segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A REGULAÇÃO DA MÍDIA PASSA PELO CONGRESSO


REGULAÇÃO DA MÍDIA, UM DOS TEMAS EM PAUTA NA CONFERÊNCIA NACIONAL DE COMUNICAÇÃO (CONFECOM), DEVE SER APRECIADO PELO LEGISLATIVO.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: Uma articulação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal foi iniciada para a criação de uma Frente Parlamentar que defenda a democratização dos meios de comunicação através de leis reguladoras e constitucionais, fazendo frente aos interesses privativos e anti-sociais da bancada dos barões da grande mídia nacional e regional, que se opõem a qualquer regulação.

A regulação da mídia passa pelo Congresso

Por Altamiro Borges - Blog do Miro

O debate sobre o novo marco regulatório das comunicações já começa a adquirir contornos mais nítidos no seu principal campo de batalha: o Congresso Nacional. Os barões da mídia – segundo o Diap, cerca de 100 parlamentares são proprietários, diretos e indiretos (“laranjas”), de emissoras de rádio e televisão – já definiram como prioridade ocupar espaços na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI), por onde obrigatoriamente passa qualquer proposta legislativa sobre o tema.

Já os deputados e senadores engajados na luta pela democratização da comunicação iniciaram as articulações para pressionar o Congresso Nacional no debate sobre o marco regulatório. Na semana passada, eles deram os primeiros passos para a criação da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular na Câmara dos Deputados. Cientes de que o cenário é adverso, de que são minoria no Legislativo, eles sabem que precisam contar com forte pressão social.

Ponte com a sociedade civil

Como explica a deputada Luiza Erundina (PSB/SP), uma das líderes desta articulação, “a frente será uma ponte entre os interesses da sociedade civil organizada e o parlamento, no que diz respeito à democratização da comunicação no país”. Esta articulação já apresentou uma proposta inicial de manifesto (leia abaixo) e marcou para esta semana, em Brasília, reunião com os movimentos sociais organizados para definir a data de lançamento oficial da frente e suas principais iniciativas.

“Vamos trazer para este debate todas as entidades que militam em prol da democratização da comunicação e da liberdade de expressão no país. Queremos acompanhar e influenciar o processo de debate sobre o novo marco legal das comunicações”, defende Erundina. “Estamos muito atrasados nos aspectos da comunicação no Brasil. Temos uma legislação que data de 1962... Precisamos atualizar a nossa legislação para assegurar a liberdade de expressão e a democratização do direito à comunicação”, argumenta o deputado Emiliano José (PT/BA), outro encabeçador da frente parlamentar.

Pressão dos movimentos sociais

Além de Luiza Erundina e Emiliano José, a proposta de criação da frente parlamentar já recebeu o apoio dos deputados Luis Couto (PT/PB), Glauber Braga (PSB/RJ) e Francisco Praciano (PT/AM). Mas para que ela seja formalmente criada no Congresso Nacional serão necessárias 171 assinaturas. José Eduardo Dutra, presidente nacional do PT, afirmou em recente entrevista à Record News que a regulação da mídia é prioridade do partido. Já o PCdoB aprovou no seu 12º Congresso, em novembro de 2009, a luta pela democratização dos meios de comunicação como estratégica para avanço da democracia no país.

A formalização da frente parlamentar será o primeiro round na dura batalha pela regulação da mídia. Além das articulações nos corredores do Congresso Nacional, será decisiva a pressão dos movimentos sociais para garantir as assinaturas necessárias a sua criação. O lobby da radiodifusão, também conhecido como “bancada do PIG”, usará todos os meios – abertos e enrustidos – para abortar esta articulação. Sabe que a frente parlamentar poderá cumprir importante papel no debate sobre o marco regulatório.

O exemplo de Fortaleza

Neste sentido, os movimentos sociais – tão criminalizados em suas lutas pela mídia “privada” – estão com a palavra. Se eles não pressionarem agora, depois não adianta chorar – e nem reclamar do governo Dilma Rousseff. Qualquer projeto, mais avançado ou mais recuado, de regulamentação da mídia passa pelo Congresso Nacional. Entre outros desafios, será preciso pressionar o governo para que apresente sua proposta concreta de novo marco regulatório, o que ajudaria a deflagrar o debate na sociedade.

Ao mesmo tempo, é urgente pressionar os parlamentares pela formalização da Frente pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação. Este fórum poderá ter papel fundamental na evolução dos debates no Congresso Nacional, garantindo avanços no processo de democratização da mídia. Estes e outros desafios exigem povo na rua. O debate em Fortaleza, em 18 de fevereiro, que reuniu cerca de mil participantes, mostra que é possível intensificar a pressão da sociedade. Não há tempo a perder!

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Manifesto pela criação da frente parlamentar

A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação é uma iniciativa de membros da Câmara dos Deputados, em parceria com entidades da sociedade civil, que visa a promover, acompanhar e defender iniciativas que ampliem o exercício do direito humano à liberdade de expressão e do direito à comunicação.

O direito à liberdade de expressão, previsto no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos artigos 5º e 220 da Constituição Federal, enfrenta hoje dois tipos de obstáculos que justificam e reforçam a necessidade desta Frente Parlamentar.

O primeiro está na existência de ações de órgãos do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário e de entes privados que visam a cercear o exercício dessa liberdade pelos seus beneficiários, ou seja, os cidadãos e cidadãs brasileiros. É preciso que se tomem iniciativas e se criem mecanismos permanentes, inclusive no âmbito do Parlamento, para denunciar e combater esse tipo de ação.

O segundo obstáculo está na ausência de regulação e políticas públicas que promovam e garantam a liberdade de expressão e o direito à comunicação. Hoje, as condições para o exercício dessa liberdade são muito desiguais, já que os canais de mídia, elementos-chave para a efetivação desse direito, estão nas mãos de alguns grupos econômicos cuja prática impõe sérios limites à efetivação da liberdade de expressão do povo brasileiro e é fortemente marcada pela prevalência de interesses privados em detrimento do interesse público.

Portanto, não basta denunciar e combater ações contrárias à liberdade de expressão; é preciso propiciar meios para que todos os cidadãos e cidadãs tenham condições de exercê-la. Assim, enquanto houver dificuldades ou impedimentos econômicos, culturais, sociais, técnicos e políticos para o exercício deste direito, é dever dos Poderes Executivo e Legislativo desenvolver ações no sentido de garantir que o maior número de cidadãos possa produzir, disseminar e acessar informações e cultura.

De outra forma, a promoção dos direitos à liberdade de expressão e à comunicação é condição para o pleno exercício da democracia no país. Se os meios de comunicação são os principais instrumentos de circulação de ideias e valores na sociedade brasileira, espaço essencial de consumo de informação e cultura pelos cidadãos e cidadãs, devem então refletir a pluralidade e a diversidade da sociedade, pré-requisito da verdadeira democracia.

A realidade dos meios de comunicação mudou muito nas últimas décadas, especialmente pelo surgimento da internet e a efetivação da convergência digital, nos seus aspectos técnico, comunicacional e empresarial. Com a mudança dessa realidade, alteram-se também os obstáculos, e, por sua vez, requerem-se respostas adequadas a esse novo cenário. Hoje, pensar a universalização do acesso à internet, por exemplo, é tão essencial à liberdade de expressão e ao direito à comunicação, quanto o é à promoção da diversidade de conteúdo no rádio e na televisão.

A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação reúne parlamentares e organizações da sociedade civil comprometidos com valores democráticos e se propõe a atuar tendo como base os objetivos acima referidos, observando a complementaridade, indivisibilidade, interdependência e não hierarquização dos direitos humanos. Assim, ela reconhece, conforme prevê o artigo 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, que o exercício da liberdade de expressão está sujeito a responsabilidades ulteriores (ou seja, a posteriori), especialmente quando o que foi dito representar violação de outros direitos humanos.

Essa condição não deve criar precedentes para nenhum tipo de censura prévia, seja ela governamental ou judicial, mas precisa ser observada no sentido de proteger a dignidade da pessoa humana, especialmente a de grupos vulneráveis como crianças e adolescentes, mulheres, negros e negras, indígenas, população LGBTT e pessoas portadoras de deficiência.

A atuação da Frente se baseia em iniciativas já em curso no Congresso Nacional e em novas ações propostas por seus integrantes, levando em consideração estudos anteriormente realizados por comissões da Câmara e do Senado e propostas elaboradas por entes de todos os setores da sociedade civil, sobretudo as aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação.

Entre os objetivos específicos da Frente Parlamentar estão, sem prejuízo de outros, os seguintes:

- defender os princípios constitucionais relativos ao tema, especialmente aqueles previstos nos artigos 5º e 220 a 224 da Constituição Federal;

- lutar contra qualquer tipo de ação direta ou indireta de censura prévia de caráter governamental ou judicial;

- contribuir para a regulamentação dos artigos 220, 221 e 223 da Constituição Federal, que tratam da proibição de monopólios e oligopólios no rádio e na TV; da existência de mecanismos de defesa contra programações que violem os dispositivos constitucionais; da preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas no rádio e na televisão; da regionalização da programação e do estímulo à produção independente; e da complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal;

- defender a ampliação do acesso da população à banda larga, garantindo a universalização do serviço, preços acessíveis e qualidade do serviço ofertado;

- trabalhar pela liberdade na internet, tendo como parâmetros a proteção à neutralidade de rede e ao direito à privacidade e à liberdade de expressão;

- defender a ampliação da participação popular no acompanhamento e regulação do sistema de comunicações;

- defender transparência, regras e procedimentos democráticos em outorga e renovação de concessões, permissões e autorizações de rádio e TV;

- contribuir para o fortalecimento do sistema público de comunicação, inclusive rádios e TVs comunitárias;

- defender os direitos de grupos vulneráveis como crianças e adolescentes, mulheres, negros e negras, indígenas, população LGBTT e pessoas portadoras de deficiência, no tocante às questões de comunicação;

- defender políticas de incentivo à pluralidade e à diversidade em todos os meios de comunicação, com especial observância à diversidade regional e cultural brasileira;

- incentivar a produção, distribuição e acesso a conteúdo produzido no Brasil por empresas e organizações brasileiras;

- contribuir para o fortalecimento de pesquisa e adoção de tecnologias nacionais nas diversas etapas da cadeia produtiva das comunicações;

- estimular medidas que fortaleçam a educação para a prática e a leitura da comunicação, de maneira formal e informal, entre os estudantes do ensino fundamental e médio.

A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação coloca-se, assim, como um instrumento do parlamento e da sociedade civil brasileira para a ampliação do exercício desses direitos e para o fortalecimento da democracia.

O TRABALHO INTELECTUAL NO BRASIL DE HOJE



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Este artigo foi enviado pelo sociólogo e blogueiro Emir Sader, em razão da futura posse como diretor da Fundação Casa de Rui Barbosa. É um manifesto que ainda não é um discurso de posse, mas antecipa os propósitos de Emir na sua nova função.

O trabalho intelectual no Brasil de hoje

Por Emir Sader - Blog do Emir

Nomeado, mas ainda não empossado para dirigir a Fundação da Casa de Rui Barbosa, eu não queria seguir alimentando mais entrevistas, declarações, palavras enfim, depois de ter sugerido as ideias inicias com que pretendemos nortear o trabalho na direção da Casa.

