até ao lado do "bobo da corte" do Instituto Millenium (a "academia" dos demotucanos), o casseta Marcelo Madureira. Vendendo uma falsa imagem de "cultura indie" e de "ativismo de esquerda", a Banda Calypso construiu sua carreira até com boatos de que teria sido indicado ao Nobel da Paz - mentira que nunca colou e ficou por isso mesmo - , entre outras artimanhas astuciosas para construir seu sucesso comercial.

Sanches também tentou trocar as bolas, chamando de axé-music a boa música baiana marginalizada pelo mercadão carnavalesco, como meio de confundir as coisas. Isso porque o termo axé-music foi lançado originalmente, de forma pejorativa, pelo jornalista baiano Hagamenon Brito e se dirigia diretamente ao mercadão carnavalesco de "ivetes", "asas" e "chicletões". E que, depois, o próprio mercadão se rendeu ao nome, vendo o potencial comercial da denominação.

O próprio "funk carioca" se valeu por essa mentira da "discriminação da grande mídia". Mas o ritmo sempre se valeu pela aliança aos barões da grande mídia, e as Organizações Globo sempre mantiveram as portas abertas ao gênero.

E, agora, a coisa torna-se mais explícita, com MC Leonardo escrevendo para o jornal Expresso, da famiglia Marinho, seu padrinho José Padilha colaborando para o supracitado Instituto Millenium e a Rede Globo prometendo uma série sobre o "funk carioca". E até o William Waack dá todo o apoio aos funqueiros no seu Jornal da Globo. Coincidência?

POR QUE A MENTIRALHADA?

Por que as inverdades? Por que a mentiralhada? Certamente, usa-se como pretexto a postura das elites intelectuais de centro-direita "favoráveis" ao povo pobre, mas tudo dentro de uma exploração domesticada e caricatural de sua imagem, que no entanto não desperta suspeitas da intelectualidade média de esquerda, porque esta é de gerações mais jovens que não perceberam vivamente as questões mais complexas acerca das classes populares. Além de seu saber sobre periferia ser praticamente meramente livresco e televisivo.

Isso faz com que a intelectualidade média seja presa fácil de pregações tendenciosas que, mesmo dentro de um contexto aparentemente de esquerda, veicula valores direitistas atribuídos, em tese, à cultura popular, mas que escondem interesses mercadológicos que há muito enriquecem as classes dominantes e, do contrário que se pensa, em nada apavoram os barões da grande mídia.

Daí ser preciso um questionamento maior e mais cauteloso. Porque a centro-direita cultural, através de suas pregações, quer mesmo é que a direita política volte ao poder, reconduzida pelas "simpáticas" crenças da estereotipada "cultura da periferia" trabalhada e patrocinada, com gosto, pelos barões da velha mídia.

Assim, até José Serra pode dormir tranquilo.
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