No entanto, uma vez instaurado um debate saudável – um primeiro objetivo, o de suscitar o debate sobre a função de um espaço culturas público no momento que vive o país -, com as inevitáveis e bem vindas reações e as negativas manipulações ou edições unilaterais de matérias, vale a pena voltar ao assunto, pela primeira com um breve texto de responsabilidade totalmente minha.

Antes de tudo, para reafirmar o respeito por todo o extraordinário trabalho que a FCRB vem desenvolvendo, seja na conservação do acervo, na pesquisa, na promoção de eventos e em tantas outras atividades, que o consagrou como um espaço de referência nessas atividades, em que abriga alguns dos melhores pesquisadores das distintas especialidades a que a Casa se dedica. Isto nunca esteve em questão, trabalhadores, em estreita colaboração com o MINC e a Ministra Ana de Hollanda, assim como com outras instancias do governo que já manifestaram interesse concreto em articular suas atividades considerando a Casa como um espaço de reflexão de todas as Secretarias do MINC, assim de outros Ministérios do governo – como o MCT, o Ministério da Saúde, de Comunicação, da Educação, do Meio Ambiente, dos Esportes, as Secretarias de Políticas para as Mulheres, dos Direitos Humanos, de Igualdade Racial, dos Esportes. A Casa buscará ser, além de todas as tarefas que já cumprem de forma efetiva, um espaço mais integrado ao MINC e ao governo federal, instancias a pertence institucionalmente.

Essas demandas, junto à necessidade de incentivar debates que ajudem a compreensão do Brasil contemporâneo – além daqueles que a Casa já desenvolve – nos levam a programar atividades específicas, dirigidas a decifrar as imensas transformações que o Brasil sofreu nas duas ultimas décadas. É uma lacuna que já apontava conversa que tivemos com a atual Presidenta Dilma, quanto Marco Aurélio Garcia e eu fazíamos uma entrevista para o livro O Brasil, entre o passado e o futuro (Editoras Perseu Abramo, organizado por Marco e eu), quando constatávamos como faz falta hoje ao Brasil um novo impulso teórico e cultural, que sempre acompanharam os momentos de grandes transformações politicas do país. Recordávamos como isso ocorreu nos anos 30, concomitantemente ao primeiro governo do Getúlio, que dava origem ao Estado nacional contemporâneo, com obras como as de Caio Prado Jr., Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Anísio Teixeira, entre tantos outros. Realizada um pouco antes, mas estendendo sua influencias por todas as décadas posteriores, a Semana de Arte Moderna condensou a todas as grandes correntes artísticas renovadoras que povoam até hoje a arte brasileira.

Na virada dos anos 50 para os 60 do século, juntos aos acelerados processos de urbanização e de industrialização, com o fortalecimento de classes e forças sociais fundamentais no processo de profunda democratização por que passava o país, o desenvolvimento de obras como de Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Werneck Sodré, todo o grupo do ISEB – sem querer mencionar a todos -, enquanto a bossa nova, o cinema novo, o boom e a renovação criativa no teatro brasileira, assim como nas artes plásticas, agora a presença exponencial de Oscar Niemeyer, Burle Marx, para referir-nos apenas a alguns dos arquitetos e paisagistas. A lista e as atividades é extensa, na maior concentração de arte criativa e original que o Brasil conseguiu produzir em m espaço relativamente curto. (Certamente se podem acrescentar muito mais nomes e atividades, estas estão aqui apenas a titulo de exemplos.)

Não há duvidas hoje de que o Brasil vive, ao longo da primeira década deste século, que tudo indica que se projetará pelo menos por estar década, um outro período de grandes transformações, que pode ser comparado com os mencionados anteriores, com suas particularidades, tanto na forma dessas transformações, como nos processos políticos que as leva adiante. A consolidação de um modelo econômico intrinsecamente associado à distribuição de renda faz com que o Brasil tenha começado a atacar o principal problema que o país arrasta ao longo dos seus séculos de história: a desigualdade social, que faz com que fôssemos o país ais desigual da América Latina, que por sua vez é o continente mais desigual do mundo. Pela primeira vez na nossa história estamos conseguindo diminuir de forma significativa a desigualdade no Brasil, e em proporções que nos permitem dizer que a própria estrutura social a que estávamos acostumados – uma pirâmide bem larga na base, que ia se afinando como se ascendia na estrutura social, como um filtro que permitia que poucos pudessem estar no meio e muito menos ainda na cúspide da pirâmide.

Além de múltiplos outros fenômenos, que projetaram muito mais e de forma distinta o Brasil no mundo, aliado preferencialmente aos países vizinhos da América Latina e aos do Sul do Mundo, que representamos mais de 85% da população do mundo, mas contamos com percentual brutalmente inferior da riqueza mundial. Por isso o lugar do Brasil como potência emergente, que representa uma nova forma de encarar os problemas econômicos, sociais, políticos, energéticos meio ambientais, educacionais, culturais, dos direitos das minorias politicas, entre outros, tendo sido dirigido na primeira fase desse processo por um líder politico de origem no movimento sindical de luta contra a ditadura, seguido pela primeira mulher Presidenta do Brasil, que esteve diretamente vinculada à resistência àquela mesma ditadura – passou a viver o período de sua maior projeção regional e mundial.

Muitos outros aspectos dessas profundas e extensas transformações – a principal das quais, ao diminuir substancialmente as desigualdades, passou a governar para todos no maior mecanismo de inclusão social que havíamos conhecido – podem ser mencionados, para ressaltar a transcendência do momento histórico que passamos a viver na entrada do novo século.

No entanto, sem subestimar a vigorosa e extensa produção intelectual que a vida acadêmica brasileira e outras instâncias inovadoras passaram a produzir nas últimas décadas, é necessário constatar que as transformações que o país vem vivendo, tem se dado em ritmo mais avançado do que o ritmo do avanço da capacidade de produção teórica de dar conta das profundas, diversificadas e novas transformações que o Brasil passou a viver, especialmente nas duas últimas décadas.

O próprio debate eleitoral refletiu isso. Por um lado, a grande maioria dos meios de comunicação, com uma visão sistematicamente crítica do desempenho do governo Lula – que acreditava que já em 2005 o governo estava morto ou ferido de morte, para dar apenas um exemplo da incapacidade de se situar diante das transformações já em curso naquele momento – e que, ao final desse governo, teve que conviver com um Presidente com 87% de apoio e apenas 4% de rejeição. O que dava conta, sinteticamente, como o ponto de vista amplamente majoritário na mídia – em uma mídia que havia reduzido seu pluralismo a espaços residuais – se chocava com o Brasil realmente existente, que havia entrado em um período da maior unificação nacional, de forma consensual, em torno de um projeto protagonizado por esse governo atacado por escrito, nas rádios e nas TVs, sistematicamente.

Por outro lado, é preciso dizer também – como o livro mencionado O Brasil entre passado e o futuro – que os grandes avanços do governo Lula foram feitos muito mais de forma empírica, pragmática, baseados na extraordinária intuição política do Lula, com ensaios e erros, com exploração de espaços novos e mais fáceis de avançar – como a prioridade das politicas sociais ao invés do ajuste fiscal, da integração regional, ao invés dos Tratados de Livre Comércio com os EUA -, mas sem uma teorização dos passos que se estavam dando, de reflexões estratégicas sobre as direções em que se caminhava, com seu potencial, seus limites, suas contradições.

O certo é que temos que nos orgulhar de todas essas transformações, que estão fazendo do Brasil um país menos injusto, mas como intelectuais, como artistas, temos que constatar que não estamos até aqui correspondendo, com a formulação de grandes debates sobre os caminhos que o Brasil está cruzando, seus potenciais, suas contradições, seus limites, suas novas necessidades. Um debate obrigatoriamente crítico, contraditório, que tem que dar lugar para todas as vozes, uma discussão pluralista, necessariamente multidisciplinar, para abordar todas as esferas e dimensões afetadas pelas transformações em um país tão amplo e contraditório como o nosso.

O mandato que pretendemos levar a cabo na Casa de Rui Barbosa não se choca em nada nem com as atividades que se vem desenvolvendo com grande empenho e rigor na Casa, assim como com os objetivos tradicionais que a trajetória de um personagem impar na nossa história, como estadista, homem de visão ampla, de ideológica pluralista, como Rui Barbosa, projetou sobre a nossa história e nos deixou exemplos de formas de abordagens, para sua época de temas contemporâneos candentes, tanto de politica interna, como de defesa dos interesses do Brasil no mundo.

Buscaremos fomentar grandes conferências – mensais ou mesmo quinzenais – com participação dos grandes pensadores contemporâneos que tem, de uma ou de forma, buscado decifrar os enigmas representados pelas novas circunstancias históricas que vivemos ou pelas tradicionais, revestias de novas roupagens. Não há limite, nem no número, nem nas correntes dos que serão convidados pela Casa – indo de Marilena Chaui a José Murilo de Carvalho, de José Miguel Wisnik a Caetano Veloso, de Tania Bacelar a Bresser Pereira, de Carlos Nelson Coutinho a Maria Rita Kehl, de José Luis Fiori a Chico de Oliveira (e a lista é necessariamente grande e, ainda assim redutiva). Chamaremos para reuniões periódicas todos os intelectuais e artistas que se disponham a participar, para ouvi-los, escutar suas propostas, promover intercâmbios de ideias sobre os rumos das atividades da Casa. Ao mesmo tempo abriremos um espaço de consulta na página da Casa, para que sugestões de nomes, temas e modalidades de atividade, sejam encaminhados.

Essas conferencias, assim como todas as outras que realizemos – seminários sobre Cultura e Politicas Culturais, sobre Propriedade Intelectual, entre outros – será todos transmitidos on line por internet, com possibilidade de assistência e incluso de formulação de perguntas a distância, com os DVDs restando na página da FCRB para serem vistos posteriormente e gravados, se assim se desejar.

Está claro que pretendemos seguir cumprindo todas as atividades atuais da Casa, reforçando-se ao buscar dispor de melhores condições de trabalho e de espaço para os acervos, necessariamente temos que ter, como um esforço conjunto da FCRB, junto com o MINC e outras instancias do Governo Federal que já tem se mostrado sensíveis, o aumento de pessoal, seja mediante novos concursos, seja mais bolsas e outras modalidades de expandir nossa capacidade de trabalho.

Vários outros projetos já foram propostos à Casa – como, em coordenação com a Biblioteca Nacional, desenvolver um amplo trabalho coordenado para a participação do Brasil como país convidado da Feria de Frankfurt de 2013, somente para dar um exemplo, um seminário em prazo curto, junto com a Secretaria dos Direitos Humanos, sobre experiências similares à Comissão da Verdade, em países vizinhos, entre outros - que iremos buscar as formas de dispormos da capacidade atende-los, impossível sem o aumento e a melhoria da capacidade de ação da Casa.

A FCRB e nenhum órgão publico produz cultura. Ele deve fomenta-la, incentiva-la, gerar as melhores condições de sua produção e difusão. Como disse a Presidenta Dilma na referia entrevista, nós não acendemos foguinhos, mas vamos assoprar a favor todos os que existam ou apareçam. Modestamente a Casa pretende se inserir nessa dinâmica, plural e criativa, de apoiar o surgimento e o fortalecimento das distintas formas de expressão intelectual e artística que nos tornem mais contemporâneos deste momento extraordinário que o Brasil vive.

Em momentos anteriores, o pensamento crtico e os movimentos artísticos de vanguarda apontavam os caminhos de futuro para o Brasil. Hoje devemos dizer que a História avança mais rápido que nossa capacidade de compreensão e de criação culturais correlatas a seu ritmo e a seus novos itinerários. O Brasil tem como um dos seus melhores patrimônios seus artistas e seus intelectuais. Trabalhemos para que a compreensão teórica do Brasil e a criação artística do Século XXI, se fortaleçam ainda mais.

LÚCIO FLÁVIO PINTO E O MITO DOS DOIS PARÁS



Por Alexandre Figueiredo

A opinião pública precisa aprender a jogar quebra-cabeça e ver a combinação de peças soltas que aparentemente não tem a ver uma com a outra.

O jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Jornal Pessoal - principal veículo da mídia alternativa do Pará - , está sendo processado pelos barões da mídia paraense por conta de reportagens que denunciam a corrupção que está por trás do coronelismo midiático de lá. Ele corre o risco de ser preso, se continuar divulgando a corrupção.

Pois bem. Lúcio Flávio Pinto também havia escrito um texto esculhambando o tecnobrega, ritmo popularesco paraense, que ele não se acanhou em definir como lixo. Em contrapartida, o jornal O Liberal, ícone da mídia coronelista paraense, foi um dos primeiros a exaltar o estilo, que, tido como "discriminado pela grande mídia", no entanto apareceu até na ranzinza Veja.

Enquanto isso, oficialmente se acredita que o tecnobrega é um "universo à parte" no território paraense, em que o povo pobre que não é capaz de comprar um sítio é capaz de montar equipamentos de som - as tais "aparelhagens" - , num festival de contradições cujo agravante é vir de gente intelectualizada que deveria pelo menos desconfiar das aparências, em vez de defender modismos comerciais como se fossem "manifestações sociais".

Ainda é lamentável que a excelente revista Fórum (ligada aos militantes brasileiros do Fórum Social Mundial) tenha colocado como capa Gaby Amarantos e seu reles comercialismo brega, atendendo o pedido do suspeitíssimo Pedro Alexandre Sanches, que, por mais que tente provar o contrário, continua sendo sempre o "crítico da Folha", sempre a defender a "ditabranda do mau gosto" como se fosse "a cultura das periferias".

DOIS PARÁS - O que existe, juntando a discurseria toda, é que existem o mito dos dois Parás. Um é o Pará político, sangrento, violento, marcado pela concentração do poder da mídia e dos grandes proprietários de terras, e cujo histórico de violência vitimou sindicalistas, agricultores, políticos, professoras, que gerou o massacre de Eldorado dos Carajás e a morte da missionária norte-americana Dorothy Stang.

O outro Pará é o do entretenimento, de uma "cultura" brega-popularesca que, em tese, não tem a interferência da mídia (apesar de sabermos que seu sucesso, naturalmente, depende decisivamente das emissoras FM locais), nem de terceiros e que é feita por gente pobre que está sem um tostão para comprar um pedaço de terra para plantar, mas investe sem sacrifício em tecnologia de ponta para seus espetáculos popularescos.

É como se criasse um maniqueísmo entre o céu e o inferno, o Pará político infernal e o Pará paradisíaco do tecnobrega. Ah, mas o mundo seria fácil se a realidade fosse assim. Não ter dinheiro para comprar terras para uns dois metros de plantação mas sim para adquirir equipamentos de som e de luz para produzir espetáculos de entretenimento brega.

SEM MITOS: O PARÁ É UM SÓ

Mas a verdade não é assim. Como não é a do "funk carioca", cujo discurso "socializante" foi todo em vão, não representou melhoria alguma para a periferia, a população pobre fluminense ficou refém dos funqueiros, enquanto os "paupérrimos" DJs de "funk carioca", com o dinheiro todo obtido através do "conto do movimento social" (pura lorota) foram comprar fazendas no interior do Rio de Janeiro e até Minas Gerais e põem essas propriedades no nome de terceiros, para evitar desconfianças. Mas tornam-se latifundiários de qualquer maneira.

No Pará, não existe a diferença gritante entre o "inferno" do coronelismo e o "paraíso" do tecnobrega. O tecnobrega é parte integrante de um mercado midiático - sim, o tecnobrega tem o apoio da grande mídia, e não é pouco - que envolve políticos, latifundiários, grandes empresários, a mesma gente que tenta intimidar a população com uma violência que custou a vida de milhares de paraenses e até de uma freira estadunidense.

É muita ingenuidade, coisa de otário mesmo, acreditar que as "redes sociais" da Internet já tenham poder suficiente para, sozinhas, definir o que vai ser o sucesso da temporada. O rádio FM e a TV aberta ainda têm esse poder, mas são estes mesmos que inventam que fulano fez sucesso porque botou vídeo no YouTube.

Mentira. Fulano virou sucesso porque, apesar de ter botado seu vídeo no YouTube e chamado a "galera" para vê-lo através do Twitter e do Facebook, também botou o mesmo sucesso nas FMs de maior audiência (muitas controladas por oligarquias locais) e mostrou o mesmo sucesso nos pleibeques no programa de maior audiência da TV aberta local.

Portanto, é lamentável que um Pedro Alexandre Sanches publica uma lorota baseada nas outras lorotas publicadas por Ronaldo Lemos e Oona de Castro e todo mundo aplaude, acredita, louva, elogia e assina embaixo.

Enquanto isso, vemos o caso do Pará e a máscara caindo solta no chão, quando se revela quem é que está realmente do lado do tecnobrega e das "aparelhagens" - a grande mídia golpista do Pará, capaz de mandar prender um jornalista pelo natural direito de informar, em defesa da verdadeira cidadania, em especial a do povo da periferia.

Mas o mesmo Lúcio Flávio que, na página da revista Fórum na Internet, tem um linque de vídeo de uma carta lida pelo filho dele, durante um encontro de blogueiros progressistas, se tivesse seu texto sobre o tecnobrega nas mãos de Ronaldo Lemos, este teria definido Lúcio Flávio como "um membro de retrógradas elites preconceituosas que agem contra o interesse do povo".

Vamos juntar as peças. Se o quebra-cabeça formar a imagem de um monstro, será essa imagem que virá com as peças reunidas. Não vamos inventar um quebra-cabeça novo com peças que nunca se encaixam.

Por isso não dá como creditar como "progressista" um discurso pró-brega que comunga com os interesses da mídia golpista e das oligarquias do entretenimento. Não há como provar que o tecnobrega está fora e longe do seu contexto regional de poderio midiático, de domínio do latifúndio, de politicagem e negociatas.

O tecnobrega faz parte desse cenário todo, faturando às custas do sangue derramado de muitos paraenses.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

FOLHA TENTA DESQUALIFICAR INDICAÇÃO DE EMIR SADER PARA A CASA RUI BARBOSA



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Como é que uma imprensa que se autoproclama "modelo para o país" vai desqualificar a indicação de um renomado professor, Emir Sader, um dos mais respeitáveis intelectuais do Brasil, apenas porque ele tem postura ideológica divergente da linha editorial do jornal? Depois a Folha de São Paulo faz propaganda dizendo que "acolhe os vários tipos de visão".

Folha tenta desqualificar indicação de Emir Sader para a Fundação Casa de Rui Barbosa

Por Di Afonso - Blog Terra Brasilis - Reproduzido também no blog Com Texto Livre

Alguém poderia me dizer o que danado está escrito na matéria da Folha a seguir? Que saco de gatos é este?

No afã de atacar a indicação do sociólogo Emir Sader para a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, Marcelo Bortoloti e Paulo Werneck amontoam parágrafos - a título de tópicos - para não dizerem nada... Quer dizer... Dizem. Dizem, nas entrelinhas e por meio de citações diretas descontextualizadas, que Sader não deveria assumir o cargo.

Começam o texto com um infeliz clichê: "UM ESPECTRO RONDA o Ministério da Cultura: o espectro do comunismo". Deveriam, também, ter dito aos pais de todo o Brasil que acudissem em guardar suas criancinhas... Sabe como é que é... Comunistas comem criancinhas. Ora!

Em seguida, os autores da matéria tentam desqualificar Emir Sader, usando o velho artifício do "alguém que não quis se identificar disse isso ou aquilo". Escrevem ainda que uma tal intelectualidade "de fora" vê nos "propósitos" de Sader "desconhecimento das atividades" realizadas na Casa de Rui Barbosa e "sinais de aparelhamento petista". Ora! Por que a "intelectualidade de fora" conheceria as atividades da Casa e o Emir, não? Fosse um tucano de alta plumagem, não haveria aparelhamento e muito menos insinuações de desconhecimento de causa... Duas colheres de chá com medidas desiguais.

Um pouco mais para frente, a flagrante desconexão temática relativa ao conteúdo global da matéria encontra-se no "tópico" POLÊMICA. Lá, introduz-se - sem futuro algum, diga-se de passagem - uma pendenga acerca do "Y" no nome Rui Barbosa para, depois, atingir o principal objetivo: dar estocadas em Emir com base no fato de ele ter anunciado à Folha que pretendia "transformar a instituição num centro de debates sobre 'O Brasil para Todos'. Pronto. O slogan virou sinônimo de lulismo". Ora!
Bom, depois da leitura da matéria [abaixo], gostaria de que alguém me ensinasse a reconhecer um mínimo coerência textual no saco de gatos, serpentes e escorpiões travestidos de palavras que é "Um emirado para Emir" [até o trocadilho é emblemático... Vôte!].

A DIREITA SE PROSTITUI NO CENTRO-ESQUERDISMO


HERÓDOTO BARBEIRO E GILBERTO KASSAB - PiG e demos agora em atitude "governista".

Por Alexandre Figueiredo

Ser de esquerda não significa, necessariamente, ser sectário ou adotar a postura acrítica à própria esquerda. Ser acrítico e temeroso mesmo nas atitudes mais mesquinhas, mesmo na esquerda, é uma atitude condenável, porque põe-se as causas de luta originais no lixo em nome de vantagens corporativistas ou fisiológicas.

Não é de hoje que o PT, por exemplo, percorre um caminho perigoso, que ameaça sua reputação. O partido já era de centro, tendo sido uma verdadeira torre-de-babel política com suas diversas facções divergentes, das quais a Articulação era dominante. Mas pelo menos seu projeto reformista na Era Lula, se não realizou a tão prometida mudança, pelo menos efetivou conquistas sociais que deveriam ir adiante, e não virarem reféns do pragmatismo politiqueiro.

O novo quadro político, a se anunciar confuso, está preocupando vários analistas progressistas, como Altamiro Borges, Raphael Garcia, Rodrigo Vianna, Luiz Carlos Azenha e Luís Nassif. Até Carta Capital já citou a guinada política anunciada pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. E mostra o quanto o adesismo de pessoas ligadas à direita ideológica ao quadro governista podem agora ameaçar, pra valer, o projeto progressista lançado pelo governo do PT.

ANTES, O OPORTUNISMO TINHA ALGUM CONTEXTO

Hoje a adesão anunciada de Gilberto Kassab - cuja "dedicação" aos movimentos sociais se deu com a repressão policial aos estudantes que protestavam contra os aumentos das passagens de ônibus - , que levará junto a "musa" dos latifundiários, a senadora Kátia Abreu, é um imprevisto que mostra o quanto a adesão de conservadores, não aos movimentos sociais, mas ao bloco político aliado do governo petista, atinge seu grau extremo.

Isso não é novidade, pois o próprio governo Lula se compôs com base conservadora. Não só na política, como também na mídia, no entretenimento, na intelectualidade. Mas, em que pese o alto grau de oportunismo em certos casos, havia pelo menos algum contexto para isso.

No primeiro governo Lula, partidos pequenos deixados de lado pelo demotucanato, como PP, PL (atual PR) e outros, passaram a ser da base aliada. O direitista baiano Mário Kertèsz passou a "apoiar" Lula por causa das ligações do pseudo-radialista com o publicitário Duda Mendonça, que bolou a campanha petista.

Havia também José Sarney, presidente do Congresso Nacional, um direitista "híbrido" que, apoiando Lula, reviveu os tempos em que o senador maranhense integrava a chamada "bossa nova" da União Democrática Nacional (UDN), grupo de políticos udenistas menos alinhados ao conservadorismo do partido, há 50 anos atrás.

Havia também os empresários do entretenimento brega-popularesco, dos donos do forró-brega do Norte/Nordeste aos "joviais" empresários do "funk carioca", que outrora alimentaram seu mercado em cenários políticos conservadores, que passaram a apoiar o governo lulista e usar uma retórica "social" (incluindo o rótulo de "patrimônio cultural" forjado por parlamentares simpatizantes, sem passar pelo caminho de cientistas sociais sérios) que só serviu para perpetuar seus ídolos no mercado da mediocridade cultural.

E havia também os jovens pseudo-esquerdistas, que defendiam de rádios pseudo-roqueiras até bandas de axé-music, pelo simples fato de que era quase um protocolo para quem tem menos de 35 anos ser "de esquerda", baseado em clichês de rebeldia muito conhecidos.

No segundo governo Lula, o cafajestismo ideológico crescia, mas ainda tinha seu quê de verossimilhança, afinal havia os louros do primeiro governo Lula, as conquistas de ordem econômica, que soaram como um milho jogado para os pombos de asas tucanas.

Na segunda fase do governo Lula, vieram adesões mais explícitas dos antigos desafetos de Lula, Paulo Maluf e Fernando Collor (este sob a proteção de Domingos Alzugaray, da Editora Três, que edita a revista Isto É), além da migração do tucano carioca Eduardo Paes para o PMDB, dentro da cartilha do fisiologismo político-ideológico.

Fora da política, vemos a suspeitíssima adesão do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, que mais parecia um Diogo Mainardi metido a analista cultural, ao centro-esquerdismo. Também há o caso do jornalista Pedro Alexandre Sanches, que ainda no primeiro governo Lula gozava feliz do posto de principal crítico musical da Folha de São Paulo, mas depois deixou seu padrinho Otávio Frias Filho para defender na mídia esquerdista a visão de "cultura popular" ditada pela FSP. Sem despertar suspeitas em viva alma.

HOJE, A TURMA DO MORDE-E-ASSOPRA

Ivete Sangalo havia sinalizado a nova onda. A cantora baiana, em 2006, havia integrado o movimento Cansei, promovido pela OAB, que era uma espécie de versão compacta das antigas marchas Deus e Liberdade que aconteceram em 1964, durante a crise do governo João Goulart. O Cansei, por sua vez, tinha como alvo os escândalos nos bastidores do governo petista, e contou com o apoio de celebridades e da mídia golpista para pedir o impachment de Lula, que acabou não acontecendo.

Depois, num ensaio de puro oportunismo, aproveitando a memória curta dos fãs, a cantora baiana que pediu a saída de Lula deu aparente apoio à Dilma Rousseff, durante a campanha de 2010. Poucos perceberam a pegadinha de "dona Ivete", mas quem se lembrou do Cansei deve se lembrar que a declaração de apoio a Dilma não foi incondicional.

Agora vemos a adesão ao centro-esquerdismo, no plano político, do malufista e demotucano Kassab, que manda a polícia bater nos estudantes, e da "Miss Motoserra de Ouro" Kátia Abreu, que defende a concentração de terra, a escravidão, a grilagem, o desmatamento e outros abusos dos grandes proprietários de terras que ainda controlam o interior do país.

No âmbito midiático, a adesão fica por conta de Heródoto Barbeiro, antes filiado da temível ARENA (o partido da ditadura que também tinha Jaime Lerner, Mário Kertèsz, Fernando Collor e Paulo Maluf como filiados) e que tinha chocado a opinião pública com o súbito e crescente conservadorismo da rádio CBN, proveniente não apenas da turma da Rede Globo (como Arnaldo Jabor e Miriam Leitão) mas de "emergentes" como Roberto Nonato e Carlos Alberto Sardenberg, originários do grupo "independente" de Barbeiro, por sua vez dotado de visões por demais tecnocráticas sobre a mídia radiofônica.

Heródoto Barbeiro, "traído" na TV Cultura por ter feito perguntas "polêmicas" ao então presidenciável José Serra, o que o fez ser demitido da emissora pública, hoje em séria crise, vai trabalhar na Record News, e deve conseguir algum assento na TV Record.

Desse modo, são lançadas as perguntas.

Será que o arqueoconservador Heródoto terá um blog e conseguirá algum "coleguismo" entre os blogueiros naturalmente progressistas, Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna, que aliás integram o Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, que tem por tradição combater a grande mídia na qual se insere a Rede CBN?

E quanto ao apoio de Kátia Abreu e outros demotucanos ao governo Dilma? Será que o PT terá que se afastar dos movimentos sociais para não perder o apoio de uma "base aliada" que não é mais do que uma mera gordura nociva dentro de seu inchado bloco político?

E a oposição, parte indispensável do jogo democrático autêntico? Será que a tendência brasileira é de oposicionistas reais ou potenciais se valerem de uma pseudo-solidariedade à centro-esquerda - ou mesmo a outros setores da esquerda, como o PSOL de Marcelo Freixo e Chico Alencar, entregue aos ricos barões do "funk" - , em vez de assumir seu direitismo associado a valores, muitas vezes retrógrados, de poderio político, econômico e midiático?

Em certos aspectos, 1964 deixa saudades.

Naquela época, pelo menos, a direita era bem mais sincera nos seus propósitos. Era assumidamente conservadora, não tapeava seus valores retrógrados com falsas alusões a "movimentos sociais", "causas progressistas" ou qualquer outro pretexto. Eram muito cruéis em seus princípios, mas pelo menos eram mais sinceros na sua oposição aos projetos de reformas sociais.

Agora ver que parte da direita social, política e econômica brasileira, do DJ Marlboro a Gilberto Kassab, de Ivete Sangalo a Kátia Abreu, de Mário Kertèsz a Pedro Alexandre Sanches, tenta se alinhar no centro-esquerdismo, é muito preocupante. Todos eles poderão atrapalhar a construção de um país mais progressista, em busca de vantagens pessoais e visibilidade entre a sociedade esquerdista.

Melhor seria que eles atrapalhassem as reformas sociais na condição de oposicionistas de direita. Seriam cruéis, mas pelo menos seriam mais sinceros e honestos.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

GILBERTO KASSAB QUER FUNDAR NOVO PARTIDO



Por Alexandre Figueiredo

Conforme anunciado por Altamiro Borges e por Raphael Tsavkko Garcia, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, tem a tendência de se transformar numa versão paulista do carioca Eduardo Paes.

Também surgido das profundezas do demotucanato, o prefeito do Rio de Janeiro - que, segundo rumores, está "comprando" apoio de busólogos estaduais para apoiar seu desastrado projeto para o transporte coletivo - era do PSDB local e afilhado político do ex-prefeito carioca César Maia (do DEM).

Depois, Eduardo Paes rompeu com o PSDB fluminense para se aliar ao PMDB e ganhar novo padrinho, o governador fluminense Sérgio Cabral Filho, cujo pai é famoso historiador que havia feito parte da equipe do Pasquim.

Da mesma forma que Eduardo Paes, Kassab - também adepto do (decadente) modelo de transporte coletivo de São Paulo, já ditado pelo "padrão moderno" de Curitiba, de outro demotucano envergonhado, Jaime Lerner, e hoje adotado no Rio - tenta se transformar num político conservador convertido em fisiológico.

Através dessa nova atitude, Gilberto Kassab convidou certas figurinhas que se converterão em "governistas de ocasião" para sobreviverem no poder, ante o clima "torre-de-babel" que se encontra a dupla PSDB/DEM.

No novo barco, chamado Partido da Democracia Brasileira (PDB), espécie de PMDB com o "frescor" de Justin Bieber, já conta com a adesão da coronelista Kátia Abreu e do empresário Guilherme Afif Domingos, este vice-governador e ex-presidenciável (concorreu para a campanha de 1989). Há quem diga que o paranaense Álvaro Dias também possa entrar no PDB.

O PDB já se torna conhecido como o "partido da boquinha" (será "da boquinha da garrafa"?), porque promete se fortalecer a partir da transferência para a nova legenda de políticos do PSDB, DEM e PPS. Há rumores que o PDB possa se fundir com o PSB, mas tais rumores parecem menos prováveis, ainda que o PSB tenha o mesmo DNA do DEM, já que ambos possuem suas raízes na antiga União Democrática Nacional (UDN), ancestral do demotucanato atual.

O PDB promete modernizar o cafajestismo político que os partidos de aluguel, do PMDB ao PR, mas presente em parte do PDT e PSB, já praticam há muito tempo. E que também tornou-se personalizado nas pessoas de Fernando Collor, Paulo Maluf, José Sarney e do ex-político Mário Kertèsz, o "Sílvio Berlusconi com dendê", cujo filho trabalha na agência publicitária África, que criou a logomarca do atual governo federal.

O cafajestismo político não será governista por amor às reformas sociais, mas pelo puxa-saquismo grande o bastante para se aproveitar da máquina política atual, obtendo vantagens pessoais, sobretudo de ordem econômica.

Isso significará o vira-casaquismo de vários oposicionistas ferrenhos, sobretudo Kátia Abreu, e o esquema de cooptação chega a ser muito pior do que a oposição. Até porque, como lembrou Raphael Garcia, a oposição é necessária, até para o aperfeiçoamento do regime democrático por meio do debate político.

Mas, certamente, a oposição demotucana já era em si muito ruim, por ela ser fútil, dentro daquela filosofia udenista e do pseudo-intelectualismo do IPES/IBAD (equivalentes, nos anos 60, ao atual Instituto Millenium), uma oposição delirante, caluniadora, não uma oposição de ideias nem de princípios.

No entanto, pior será os políticos da "boquinha da garrafa" que, antes oposicionistas ferrenhos ao governo Lula, serão governistas por conveniência, feito lobos não só vestindo peles de carneiros, mas tentando se comportar como eles e juntar-se ao rebanho.

RURALISTAS - Não bastasse o "poder sedutor" de Kátia Abreu que deve ter feito o comunista Aldo Rebelo ser brando com os latifundiários, não bastasse o puxa-saquismo da dupla breganeja Zezé Di Camargo & Luciano (que, como todo "sertanejo" fake, apoia o latifúndio) ao então presidente Lula, agora a bancada ruralista parece que vai amansar com a adesão da Miss Motoserra de Ouro ao governo Dilma, através do apoio fisiológico do PDB.

Só que o apoio ficará um tanto complicado, porque, na base de apoio do governo Dilma Rousseff, existem entidades, militantes e políticos comprometidos com a causa da reforma agrária, solidários com a luta dos agricultores sem-terra, o que significa juntar um bujão de gás com um litro de querosene dentro de uma casa em chamas.

Não se sabe o que vai dar nesse conflito interno, que será muito pior do que uma oposição sincera. Mas que haverá bagunça, haverá. Se um apoio de políticos como Fernando Collor e José Sarney ao governo petista incomoda, se figuras fora da política como o baiano Mário Kertèsz, o paranaense-paulistano Pedro Alexandre Sanches e o mineiro Eugênio Raggi mais atrapalham do que ajudam no apoio tendencioso à centro-esquerda, imagine juntar defensores da reforma agrária e guardiões do latifúndio num mesmo balaio de gatos.

O PDB virá para bagunçar ainda mais o cenário político brasileiro. Um pretenso aliado que, como outros da ala fisiológica, se comportará como mais um amigo-da-onça das políticas progressistas, em vez de assumir uma oposição coerente, honesta, sincera e humilde.

Pior: a política fisiológica, pretensamente um "quebra-molas" para os caminhos da centro-esquerda, na prática não é mais do que um amontoado de pregos a querer furar o pneu da política petista.

É bom o governo Dilma tomar cuidado.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

JUIZ MANDA PRENDER E MULTAR LÚCIO FLÁVIO PINTO



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O jornalista paraense, Lúcio Flávio Pinto - que, diga-se de passagem, fez duras críticas ao tecnobrega (que o PiG paraense adora) - , famoso por sua postura independente e contrária ao coronelismo midiático regional, enfrenta processo na Justiça para deixar de publicar reportagens sobre a corrupção financeira dos barões midiáticos.

Juiz ameaça prender e multar Lúcio Flávio

Por Ricardo Kotscho - Blog Balaio do Kotscho

A maré não anda nada boa para meus bons e velhos colegas jornalistas que continuam na batalha. Desta vez, recebi mensagem do grande jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, uma rara voz independente, que há anos enfrenta na Justiça os manda-chuvas do lugar, relatando as ameaças que está recebendo no cumprimento do seu ofício de repórter.

Na quarta-feira, 23, Lúcio Flávio recebeu uma intimação do juiz Antonio Carlos Almeida Campelo, da 4ª Vara Cível Federal do Pará, ordenando que deixe de publicar informações sobre o processo em que o Ministério Público Federal denuncia os donos de um grupo de comunicação por crime contra o sistema financeiro nacional.

Alegando que o processo corre em segredo de justiça, Almeida Campelo ameaça mandar prender o jornalista em flagrante caso volte a escrever sobre o assunto, além de pagar multa de R$ 200 mil.

A matéria que deu origem à intimação do juiz foi publicada no “Jornal Pessoal”, que, como o nome indica, Lúcio Flávio escreve e edita sozinho há mais de 23 anos, o que já lhe custou um balaio de processos.

Como de costume, o jornalista vai recorrer da decisão, com um nobre argumento: “A minha matéria defende o interesse do povo que teve o dinheiro desviado. Quando existe um caso de conflito entre a privacidade e o direito da sociedade, vale o direito da população de saber o que está acontecendo”.

Diante desta clara ameaça à liberdade de um jornalista, o mínimo que se espera é que este caso seja denunciado com todas as letras e nomes pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) e todos os seus filiados sempre tão combativos na defesa da liberdade de imprensa das empresas.

BREGA-POPULARESCO: RETÓRICA NÃO VALEU


TECNOBREGA - NEM NO PARÁ O RITMO DEIXOU DE RECEBER O APOIO DOS BARÕES DA MÍDIA GOLPISTA.

Por Alexandre Figueiredo

Há dez anos, prevalece nos meios intelectuais e nos espaços culturais da grande mídia um discurso condescendente a um tipo de "cultura popular", ou ao menos de "música popular" marcado pela mediocridade, pelo comercialismo e pelo tendenciosismo.

É a ideologia brega-popularesca, a moderna "cultura do cabresto" composta por cantores, duplas e grupos bregas e neo-bregas, imprensa fofoqueira ou policialesca, musas "popozudas" e humorismo malicioso cheio de bordões e grosserias.

Durante uma década, esse tipo ao mesmo tempo caricato e preconceituoso de "cultura popular" foi defendido por críticos musicais, intelectuais e celebridades como se fosse "a verdadeira cultura popular", num padrão retórico engenhoso, que invertesse o tom preconceituoso e paternalista atribuindo como "preconceituosos" e "paternalistas" quaisquer posicionamento contrário a esses subprodutos da indústria cultural brasileira.

Essa retórica era desenvolvida em teses acadêmicas, ensaios também acadêmicos, resenhas jornalísticas, documentários, reportagens de TV, cinebiografias, especiais na TV paga e tudo o mais. É uma retórica que, da imaginação fértil de seus autores, evocava referenciais que inexistem, na prática, nos fenômenos brega-popularescos, variando do modernismo de 1922 ao punk rock inglês de 1976.

São três tipos gerais de música brega-popularesca.

O mais antigo, "de raiz", que vai de Waldick Soriano a Gretchen, passando por Odair José, Paulo Sérgio, Benito di Paula. Predomina a perspectiva entreguista, como se fosse uma tradução musical do modelo econômico de Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões.

Há o pretensamente sofisticado, o "brega light", uma facção do neo-brega representado, a partir dos anos 80, não só pela fábrica de sucessos de Michael Sullivan & Paulo Massadas, mas também em tendências que podem se tornar "simulacros de MPB", como o "sertanejo", o "pagode romântico" e a axé-music, através de cantores, grupos e duplas surgidos desde 1985 e sobretudo nos anos 90.

E há o neo-brega mais grotesco, "rudimentar", representado pelo "funk carioca", porno-pagode baiano, forró-brega (ou "forró eletrônico", oxente-music e forró-calcinha), arrocha, tchê-music e outros, que se valem de um perfil estético, musical e espetacular "polêmicos".

O brega-popularesco esteve no auge do sucesso entre 1990 e 1997, quando vieram reações da crítica e do público mais intelectualizado. Independentemente do plano ideológico, nomes como Mauro Dias, Arnaldo Jabor, Ruy Castro, Dioclécio Luz, José Arbex Jr., Artur Dapieve (que depois virou a casaca) e outros passaram a reprovar essa evidente queda de qualidade dessa "cultura popular".

Eram vozes preocupadas com a decadência da música brasileira e dos "valores culturais" a ela associados, simbolizados por dançarinas de porno-pagode, apresentadores de "telejornais" policialescos, humoristas sem graça mais preocupados com piadas de duplo sentido e celebridades que só saem para noitadas, sem qualquer outra preocupação relevante na vida.

O DISCURSO QUE ENGANOU A ESQUERDA

O discurso de defesa do brega-popularesco se sucedeu à onda revoltosa contra a queda de qualidade exercida por essa pseudo-cultura "popular". O jabaculê musical, cada vez mais perdendo espaço no rádio FM - que, como uma verdadeira "Feira de Acari" radiofônica, fechou seus ouvidos ao público ouvinte através de uma gororoba que reúne sobretudo o pior do radialismo jovem e até da programação tipo "rádio AM".

Por isso os programadores de rádio FM foram, aos poucos, deixados para segundo plano, enquanto a indústria jabazeira se servia de antropólogos, historiadores e sociólogos que criassem um discurso que defendesse o brega-popularesco da decadência.

De artigos de jornais a documentários, de teses acadêmicas a reportagens de TV, tudo foi feito para defender do supostamente tradicional "sertanejo" (ou breganejo) ao supostamente arrojado "funk carioca".

Lançando mão de uma retórica dotada de muito etnocentrismo, no fundo uma campanha para manter o povo na imobilidade social pelo entretenimento ditado pela grande mídia, os intelectuais faziam um discurso confuso, nem sempre dotado de coerência nem de objetividade, mas que era feito de forma convincente, sobretudo pela visibilidade com que certos autores passaram a ter na opinião pública, forjando-lhes um prestígio quase inabalável.

Tudo era feito para defender o brega-popularesco: até mesmo recursos obtidos da História das Mentalidades (abordagem histórica que enfatiza fatos e atividades relacionadas ao povo) e do New Journalism (narrativa jornalística em que reportagens são feitas em linguagem de romances literários) eram adotados.

Comparações das mais insólitas também eram feitas, como atribuir o modernismo de 1922 como influência do tecnobrega - tão risível quanto atribuir a revolta dos jacobinos na França de 1789 como influência para os membros do Big Brother Brasil - ou atribuir um falso feminismo para as funqueiras, só porque elas falam mal dos homens.

As caraterísticas básicas da retórica de defesa ao brega-popularesco são essas:

1) MARKETING DA REJEIÇÃO - Consiste em dar ênfase à rejeição que determinado ídolo ou personalidade recebem, como se fosse um meio, por sinal tendencioso, de fazer com que o suposto "injustiçado" seja levado a sério pela intelectualidade. É uma publicidade estranha, que tenta medir o valor de um ídolo ou personalidade pela rejeição que ele recebe da sociedade "tradicionalista".

2) EXPLORAÇÃO EXCESSIVA DA PALAVRA "PRECONCEITO" - Como elemento-chave do marketing da rejeição, usa-se a palavra "preconceito" como forma de explorar a imagem de "injustiçados" de ídolos ou personalidades que já fazem sucesso entre o grande público. Em certos casos, dizer de onde parte esse "preconceito" pode variar em quantidade ou posição social, indo de uma suposta intelectualidade "academicista" até supostos grupos sociais conservadores. Ou de uma minoria de críticos musicais ou de uma maioria de pessoas numa plateia de um evento mais credenciado.

3) ASSOCIAÇÃO À "PERIFERIA" - Pode ser um grupo de forró-brega ou porno-pagode inventados por um empresário, que controla todos os passos de cada grupo muitas vezes com mão de ferro, que a discurseria intelectual sempre vai atrubuir tais tendências como "expressões legítimas da periferia". Uma associação que pode ser formal, pela origem pobre de muitos cantores ou dançarinos, mas que não pode ser levada a sério, até porque se trata de músicas mercadológicas, cuja concepção é combinada nos escritórios das empresas de entretenimento.

4) FALSAS ALUSÕES SOCIOLÓGICAS - Outra manobra é atribuir todo esse espetáculo mercadológico como se fosse "o novo folclore brasileiro". Dessa maneira, atribui-se como "movimento social" o ato passivo de uma simples ida para um clube noturno do subúrbio (controlado por um grande empresário local), para consumir os "sucessos populares" do momento.

5) GLAMURIZAÇÃO DA MISÉRIA - A campanha pró-popularesco também chega à ostentação pura e simples da miséria, fazendo a tal "cosmética da fome", enfatizando demais o fato de que determinadas funqueiras, por exemplo, foram domésticas ou lavadeiras, ou que os ídolos breganejos eram plantadores de milho no passado. Ou então um ídolo, em pleno auge da carreira, dizer, com mal disfarçada vaidade, que já passou fome no começo de carreira. Casas de parentes de ídolos popularescos, geralmente barracos ou casas situadas em subúrbios, eram ostentadas com a presunção de celebridades exibindo suas mansões em Caras.

INCOERÊNCIAS DO DISCURSO

Evidentemente, o discurso vale mais por tocar no ponto fraco de uma classe média complexada, querendo disfarçar o máximo seus preconceitos elitistas, do que por uma suposta objetividade ou pretenso realismo.

Por isso o discurso valeu mais pela verossimilhança, mas não pela visão coerente. Nem sequer significou a reabilitação do brega-popularesco como um "novo folclore popular". Pelo contrário, a campanha significou uma propaganda oportunista, hipócrita, que apenas fez prolongar por alguns anos o sucesso comercial dos ídolos popularescos.

Mas isso nem de longe significa que haverá garantia de posteridade para esses ídolos ou para seus valores e tendências.

Primeiro, porque no aspecto comportamental, uma "cultura popular" que se baseia mais no mero consumismo (sobretudo de bebidas alcoólicas), na mera subordinação à indústria cultural, na domesticação das classes populares, no culto ao "deus mercado", na ridicularização da imagem do povo pobre (que, numa desculpa politicamente correta, apenas evoca "sua alegria") e nos baixos valores morais e sociais, não deve ser legitimada como autêntica.

Primeiro porque, diante de uma exploração do sexo e do lazer que soam agressivos até para as mentes mais liberais, essa "cultura popular" nada contribui na produção de conhecimento e de valores que permitam a evolução social das classes pobres.

É o caso do "funk carioca", onde há a pornografia exagerada, com ênfase na pedofilia mais escancarada, e letras que estimulam o banditismo ou que, na "melhor" das hipóteses,

Segundo, porque, no atual estágio do brega-popularesco, em que ídolos chegam a gravar sucessivos discos ao vivo, a máscara cai quando essa "cultura", tida como "viva e atuante", se acanha, depois do auge do sucesso, em produções cada vez menos autorais, num imobilismo que contraria o que seus defensores dizem.

Afinal, os "grandes criadores" da música "sempre viva e evolutiva", no momento em que deveriam provar mais como autores em evolução, acabam mostrando o que realmente são, meros crooners de luxo que só gravam covers, regravam velhos sucessos e apenas fazem às pressas novas músicas para atender às demandas das rádios.

Como também não valeu vender as "popozudas" como "feministas" nem fantasiá-las de Betty Boop ou Marilyn Monroe, nem vender o telejornalismo policialesco como "jornalismo verdade". O imaginário brega-popularesco é a retaguarda da cultura brasileira, não pode ser a vanguarda, porque sua ligação com os valores retrógrados é explícita.

Por isso, não valeu essa campanha retórica que, sobretudo, tentou vender o "funk carioca" e o tecnobrega como "vanguarda". Tanto se falou que tais tendências estavam "fora da mídia" que elas entraram na mídia golpista pela porta da frente, o que dá mostra dos interesses escusos que estão por trás.

Por enquanto, os defensores do brega-popularesco conseguem convencer com esse discurso por conta da visibilidade que possuem. Não houve até agora alguém com a visibilidade dos "semideuses" Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, entre outros, para questionar com energia seus pontos de vista.

Mas, diante do desgaste que o brega-popularesco, com toda a campanha favorável que possui, pessoas com visibilidade para questionar a campanha pró-brega podem surgir a qualquer momento. Até pelo descontentamento do povo quanto a funqueiros, forrozeiros-bregas e tecnobregas que, por sua hegemonia, sufocam as tradições regionais antes existentes.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

URGENTE: JUSTIÇA DECIDE EXTRADITAR ASSANGE



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O fundador e diretor do Wikileaks, Julian Assange, infelizmente está a um caminho da condenação desumana da corte norte-americana, uma vez que a extradição para a Suécia, decidida pela Justiça do Reino Unido, onde Assange estava preso. A defesa de Assange fará o possível para evitar a extradição à Suécia que, como aliado dos EUA, pode repassar o fundador do Wikileaks para os EUA, por uma suposta acusação de estupro que esconde sérias motivações políticas.

Urgente: Justiça decide extraditar Assange

Por Antônio Martins - Blog Outras Palavras

O juiz britânico Howard Riddle atendeu na manhã de hoje (24) a um recurso de procuradores suecos e decidiu que Julian Assange, a principal referência do site Wikileaks, será extraditado à Suécia. A defesa de Assange anunciou imediatamente que apelará a instâncias superiores e à corte europeia dos Direitos Humanos, mas surgiu o risco real de que o jornalista australiano seja deportado em dez dias, como informa o diário londrino The Guardian.

Se esta possibilidade se confirmar, estaria aberta uma possibilidade mais dramática. A Suécia, que mantém amplo acordo de extradição com Washington, poderia ser apenas um ponto intermediário para uma posterior envio de Assange aos EUA — onde o jornalista disse temer por sua vida.

Na Suécia, ele é acusado de estupro. As acusações parecem, porém, repletas de inconsistências e contradições. Outras Palavras reportou, ainda em 8 de dezembro (“Os estranhíssimos ‘estupros’ de Julian Assange“), que as próprias circunstâncias que constam no processo eram inverossímeis. As duas mulheres que teriam sido “estupradas” conviveram amistosamente com seu suposto algoz, e por vários dias, depois do “crime”. Só apresentaram queixa quando cresceu o interesse de Washington em silenciar o Wikileaks. Os sinais de farsa avolumaram-se no dia seguinte, conforme também apontamos (“Estupro de Assange: novo sinal de farsa”).

OPOSIÇÃO DEMOTUCANA REATIVA BLOG



Por Alexandre Figueiredo

Os viuvinhos de José Serra estão animados, porque o blog Gente Que Mente, assumidamente ligado ao PSDB, foi reativado recentemente.

Indo para o lado extremo das críticas que, naturalmente, se faz contra algumas medidas do governo Dilma, o Gente Que Mente promete vir com muitos exageros, com claro propósito de ridicularizar Dilma e sua equipe.

A Folha de São Paulo havia publicado uma nota comemorando a volta do blog, para que se engrossem as fileiras dos blogues regressistas, comandada pelo "independente" Blogs Pela Democracia.

A frase que anunciou a volta é dotada de sarcástica ironia: "Pensamos que ficaríamos mais tempo fora do ar. Fomos obrigados a voltar mais cedo. As máscaras começaram a cair já com poucos dias de Dilma Rousseff".

Por isso, o blog Gente Que Mente promete competir, em baixarias, com o Big Brother Brasil, Brasil Urgente e Pânico na TV na veiculação de baixarias na mídia.

Gente Que Mente ainda tem as portas abertas para a direita dente-de-leite e para o "petista-mineiro-mais-tucano-que-o-Aécio" Eugênio Raggi darem sua visitadinha.

A REDE DO MAL - O CARTEL DA MÍDIA E DO FORRÓ ELETRÔNICO


AVIÕES DO FORRÓ - LATIFUNDIÁRIOS USAM O ENTRETENIMENTO PARA DESTRUIR A CULTURA REGIONAL DO NORTE, NORDESTE E CENTRO-OESTE.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: As críticas feitas ao brega-popularesco ainda são tidas como "preconceituosas", "moralistas", "saudosistas", "elitistas" e outras qualidades terríveis.

Só que as críticas são pertinentes, afinal o que está em jogo é que esse brega-popularesco invade todos os espaços, destrói, dilui e usurpa a cultura regional do país, com o claro apoio de latifundiários, e ainda por cima há gente como Caetano Veloso e Pedro Alexandre Sanches que querem mais, querem que esse som pseudo-nordestino seja reconhecido pela MPB e servido até mesmo para as plateias de eventos e lugares como Rec Beat, Fundição Progresso e outros.

Mas pelo menos, por outro lado, tem gente que não compactua com essa "ditabranda do mau gosto" que toma conta da mídia de nosso país. Para quem vive nessas regiões, é muito bem sabido que o forró eletrônico (ou forró-brega, forró-calcinha, oxente-music) tem o apoio explícito de latifundiários, políticos, barões regionais da mídia e seu sucesso nada tem a ver com a "ação espontânea de pequenas mídias", como andam pregando por aí. O coronelismo também têm seus espaços nas "redes sociais" da Internet.

A Rede do Mal - O Cartel do Forró Eletrônico

Por Dihelson Mendonça - Jornal Chapada do Araripe

Um mundo de zumbis ! Um mundo de pessoas descerebradas, que perderam o questionamento do que a mídia lhes empurra. Pessoas sem qualquer formação cultural, sem a menor noção de valor, de educação, de história e de visão do mundo. Assim é o Ceará de hoje. Um Ceará que está tomado de ponta a ponta pelo chamado Forró eletrônico, formado pelas bandas de forró eletrônico que já ocupa todos os espaços na mídia, ou realisticamente falando: A mídia promoveu o forró eletrônico de tal modo, que não existe qualquer outra opção para o ouvinte escolher outro estilo de música no Ceará. E não apenas nas estações de rádio. Em qualquer parte, o mal está disseminado…

Através de uma cadeia de rádio chamada Somzoomsat, a que me refiro neste artigo como A REDE DO MAL, grandes produtores de eventos criaram uma espécie de CARTEL para a produção e perpetuação de um MONOPÓLIO de escravidão cultural que começou de forma sinistra nos anos 90 com a “invenção” do chamado forró eletrônico, uma espécie de forma degenerada do forró, quando musicalmente falando, não se identificam quaisquer semelhanças ao legítimo forró que seria o símbolo do povo nordestino. A grosso modo, o forró eletrônico se caracteriza pelo uso de instrumentos eletrônicos ( na maioria das vezes muito mal executados, por pessoas sem conhecimento suficiente para tocá-los ), por letras claramente obscenas, de fácil apelo às classes sociais desprovidas de contato com valores éticos, morais e culturais, além de outras características facilmente identificáveis. Na URCA – Universidade Regional do Cariri, existem hoje, sociólogos, historiadores e outros pesquisadores preocupados com o rumo que as coisas têm tomado, e escreveram diversos trabalhos sobre esse assunto, contendo muita informação e embasamento, para falar de forma detalhada sobre os fundamentos, a ascenção e a construção deste monopólio. Neste breve artigo, deter-me-ei apenas para que, de forma jornalística, eu possa aqui denunciar essa situação de cerceamento da liberdade da escolha e da retirada maléfica da diversidade musical na mídia cearense, apresentando um breve panorama da situação aos nossos leitores mais distantes.

Após a invenção nos anos 90 do forró eletrônico com a introdução no mercado fonográfico da banda “Mastruz com Leite”, por uma oposição ao Axé Music que vinha da Bahia, produtores cearenses gananciosos, viram que aquilo era um verdadeiro filão e cuidadosamente prepararam-se para a execução de um plano de massificação que levaria décadas para ser completado. Desde o início do novo milênio, o forró eletrônico vem se expandindo gradativamente entre a população cearense, utilizando-se de meios duvidosos, como a exploração do apelo francamente pornográfico, da exaltação do alcoolismo, incentivo à prostituição, a falta de respeito e responsabilidades, e a fuga de qualquer coisa que leve ao pensamento e o uso do intelecto. Essa expansão se deu, não por uma conscientização do público que aprecia o estilo, mas simplesmente pela retirada perniciosa e gradual de todos os outros estilos musicais da mídia, esvaziando-a completamente, de modo que ao povo só é dado a gostar do mesmo prato do dia, todos os dias…

Por imposição de uma mídia não compromissada com a diversidade, o povo cearense já não tem escolhas nas estações de rádio. No Ceará de hoje, de ponta a ponta do rádio, as estações são tragadas como numa espécie de avalanche do que de pior se pode ouvir. Aquilo que pode-se claramente definir como o fundo do abismo do ser humano, aonde todos os valores foram invertidos: Prática sistemática da supervalorização do Alcoolismo como meio máximo de divertimento e exibicionismo de uma sociedade não-pensante ( vide a letra da música “Beber, cair e Levantar” ); A desvalorização do papel da mulher na sociedade, instituindo a prostituição, o sexo abusivo, animal e sem controle como o maior valor da sociedade ( vide música “Beber e Raparigar” ); A rejeição e a depreciação sumária de qualquer uso da razão, do pensamento, e do intelecto. Daí o uso do termo “Zumbis” já no início deste artigo, pois algumas pessoas que apreciam o forró eletrônico, vivem numa espécie de hipnose, como se alguém lhes houvesse retirado o cérebro pensante. E uma coisa leva à outra: Como não há outra opção de divertimento, de música, e de integração das pessoas dentro da sociedade, pois que para frequentar e se sentir parte do meio social há que necessariamente estar em permanente contato e entrar também para a “máquina de zumbis”, a fim de não se sentirem excluídos do próprio meio, as pessoas perdem a cada dia a sua identidade enquanto seres humanos. Mesmo aqueles que de início a rejeitaram, e principalmente outras que por não terem formação cultural, tornam-se grandes propagadores desta aberração, aumentando a infecção no tecido social, que desta forma, se degenera gradativamente.

Assim é que no Cariri e em todo o Ceará, a maioria dos automóveis se locomove sempre ao som invariavelmente alto e TODOS tocando apenas uma mesma coisa: O forró eletrônico. Além de agirem de forma ilegal por perturbarem a paz e o silêncio, os propagadores do forró eletrônico com seus carros de som possantes não possuem qualquer respeito à pessoa humana. Vale lembrar apenas o caso de uma amiga deste cronista que foi agredida apenas por estar em local público e ter ido pedir para o proprietário baixar o som do veículo, pois estava se sentindo incomodada: Teve ossos quebrados de forma violenta pelo proprietário! E hoje em dia, quase todos os veículos rodam ao som do forró eletrônico e cachaça nos fins de semana, aumentando o volume de acidentes de trânsito, e sempre muito alto, perturbando a paz, até porque as pessoas que ainda gostam de outros estilos musicais têm a devida educação para saber que esse tipo de atitude perturbaria a paz das outras.

Portanto, vivemos numa época difícil, como se uma praga, uma espécie de vírus macabro, daqueles típicos que só víamos em filmes de terror há se apoderado da população, de tal modo que quase ninguém mais enxerga algo à sua frente.

O pior de tudo, é sabermos que a população não tem culpa pela cadeia de eventos que lhes trouxe até essa decadência cultural. O povo não pode de forma alguma ser considerado culpado pela degeneração da sua música, por consumir lixo cultural, pois que este é o ÚNICO prato do dia que eles têm acesso. Através de uma política perversa perpetrada pelo triângulo do mal, formado pelos proprietários de bandas de Forró Eletrônico, Promotores de eventos, e estações de rádio, fecharam contratos para a veiculação de um único tipo de música. E nessa avalanche de coisas decadentes, grandes mestres da música popular brasileira já estão caindo no esquecimento. As novas gerações nem sabem mais quem foi um LUIZ GONZAGA, um Jackson do Pandeiro, um Dominguinhos, ícones do autêntico forró nordestino. Até mesmo músicos de renome da Música Popular Brasileira tais como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, e mesmo gente mais popularesca como Ivete Sangalo, Fábio Jr, e todo o resto, simplesmente “evaporou-se” do rádio cearense por conta do cartel da Mídia, para dar lugar a uma verdadeira praga urbana de “trogloditas” que tentando cantar, nem sequer aprenderam a falar as palavras direito.

No ceará HOJE, praticamente todas as estações de rádio, ( a não ser aquelas de caráter religioso ), tocam apenas o que o cartel divulgar. Não se escuta mais qualquer produto advindo de outras regiões. Não se escutam mais os grandes sucessos do restante do Brasil. Não se escuta nada que não faça parte do cartel. As pessoas são forçadas a escutar apenas aquilo que a mídia deseja que elas escutem. Não se consegue por exemplo, ir a uma sorveteria, Shopping Center, ônibus, praças, locadoras, lanchonetes, restaurantes, lojas de roupas, ou simplesmente andar na rua… todas elas estão a tocar o mesmo tipo de música. A coisa é tão grave que o somzoomsat ( que opera 24 horas por dia ), a fim de manter o monopólio, apresenta à noite um programa de músicas mais suaves do chamado “forró romântico” que de forró nada possui, e de romântico, pior, apenas para manter o ouvinte. Saibam os leitores que até a famosa “Ave Maria de Schubert” já foi gravada por gente ligada às bandas de forró e à máquina, assim como a grande maioria dos sucessos internacionais dos anos 70 e 80, todos vulgarizados e deturpados. No Ceará hoje, as pessoas estão vivendo como porcos de engorda: dentro de chiqueiros, aonde o proprietário empurra o que bem quiser, e o povo, por não possuir formação cultural, absorve tudo que lhe é jogado, criando um efeito bola-de-neve.

A pergunta que fica após essa breve análise é: Como se poderá quebrar essa REDE DO MAL, de inversão de valores, que se abateu sobre o povo cearense, se o próprio povo é ao mesmo tempo refém e propagador de um cartel que opera de modo sutil, ostensivo e maléfico em detrimento à diversidade cultural ? As respostas podem ser muitas, mas certamente que se as pessoas de bem da sociedade não se mobilizarem em defêsa de uma política de diversidade cultural, da boa educação e do respeito, estaremos fadados ao declínio enquanto seres humanos, e de grandes valores que levamos milênios para edificar. Valores estes que são os pilares de qualquer civilização, e que sem eles, movidos pelo forró eletrônico que empesteia o Ceará, voltaríamos ao ser troglodita, ao homem das cavernas, ao primitivo, que sem leis, educação e sem conhecimento algum, prolifera-se como um câncer, para a destruição da sociedade.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

BIG BROTHER BRASIL COMEÇA SUA DECADÊNCIA



Por Alexandre Figueiredo

Os valores se transformam, aqui e ali. O mundo está em polvorosa, com as manifestações contra as diversas tiranias no Oriente Médio. No Ceará, surge a revolta contra o brega-popularesco representado ali pelo forró-brega. A sociedade também se revolta contra a vulgaridade abjeta das "popozudas" e contra a grosseria da "popular" imprensa jagunça. E contra a "curitibanização" dos ônibus que só interessa a tecnocratas querendo agradar dirigentes esportivos.

E o Big Brother Brasil, finalmente, começa a decair, depois da Rede Globo tanto empurrá-lo como se fosse um "fenômeno cult" e feito de tudo para manter o programa em alta e as suas "celebridades" também, em sucessivas noitadas e outras "curtições".

Aqui e ali ocorrem revoltas contra o retrocesso, mas também ocorre reações de quem defende esse retrocesso. E, no caso do Big Brother Brasil, é risível que uma missivista, na Revista da TV de O Globo, tenha reivindicado o direito de curtir o BBB.

Pois o Big Brother Brasil, que já chegou a ter 50% de audiência nos lares paulistanos, hoje caminha para a metade. A situação é tão grave que nem o bom desempenho de audiência da novela Insensato Coração é repassado para o reality show, e mesmo quem vê atrações como o seriado Aline mudam de canal na espera do seriado.

Quem se anima com a decadência do BBB é a TV Record, cujo aumento de audiência nos últimos anos chegou a quase 160%. A TV Bandeirantes também aumentou sua audiência em 89,4%. Só o Pânico na TV é que segue o ritmo da decadência do Big Brother Brasil, seja com queda de audiência, seja com seu "ilustre" cartaz nos programas líderes de baixaria.

Aliás, o Ministério Pùblico Federal já avisou que está acompanhando o Big Brother Brasil, no esforço de verificar o tom das baixarias muito comuns no programa. A queda de audiência tende a fazer o programa ficar mais apelativo e, portanto, bem mais grotesco. E, dessa forma, o MPF entrará em ação, assim que o BBB sair dos limites.

A fórmula do programa Big Brother já acabou em diversos países, sobretudo o Reino Unido. O Brasil ainda vai demorar um pouco, mas o processo de decadência do Big Brother Brasil já começou. Foi dada a largada para o fim do BBB.

DEFENDER O BREGA-POPULARESCO É DEFENDER OS PODEROSOS


"É FESTA DE RODEIOOOO..."

Por Alexandre Figueiredo

É preocupante o lobby que envolve a dita "cultura popular" do brega-popularesco. Formado nos últimos dez anos, esse esquema de compadrismo, corporativismo e respaldo ao que é "estabelecido" na mídia, ainda hoje prevalece na opinião pública.

Nem mesmo o IPES juntou um esquema tão poderoso assim. E que, mesmo integrado aos interesses da mídia golpista, tenta penetrar na mídia de esquerda ou nos meios acadêmicos através de uma retórica confusa, mas verossímil e sedutora. Uma retórica que, pelo menos, deixa a classe média preconceituosa com a impressão de que "também tem sua consciência social".

Mas sabemos que, por trás desse discurso confuso, esquizofrênico - tenta medir o valor dos "sucessos do povão" pela rejeição que ele causa nas "classes tradicionalistas" (?!) - , está todo um pavor de que a antiga música popular do pré-64 volte a ressoar nos morros, favelas e sertões, tirando aquele gostinho de privilégio de uma classe média que pegou o sabor de "conhecer mais de cultura popular" do que a empregada doméstica e o porteiro de prédio.

Em primeiro lugar, temos uma "cultura popular" formada e estimulada por períodos político-midiáticos conservadores, como a ditadura militar, ou os governos neoliberais como os de Sarney, Collor e FHC. É uma grande inverdade, por exemplo, que Paulo César Araújo creditou o sucesso da música brega a uma reação ao AI-5. Pelo contrário, a música brega fez sucesso porque foi tocada por rádios que apoiaram o regime militar.

Afinal, essa "cultura popular" que vemos hoje, de ídolos submissos, resignados, de uma música medíocre que não serve para ser ouvida mas que todos empenham que ela seja aceita sem críticas pela intelectualidade - afinal, "é o que a maioria do povo gosta, é o que o povo sabe fazer", diz a cartilha elitista politicamente correta - , sempre se alimentou de uma mídia conservadora e por causa dela esse tipo de "música popular" ou de "cultura popular", para citar outras esferas culturais, se fez aparecer e crescer.

RECUSA DE VER O ÓBVIO

Como é que agora a intelectualidade recusa-se a ver o óbvio? A associação da Música de Cabresto Brasileira - que temos que reconhecê-la apenas sob o "inocente" nome de "cultura popular contemporânea" - com os barões da grande mídia é histórica e evidente, principalmente quando passou a desenvolver uma visão idealizada do povo da periferia que seduz a intelectualidade pelo seu mais doce sabor de mel.

Só que essa visão de uma periferia supostamente "autosuficiente", de uma "cultura inocente e inculta", essa abordagem romântica do povo pobre de contos de fadas, mais próximo da Gata Borralheira do que da periferia real de hoje, é um discurso que, mesmo parecendo generoso e gentil, vai contra a luta do povo pobre por melhorias de vida.

Só que essa idealização do povo pobre é o que predomina no discurso intelectual de hoje, e, o que é pior, vende uma falsa imagem de "progressista" pela sua suposta generosidade às classes populares, uma visão que ainda prevalece mesmo com suas sérias e preocupantes contradições.

Afinal, de nada adiantou Pedro Alexandre Sanches, crítico formado pela Folha de São Paulo, tentar convencer os editores da Revista Fórum a colocar o tecnobrega na capa de uma de suas edições, na tentativa de "apavorar a grande mídia", pois até a ranzinza revista Veja se rendeu ao ritmo. Mera coincidência?

"MERA COINCIDÊNCIA"?

Será apenas "mera coincidência" que a mídia golpista aceita o brega-popularesco, quando na verdade foi ela que o criou, que o fez crescer, principalmente através das concessões de rádio promovidas pelos grãos-coronéis do Nordeste, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, na década de 80?

Pois a quase totalidade dessas rádios foi responsável, dos anos 90 até hoje, pela determinação do que vai fazer sucesso entre o grande público brasileiro. Como o era nos tempos do regime militar, e não é "mera coincidência" que a música cafona passou a fazer sucesso no Brasil a partir de 1968.

Isso se deve porque, na época, o governo militar havia feito uma legislação específica para as Comunicações, em 1967, e havia "mexido as varetas" da mídia, enfraquecendo os veículos que haviam reagido contra a "Revolução".

Por isso não é coincidência que, enquanto os ídolos cafonas passaram a fazer mais sucesso em 1968, o Correio da Manhã e a Folha da Tarde encerraram seus períodos oposicionistas, a revista Realidade se acomodou (claro, ordens da "revolução"), a TV Excelsior entrou em falência.

Enquanto isso, rádios ligadas a grandes fazendeiros se fortaleceram quando passaram não só a tocar os sucessos cafonas, como a patrocinar seus ídolos e a formatar um tipo de "cultura popular" (não só a música, mas também em outros aspectos) baseada na domesticação do povo pobre e na eliminação de referências locais, só "resgatadas" como um pastiche depois de 1974.

Por isso é que, depois que tivemos uma música cafona claramente entreguista - onde a prevalência de elementos estrangeiros aparece não como acréscimo, mas como elemento dominador e enfraquecedor das culturas locais - , numa aplicação da lógica de Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões na cultura popular, vieram então, durante a Era Geisel e depois dela, arremedos de "culturas regionais" que hoje a intelectualidade etnocêntrica aceita como se fosse "genuína".

DISCURSO CAETÂNICO

Enquanto víamos surgir arremedos estereotipados e até um tanto entreguistas de "sertanejos", "pagodeiros", "forrozeiros" etc, que em 1942 teriam saído tranquilamente dos escritórios dos birôs de Washington e Nova York, os intelectuais que defendem o brega-popularesco hoje eram muito crianças para compreender as contradições e as relações de poder por trás desse processo.

Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Bia Abramo e outros eram crianças quando houve o AI-5 e eles eram moleques vendo a televisão. O discurso de "cultura popular" era monopolizado, mesmo nas fileiras oposicionistas, pelo delírio retórico de Caetano Veloso, capaz de um palavreado modernoso que tente "explicar" nulidades.

Portanto, embora essa geração consiga alguma visibilidade na intelectualidade de esquerda, sua lógica mais parece discordar daquela que os analistas políticos de esquerda no Brasil, como Altamiro Borges, Raphael Garcia e outros, desempenham. Sem falar que a luta de Venício A. de Lima contra os abusos da grande mídia se choca perfeitamente com muitos ídolos que Pedro Alexandre Sanches defende, até com certo entusiasmo.

Em contrapartida, a defesa do brega-popularesco encontra real concordância com os interesses da grande mídia, à qual interessa haver um contraste entre os movimentos sociais que existem longe de nós, como nas populações dos Andes ou no povo do Oriente Médio, e na situação brasileira, onde existem movimentos sociais, mas eles são trabalhados ideologicamente pela mídia para se tornarem apenas "casos isolados" ou "excepcionais".

CONSUMISMO NÃO É CIDADANIA

Por isso a defesa dessa "cultura popular" estabelecida pelos meios de comunicação, em que pesem teorias modernosas ou politicamente corretas que tentam atribuir a esse espetáculo brega-popularesco teorias e ideais que não existem - seja a "antropofagia" em relação ao tecnobrega, seja o "feminismo" em relação às musas "popozudas" - , sempre significa concordância com o poderio da grande mídia.

Essa visão não pode ser definida como "radical" ou "extremista", uma vez que é essa mesma a realidade que está por trás, sobretudo nos bastidores de rádios, casas noturnas, emissoras de televisão. Não fosse assim, então seríamos igualmente "radicais" ou "extremistas" se enxergássemos direitismo até nas vírgulas de Arnaldo Jabor ou nas caretas de Marcelo Madureira.

O Big Brother Brasil também não é questionado pelos analistas da mídia, sem qualquer risco destes serem tidos como "radicais", "extremistas" ou "panfletários"?

Defender o brega-popularesco, portanto, significa defender todo o poderio de emissoras de rádio e televisão que promoveram e sustentam seus ídolos, e todas as relações de poder que estão por trás desse "sadio entretenimento do povo moderno".

Questionar o brega-popularesco, por outro lado, significa acreditar na cultura popular não como uma gororoba, um vale-tudo imposto pelas "circunstâncias" (ou interesses dominantes em jogo?), mas um processo de verdadeira emancipação social do povo pobre, cuja luta pela qualidade de vida não se resolve na mera inclusão do mercado consumista do entretenimento.

A verdadeira cultura popular envolve produção de conhecimento, de valores sociais que possam fazer o povo superar sua condição de pobreza, com cidadania e não meramente com inclusão econômica. Mais do que um apartamento ou um acesso em shopping centers ou em faculdades, o povo pobre quer ser considerado gente, e não uma massa de manobras da grande mídia.

Cidadania não é sinônimo de livre mercado.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

MÍDIA ESCONDE ENTERRO DA CPMI DO MST


A MÍDIA GOLPISTA FEZ O QUE PÔDE PARA DESQUALIFICAR OS MOVIMENTOS SOCIAIS NA ZONA RURAL BRASILEIRA. MAS, DESTA VEZ, PERDEU A BATALHA.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: Quando a CPMI do MST estava ativa, os colunistas da velha grande imprensa disparavam seus ataques furiosos ao movimento dos trabalhadores rurais sem terra. Agora, como nada foi provado a respeito das finanças ilícitas e da corrupção atribuídas ao MST, a CPMI foi enterrada e a mídia demonstrou-se omissa quanto a esta notícia.

Mídia esconde enterro da CPMI do MST

Por Altamiro Borges - Blog do Miro

O Blog da Redação da Repórter Brasil informou neste final de semana que foi encerrada oficialmente a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). "A instância criada pelos ruralistas para vasculhar as contas do movimento foi coberta com uma pá de cal no último dia 31 de janeiro, sem que o relatório final fosse submetido à votação dos membros da comissão".

Durante meses, a finada CPMI foi capa dos jornalões e assunto predileto dos "calunistas" das emissoras de televisão - com destaque para os comentários sempre venenosos de Willian Waack, âncora da TV Globo. A revista Veja produziu várias "reporcagens" para atacar os movimentos de luta pela reforma agrária. Editoriais foram fartamente usados para atacar caluniosamente o MST por "desvio de recursos públicos".

Silêncio dos jagunços da mídia

Agora, a mesma mídia venal deixa de destacar o enterro formal da CPMI - o que confirma que ela é um instrumento dos latifundiários, muitos deles travestidos de modernos empresários do agronegócio. O que era manchete, virou notinha de roda-pé ou simplesmente foi omitido no noticiário. Josias de Souza, Boris Casoy, Willian Waack e outros inimigos da reforma agrária fazem um silêncio cúmplice - lembram os jagunços do latifúndio.

Conforme relembra o sítio Repórter Brasil, o requerimento que criou a chamada "CPMI do MST" foi apresentado pelo deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) em 21 de outubro de 2009. Seu intento explítico era o de criminalizar a luta pela reforma agrária. O requerimento definia como objetivos:

"Apurar as causas, condições e responsabilidades relacionadas a desvios e irregularidades verificados em convênios e contratos firmados entre a União e organizações ou entidades de reforma e desenvolvimento agrários, investigar o financiamento clandestino, evasão de recursos para invasão de terras, analisar e diagnosticar a estrutura fundiária agrária brasileira e, em especial, a promoção e execução da reforma agrária”.

Inexistência de provas

"Ao longo das 13 reuniões oficiais, foram ouvidas dezenas de pessoas – de integrantes de entidades e associações que desenvolvem atividades no meio rural a membros das mais diversas pastas do Executivo federal, passando por especialistas na questão agrária. Além das oitivas, o processo contou ainda com apurações paralelas (por meio de requisições de documentos e informação, por exemplo) que constam do plano de trabalho previamente aprovado pela comissão presidida pelo senador Almeida Lima (PMDB-SE)", descreve o sítio Repórter Brasil.

Ao final dos trabalhos, o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP) apresentou o relatório final em julho de 2010, no qual frisava a “inexistência de qualquer irregularidade no fato de as entidades [denunciadas pelos idealizadores da CPMI] manterem relações e atenderem público vinculado a movimentos sociais”. Restava apenas a votação da peça conclusiva na própria comissão. Mas os propositores originais pressionaram com a ameaça de um voto em separado e conseguiram forçar a prorrogação da CPMI por mais seis meses.

Palanque eleitoral dos ruralistas

Na ocasião, a secretaria nacional do MST divulgou nota em que repudiou a manobra e enquadrou a CPMI como uma tentativa ruralista “para barrar qualquer avanço da reforma agrária, fazer a criminalização dos movimentos sociais, ocupar espaços na mídia e montar um palanque para a campanha eleitoral”. Enquanto isso, o vice-presidente da comissão (Onyx) declarava que, se confirmada a prorrogação dos trabalhos até janeiro de 2011, haveria condições de provar que o governo utilizou dinheiro público para financiar ações do movimento.

"O prazo da prorrogação chegou ao fim, no final de janeiro, sem que nada mais fosse votado ou discutido. Em tempo: a confirmação do encerramento formal da CPMI do MST surge no bojo do anúncio da decisão unânime da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), que determinou o trancamento do processo instaurado contra integrantes do MST, acusados da prática de crimes durante a ocupação da Fazenda Santo Henrique/Sucocitrico Cutrale entre agosto e setembro de 2009, mesma época em que foi articulada a ofensiva contra os sem-terra que veio a dar origem à comissão".
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